Do Escarlate ao Preto
1 Eu sou uma Ilha
Parece que a cada dia que se passa, tudo fica muito mais longe do que já foi um dia
Em pensar que em um passado não tão distante essa menina sonhava com um futuro melhor
Bem, ela continua sonhando, mas, sonhando apenas.
Não é como se algum dia essas divagações do futuro realmente viessem a acontecer, se é que algum dia já tiveram chance de tal.
A verdade é que cada noite parece-se mais acolhedora, e cada dia mais vazio.
Vazio. É o que ela sente sempre que passa por entre um amontoado de gente.
Onde estou? Ela pergunta, mas é o silencio que a responde.
Sua mente divaga, em meio as sensações. Solidão.
Eu fui abandonada?
Essa sempre foi a pergunta que ela se fazia sempre que se via sem sua mãe do seu lado em um supermercado, ou então quando passeavam pelo shopping e num momento de distração se afasta minimamente da mãe, e quando se da conta, não a vê mais.
No entanto, sua mãe sempre ia a sua busca.
Mas neste momento a pequena garota, agora não tão mais pequena, ainda se faz a mesma pergunta. Onde estou? Eu fui abandonada?
Sentimentos sempre foram algo difícil para ela controlar. Antes que visse, já haviam lágrimas escorrendo de seus olhos. Uma mistura de sentimentos emotivos e indecisos.
Por que ela sempre tinha suas dúvidas nos sentimentos de outras pessoas em relação em si? Ela mesma se perguntava.
A agora não tão pequena garota vivia em seu mundo na escala de cinza, não tão colorido, mas o suficiente para faze-la se perguntar do que as pessoas falavam.
Já se fora a época que confiava cegamente.
Quando era mais nova, minha cor preferida era o rosa, dizia ela com certa melancolia, mas então me apaixonei pelo vermelho, não, não o simples vermelho, mas sim o escarlate, a cor do sangue, um vermelho amarronzado. Para ela, as mudanças de gosto era como mudar sua personalidade, ela gostava de rosa, pois queria ser perfeita. Mas descobriu que jamais seria algo que não era. Depois começou a gostar da cor do sangue, pois era a cor que ela almejava, a cor do amor, da paixão. E também uma das cores da vida, e, consequentemente, da morte. E de súbito, com o passar de minha criancice para adolescência, notei que meus sonhos nunca chegariam a realidade, tudo que almejei, por mais perto que estivesse, se esvaia ao nada. A solidão se apossou de mim, pensamentos conturbados e poucas falas, essa sou eu. Minha cor preferida é o preto, e é até hoje. Não tem haver muito com meus gostos musicais, apenas aparentemente. Na realidade, o rock só transmite o que minha alma sente e a boca não fala. Hoje penso, repenso, o que eu sou e o que eu fui. As cores sempre estiveram em qualquer lugar que eu olhasse, e ainda hoje tenho o desejo que assola minha alma. Não que eu fosse uma pessoa depressiva, não, apenas tenho pequenos momentos de melancolias cronicas. Bom, é como se toda a tristeza reprimida, aquela que não deixo transparecer, viessem a tona no baque mais forte que desaba as defesas que construi. As vezes me sinto fechada, e que ninguém me entende de verdade, ou no máximo, apenas metade de mim.
Tenho meu lado amigável, mas também o odiável. Eu sei disso, já me odeio o suficiente para saber. Não sou alguém admirável, apenas uma alma miserável que não faz nada realmente produtível na vida, apenas vivo um dia após o outro, esperando, apenas esperando algo acontecer, e que tudo o que gastei desse mundo para coexistir valesse a pena. Talvez minha existência realmente tenha um sentido, já que estou aqui, não?
Então eu seguirei em frente, sem me deixar levar por meus maiores medos infantis. Eu já o fiz antes, e o hoje é o que eu mais pago. Vermelho, vermelho escarlate, cor da paixão, do sangue, do coração, e da morte. Eu deixei essa fase sem cumprir meu sonho. Fui covarde, seguindo meus medos infantis. Hoje eu vejo, as vezes temos que nos deixar levar pelas oportunidades que a vida nos da. Você vê, eu não me deixei levar, e o que sai de mim? Simples histórias melancólicas, e retratos vazios. Procuro a perfeição em tudo que é oco por dentro.
Uma de minhas consequências? Um perfeccionismo excêntrico. Não aceito fazer nada, do que algo belo que me de orgulho. Orgulho, é o que quero que sintam de mim. Podem dizer, eu não ligo, que faço tudo para chamar atenção, idai? Eu quero chamar a atenção, mas, não a sua. Não a dos colegas de escola, não dos professores, não. Quero que aquela pessoa me note. E quero que 'eles' sintam orgulho de mim. Quero sentir que minha existência teve algum sentido.
E com isso, vivo um dia, apenas um dia após o outro. E só.
Pois nada é eterno.
Nem a minha paz momentânea.
Nem o sentimento que carrego no peito.
Nem minha solidão.
Nem a cor preta.
Muito menos essa noite de abril, com a luz prateada da lua iluminando minha janela. E o ventinho frio que passa por entre as cortinas e bate em meu rosto, me fazendo estremecer.
Não, hoje eu vejo. As noites são mais lentas, e os dias mais rápidos. E é melhor assim.
Hoje minha boca não e mais tão calada, mas meus pensamentos são mais barulhentos do que já foram um dia.
Pois nada do que penso, posso realmente dizer. Sobram palavras, e falta-se coragem.
Atualmente, eu sou uma ilha.
Uma ilha procurando o SEU porto seguro. Fure minha bahia, e traga-me paz.
Pois até agora, só vejo preto, e a luz prata acinzentada a minha frente.
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