Do Negro Ao Laranja
7 Dia 7 - Yesterday, de Beatles
Notas iniciais
Tudo estava tão negro, tão tenebroso. Tobio Kageyama não podia ver um palmo a sua frente, seu coração saía do peito de tanto medo, e já não se lembrava mais de como era se sentir seguro.
Mais um sonho. E dessa vez, não era um sonho branco, brando e com uma música brega ao fundo.
Não.
Aquilo era um pesadelo.
.
Ontem
Todos os meus problemas pareciam tão distantes
Agora parece que eles vieram pra ficar
Oh eu acredito
No passado
.
A única fonte de luz aparente naquele funesto cenário era um longínquo ponto laranja, que diminuía a cada segundo.
Hinata!, pensou. Ah, sim, finalmente. Um porto seguro para tirá-lo daquele inferno.
Levantou-se – embora nem soubesse que estivera sentado – e correu em direção ao menino menor. Ele parecia alheio a seus chamados, e não abrandava o passo nem por um minuto.
“Não me siga”, ele pode ouvir de dentro da cabeça. Era a voz de Hinata.
Por que dissera aquilo?
Hinata não o queria a seu lado?
Iria embora?
Sem sequer dizer o porquê?!
.
De repente
Não sou metade do homem que costumava ser
Existe uma sombra pairando sobre mim
Oh ontem
Veio de repente
.
Como por milagre, alcançou seu parceiro, e agarrou-lhe o pulso. O rosto bem delineado virou-lhe, numa carranca de puro desgosto e deboche.
“— Fique longe de mim”, murmurou, num timbre enojado, e afastou o braço preso violentamente, para virar-lhe as costas e afastar-se.
Kageyama deixou-se ficar para trás, estupefato. A dor por ser tratado assim crescia em seu peito, levando-o a um torpor lento e arrastado.
Não sabia o porquê de Hinata ter ido embora assim – duvidava que ele diria, também.
Pensou que agora sentia falta do branco que tivera com uma música brega há um tempo atrás – quanto, não sabia; sonhava afinal.
Queria voltar ao ontem.
.
Por que ela
Teve que ir eu não sei
Ela não me disse
Eu disse
Algo de errado e agora eu sinto falta
Do ontem
.
Ontem ele estava feliz. Hinata sorria para si e sempre pedia-lhe lançamentos.
Ontem achava fácil estar com ele, fácil amá-lo.
Ontem ele não possuía um terror insurgente em seu coração, nem precisava de um lugar para se esconder.
Ontem ele se sentia como um homem, um ser humano. Naquele momento, ele não era nem metade disso. Sentia-se como um corvo imundo. Catador de lixo. Comedor de carcaça.
Um corvo miúdo.
Um corvo que nem de grasnar era capaz.
.
Ontem
O amor era um jogo tão fácil de se jogar
Agora eu preciso de um lugar pra me esconder
Oh eu acredito
No passado
.
Ajoelhado no chão, e sentindo-se impotente, pressentiu uma sombra pairar sobre si. Fez menção de se levantar para se afastar dela, porém foi lento demais. Ela já o havia aprisionado pelos pés, braços, cintura e pescoço.
Se num momento planejara procurar por seu ruivinho dentre aquele negrume inteiro, agora estava incapacitado de tal.
Tentou em vão se libertar, e parecia que quanto mais o fazia, mais era tragado ao solo. Engolido por ele.
Desesperou-se ao ver que seu corpo não parava de sumir... O chão o comia tal qual areia movediça. Ao ter sua cabeça engolida não pode mais respirar e-
.
Por que ela
Teve que ir eu não sei
Ela não me disse
Eu disse
Algo de errado e agora eu sinto falta
Do ontem
.
Kageyama subitamente se viu deitado de bruços na própria cama. A luz estava acesa e a TV ligada. O suor irritantemente escorregava por sua têmpora, concomitantemente à batida nervosa de seu coração.
Ergueu a cabeça e examinou o quarto. Sentado à sua mesinha baixa, de olho na TV e assistindo a um programa qualquer estava... Hinata. Ele pareceu notar seu despertar, porque virou a cabeça — Ei, Kageyama! Que bom que acordou, eu acabei de acordar também! Sua mãe acabou de trazer um lanche pra nós. — um sorriso dardejante pintou no rosto delicado, servindo-lhe como um calmante imediato. O efeito durou pouco, porque imediatamente lembrou-se do pesadelo recém vivido.
Ergueu-se numa posição sentada na cama, seus músculos toraram-se tensos durante o sono. — Que horas são...?
— Quase nove.
— Quase nove?!
— Sim. Hoje foi cansativo mesmo, hein! Dormimos bastante. — riu um pouco, mordendo o sanduíche na mão.
Ah, sim. Agora as memórias do ocorrido após chegar em casa com Shoyo no colo lhe vinham à mente. Cumprimentou a mãe e explicou-lhe a situação estranha, depois subiu ao seu quarto. Lembrou que nesse momento hesitou no que fazer, se deitaria o peso morto em sua cama ou se o acordaria. Decidiu que ambos deitariam na mesma cama, mesmo com sua situação... emocional.
Havia sido horrível conseguir dormir com a respiração quente de Hinata batendo contra sua nuca, mas por fim o peso das pálpebras não se sustentou, fazendo-o imitar o amigo inconsciente.
— Kageyama? Você tá bem? Parece meio avoado...
— Ah, sim, desculpe. — Kageyama devolveu o olhar ao garoto-isca, se fixando em sua expressão intrigada.
Recordou-se mais uma vez do pesadelo. Suspirou.
O ontem finalmente retornara.
Hinata tal qual conhecia retornara.
Afinal, Hinata era seu ontem.
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Ontem
O amor era um jogo tão fácil de se jogar
Agora eu preciso de um lugar pra me esconder
Oh eu acredito
No passado
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