Do Outro Lado Da Porta

5 💿Capítulo 4 - Luzes Demais Pra Uma Noite Só


22.12.00 — São Paulo/SP

(Apocalypse — Cigarettes After Sex)

Dou uma última olhada no espelho.

O vestido preto justo, curto.

All Star preto de cano baixo.

Os mesmos acessórios de ontem, com um relógio de pulso agora.

Ajeito o cabelo.

Retoco o contorno da boca.

Reforço o lápis nos olhos.

Respiro fundo.

Abro a janela e saio.

Corro até a praça.

Chego e... nada dele.

Olho o relógio.

21:02.

— Oi.

Sinto um toque no ombro.

Viro.

É ele.

— Oi!

Falo, animada.

Ele sorri... e me abraça.

— Oi, princesa.

Princesa!?

Sinto meu coração dar um pulinho.

— Eu tava pensando — ele diz — em te levar pra uma festa que vai ter aqui perto. O que acha?

Dou uma olhada rápida na minha roupa.

— Vamos.

Ele entrelaça nossos dedos.

— Então vambora, princesa.

Caminhamos até uma balada.

Paredes escuras.

Luzes coloridas piscando.

Fumaça leve no ar.

Música vibrando no peito.

Tudo parece vivo demais.

Uma música mais lenta começa.

Ele me puxa pra pista.

As mãos dele encontram minha cintura.

As minhas sobem até a nuca dele.

Nossos corpos se aproximam.

Apoio a cabeça no peito dele.

— Quantos anos você tem? — ele pergunta, baixo.

— 16. E você?

— 17.

Sorrio.

Levanto o rosto.

A gente se encara.

Como dois idiotas.

Como se fosse a coisa mais importante do mundo.

Ele afasta uma mecha do meu cabelo, colocando atrás da minha orelha.

A mão dele para na minha bochecha.

O polegar faz um carinho leve.

— Você é linda, sabia?

Sinto o rosto esquentar.

— Você também é.

Ele sorri.

E então...

Nossos rostos se aproximam.

O mundo desaparece.

Só sobra ele.

E eu.

Um selinho.

Curto.

Delicado.

Eu puxo ele de volta.

Aprofundo.

E o beijo fica mais lento... mais real.

Ficamos ali, dançando devagar, abraçados, como se o tempo tivesse desacelerado só pra gente.

Depois, vamos até o bar.

Refrigerante, doces, risadas.

Conversas bobas.

E, aos poucos... a gente vai se encaixando.

Como se sempre tivesse sido assim.

⋆⋆⋆

23.12.00 — São Paulo/SP

Olho o relógio.

3:59.

Meu coração pesa.

— Eu preciso ir...

Me levanto do banco.

— Já? — ele pergunta, meio sem graça.

— Sim... depois das quatro eu tenho que estar em casa.

Ele murcha um pouco.

Dou um selinho nele.

— A gente se vê amanhã.

— Promete?

— Prometo.

O sorriso dele volta, gigante.

— Então, na praça. Oito da noite.

— Combinado.

— Até.

— Até.

Me viro pra ir embora.

Mas ele me puxa de volta.

E me beija.

De um jeito que me deixa sem chão.

Saio sorrindo, meio perdida, meio leve demais.

Corro até a casa.

Subo pela árvore.

Entro pela janela em silêncio.

Troco de roupa rápido.

Visto meu pijama.

Respiro fundo.

Abro a portinha.

E atravesso.

⋆⋆⋆

23.12.26 — São Paulo/SP

Meu quarto.

Meu tempo.

Minha realidade sem graça.

Fecho a porta.

Empurro o armário de volta.

E me jogo na cama.

O sono vem rápido.

Mas ainda sinto o beijo dele.

⋆⋆⋆