Do Outro Lado Da Porta
4 🌃Capítulo 3 - Ele
21.12.00 — São Paulo/SP
(Só os Loucos Sabem — Charlie Brown Jr.)
— Ai, desculpa! Você tá be—
As palavras morrem na minha boca.
Eu olho pra ele.
E por um segundo... tudo ao redor some.
Ele sorri.
— Tô bem. E você?
Só balanço a cabeça, ainda meio sem reação.
— Tô...
Ele me observa por um instante.
— Gostei do seu cabelo.
Sorrio, meio sem graça.
— Valeu.
— Qual seu nome?
— Helena. E o seu?
— Caio.
Ele sorri de novo.
— Nome bonito.
— O seu também.
Um silêncio curto se forma.
Mas não é estranho.
É... confortável.
— Então — ele continua — eu tô indo lá na árvore com os meus amigos. Quer vir?
Hesito por um segundo.
Mas tem algo nele.
Algo que me puxa.
Como se eu já conhecesse aquele sorriso.
Como se já tivesse estado ali antes.
— Claro.
A resposta sai antes mesmo de eu pensar direito.
Que que eu tô fazendo?
Sigo com ele até uma árvore enorme no centro da praça.
As pessoas estão sentadas ao redor, conversando, rindo, vivendo.
A gente se senta.
Algumas garotas se aproximam de mim, começam a conversar, me incluir.
E, aos poucos... eu me sinto parte daquilo.
Mas meus olhos sempre voltam pra ele.
Caio.
Ele é... lindo.
O cabelo em mullet, com mechas vermelhas que refletem na luz.
O lápis nos olhos, o jeito relaxado de se vestir, o sorriso fácil.
Ele é gentil.
Engraçado.
E de algum jeito... familiar.
⋆⋆⋆
22.12.00 — São Paulo/SP
As horas passam rápido demais.
Quando percebo, o céu já começa a clarear.
— Amiga, que horas são?
Pergunto pra uma das garotas.
— Quatro da manhã.
Meu coração dá um pequeno salto.
Algumas pessoas reagem na hora, se levantando, se despedindo.
Faço o mesmo.
— Tenho que ir, gente... espero ver vocês de novo.
— Espera.
Sinto uma mão segurar a minha.
Olho pra baixo.
Caio.
— A gente pode se encontrar amanhã? — ele pergunta. — Tipo... oito da noite?
Meu coração acelera.
Ele tá me chamando pra um encontro?
Penso por um segundo.
Mas, no fundo... eu já sei a resposta.
— Claro.
Ele sorri.
E solta minha mão devagar.
— Então tá combinado. Aqui mesmo.
— Tchau, gente!
Aceno, e eles acenam de volta.
Saio correndo.
Corro até a casa.
Subo pela árvore ao lado da janela e entro no quarto.
Olho ao redor.
Tudo em silêncio.
Tudo no lugar.
Troco de roupa rapidamente, vestindo meu pijama.
Caminho até a porta.
Respiro fundo.
Olho pra trás.
E então entro no túnel.
⋆⋆⋆
22.12.26 — São Paulo/SP
Abro a pequena porta.
Meu quarto.
Meu tempo.
Minha vida.
Tudo normal.
O calendário marca: 22 de dezembro de 2026.
Deu certo.
Fecho a porta.
Me jogo na cama.
E o cansaço me vence quase instantaneamente.
⋆⋆⋆
Foi loucura.
Mas...
eu quero fazer de novo.
⋆⋆⋆
Fale com o autor