Do I Wanna Know?

1 Capítulo Único


Phinks inspirou o ar sujo da cidade grande fazendo uma careta pelo cheiro típico que vinha do escapamento dos carros. Isso lhe arrancou um breve sorriso sem humor. De todas as pessoas, ele deveria ser o menos afetado pelo cheiro ruim já que nascera em meio a coisa pior, mas a verdade era que nenhum lugar no mundo lhe faria sentir satisfeito, em casa como a Cidade Meteoro fazia; lá era seu lugar. O loiro encolheu os ombros sendo assaltado pelo vento frio invernal daquela madrugada, acendeu um cigarro, colocou as mãos nos bolsos e começou a caminhar.

A noite estava incomodamente movimentada, mesmo sendo duas da matina. Havia muitos carros circulando na avenida, e bêbados, ou apenas festeiros, nas calçadas. Phinks se perguntava como conseguiria a paz que queria com toda aquela irritante bagunça a sua volta. Uma rajada de vento balançou seus cabelos, o que o fez encarar o céu. Esse parecia um teto cimentado escuro; nem o céu dali lhe dava qualquer prazer. Pôs-se a correr nas sombras.

Sentia-se tão bravo, tão contrariado e nem sequer havia um motivo concreto para aquilo. Mas ainda havia um motivo, e apenas reconhecer isso fazia uma veia saltar em sua testa. Como todas as noites nessa semana, ele havia acordado ofegante após um sonho estranho, um sonho que se lembrava de ter tido duas ou três vezes antes, mas que se tornara insistente nos últimos dias. Como sempre, ele havia perdido o sono e, por esse motivo, havia saído para fumar e espairecer a raiva amarga que lhe subia. Mas ao cumprir o ritual nessa noite, ele estava decidido que seria pela última vez. Sentia-se ridículo como jamais sentira em toda vida; nada deveria tirar um homem do sério como aquilo fazia a ele.

Entretanto, não podia evitar pensamentos...

Sem se dar conta, o Ryodan havia chegado a um bairro nobre da cidade; talvez fosse o instinto de ladrão, brincou consigo mesmo divertido. Quanto mais se aprofundava, maiores ficavam as casas e, consequentemente, mais silenciosa ficava a noite. Andando pelas sombras daquele bairro podre de rico, Phinks pensou que estaria tudo bem se divertir um pouco, voltar para os peixes menores por um momento.

Logo escolheu um alvo aleatório. A mansão era clássica, porém menor, mais familiar, em cores claras com um jardim bem cuidado e muitas árvores ao redor. O mais impressionante era a piscina de um azul vivo em formas curvilíneas, charmosa. Com tamanha naturalidade, o loiro pulou o muro; agindo pelas sombras e escondendo sua presença, pôde facilmente emboscar os quatro cães de guarda e, com o segurança adormecido, desativou o alarme. Poderia gargalhar pelo quão ridículo aquilo era, lembrava-se de quando ainda era criança e já fazia isso com uma habilidade impressionante.

O gatuno entrou pela porta da frente como se a casa fosse sua e, silencioso quase que por natureza, ele explorou todo o primeiro andar, coletando pequenas peças que achasse interessante e as guardando no bolso da calça. Na cozinha, serviu-se de um caprichado sanduíche e, após comer, subiu para o segundo andar com uma lata de refrigerante nas mãos. Pelos seus cálculos, logo identificou o quarto principal que deveria ser o maior, com a melhor vista, onde dormiam os proprietários e onde estariam as joias. Não estava errado. Fazia tudo muito rápido e silencioso, com experiência e maestria. Seguiu para o escritório à procura do cofre...

Phinks estava pronto para ir, levava uma mochila discreta recheada de “coisas interessantes” nas costas, mas, enquanto andava pelo corredor, ouviu passos de duas pessoas subindo as escadas. Rapidamente entrou num dos quartos. Provavelmente um dos guardas havia percebido o alarme desligado e foi acordar o outro para fazerem uma revista. Phinks olhou ao redor, estava num quarto infantil, onde dormia um garoto de uns sete, oito anos. A janela dava acesso a uma das laterais da casa e não tinha grades; se saltasse, poderia se agarrar a uma das árvores do jardim.

Enquanto abria a janela, ouviu o garoto mexer na cama, parou por um momento, esperando que ele se acalmasse. Porém, mesmo depois que ele se acalmou, o ladrão continuou a olhá-lo como se estivesse em transe. Phinks cerrou o maxilar, piscando e abanando os pensamentos mentalmente, finalmente saindo daquela casa.

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Have you got colour in your cheeks?

Do you ever get the fear that you can't shift

The type that sticks around like summat in your teeth?

Are there some aces up your sleeve?

Você está corado?

Você já teve aquele medo de não poder mudar a maré

Que gruda ao redor como algo em seus dentes?

Você tem alguns ases na manga?

.

Enquanto fugia pela calçada na calada da noite, sentindo aquela euforia típica que sentia sempre após um roubo e o peso das coisas que roubara nas costas, o gatuno também se viu incomodado com algo. Enquanto olhava aquele moleque dormir, ele imaginou toda a sua vida se, quando tivesse aquela idade, estivesse em seu lugar. Será que ainda mataria sem remorso ou culpa? Será que ainda seria a pessoa de personalidade crua, mas de pele grossa, curtida pelas situações difíceis que já tivera que passar? Não era nenhum idiota, sabia que fazia parte da “ralé”, do esgoto da sociedade, mas como seria se simplesmente não fosse?

Ainda sentiria os desejos que sentia?

Sorriu amargo. Eram respostas que nunca encontraria e secretamente tinha medo de encontrar. A verdade era que não queria mudar, se tivesse a escolha, não queria deixar de ser como um príncipe dos ladrões, não queria deixar de olhar a alta classe com um olhar de orgulho quando eles achassem estar protegidos... Estúpidos. Não queria que fosse tirado das suas mãos o poder de fazer o que quisesse com a vida dos outros. Ganância não era uma palavra ruim para Phinks; ele sempre se lembraria dela com muito carinho. Era o que fazia dele tão bom em não ser bom.

Mas se tudo fosse diferente, ele ainda teria amigos ferrados e problemáticos como tinha? Ainda acordaria sufocado com o sonho que vinha tendo essas noites? Ainda... Sentiria os mesmos desejos? Por um momento pensou que se apenas não sentisse aqueles desejos, poderia valer a pena largar mão de tudo o que vivera até ali. Não porque negava o que sentia, mas porque não sabia o que fazer com seus sentimentos e isso era angustiante.

Ele parou de andar no meio da calçada e deixou encostar-se ao muro de uma casa, cruzando os braços e cerrando o cenho pensativo. Por que tudo o que pensava voltava para ele? Por que tudo com que se preocupava tinha que ser referente a ele? O que isso fazia de si afinal? Um maldito baitola? Phinks sabia a resposta há muito tempo.

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Have you no idea that you're in deep?

Você não tem ideia de que é minha obsessão?

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I dreamed about you nearly every night this week

How many secrets can you keep?

'Cause there's this tune I found

That makes me think of you somehow and

I play it on repeat

Until I fall asleep

Spilling drinks on my settee

Eu sonhei com você quase todas as noites essa semana

Quantos segredos você consegue guardar?

Porque há essa música que eu encontrei

Que me faz pensar em você de alguma forma

E eu a coloco para repetir

Até eu dormir

Derramando bebidas no meu sofá

.

Em seu sonho, ele sempre estava deitado sozinho numa cama de dossel no meio do deserto. O calor era intenso, mas o vento surgia com os grãos de areia de vez em quando para refrescá-lo e fazer cócegas. Estava nu na cama de algodão puro e sentia que não podia se mover. Seus membros simplesmente não o obedeciam, como se não fizessem mais parte de si. Então ele aparecia sempre quando estava no auge do desespero. A mão pequena segurava seu tornozelo e embora sua pele reconhecesse a baixa temperatura do corpo do outro, e seu corpo todo arrepiasse, ainda não conseguia se mover. Feitan se aproximava com olhos perigosos e um sorriso característico, sádico, pintado com humor negro. Phinks não conseguia fazer nada, se via a mercê do baixinho e em hipótese alguma isso era algo bom.

O loiro abanou a cabeça. Não devia ficar se lembrando de cada pequeno aspecto daquele detestável sonho. Das mãos magras e frias, do corpo pequeno e gracioso que acendia sua vontade como o inferno! Da sensação desesperadora de se encontrar preso àquela cama enquanto queria agarrar o outro. Da impotência por não poder desmanchar aquele sorriso perigoso e superior de Feitan...

Por quanto mais isso duraria? O que deveria fazer para que aquilo acabasse?

Voltou a caminhar ainda atormentado pelos sentimentos confusos. Havia voltado para o cerne da cidade e em algumas horas o dia surgiria, porém, a noite ainda se fazia bem-vinda, escura, perigosa e irremediavelmente fria. Phinks entrou num beco escuro onde olhos desconfiados o observavam enquanto ele passava até entrar pela porta velha que escondia um bar.

O lugar era tão sujo por dentro quanto por fora e havia um cheiro podre vindo das paredes. A iluminação era rarefeita, os poucos clientes estavam dispersos cuidando de seus próprios assuntos ou apenas enchendo a cara, havia dois ou três aventureiros em volta da mesa de sinuca. O loiro atravessou todo o bar até chegar à outra porta onde trocou um olhar com o segurança que o aguardava. Logo que entrou, a fumaça de charutos caros (certamente roubados) o saldou, ao redor de uma mesa um bando de biltres jogava baralho. Eles o saudaram antes de voltarem para o jogo e Phinks seguiu direto até o pequeno balcão no final do cômodo onde pediu uma dose dupla do melhor conhaque.

Não estava para conversa, mas estava ali para negociar o lucro da noite, então agiu o mais rápido possível trocando seu roubo por algo que lhe interessasse e logo voltou para um canto do bar.

Fazia menos de vinte minutos que estava ali quando foi surpreendido pelo membro pesado e retalhado da Aranha, Franklin, que ele veio se sentar ao seu lado.

— Noite agradável?

— Na verdade, não. O que faz aqui?

— Negócios. Shalnark, Feitan e eu arranjamos algo para nos divertir, você deveria vir também.

Phinks ficou em silêncio por um instante. Como daria fim àquilo?

— Pensei que Feitan estivesse em Meteoro.

— Não tem nada acontecendo lá. — Deu de ombros como se isso explicasse tudo.

O loiro desejou estar bêbado enquanto saía junto com o aliado para irem se encontrar com os outros dois. Sentia-se deplorável em ter aceitado o convite principalmente pela ânsia de ver o baixinho. Queria olhar para ele, cara a cara, e sentir desprezo, perceber que tudo não passava de uma ilusão da sua cabeça, que ele era só o Feitan, só... Só o cara com quem crescera, com quem vivera tantas aventuras e identificara o desejo e também necessidade de matar. Só o homem que desesperadamente odiava, justamente pelo motivo contrário.

— Tem algo acontecendo com você, Phinks? — Franklin perguntou em tom brando.

— Eh? Por que pergunta?

Os dois caminhavam lado a lado há poucos minutos.

— Você está muito sério e quieto. A essa altura, normalmente, você estaria contando todos os detalhes da sua aventura aqui. Como você não faz, é natural eu pensar que há algo errado.

Phinks suspirou. De todas as pessoas no mundo, o gigante era uma das mais perceptivas que conhecia, então não era uma boa ter se encontrado justamente com ele essa noite.

— A missão ocorreu muito bem, mas acho que isso me deixou entediado... Muito tempo livre para pensar em besteiras, isso é irritante.

— Hum... Quando você pensa muito em alguma coisa, é porque ela é importante para você. Se tiver algo te preocupando, você só vai conseguir ficar em paz depois que resolvê-la.

— Então agora você é psicólogo, Franklin? — Zombou sorrindo de leve.

— Já ouviu falar em conhecer a sua vítima? — Retorquiu perigoso.

Os dois demoraram mais tempo que o necessário para chegar ao esconderijo, e quando chegaram, traziam marcas óbvias de luta. O lugar era um rancho abandonado nas mediações da cidade grande, para acessarem-no, eles passavam por alguns hectares de plantação de arroz. A casa rústica era grande e caía aos pedaços, literalmente. Mas assim era melhor, chamava menos atenção e em caso de uma fuga rápida tinham boas saídas.

Shalnark estava sentado num canto concentrado em consertar o que parecia ser um notebook desmontado. Feitan dormia despreocupado sobre uma série de caixotes, debaixo de uma das janelas.

— Ei, Phinks! Então você vai se juntar a nós? — Perguntou o ruivo animado.

— Não tenho nada melhor para fazer. — Deu de ombros.

— Ainda sem sucesso com isso? — Perguntou Franklin, se referindo ao computador.

— Ah, eu não tenho a peça que preciso e não consigo construir uma improvisada também...

— Eu poderia ter procurado algo no bar se você tivesse dito.

Shalnark suspirou, queria ter conseguido resolver aquilo sozinho.

— Quer ir lá para conferir?

— É o melhor que eu posso fazer. — Disse, se levantando.

— Eu vou com você.

Phinks se voltou para o gigante.

— Você acabou de voltar de lá.

— Estou animado hoje e Shalnark pode ser um companheiro mais interessante do que você foi.

— Como é que é?!

— Não grite, vai acordar o garoto.

Ainda ofendido e resmungando de raiva pela provocação, Phinks foi deixado sozinho e logo se sentou no canto oposto ao moreno adormecido. Achou engraçado como foi parar naquela situação; no começo da noite não poderia imaginar que acabaria ali, sozinho com seu objeto de desejo e insônia. Mas no fundo era pior, quando estava abalado daquele jeito estar ali com qualquer pessoa e, principalmente, com ele era mil vezes pior. Porque não tinha outra escolha a não ser disfarçar, reprimir tudo que sentia e se esconder debaixo de um mau humor sem explicações.

O loiro não era o tipo que escondia o que sentia facilmente, ele era óbvio e isso fazia com que os outros perguntassem; como Franklin havia feito. Pensando no retalhado, o que ele havia falado sobre resolver o que o deixava preocupado? Só ficaria em paz ao resolver aquele assunto, foi o que disse. Mas como resolver seu desejo por Feitan? O que deveria fazer? Era isso que queria descobrir...

O rosto ficou vermelho e Phinks encolheu os ombros. Pensou em todas as coisas que queria fazer com o moreno em seu sonho. Claro que não era possível que aquilo acontecesse na vida real, era ridículo pensar que o baixinho aceitaria tudo de bom grado. Mais provável seria que ele desse uma risada de escárnio e um olhar de choque ao perceber que o parceiro realmente falava sério. Depois que tudo perdesse a graça, Feitan prometeria que não contaria aquilo para ninguém e lhe daria as costas, evitando ficar sozinho com o loiro dali em diante.

Ele segurou o rosto com uma mão enquanto suspirava descontente.

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(Do I wanna know?)

If this feeling flows both ways?

(Sad to see you go)

Sorta of hoping that you'd stay

(Baby, we both know)

(Eu quero saber?)

Se esse sentimento é recíproco?

(Triste te ver partir)

Eu meio que esperava que você ficasse

(Querido, nós dois sabemos)

.

That the nights were mainly made for saying things

That you can't say tomorrow day

Que as noites foram feitas, sobretudo, para dizer coisas

Que você não conseguirá dizer amanhã

.

Aquele que o ladrão ambicionava ainda dormia tranquilo do outro lado do cômodo, sem imaginar as coisas impróprias que passavam pela cabeça de Phinks e sem se dar conta dos sentimentos apertados que ele sustentava, no momento, tão precariamente. O gatuno queria chegar mais perto, dali não conseguia ver o rosto pálido direito, porém sabia que o baixinho acordaria imediatamente com a aproximação. E lutava contra a vontade de se fazer perceber, de obrigar o garoto a olhar em seus olhos e tomar toda a aflição que sentia por causa dele.

Finalmente se levantou rumando para sair dali, dar uma volta ao redor e refrescar a mente. Mas um farfalhar quase imperceptível o chamou de volta.

— Você vai fugir? Isso é desprezível, Phinks. Parece com você.

— Você estava acordado? — Não conseguiu controlar a voz que soou uma nota de surpresa.

— Sim. — O baixinho coberto de negro se sentou. — Pensei que viria me surpreender com um ataque, mas parece que Franklin o cansou o suficiente. O que está acontecendo com você? Precisa de uma batida de ovo para recobrar as forças?

Phinx deu-lhe as costas escondendo o sorriso triste; ele nem podia imaginar o que o atormentava, não é?

— Só estou entediado hoje, me deixe.

Apesar das palavras e de estar de costas, o loiro não se moveu. Quando estava tão abalado...

— O que você tem?

Por que ele estava sendo tão insistente? Por acaso parecia tão ruim assim? Provavelmente, sim.

— Você não precisa contar para mais ninguém, mas não tem por que esconder qualquer coisa de mim. Acho que a essa altura temos algum nível de amizade, não acha? — O baixinho falava tudo num tom mais baixo, confidente e ao mesmo tempo envergonhado com a situação.

— E se eu disser que não tem nada de errado?! — Brigou com um último resquício de força.

— Eu não vou acreditar; você é muito honesto, Phinks. Eu ouvi você suspirar, não parecia apenas cansado ou entediado, parecia perturbado. Mas se você não quiser falar também, foda-se!

Ouviu o outro se deixar cair sentado, nem percebera que ele havia levantado. Quando Feitan dizia que não se importava, era indicativo de que ficaria chateado e com maus modos até receber um pedido de desculpas muito bem feito ou então até esquecer o que o deixara irritado. Phinks sorriu.

— Se eu pudesse contar algo como isso, eu contaria para você. Mas acho que o que tenho para falar pode ser demais... — Principalmente para mim.

— Nós não vamos saber se você não falar. Mas eu já disse: esse seu “mimimi” me cansou. Não importa mais.

— Eu...

.

Crawlin' back to you

Ever thought of calling when you've had a few?

'Cause I always do

Me rastejando de volta para você

Já pensou em ligar quando você tomou umas?

Porque eu sempre penso

.

Maybe I'm too busy being yours

To fall for somebody new

Talvez eu esteja muito ocupado sendo seu

Para me apaixonar por um novo alguém

.

Now I've thought it through

Crawling back to you

Agora tenho pensado bem sobre isso

Me rastejando de volta para você

.

Ele o quê? Nem sequer sabia o que dizer, deveria apenas sair dali e enfrentar o ressentimento do parceiro depois. Mas havia a vontade, maldita vontade, de ficar e enfrentar os demônios de uma vez por todas, vontade de cumprir a proposta que em seu íntimo não esperava conseguir realizar, a proposta de que essa seria a última noite de tormento, vontade de ter paz de uma vez por todas. Mesmo que seu coração fosse quebrado no final.

— Eu ando tendo um sonho que se repete todas as noites. Não consigo dormir depois e fico muito alterado para ficar parado no lugar. Hoje eu me levantei após isso, sem nem pensar, vesti minha roupa e saí para fumar. Roubei uma casa e fui para o bar. Lá eu encontrei Franklin e ele me trouxe para cá.

O loiro se virou para encarar Feitan, que o olhava impassível.

— E sobre o que é esse sonho que te deixa tão perturbado?

— É sobre você.

Uma pequena e breve ruga surgiu entre os olhos do baixinho, com certeza não esperava por aquilo.

— O que eu faço nesse sonho? — A voz continuava apática.

— Ah... Eu não deveria dizer isso... — Phinks agora caminhava lentamente para o assassino, transformara toda a sua confusão em raiva e estava pronto para despejá-la sem piedade sobre ele. — Você, Feitan... Me olha com esse mesmo olhar arrogante e entediado... Sorri para mim do seu jeito sádico e superior. Você... — Novamente vacilava, conseguiria dizer?

— Eu o quê?

Feitan estava com os olhos semicerrados, o corpo tenso e o rosto levemente corado. Phinks sentia o calor inundar seu próprio rosto também. Estava a quatro passos do amigo e parceiro. No último instante, desviou o olhar, desistindo.

— Você me seduz só por estar perto de mim, como agora.

O sussurro do loiro pareceu ressoar alto em meio ao silêncio daquela casa abandonada longe de tudo. E as palavras pareceram continuar no ar enquanto os dois assassinos estáticos processavam o momento dolorosamente longo após uma grande revelação e antes de uma grande decisão. Phinks não olhava para o amigo, mas esperava o soco que ganharia, ou o riso nervoso. Feitan, pelo contrário, encarava-o com olhos arregalados como se tivessem acabado de lhe cravar uma flecha no peito.

— Você... — Feitan tossiu para limpar a garganta que deixou escapar um som rouco. — Você andou tendo sonhos eróticos comigo. — Constatou o evidente com aparente indiferença.

— Só um sonho... — Resmungou como resposta. — Por muitas noites seguidas.

O silêncio constrangedor estava para cair novamente sobre eles, mas Feitan o impediu.

— Tudo bem, Phinks. Já haviam me alertado sobre algo como isso, eu só não dei importância...

— O quê? Como? — O loiro foi pego desprevenido. — É... Quem?

— Primeiro Machi. Depois Franklin jogou indiretas.

— Ah. — A cada instante, sentia-se ainda mais constrangido, queria sumir. — Desculpe.

O murmúrio poderia muito bem não ter sido escutado, mas o loiro se sentia envergonhado demais para continuar com aquilo, então investiu numa saída prática e fácil:

— É só isso? — Feitan gritou, mesmo que o ladrão não tivesse dado nem um passo ainda.

— Ah?

— Você só vai jogar isso em cima de mim, pedir desculpas e ir embora?

Phinks encarou o parceiro com confusão, não entendia o porquê da indignação que via crescer nos olhos miúdos.

— Você quer que eu faça o quê?

Uma veia saltou na testa do baixinho.

— Como o quê? Quero que você me diga o que quer de mim!

— Ah?

Feitan levantou com o guarda-chuva em mãos pronto para dar um jeito naquele merdinha.

Sem conseguir entender o porquê daquilo, Phinks desviou dos golpes do moreno irritado e após pouco tempo perdeu a paciência e se pôs a atacá-lo também. Foram alguns minutos até o loiro entender e até lá os dois estavam com alguns ferimentos.

— Você quer saber o que eu quero de você...

Phinks parou o movimento da lâmina com uma mão e o segurou pela cintura com a outra.

.

So have you got the guts?

Been wondering if your heart's still open

And if so I wanna know what time it shuts

Simmer down and pucker up

I'm sorry to interrupt It's just

Então você tem coragem?

Fico me perguntando se seu coração ainda está aberto

E, se estiver, eu quero saber que horas ele fecha

Se acalme e prepare seus lábios

Sinto muito interromper

.

I'm constantly on the cusp

Of trying into kiss you

É que apenas estou constantemente à beira

De tentar te beijar

.

But I don't know if you feel the same as I do

But we could be together if you wanted to

Mas eu não sei se você sente o mesmo que eu sinto

Mas nós poderíamos estar juntos, se você quisesse

.

Por um momento, eles apenas regularam as respirações e se encararam num desafio mudo. Phinks sentia-se consciente da sua mão apoiada das costas do baixinho e tentava controlar o ímpeto de trazê-lo para mais perto.

— Eu quero ter você... Por completo.

O momento intenso durou apenas um instante.

— Tipo aquelas garotinhas que querem um amor de corpo e alma de seus namorados? — Zombou Feitan, fingindo segurar o riso.

— Olha aqui seu... Eu estou falando sério. Você acreditando ou não, você gostando ou não. Estou perdido por você. Isso é tudo.

O loiro o soltou, cruzando os braços no peito e olhando para o outro lado.

— Você é muito sensível também. — Continuou zombando.

Phinks engasgou novamente com a raiva, mas não se moveu.

Feitan suspirou, recolhendo o guarda-chuva que soltara da espada em algum momento da luta e deu as costas ao loiro caminhado para longe.

— Sendo assim, você não me deixa escolha. Acho que vou ter que ser seu daqui para frente, mas só quando você me pegar. — Phinks o olhou desconcertado, enquanto Feitan parava e retribuía com um olhar perigoso. — Se você me pegar...

Notas finais
Mais um projeto cumprido! Isso me deixa muito feliz. Eu sinto a falta de mais fanfics nessa categoria e acho que o sentimento não é só meu. Hunter x Hunter é um anime e mangá incrível e também muito querido, por isso decidi escrever o que eu gostaria de ler aqui. E vocês? Que tal escrever um pouco sobre os seus personagens preferidos? Sinceramente, aguardo respostas e mais projetos nessa categoria (reza para Meruem-sama).
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!