Do You Remember?
3 Capítulo 3
Já disse que eu amo TV a cabo?
É, nós realmente vimos filme. Um melhor que o outro e, honestamente, se passasse Rambo, eu também adoraria.
Feliz e folgada que sou, peguei todas as almofadinhas do sofá, joguei no chão e me joguei em cima. Danny preferiu o sofá. Nos trouxe vinho e chocolates... e fez uma criança feliz.
Numa altura da noite, ele ficou brincando com os chocolates, sem querer me dar. Ahhh, não mexa com uma chocólatra. Peguei ele pelo braço, na tentativa falsa de pegar o chocolate e ele acabou caindo em cima de mim. Na verdade eu acho que ele se jogou, mas a gente finge que não vê, né?
Foi um dos momentos constrangedores mais legais da minha vida. Ele simplesmente me amassou, ficando pertinho do meu rosto, com aquele sorriso capaz de iluminar a meia noite. Nossa risada foi cessando, cessando, até sobrarem duas respirações afobadas. Ele nunca havia ficado tão perto, o alcool já não me deixava raciocinar e a única coisa que eu queria era beijar ele.
As vezes eu acho que ele lê meus pensamentos, porque ele se ajeitou no chão, do meu lado, me apertou contra o corpo e me beijou... E foi aí que eu tive certeza: aquela boca fora feita pra beijar a minha, aqueles braços foram feitos pra envolver o meu corpo... aquele menino fora feito pra mim. E eu finalmente pude despejar nele a vontade contida em todos aqueles anos. Danny me beijava com delicadeza, como se pudesse me machucar. Como se minha boca tivesse um milhão de gostinhos diferentes e ele quisesse experimentar todos... Assim como eu. Minha impaciencia fez com que eu deixasse pra lá a sutileza e o beijasse com vontade, como se fosse minha última chance. Harmonia e saudade de algo que nunca se teve nos definia naquele momento. A vontade era a mesma, o carinho era o mesmo e até na hora de parar, paramos juntos. Quando eu abri os olhos e encontrei aqueles dois farois de milha azuis me encarando, mais uma certeza: eu não caberia em outro lugar além daquele, ao lado dele.
Em silencio, acabamos resolvendo juntos que era a hora de parar de ver filme e subir. Com pressa, levantamos, arrumamos a sala, as coisas na cozinha e fomos pro quarto, trocando poucas palavras. Ele me ofereceu uma blusa pra dormir e eu só assenti. Não me importei que ele visse eu me trocar, como ele, que ficou só de boxer e se jogou na cama, batendo no espaço vazio pra que eu me juntasse a ele.
Deitei, procurando desesperadamente seus braços. Eu sabia que ele não iria evaporar mas eu já tinha esperado demais. E juro, eu não precisava de mais nada além de seus braços em volta do meu corpo e sua boca acariciando meus labios.
Dormimos, não sei quanto tempo depois. Acordei quase de manhã, fui ao banheiro e me olhei no espelho: sem marcas, sem manchas, sem dores musculares ou arrependimentos. Só a sensação de que o mundo poderia acabar daquele jeito mesmo, eu estaria feliz. Voltei pra cama e o assisti dormir até voltar a dormir também.
Acordei com seus dedos passeando livremente em minhas costas, por baixo de sua camiseta azul com um F e uma estrelinha. E ele parecia cantar pra que eu acordasse: Would you hear me if I told you that my heart is with you now...?
Esfreguei os olhos preguiçosamente e o encarei. Tão bonito, tão sereno... Com aquele sorriso, é. O mesmo sorriso lindo, de iluminar a meia noite, que me faz tremer e bla bla bla. Ele tirou uma mecha de cabelo do meu rosto e me beijou a pontinha do nariz.
-Bom dia, Elvis — desejei, sorrindo. Ele riu como se fosse a piada mais engraçada do mundo.
-Por que Elvis? — Perguntou curioso.
-Não importa. — Só pude dar de ombros e torcer pra ele não entender.
-Ok, bom dia Priscilla.
A sobriedade é uma merda quando você precisa do alcool pra fazer o que quer.
Com certeza ele se lembrava tão bem quanto eu de termos nos beijado e, apesar de não nos incomodar, simplesmente não o fizemos mais.
Eu levantei, tomei um banho e, enquanto penteava o cabelo, ele passou e deu um beijo em meu pescoço. Encaixou o cabeça no meu ombro e me abraçou por trás. Beijei seus cabelos e segurei seus braços em minha cintura. Eu precisava ir embora. Eu precisava assimilar tudo aquilo.
Fui na padaria enquanto ele tomava banho, trouxe os benditos bolinhos com suco pra ele tomar café. Arrumamos suas coisas praticamente em silencio, envolvidos no som do ZebraHead. Por vezes ele me abraçava, me beijava os ombros e eu o procurava pra um beijo ou dois. Seu celular tocou e eu pude ouvir ele combinar alguma coisa com Tom. Era minha deixa, arrumei minhas coisas e fiquei na sala esperando ele desligar o telefone.
-Vou pra casa. Me liga, se precisar de mim, tá?
-Tudo bem. Vou no Dom de noite com os meninos, não quer ir?
-Não sei. Eu tenho tanta coisa pra fazer...
-Mas você disse que não tinha... — Danny parecia perturbado.
-Mas eu tenho, Elvis. Me liga, tá? -Abri a porta e mandei um beijinho pro ar. Não queria beijar ele de novo. Senão eu não iria embora, poxa!
Ele respondeu com um beijo no ar e um tchauzinho.
Andei pra casa e sabia que a confusão estava estampada na minha testa.
Cuidei do Benji, esfomeado, preparei a roupa da semana, o material da faculdade e pensei seriamente na proposta de Danny. Eu seria muito doida de aparecer no Dom e beijar ele na frente dos meninos? Sim? Porque era o que eu queria.
Resolvi ir. Liguei pra Alice e pra Anna e as convidei. As duas vieram correndo pra minha casa. Alice era minha melhor amiga desde sempre e Anna, minha prima que era mais irmã amiga do que tudo. Coloquei uma jeans preta, bem justinha, uma regata preta igualmente justa e uma bota vermelha de salto e bico finos, combinando com meu headband também vermelho. Alice parecia uma bonequinha, com um peep toe coloridissimo e um vestido balonê. Já Anna beirava a provocação com as costas de fora num vestido curtissimo, frente única e uma sandália dourada de tiras finas.
O Dom estava cheíssimo, apesar de ser domingo. Encontrei logo a mesa dos meninos, cheias de garrafas de cerveja. Tom foi o primeiro a se levantar e abriu os braços, me puxando num abraço cheio de carinho. Depois de Danny, ele era meu preferido, embora tenhamos estudado todos juntos no ensino fundamental. Dougie me dei um beijo barulhento e demorado na bochecha, Harry me deu um apertão na barriga e um beijo na testa e Danny só me olhava, sorrindo. Parei em sua frente, esperando seu cumprimento. Ele levantou, me ergueu nos braços, num abraço apertado e demorado e espalhou beijos em meu pescoço, surrando:
-Fico feliz pelo mundo ter girado tanto e você ter se tornado a mulher mais linda que eu já vi.
Eeee! Eu não sabia onde enfiar a cara. Retribui seus beijinhos no ombro e sentei ao seu lado. Os meninos disconfiavam do quanto eu gostava dele e estava feliz.
Conversávamos, felizes, animados e quase bebados. Os meninos amavam Danny mais do que eu, então tinha assunto pra uma vida pra colocar em dia. Depois falam das mulheres.
Alice e Harry eram um caso perdido: não sei que tanto embaçavam pra se pegar. Eu que não ia lá me meter e empatar a foda alheia. E Anna comentara sobre o Tom certa vez. Dougie se viraria com seus olhos azuis. Baixinho bonito do caramba.
Fasano fazia a casa vibrar. Eu nunca fui muito de dançar mas aquele dia pedia e Anna me entendeu, me arrastou pra algum lugar na muvuca, dançando como só ela sabia. E nessas horas eu agradeço por aprender rápido. Quem não nos conhecia, provavelmente pensou que fossemos lésbicas ou malucas. Não me importava em dançar com ela, o sangue e a locura eram os mesmos, bem como o amor. Logo arrastamos Alice pra junto de nós e a melhor parte foi um bonitão chegar junto dela e começar a dançar, deixando Harry com cara de quem chupou limão e mastigou a casca. Logo ele foi lá pegar sua amada dos braços alheios. Não pude sorrir pra Danny. Bem que ele podia dançar comigo. E Deus fez essa pra eu ver. Começou, magicamente, a tocar "lovely". DJ idoso, porém sábio. Parei a poucos metros dele, coloquei as mãos pra trás e esperei que ele se tocasse. Ainda bem que não demorou. Eu achei que ele fosse se entortar todo, ele não gostava de dançar muito também... Mas isso era o que eu achava. Ele me abraçou, dançando comigo e eu pude sentir novamente aquela harmonia dos céus. Deixei que suas mãos me conduzissem e acabou sendo mais divertido do que tudo. Dançamos mais umas duas ou três músicas e voltamos pra mesa. Que orgulho. Alice estava num pufe com Harry e Anna dançava com Tom de um jeito que eu quis passar por eles e mandar eles arrumarem um quarto.
Danny me puxou pra perto dele, tirou um papel e uma caneta do bolso da calça e eu ri largamente, me perguntando quem carregava papel e caneta como quem carrega documentos num lugar daqueles. Ele rabiscou alguma coisa no papel e me entregou. Sua caligrafia feia e borrada dizia: "The beauty of your laughter is my favorite song. I pinch myself, could this be real, I can't believe you're mine... Are you mine?". Peguei a caneta de sua mão e no verso do papel, escrevi: "Desde sempre". Quando Danny leu, sorriu da maneira mais bonita que eu já vi e me beijou. Como se o mundo fosse acabar... Como se o mundo não existisse. E acho que foi aí que começamos a namorar. Ou não.
Os meninos voltaram pra mesa e eu não esperava isso, mas Danny me beijou na frente de todos, arrancando deles assovios e aplausos.
-É só meu melhor amigo, nééééé! — Harry batia palmas
-É, você podia parar de usar a mesma desculpa e ficar logo com a Alice! — Eu rebati, firme.
Nessa hora, Alice só não levantou dali e me bateu porque Harry, num ataque de bravura e alcoolismo, puxou Alice pra perto de si e a beijou desengonçada e apaixonadamente. Dessa vez, até eu aplaudi.
Harry, visivelmente desconsertado, disse pra que todos ouvíssemos.
-Alice, quer deixar de ser minha melhor amiga e ficar comigo de uma vez? — Teria sido rude senão tivesse falado de uma maneira tão fofa.
-Mas o que é isso agora, a noite de resolver os problemas amorosos do grupo? — Alice ria, com vergonha.
-É, eu acho uma boa hora, Alice. — Harry estava sério agora — Diz que quer, por favor. Porque eu não aguento mais essa situação besta entre a gente.
Fizemos a maior algazarra até que Alice disse que sim e beijou Harry. E num piscar de olhos, estavamos todos encarando Anna e Tom.
Dougie se pronunciou:
-E vocês dois, Tom? — Apontava pra Anna sugestivamente.
-Nem venha, nem somos melhores amigos — Tom ficou de vinte cores diferentes de tanta vergonha. Anna, que não era boba nem nada, logo respondeu "Mas podemos ser". Foi uma zona só, depois disso. Dougie se ajustou com uma morena bonitinha lá e todos estavam acompanhados aquela noite.
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