Do Fio da Navalha à Esperança do Reincontro
2 Capítulo 1: O Peso da Aliança
A mentira era uma criatura viva que respirava entre eles. Na manhã seguinte à visita dos oficiais, o silêncio na casa de Li Wei não era mais o silêncio do luto, mas o de uma cumplicidade perigosa. O termo "marido" ecoava nas vigas de madeira da loja como um juramento que nenhum dos dois estava pronto para cumprir, mas que ambos estavam condenados a sustentar.
Para a vizinhança da Travessa das Almas Perdidas, nada havia mudado drasticamente. A faca de Wei continuava a bater no cepo com a cadência de um coração metálico. O "Sr. Wei" (como Bo agora era chamado por todos) continuava a carregar as pesadas carcaças de gado das carroças para os ganchos de ferro. No entanto, por trás das portas fechadas, a dinâmica havia sofrido uma mutação.
Bo agora não dormia mais no depósito de sal. Para manter as aparências diante de vizinhos bisbilhoteiros e possíveis espiões imperiais, ele mudara seus poucos pertences para o quarto principal. Ele dormia no chão, sobre uma esteira de palha fina, enquanto Wei ocupava a cama que um dia pertencera a seus pais. A proximidade era uma tortura silenciosa. Ele podia ouvir a respiração dela; ela podia ouvir o ranger dos dentes dele enquanto ele lutava contra pesadelos de fogo e traição.
— Precisamos de mais do que apenas uma mentira — disse Bo certa noite, enquanto as sombras das velas dançavam nas paredes. — Se os oficiais voltarem, eles não vão apenas perguntar nomes. Eles vão observar como nos movemos um ao redor do outro. Um casal compartilha um ritmo. Se parecermos dois estranhos dividindo um teto, eles saberão.
Wei, que estava remendando uma de suas túnicas de trabalho, parou a agulha no ar. Ela olhou para ele, sentado nas sombras, com a postura reta de um homem que fora ensinado a comandar, não a servir.
— O que você sugere, "marido"? — O sarcasmo na voz dela era uma defesa.
— Sugiro que você me deixe ensiná-la a lutar — ele respondeu, sua voz séria. — Não apenas como uma açougueira, mas como alguém que sabe defender o que é seu. A guerra não vai ficar na fronteira por muito mais tempo. E quando ela chegar, sua faca precisará encontrar mais do que apenas juntas de carne.
Wei sentiu um calafrio. — Eu sei usar minha faca. Eu mato o que precisa ser morto todos os dias.
— Você mata o que já está amarrado ou morto, Wei. É diferente de alguém que está tentando enfiar uma lança no seu peito. Se vamos fingir que somos um só, você precisa ter a agilidade de uma guerreira para acompanhar o meu passado.
A partir daquela noite, o quintal úmido e escondido atrás do açougue tornou-se um campo de treinamento. Sob o luar pálido, longe dos olhos do mundo, o nobre arruinado começou a moldar a filha do açougueiro.
As primeiras lições foram brutais. Bo não tinha piedade. Ele a fazia carregar baldes de água com os braços estendidos até que seus músculos queimassem. Ele a ensinava a respirar, a distribuir o peso do corpo, a transformar a força bruta em movimento fluido.
— A faca é uma extensão do seu braço, não um objeto que você segura — ele dizia, circulando-a como um lobo. — Sinta o equilíbrio. Se você errar o peso por um centímetro, você perde o ritmo. E na batalha, perder o ritmo significa perder a vida.
Wei caía com frequência. A lama do quintal manchava suas roupas, e o cansaço era uma névoa constante em seu cérebro. Mas ela nunca reclamava. Havia uma chama nela, um desejo de não ser apenas uma vítima das circunstâncias, que fascinava Bo. Ele vira muitos nobres desistirem da vida após perderem seus títulos; Wei, que nunca tivera nada além de trabalho duro, lutava como se o próprio destino devesse lhe pedir desculpas.
Certa noite, após uma sessão particularmente exaustiva, eles sentaram-se nos degraus da varanda, dividindo um pedaço de pão duro. O suor esfriava em suas testas.
— Por que você faz isso? — Wei perguntou, quebrando o silêncio. — Por que se importa se eu sei lutar ou não? Se os guardas chegarem, você poderia simplesmente fugir. Você é rápido. Poderia desaparecer nas sombras.
Bo olhou para as mãos calejadas, agora também sujas pela terra do treinamento. — Eu passei sete anos fugindo, Wei. Fugir é uma forma de morrer lentamente. Pela primeira vez em muito tempo, eu não estou apenas sobrevivendo às sombras. Eu estou... protegendo algo real. Mesmo que seja uma mentira.
Wei olhou para o perfil dele. A luz da lua suavizava a dureza de seu rosto, revelando o jovem que ele fora antes da tragédia. — Seu nome verdadeiro não é Chen, é?
O silêncio dele foi a resposta.
— Tudo bem — ela disse suavemente. — Para mim, você é Bo. O homem que me ajudou quando meu pai morreu. O resto... o resto pertence ao passado que você está tentando vingar.
A conexão entre eles intensificou-se nas semanas seguintes. O mercado notava uma mudança. Li Wei parecia mais ereta, seus movimentos mais precisos. O "Sr. Wei" era agora um pilar de força na Travessa. Eles começaram a agir como um casal verdadeiro por puro instinto — ele antecipava as necessidades dela na loja, ela cuidava das feridas dele após o treinamento. O amor, embora não dito, estava sendo forjado no calor do trabalho e no frio do medo.
Entretanto, a paz era uma farsa maior que o casamento deles.
A guerra finalmente rompeu as barragens da distância. O exército inimigo, as hordas do Norte, haviam rompido a Grande Muralha. A notícia chegou à capital não por mensageiros reais, mas pelo som dos sinos de alarme e pelo cheiro de fumaça que vinha das aldeias vizinhas.
O pânico se instalou. A capital, antes um baluarte de segurança, tornou-se uma armadilha. Os preços dispararam, e os portões foram fechados. E, com a invasão, veio o decreto final: mobilização total. Não havia mais exceções para maridos, únicos filhos ou doentes. Cada homem que pudesse segurar uma espada deveria se apresentar.
E desta vez, o oficial que visitou o açougue não era um burocrata preguiçoso. Era um general de alto escalão, recrutando pessoalmente para as linhas de frente.
Quando ele entrou na loja de Wei, o ar pareceu congelar. Bo estava nos fundos, mas seu instinto de nobre o avisou. Ele reconheceu a insígnia no peito do homem: o General Fang, o homem que assinou a ordem de execução de sua família.
Wei sentiu a mudança em Bo imediatamente. Ele ficou tenso como uma corda de arco prestes a se romper. Ela se colocou entre ele e o general, a faca de açougueiro na mão, fingindo estar limpando o balcão.
— O império exige o seu marido, mulher — o General Fang disse, sua voz como o som de pedras sendo esmagadas. — A pátria está sangrando. Não há lugar para açougueiros na retaguarda.
— Meu marido está doente — Wei mentiu, sua voz firme, apesar do coração martelando contra as costelas. — Ele não serve para a sua guerra.
O General Fang riu, um som cruel. — Se ele pode carregar essas peças de carne, ele pode carregar um escudo. Tragam-no.
Bo saiu das sombras. Ele sabia que o confronto era inevitável. Se ele resistisse ali, Wei seria morta por associação. Se ele fosse, ele teria a chance de se aproximar de Fang e, quem sabe, de sua vingança. Mas o pensamento de deixar Wei sozinha em uma cidade prestes a ser sitiada o dilacerava.
— Eu irei — disse Bo, sua voz ressoando com uma autoridade que fez o General Fang arquear as sobrancelhas. — Mas eu exijo que minha esposa receba a proteção da guarda da cidade.
O general olhou para Bo com um interesse renovado. — Você fala como um soldado, não como um vendedor de tripas. Talvez haja utilidade para você, afinal.
O adeus foi rápido e dilacerante. No caos da mobilização, não houve tempo para confissões ou promessas longas. Nos fundos da loja, enquanto os soldados esperavam lá fora, Bo segurou o rosto de Wei com as mãos trêmulas.
— Sobreviva — ele sussurrou. — Use o que eu te ensinei. Não confie em ninguém. Se a cidade cair, fuja para as montanhas do Leste. Eu te encontrarei lá.
— Você vai voltar — Wei não perguntou, ela ordenou. Lágrimas escorriam pelo seu rosto manchado de fuligem. — Você é meu marido, Bo. Você me deve uma vida de verdade.
Ele a beijou — um toque desesperado, com gosto de sal e medo — e então se virou, seguindo os soldados para o destino que o aguardava nas planícies de sangue.
Wei ficou parada na porta do açougue, observando a silhueta dele desaparecer no mar de armaduras e lanças. A loja parecia subitamente vazia, o cheiro de sangue agora parecendo um presságio de morte, não de sustento.
Ela olhou para o cepo. Olhou para a sua faca de açougueira, a lâmina pesada que Bo a ensinara a respeitar.
A guerra a separara do homem que ela aprendera a amar sob uma mentira. Mas se o destino achava que ela ficaria sentada esperando, ele não conhecia a filha de um açougueiro.
Wei retirou o avental de couro. Ela pegou suas facas mais afiadas, embrulhou-as em panos de linho e vestiu as roupas de couro que usara no treinamento. Se o mundo queria guerra, ela daria guerra. Ela não seria apenas uma esposa esperando na retaguarda; ela seria a lâmina que cortaria o caminho até ele.
Justiça. Amor. Vingança.
As motivações de Bo e Wei agora eram as mesmas. E enquanto ele marchava para recuperar seu título nas cinzas da batalha, ela marchava para o campo de massacre, guiada pelo fio da navalha e pela esperança indestrutível do reincontro.
Fale com o autor