DmC 5: Stairway To My Heaven
27 7º Dia, Pelos Olhos de Dante: O Imperdoável.
Notas iniciais
Eu já estava em plenas condições de me levantar e sair andando, mas eu não estava com coragem de sair da cama.
Eu olhava pro teto, desanimado, pensando em mil coisas e no que poderia ter sido ou acontecido. Me arrependi e repensei tanta coisa que quase acreditei estar num confessionário de igreja tomando sermão de um padre carola... Que sensação escrota.
A tal enfermeira-Anjo surgiu no quarto com uma cara de poucos amigos. Já vi que eu ia escutar merda...
– Como se sente?
–Meio quebrado. – respondi tentando parecer legal. – Tanto por fora como por dentro. Literalmente.
– Compreensível. Vai falar com Maria ainda hoje?
– Não sei. Pra falar a verdade, nem sei se tenho colhões de olhar pra ela agora.
– Isso não se trata de ter coragem ou não, Dante. –ela me olhou direto nos olhos; fiquei desconcertado. – Se trata de você ir até ela e dar-lhe apoio; carinho... Ela precisa de sua presença mais do que imagina.
Fiquei sem argumentos depois do que ela me disse. Eu sentia como se houvesse uma revoada de mariposas no estômago; eu estava ansioso e num cagaço medonho. E sob o olhar crítico da enfermeira-Anjo, eu resolvi me levantar – a contragosto-, vesti uma camiseta e fui-me na busca de Mada. Mas eu nem fazia idéia de onde ela poderia estar numa hora daquelas...
–... Ela está na varanda, Dante. E boa sorte.
Não consegui esconder o risinho sarcástico. Ela não me deixaria em paz enquanto eu não falasse com Mada. Mas eu não sabia por onde começar, como começar e o que fazer. Caralho, tava complicado!
Meus passos até a varanda estavam cada vez mais pesados. Eu não sentia vontade de ir até Mada; eu não queria ver a expressão de dor que devia estar sustentando. Não queria ver Mada chorar. Não queria vê-la me julgando pelo que fiz à irmã dela. Eu não queria nada do jeito que estava.
Abri a porta com o sangue gelado. Olhei pra rua, Tentei evitar olhar. Eu estava com os joelhos em frangalhos.
–... E aí.
– Descarta os rodeios. – ela foi seca e cruel.
– Nem sei como explicar sem me foder no processo.
Eu senti minhas mãos ficarem suadas. Lá estava eu mais uma vez no cagaço. Isso tá ficando recorrente demais, que caralho viu! Eu não era assim; tava começando a me incomodar...
Senti os olhos clarinhos de Mada me encarando, mas eu tava temeroso de encará-la. Eu sabia que não aguentaria muito, eu falaria alguma merda gigante o suficiente pra foder com o que restava entre a gente. Fui contando até cem e respirei fundo. Mas eu ainda tava nervoso...
– Começa pela merda de idéia que você teve. – Ela foi mudando a expressão a cada palavra. – Por quê?
– Porra, Mada...! Você acha que eu curti fazer o que eu fiz? Se eu pudesse, eu teria feito algo menos...
–... Algo menos idiota? Algo que não fosse me ofender? Você tem noção de como eu me senti quando eu descobri essa papagaiada toda?! Você não pensou nos meus sentimentos!!! Você não pensou na gente!!!
– Pera lá; não chafurda na merda o que a gente tem um pelo outro! – As palavras dela me deixaram descompensado; eu não aguentava mais manter o autocontrole. – Tudo que fiz desde que assumi que to a fim de você foi SÓ PENSAR EM VOCÊ! E a coisa toda ficou ainda mais poderosa quando você me contou que eu iria ser pai!
– Disse muito bem; “iria”! – Ai caralho, ela começou a chorar... Aí fode meu psicológico... – Mas sua vingancinha custou a vida do nosso filho! E tudo que tem aqui agora é um vazio; um buraco; uma cova sem defunto!!!
E lá veio a primeira lapada na cara. O aborto.
Mada tinha o dom de acabar comigo; puta merda... Me senti um bosta ouvindo o que ela dizia, e pior ainda vendo aquela expressão doída no rosto dela, com as lágrimas caindo. Tentei respirar fundo de novo, mas eu já tava só o pó logo de cara. E ela deve ter percebido.
– Não fala assim... Fiquei muito louco quando eu soube que a gente tinha perdido nosso filho... Você não tem noção do quanto essa criança significava pra mim...
– Se você fosse menos imprudente, não teria feito o que fez!!! Agora tenho de amargar o inferno de saber que minha vida foi um mar de lama do fio ao pavio desde o dia em que trombei com você!!!
E veio a segunda lapada: me chamou de estorvo do pior jeito do mundo. Cacete, antes ela tivesse me chamado de filho da puta; pelo menos eu já estava acostumado... Eu sei o quanto fiquei perdido depois que assumi que tava apaixonado, virei um molecão desavisado... Isso por que até ontem eu era um comelão matador de primeira categoria no submundo! Mas toda minha pose foi por água abaixo com todas aquelas acusações... E justamente são acusações da Mada... Foda isso.
Eu estava sentindo meia dúzia de lágrimas querendo brotar dos meus olhos; eu não iria fraquejar na frente dela justo naquela hora. Busquei ar nos pulmões e também busquei auxílio no meu amuleto vermelho, onde eu depositava as poucas lembranças sobre minha mãe. Eu o agarrei com toda firmeza, tentei buscar força e defesa para as palavras duras que caíram na minha cabeça. Fui idiota, nunca neguei, mas ela pegou pesado. E ela percebeu o que tinha dito, arregalando os mesmos olhos claros avermelhados de tanto chorar.
–... Você tá falando sério? Puta que pariu Mada... Sério mesmo?
– Não, espera...! E-eu...!
– Não fala nada. – Fiz um gesto pra ela calar a boca; tava demais pra aguentar. – Falando sério; se fui mesmo um inferno pra você, pelo visto continuo talentoso na arte de foder geral. Heh... Se eu soubesse que você só seria mais uma que eu comi até descadeirar, não teria baixado minha guarda. Caralho, como eu fui burro...
Engoli em seco, respirei fundo e me levantei do banco. Algumas lágrimas estavam teimando em cair, então fui macho o suficiente pra não olhar pra trás e não deixar que ela visse. Não queria me dar ao luxo de parecer bundão. Já tava demais aguentar aquele desaforo todo, eu não tinha a menor obrigação de insistir na derrota. Não tenho vocação pra masoquista, se foder...
Abri a porta, e sem dizer uma única palavra, adentrei a mansão e fui sem vontade até o quarto. Na verdade eu nem sabia o porque eu estava indo pro quarto; apenas fui onde as minhas pernas miraram – se é que isso é possível. De repente fiquei surdo, não sentia o peso de meu corpo. Qualquer presença não era mais sentida; eu só conseguia escutar o som do silêncio e um cheiro escroto de sangue e tripas pútridas. Eu já sabia pra onde tava sendo levado.
O Limbo.
Lugar comum; ambiente familiar. Um buraco no nada com a coisa nenhuma; um antro amontoado de criaturas fodidas e deturpadas. Praticamente um Inferno particular pra quem cuja desgraça já é de casa.
Invoquei a Rebellion já ciente que viria uma manada de capetas loucos pra me capturar e me comerem vivo, porém não adotei uma postura de defesa. Eu não tinha ânimo pra “brincar” com aqueles merdinhas; só queria sair de lá o mais rápido que pudesse. Eu não tava no tesão de matar nada nem ninguém.
Mas minhas capacidades me traíam; eu sempre mato aquilo que tenta me matar. É como se eu fosse um fantoche... Alguém puxava uma cordinha e me fazia estourar os demônios e espíritos obsessores, fazia-os virar carne moída com aquele fedor de miasma espiritual eclodindo feito gêiser de seus restos distorcidos.
Eu nem sabia há quanto tempo eu tava matando, eu só sabia que tinha matado mais de cem daqueles bichos fedidos. Eu tava com o corpo cansado; meus músculos berravam de dor, mas a mente tava vazia, minha consciência tava leve. De repente, um demônio gigante apareceu e todos pararam de avançar pra cima de mim. Um capetinha menor apontou pra mim, supondo-se que ele olhava pro capetão maior que chegou (pois aquele merda não tinha olhos, puta que pariu!); tentando avisar algo. O demônio grande caminhou até minha direção, todo distorcido e manco, e rosnando com um som gutural que nunca vou saber explicar. Ele olhou bem pra mim e apenas disse: “Daimone Lacrimae... Vade Retro.”. Eu não fazia idéia do que significava aquilo; porém todos os demônios sumiram de uma só vez, e voltei para a mansão. Mas por que...?
Pisquei algumas vezes pra me certificar de que tinha mesmo voltado pro mundo real, e olhei pros lados. Era mesmo a mansão; haviam me devolvido do Limbo. Olhei pra baixo e vi Mada, deitada no chão, com lágrimas encharcando o rosto inchado de tanto chorar. Uma expressão tão sofrida que fez minha garganta arder numa vontade absurda de chorar. Eu queria morrer. Eu queria minha mãe.
Foi então que me dei conta.
Os demônios se recusaram a continuar o ataque por que eu estava chorando. Para eles, demônios não choram. Por isso me expulsaram do Limbo... Demônios de verdade não choram.
–-------------DmC--------------
Carreguei Mada até meu quarto, acomodei ela e sentei na poltrona detonada ao lado da cama. Comecei a pensar no por que ela tava no mezanino, caída, com a cara detonada de tanto chorar. Será que ela veio atrás de mim? Eu tinha saído sem rumo, e larguei ela no vácuo. Só pode ter sido isso. Ela deve ter tentado se explicar, pedir desculpas, sei lá... E no fim das contas, ela não me achou. Eu tava naquela bosta de lugar.
Vai saber quantas horas se passaram, e por quanto tempo ela me procurou até se cansar... E o quanto ela deve ter chorado, achando que eu tinha dado um pé na bunda dela... Só de ver aquele rostinho delicado todo cheio de marcas de sofrimento já me ardia o peito, eu me sentia mal pra caralho. Eu amo demais essa menina pra deixa-la passando por isso. É castigo demais.
Olhar pra ela estava me deixando mais calmo. E foi então que o cansaço bateu forte; eu realmente estava exausto da loucura que se sucedeu no Limbo. Capotei num sono sem sonhos ou pesadelos. Apenas o vazio de um sono pesado e sem expectativas de descanso.
Acordei de forma preguiçosa, onde a visão demorou pra criar nitidez. O meu corpo parecia pesar toneladas, a musculatura toda dura e dolorida; se mexer era motivo pra gemidos sofridos. Olhei pra Mada, que estava pálida, paralisada, me encarava como se tivesse visto um morto ou como se tivesse sido pega fazendo alguma cagada brava. Ela tinha olhos grandes e brilhantes, tão maravilhosos que eu nem fazia idéia de quão lindos eles eram quando vistos por completo. Era minha Mada me fascinando cada vez mais.
–... Oi.
– Só dorme no chão quem amanhece bêbado. – Eu fui criticista sem dó. Ela ficou assustada.
– Desculpe.
– Não preciso de desculpas.
– Mas quero pedir desculpas mesmo assim. – Ela baixou a cabeça, toda desanimada. Tava mesmo se sentindo mal. – Fui uma estúpida; falei merda.
– A burguesinha falando bobagem? Senhoras e senhores, a mocinha agora é boca-suja!
– Pode ironizar e debochar, eu não ligo.
– Eu notei que você não liga pra nada mesmo.
– Fui infantil, não pensei no que você sentia... – Ela ficou com as bochechas vermelhas, ela ia chorar de novo. – Pisei em você, fui muito injusta; admito meu erro. Você me perdoa?
– Você fala como se fosse fácil. –Levantei da poltrona, me espreguicei. A coluna estalou feio. – Você não faz idéia da força que fiz pra não chorar na sua frente na hora que falou aquele balde de bosta na minha cara.
– Sei que não é fácil, mas você acha que é fácil pra mim? Vivenciar tudo que aconteceu e não desabar? Dante, eu não sou acostumada a esse tipo de bagunça! Mas pelo menos eu tenho a decência de reconhecer que cometi um erro, e estou aqui te pedindo perdão...
– Você tá me dizendo que eu não admito meus erros? – Não resisti, eu tinha que ser cínico.
– Não foi isso que eu quis dizer...!
– Mas foi isso que escutei! –Encarei Mada direto nos olhos, pois eu sabia que ela iria ficar sem argumentos quando eu fazia isso. – Minha vida é sim essa bagunça, e nunca me envolvi com ninguém justamente por isso! Por ser essa porra de bagunça! Você é a primeira garota que me permito me envolver, saca? Nunca foi fácil pra eu aceitar alguém além de mim mesmo, pois tudo que toco vira destruição! E quando você apareceu e fez essa mágica toda, eu... Eu me entreguei, manja? Decidi que ia ser você! E pra coroar geral você veio e disse que eu ia ser pai... Puta merda, eu pirei de alegria! Eu ia ter um filho, ia ser o herói da vida de um pirralhinho, eu ia ser a família de alguém! Tem noção?!? Eu não tenho mais meus pais; e eu ia ser pai! Ia ser foda pra caralho!!!
–... Você... Queria ser pai...? – Bingo. Ela sentiu a bronca e os olhos verdes marejaram.
– Ah não, pode parando! – Eu não aguentaria vê-la chorando, segurei seu rosto. – Não chora, por favor! Você não tem culpa de ter perdido nosso filho; na verdade a única culpada é a louca da sua irmã. Não fica se martirizando, a gente já passou por merda demais. Tá certo que um cagou na cabeça do outro, mas agora já chega.
Mada com muito esforço se levantou da cama, e mancou feio. O tornozelo tava torcido; fiquei preocupado... Porém, ela segurou a dor entre os dentes e me abraçou forte, enlaçando aqueles bracinhos magros ao redor do meu pescoço. Correspondi aquele abraço sincero, apaixonado, do qual eu sentia tanta falta. Sentir o coração dela batendo forte perto do meu peito era a melhor coisa que eu sentia na vida.
Eu a amava demais. Ela era minha bonitinha, minha mulher, minha Mada. Não tinha outra.
– Te amar dá trabalho...
– Mas eu te amo mesmo você dando trabalho também! – ela riu em meio às lágrimas. Era bom vê-la assim.
– Hehe, se não fosse assim acho que não teria graça, né não?
– Tá me chamando de tediosa!?
– Nem, longe de mim dizer isso! Hahahahaha! Mas que você é a melhor adrenalina na minha vida isso você é, bonitinha...
– Falando nisso... – ela olhou nos meus olhos, com uma expressão curiosa. – O que são aquela espada doida e aquelas armas? Por onde você andou?
–... Tem certeza de que quer saber disso?
– Já que sou sua namorada, mereço compartilhar alguns segredos... – ela fez uma expressão perspicaz.
– Bom, eu mato demônios.
– Mata demônios?
– Sim. – confirmei com a expressão limpa, sem rodeios.
– Eles vivem entre nós?
– Não, num lugar meio doido; o Limbo. Vez ou outra escapam pro nosso lado, mas não duram muito.
– E que tipo de demônios você mata por lá?
– Demônios tipo o seu pai.
–... O quê?
Ela ficou perplexa. Acho que devo explicações...
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