Do I Wanna Know?
1 Conforto
Notas iniciais
Bem,estive por um tempo em um quase-hiatus,e voltei com uma história nova,diferente do que eu escrevia (A Viagem,entre outras.).
Beijinhos,até o fim da fic.Espero que amem!
-Eu te odeio.-Minha irmã,Karen,sussurra,quando coloco meus fones de ouvido para escutar Kings Of Leon.
Me deito na cama novamente,totalmente desconfortável.Meu peito ainda ardia intensamente,apesar de todas as medicações dadas para mim no dia anterior.
Karen senta em um divã vermelho,ao lado de minha cama,e fica me observando,hesitante.A porta do meu quarto estava fechada,e lá embaixo eu ainda podia ouvir os gritos de mamãe com Lucas.Fito Karen.
-Está tudo bem,mana.Eu vou ficar bem.-Murmuro.
Ela fica histérica,novamente.
-Não.Você está sendo estúpida! Você devia ter deixado eles lhe internarem!
-Provavelmente é só um mau jeito.-Minimizo,mesmo sabendo que não era um simples mau jeito.
Ela revira os olhos,e me levanto,largando meu celular na cama.Pego a saia de flanela xadrez azul e preta da escola e minha camisa social de manga longa em meu armário,ao lado da porta.Vou para trás do biombo que fica perto do armário,e me visto rapidamente.Saio de trás da peça e corro até o pé da cama,onde meu sapato de salto estilo boneca estava.Calço-o,e pego minha mochila com estampa tribal preta e branca.
Pego meu celular,e,antes de sair,olho-me no espelho.Meu cabelo estava todo despenteado.Partes da minha franja caíam sob meu olho esquerdo,e,o resto do cabelo,ondulava até minha cintura.Pego o pente e coloco o resto da franja na lateral esquerda,e coloco a tiara azul da escola.
Karen se levanta e desce comigo até o segundo andar,e se despede.Desço as escadas até o térreo da casa,onde minha mãe preparava o café da manhã para o resto da família.Ela parou de fazer a massa para um bolo e veio beijar minha testa.
-Bom dia,querida.Está se sentindo bem?-Minha mãe pergunta,sorridente.
Pela expressão que eu devo ter feito para demonstrar a dor que ainda me rasgava por dentro,a situação devia estar pior do que eu pensava.Seu sorriso se apagou,e foi substituído por uma cara de repreensão.
-Você não devia ir hoje...
Fico com raiva.Não que seja legal explodir com os outros às cinco da manhã,mas eu simplesmente não aguentava mais.
-E eu ia fazer o quê? Ficar feito uma inválida na cama?-Minha voz saiu baixa,porém firme e raivosa.-Eu não quero que as pessoas sintam pena de mim! Eu não preciso da compaixão de ninguém.
Seus olhos ficaram marejados.Fico atônita,sem saber o que fazer.Sem saber se consolo-a ou se simplesmente saio correndo para o colégio.
-Desculpe.-Deixo escapar por entre meus lábios,que antes pareciam petrificados.
-Eu entendo,Clary.-Gagueja ela,retomando a postura maternal de sempre.
-Entende?-Indago,baixinho.
Ela deu um meio sorriso,e me beijou novamente no alto de minha cabeça.
-Sim,e um dia,quem sabe,você também irá entender.
Sorrio para ela,preocupada.Eu sabia que ela já tinha tido quadros de graves depressões ou crises de histeria,mas nunca havia pensado por esse lado: O mundo não gira apenas em torno de mim.Não sou só eu que sinto raiva ou fico doente.
Tomo o caminho do colégio,ainda pensando nisso.Meu celular novo ainda estava em minhas mãos,e eu apertava-o com tanta força que meus dedos estavam roxos.Coloco o celular no bolso da saia,e começo a andar de braços cruzados.
Algo me puxa para trás,quase me arrastando pela bolsa.
-Achou que ia escapar?-Isabelle ria enquanto seus cabelos ruivos e lisos ondulavam no gélido vento.Atrás dela,sua irmã,Anabelle,conversava com um garoto alto e moreno.
-Oi,Isa.-Sorrio para ela,impressionada com a altura que adquirira durante as férias.Olho para sua irmã.-Oi,Ana.
Ana se vira para me cumprimentar.Ela me dá um delicado beijo na bochecha,e se afasta,sorridente.Ela era como uma obra de arte viva.Os cabelos ruivos e lisos,ligeiramente mais escuros do queos da irmã,caíam até metade de suas costas.Seus olhos verdes eram vívidos,como se fossem radioativos,e ela era centímetros mais alta que Isa.
-Este é Gabriel.-Ela puxou o garoto para frente,e ele acenou com a cabeça.
-Clarissa.-Estendi a mão para ele,que apertou-a sem hesitação.-Você vai ficar no 1º ano também?
-Sim.-Sua voz tinha um quê de timidez,e seus ombros estavam rígidos.Olhei diretamente em seus olhos,e ele relaxou,inexplicavelmente.-O colégio de vocês é legal?
-Às vezes.-Sorrio,surpresa com a pergunta.
Fomos os quatro juntos para o colégio,as gêmeas na frente,com o mesmo uniforme que eu,e eu e Gabriel atrás,conversando sobre as férias,como se sempre nos conhecêssemos.Ele era do mesmo tamanho que eu,e era bem magro.Seus cabelos eram pretos e encaracolados,e,seus olhos,castanhos.
As oito primeiras aulas do ano passaram lentamente.Fomos bombardeados com aulas de química,matemática e literatura portuguesa,além de uma maratona de perguntas sobre o conteúdo de sociologia.
Na última e nona aula,a diretora veio nos dar as boas vindas,e,quando terminou seu enjoativo discurso sobre o ano letivo que se iniciava,me entregou um envelope do hospital Maggie Nanjorie.
-É de sua família.-Diz,quase na porta da sala.
Olho para o lado,onde Gabriel está sentado,copiando o cronograma de aulas.Abro lentamente a carta,e vejo que é o diagnóstico de uma biópsia que eu havia feito 10 meses antes,junto com o resultado da tomografia que eu havia feito ontem.
Li devagar as palavras que davam o veredicto final.Câncer de pulmão.Não poderia ser verdade.Pego meu blazer preto e visto-o,chateada.Me levantei automaticamente da cadeira,contendo as lágrimas,e saio correndo da sala.
Sento no corredor vazio e frio,deixando a carta cair.As lágrimas jorravam para fora de meus olhos,como se ansiassem pela liberdade.Ouço passos,e limpo meus olhos com a manga da blusa.Gabriel para em meio caminho à mim,preocupado.
-O que aconteceu?
Desvio o olhar para minha sandália.
-Nada.
-Você vai me contar desde o começo.
Respiro fundo,e penso que eu devo me abrir com alguém que não seja de minha família.Olho para ele,que senta-se ao meu lado e gesticula para eu começar.
-Eu não queria que você ouvisse algo triste,tampouco algo chato.Não precisa escutar.-Ele bufa,então resolvo continuar.-Dez meses atrás,eu estava na Austrália,aproveitando as férias entre os trimestres,quando comecei a sentir fortes dores no peito.Tipo,de subir pelas paredes.Eu não conseguia mais dormir,porém não queria contar aos meus pais; Eu não queria estragar a viagem.
''Entretanto,teve um dia que foi o limite.Eu estava sentindo uma dor realmente violenta,e estava começando a me sentir nauseada e com dores de cabeça,até que desmaiei.
Meus pais logo se assustaram.Claro,eles achavam que eu estava muito saudável.Não haveriam motivos para eu desmaiar,do nada.
Eles acharam que podia ser um vírus contraído de lá,então me trouxeram imediatamente para cá.Eu não conseguia ficar de pé.Minhas olheiras estavam horríveis.Enfim,eu estava parecendo um buraco negro ambulante.
Bom,me entupiram de medicamentos.Era coisa de 100 medicações por semana.Fizeram uma biópsia do meu pulmão,e,finalmente,a dor cessou.
Mas,ontem,a dor voltou,com uma intensidade anormal.Mais uma vez,fomos para o hospital.Fizemos uma tomografia,mas não tinham me dito nada.''
Ele me olha,esperando eu completar o ''até agora'' que havia ficado no ar.
-Eu fui diagnosticada.Tem um tumor do tamanho de uma borracha no meu pulmão.
Ele me abraça,sem dizer nada.E foi o que bastou para mim.Eu não precisava de mais nada.
-Câncer.Ele é um idiota.-Resmunga ele,e eu rompo em lágrimas,concordando com ele,ainda enlaçada em um abraço que não parecia ter fim.
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