Do Verbo Amar
1 Capítulo Único
Notas iniciais
♤ Às vezes alguns sentimentos são intensos demais para guardamos para nós mesmos.
♤ Meu primeiro conto original, sendo a história toda minha, literalmente.
Olhava a paisagem urbana que passava como um espectro através da janela do ônibus e suspirou. Ela havia o visto. Só poderia ser ironia do destino destino. A menina suspirou novamente.
Ela não o via há semanas, e logo no momento em que estava mais vulnerável, ele surgiu num rompante. O rapaz carregava uma expressão diferente no rosto e ao mesmo tempo tão familiar. A garota sentiu seu coração se apertar, era como se ela não o conhecesse mais, afinal, muitas águas haviam rolado até aquela troca de olhares de mão única.Ele havia ficado guardadinho em canto de seu coração e ela sabia que, cedo ou tarde, ele ressurgiria das cinzas. Afinal, o que os olhos não vêem, o coração não sente. Mas ela viu, e viu bem mais do que seria considerado justo ou sadio de se ver.Ardia. Queimava. Mas não era fogo que consumia seu coração, era gelo. Suas mãos ficaram frias, mal conseguia respirar, as lágrimas cegavam sua razão.Ela o amava. Havia demorado muito para perceber, já que os sinais que ela esperava sentir quanto enfim amasse alguém nunca apareceram. Não corava quando o via e nem sentia borboletas no estômago, não sentia nenhum dos avisos clichês que nosso corpo produz quando se está apaixonado. Muito pelo contrário, estar com ele era mais fácil e natural do que respirar.A menina colocou uma mecha de seu cabelo que teimava em ir para seus olhos por conta do vento entrava pela janela, atrás de sua orelha e suspirou mais uma vez. Suspirar havia se tornado um costume frequente. Afinal, o que ela poderia falar? Suspirar era o lhe restava.Um homem quebrou sua bolha particular quando lhe ofereceu um pequeno panfleto dentro ônibus, ela o aceitou e assentiu.O texto do panfleto falava sobre o amor puro e benigno, sobre o amor verdadeiro, o qual tudo crê e tudo suporta.Ela, de certa forma, ainda acreditava nessa forma de amor, embora suas concepções do que fosse o "amar" houvessem mudado conforme fora amadurecendo e ganhando experiência.Ela havia experimentado o amor romântico e tão idealizado por três vezes. A primeira vez na mais tenra infância, aquele tipozinho de amor mais inocente que existe. A segunda vez na adolescência, aquele tipo de amor que não é muito bem um amor, e sim paixão, por vezes até capricho, algo platônico que nunca seria realizado.E a terceira vez foi confusa, os sintomas nunca chegaram, como foi dito a pouco. O amor inocente e a paixão idealizada deram lugar a um sentimento diferente, até então desconhecido. Ela havia ficado confusa, não se sentia mais a mesma. Não se sentia mais uma menina, e sim uma mulher. Ela havia sido transformada.Transformada pelo rapaz em questão, o que estava escondido em seu coração, ele havia a marcado de tal forma que seria irreversível, não havia mais volta, nem lugar para arrependimento. Mas eles eram diferentes, diferentes demais, não havia futuro. Ela sabia, embora negasse para si mesma.Ela o julgou por covarde, mas não era ela também? Agora ela fugia do sentimento que a afligia, ela não via mais motivos para lutar ou esperar. Ele havia seguido.E ela sabia que não havia escapatória, tinha consciência de que a vida era uma eterna conjugação do verbo amar.
Notas finais
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