Do Negro Ao Laranja

2 Dia 2 - Can't Take My Eyes Off OF You, de Frankie Valli


Notas iniciais
Obrigada aos que comentaram no capítulo passado: Ayelet E Hensel Lucychan Menininha Inocente E obrigada também aos que adicionaram "Do Negro Ao Laranja" aos seus acompanhamentos! Gente, por incrível que pareça, estou gostando muito de escrever essas songfics! Tenho o hábito de procrastinar a escrita de capítulos... Mas acho que como o prazo pra cada capítulo já é decidido, vou conseguir fazê-los todos a tempo!

De alguma forma, Kageyama sabia que o que vivia nesse exato momento era um sonho. “Por quê?” você pergunta? Oras, isso era óbvio, todo o cenário era um irritante e completamente branco-neve, jurava até que aquela claridade poderia cegá-lo – pelo menos, dentro do sonho.

Sua vista também não era a mais nítida possível. A visão lateral era estranhamente fosca, como se houvesse tomado aquela característica de algo onírico que se vê nas mídias. Qual era o nome de tal efeito mesmo...? Já ouvira uma colega do grupo de fotografia mencioná-... Ah! Lembrava-se! Vignette! Vignette!

Pois bem. Tudo que mirava possuía o ridículo efeito de vignette, e como se não bastasse o ônus do cenário branquíssimo, uma de suas músicas mais odiadas ressonava no fundo da mente.

Não recordaria o nome da canção – e nem queria –, ainda mais porque tinha uma grande cisma com ela.

Sua vizinha... Sua odiada e insuportável vizinha fazia questão de ouvi-la todas as manhãs enquanto limpava a casa. Perdera a conta de quantos anos fazia que adquirira tal hábito, só sabia que não a suportava mais. Nem à vizinha, nem à música.

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Você é bom demais para ser verdade

Não consigo tirar meus olhos de você

Tocar você seria como tocar o céu

Eu quero tanto te abraçar

Finalmente o amor chegou

E agradeço a Deus por estar vivo

Você é bom demais para ser verdade

Não consigo tirar meus olhos de você

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Ansiando por sair da mesmice do pior sonho de sua vida, andou em direção ao branco vazio, esperando que isso o levasse a um acontecimento inusitado. Nada mudou por um tempo que lhe pareceu horas, mas aos poucos, avistou ao longe uma cor diferente: pontinhos pretos. Pontinhos pretos que tomavam uma silhueta mais definida ao passo que se aproximava.

No final, tais pontinhos mostraram-se ser corvos. Corvos voando. Corvos pousados em apoios inexistentes e, ainda mais curioso, um grande conglomerado de corvos no chão.

Pela primeira vez, viu-se intrigado pelo que sua imaginação lhe aguardava. Pé ante pé, beirou a confusão negra de penas e, com isso, notou que algo mais diferente ainda encontrava-se no centro dela.

Uma pessoa talvez?

Esticou o pescoço e tentou focalizá-la, o vignette teimando em se acentuar mais e mais. Quanto mais se esforçava para ver, mais os corvos pareciam se empilhar em cima da “coisa”.

Não sabia como se apercebera de um detalhe tão mísero, mas justo no momento em que o cantor em sua mente elevou o timbre para cantar o começo do refrão, os corvos se dispersaram em montes durante o primeiro “baby” – o que já era uma palavra ridícula o bastante por si só.

Quando apenas plumagens negras restavam no chão, Tobio pode então reconhecer a compleição de quem jazia deitado ali.

Que choque ao perceber que era Hinata.

Seu parceiro ruivo levantava-se lentamente, e a melodia brega nunca foi tão ensurdecedora a seus ouvidos. Não compreendia o que acontecia consigo, contudo sentia-se aprisionado a uma força da natureza que forçava-o a fitar apenas a Hinata, que fazia o mesmo, embora sentado.

O uniforme da Karasuno que vestia achava-se meio rasgado, e uma coroa um pouco grande demais quase caía-lhe da cabeça. Seu olhar era cândido e paciente, como se contivesse uma expectativa de si.

E o volume da canção apenas aumentava...

Teve a impressão de que fizera uma careta de desgosto, porque o menor desviou o olhar, corado, e sorriu brevemente. O verso “Oh, pretty baby” destacou-se de repente, e foi nesse momento que Kageyama decidiu que nunca vivera um sonho tão absurdo.

Incapacitado de tirar os olhos de Hinata, começou a se desesperar. Mas o que diabos significava tudo aquilo?!

Hinata deu indícios de que se apercebera de suas intenções; o sorriso envergonhado num segundo foi substituído por um bico birrento.

Kageyama submergia-se em pura agonia.

Agonia!

Como se permitira pensar que esse lado do colega era fofo?

Fofo?!

.

Eu te amo, baby

E se for completamente, tudo bem

Eu preciso de você, baby

Para aquecer as noites solitárias

Eu te amo, baby

Acredite em mim quando eu digo

Oh, coisinha linda

Não me deixe deprimido, eu imploro

Oh, coisinha linda, agora que eu te encontrei, fique

E me deixe te amar, baby

Me deixe te amar

.

Tobio Kageyama acordou empapado em suor. Uou. O sonho havia sido mais tenso que aquele cuja sua imaginação o havia levado às Paraolimpíadas, único lugar que sobrara para jogar vôlei, pois havia perdido as duas pernas – fazia tempo isso.

O som da música provinda da casa da vizinha ultrapassava suas janelas fechadas, e a irritação e gana de culpa-la logo veio. Mulher maldita.

Recusava-se a pensar no significado do sonho recém vivido. Se pudesse, evitá-lo-ia até o final do mundo – e esperava alcançá-lo.

O que decorreu após isso foi uma sucessão de atos cotidianos e automáticos feitos com muita má vontade. Seu mau humor não se dissipara ao chegar à escola – tampouco o faria ao final do dia –, então teve que aguentar seus colegas de equipe o importunando com perguntas intrometidas. Em especial Hinata Shoyo, que fazia questão de enfiar o nariz em seus assuntos sempre que se via a oportunidade.

Ao afastá-lo com palavras rudes, o moleque apresentou-lhe exatamente o mesmo bico birrento do sonho. Teve que morder os lábios para controlar as bochechas avermelhadas e o coração acelerado – já os olhos arregalados não fora capaz de esconder.

Nunca admitiria que Hinata Shoyo era realmente uma ‘coisinha linda’.

Notas finais
E aí? Gostaram? Se puderem, comentem, Obrigada por lerem até aqui, @M_Blue_Rose