Diário de uma paranormal
17 Você consegue guardar um segredo?
Notas iniciais
Quando penso que a minha vida voltaria ao normal com a morte de Bygron algo aparece e diz: Lol, nem tão cedo. Algo, não. Alguém. Aposto que você deve está me achando insensível com a volta da minha irmã. Mas... bem, eu nem esperava que ela voltaria mais. Na minha família Emma já havia sido enterrada. Voltar como um receptáculo de demônio foi algo bem chocante para qualquer um que tivesse um pouco de bom senso. Foi horrível ver que se ela não tivesse desaparecido, Emma podia ter crescido como uma garota comum da sua idade.
A sala da casa de Liester estava escura, iluminada só com as luzes do lado de fora. Já estava muito tarde e todos já estavam na cama. Menos Amber e o namorado dela. Checar o futuro imediato dos seus amigos, não quer dizer stalkiar. Só ter certeza que estão vivos e bem.
Fechei os olhos novamente do modo que sempre faço quando quero ver o futuro. O que eu queria ver era bem especifico, o que influenciava as visões de vez enquanto. Visões eram para ser algo natural.
Atrás das minhas pálpebras vislumbrei uma pequena cena. Um carro balançando de um lado a outro por causa das estradas esburacadas. Um motorista piscando para não dormir ao volante, sua acompanhante dormia tranquilamente ao seu lado. Um anjo dormia encolhido no banco de trás, parecendo um filho do casal. Esse comentário era meio estranho, já que Miguel era mais velho que Amber e – incrivelmente — mais velho também que Liester. Eles estavam a salvo.
Ouvi um barulho de alguma coisa caindo e um xingamento.
–Quem está aí? – perguntei a coisa mais idiota do mundo. Com as minhas experiências de vida, alguém que surge do escuro no meio do nada não é um bom sinal. Minhas mãos tatearam procurando uma arma em potencial. Minha audição que deveria ter apurado, só me deixava mais cega no meio disso tudo, por meus ouvidos estarem zunindo.
Me escondi atrás do sofá, esperando novos barulhos de passos. Preparei meus conhecimentos de defesa pessoal. Que quer dizer...nenhum. Minha estratégia era pular encima e bater que nem uma maluca. Ah, gritar também seria útil. Útil, porém humilhante. Só porque não tenho poderes fodasticos, isso não quer dizer que eu tenha que ser uma perdedora.
Parar de tagarelar na minha mente também seria muito útil.
Num piscar de olhos o par de pés incrivelmente silenciosos estava perto de mim. Percebo que algo havia mudado. O breu parecia ocupar todo o ambiente não deixando espaço para um feixe de luz ou reflexo do lado de fora. Talvez fosse obra do pânico me deixando mais lenta e burra. Me tornando uma presa mais fácil.
Ai meu Deus, ai meu Deus. Os pés foram engolidos pela escuridão. E se for algo sobrenatural que está aqui?
Minha respiração se tornou irregular e barulhenta. Merda. Merda. Merda. O que eu estou fazendo?
Uma mão enorme tapou a minha boca e me levantou do chão sem nenhuma gentileza. Algo bem mais alto que eu, segurou o meu rosto para que o encarasse. Mas mesmo com a distância muito próxima ainda não era muito fácil de enxergar. Aos poucos meus olhos se acostumaram.
–Se tirar a mão da sua boca, você ainda vai gritar?
Balancei a cabeça, sem conseguir responder com a boca tampada.
–Ah, é. – ele disse percebendo. E me soltou.
Meus calcanhares tocaram o chão. Massageei o pé, doía ficar de ponta de pé por muito tempo.
–Harry! Porque você fez isso? Eu tomei um susto! – falei o empurrando de leve.
O loiro esperou um instante e replicou:
–Pensei que tivesse alguém aqui.
Revirei os olhos e tem alguém, eu.
–O que você tá fazendo aqui no escuro? – Harry se sentou no sofá. Fiquei sem resposta. O que eu estava fazendo aqui?
–Não consigo dormir. – pausei. – E não diga que é estranho ficar parada no escuro. Que eu já sei.
Harry abriu um sorriso e coçou os olhos, mostrando que ou acabou de acordar ou não dormiu. Ele ficou observando com os seus olhos irritantes azuis esperando que eu sentasse ao lado dele. Coloquei a mão na cintura, estou muito confortável em pé.
–É sobre a sua irmã, não é? Também não consegui dormir muito pensando nisso. – Mostrei que estava confusa. – Sério.
Mesmo que Harrisley — pois é, esse é o nome verdadeiro dele. Rá. – fosse muito legal, eu não esperava que se importasse tanto assim comigo e com os meus problemas. Por isso fiquei confusa.
–Como ela desapareceu? –Harry voltou a perguntar.
Olhei para ele sem nenhuma expressão. O garoto levantou os braços.
–Tudo bem, não precisa contar.
Sentei no seu lado, já sentindo que isso ia demorar.
–Eu conto. Mas não conto histórias bem, talvez você não entenda algumas coisas.
Lembrei da cena de Enrolados, quando a Rapunzel se aproxima e puxa os cabelos para longe do ouvido para escutar melhor o que iriam lhe contar.
Harry fez o mesmo. Pera, isso quer dizer que eu sou o Flynn Rider? Eu não tenho um nariz como o dele, só para constar, isso é meio ofensivo. Imaginei o Harry com o vestido da Rapunzel, porque eles se pareciam um pouco. Os dois eram galegos e tal. Se eu parasse para pensar com certeza teriam várias semelhanças.
–Ah, sim. Contar como Emma desapareceu. Hm, como eu começo...
Saímos do colégio juntas, como sempre acontecia. Emma, eu, Becky e Amber. Era importante chegar em casa logo, já que as nuvens estavam pesadas. Dava até para sentir o cheiro da chuva que estava chegando.
–Como se sente o cheiro da chuva? –Harry interrompeu.
Pensei um pouco. Tinha um cheiro sim, eu só não sei explicar.
–Eu não faço ideia. É uma metáfora, já ouviu falar?
O loiro levantou uma sobrancelha.
–Continue....
As primeiras gotas já caiam do céu. E nós tentávamos nos proteger com as bolsas sobre as cabeças. Corremos de lojinha em lojinha seguindo o caminho para casa. Chegamos à área industrial, onde era cheio de galpões. A parte boa era que não precisávamos correr porque os tetos cobriam boa parte da calçada também. A parte ruim é que era meio vazia. Porém como chovia torrencialmente ninguém estaria lá, de qualquer forma.
Conversávamos animadamente sobre qualquer inutilidade, provavelmente sobre fofocas do colégio. Sempre foi muito interessante à vida das pessoas da nossa turma, principalmente os barracos...
–Hm, só pra saber você vai ficar contando as fofocas das pessoas ou vai me contar o que importa? – fui interrompida novamente.
Mostrei a língua.
–É só para ilustrar.
Sua expressão se mostrava irônica.
–Sei...E você acabou se distraindo.
Encarei-o por alguns segundos.
–Continuando....
Estávamos muito distraídas para prestar atenção nas pessoas que corriam pela chuva. Nem todo mundo teve a nossa brilhante ideia.
–E daí? – interromperam novamente.
–Cala a boca e ouve. Quando for alguma pergunta valida me pare. Mas só se for uma que preste.
Na verdade, não havia nenhum motivo para prestar atenção neles. Não me olhe assim, tem um motivo de eu estar contando isso.
–Que nem as brigas no colégio, não é?
–Ei! – um dos ensopados chamou.
Emma virou o rosto para olhar. Mas rapidamente fingiu não escutar. Era tarde demais, o cara já estava se aproximando. Dei um tapa na cabeça dela, com raiva. Amber me cutucou, mostrando que os outros ensopados estavam junto com ele.
–Merda, o que é isso? — perguntei para as minhas duas amigas.
–Uma gangue? – Amber palpitou.
–Sequestradores? – Becky deu a sua opinião.
Lembro de ter rolado os olhos.
–Só você é a rica aqui.
Sua expressão mudou de preocupação para alarmada.
–Eles vão me sequestrar? Não! Liga pra policia. Meus pais vão ficar preocupados, e se o meu pai tiver um infarto...
Bati em seu braço, o que a fez urrar.
–Fala mais alto. – sussurrei ironicamente.
Apertamos o passo tentando encontrar alguém que pudéssemos nos ajudar. Estávamos próximos do próximo quarteirão, começamos a correr. Quando estávamos atravessando a rua um carro veio com toda a velocidade e quase nos atropelou. O que fez que nós quatro nos separarmos.
Cada uma ficou em um dos lados do cruzamento. Na minha diagonal, Emma que ainda estava se recuperando do susto e deixou a mochila no chão por alguns segundos. Nesse tempo uma garota — que devia ser um pouco mais velha que a gente, naquela época — com casaco de capuz, abaixou o capuz e disse algo para Emma. Minha irmã pulou com o susto. Becky, Amber e eu tentamos correr até ela, mas fomos seguradas. Vimos os olhos da mulher tornarem-se pretos. O um dos seus parceiros de olhos pretos me balançava, tentando fazer algo.
–Porque nelas não funciona? – o cara que segurava Becky perguntou.
Amber arregalou os olhos e trocou um olhar com Becky. Desde aquele dia percebi que elas escondiam algo.
–O que era? – indagou o garoto.
–O que? – minha testa franziu.
Harry revirou os olhos. Que ousadia!
–O segredo, dã!
Levantei a sobrancelha. Ele é meio burro.
–Que eu sou uma paranormal, dã!
Sua expressão me dizia algo como: “ Serio!? Esperava mais”.
Enfim, os demônios tentavam nos possuir, porém havia algo diferente em nós. Os olhos pretos não entendiam. Achar algum paranormal era algo muito raro. Imagine três. Quando Becky percebeu a falta de planos deles — porque o seu plano A sempre funcionava — ela chutou o tornozelo do cara que a segurava. A surpresa foi o principal para não estarmos mortas. Amber a imitou e logo depois fiz o mesmo. Conseguimos nos soltar rapidamente, as duas deram um golpe nos caras. Wtf?
–Emma! –chamei desesperada. Olhei em volta a procurando. Amber me puxou pelo braço.
–Vamos!
Vi os cabelos curtos da minha irmã e ela virando para me olhar.
–Espere! A Emma! Falta ela!
Amber olhou para os lados e perguntou a Becky:
–Cadê aquela mulher?! Isso é muito estranho.
Becky concordou e disse que não tínhamos muito tempo.
–Vamos! – Amber me arrastou.
Naquele momento fiquei tão desesperada, parecia aqueles filmes que ninguém te ouviam. Porque elas não estavam ajudando a Emma? Não fazia nenhum sentido, elas nunca se esqueceriam da Emma no meio disso tudo.
–Emma! Emma!
Ela abriu um sorriso de longe, entrando em uma minivan. Seus olhos estavam totalmente negros. Na hora pensei que fosse minha cabeça me pregando uma peça, porque eu não fazia ideia do que tinha acontecido com ela. Ninguém havia me contado que esses lances de demônios, paranormais e anjos eram reais. Na delegacia quando fomos prestar queixa, falei que seus olhos estavam pretos e Amber aconselhou a não contar esse detalhe e me convenceu que foi somente um sequestro...
Parei de contar deixando o final da história no ar.Sinto que Harry queria me dizer algo porém me deixou pensar um pouco.
–O que você queria me dizer, mas desistiu?
O loiro ficou surpreso por eu ter percebido.
–Nada de importante.
Ficamos em silêncio, eu conseguia sentir que ele queria falar algo, mas simplesmente não fez.
–To percebendo que você vai me contar. Eu ainda quero saber, viu? – dei uma pausa longa – Harry, queria te contar uma coisa. Não conte isso para ninguém, é serio. Se você contar...antes que eu morra de vergonha, vou te esganar.
Ele somente esboçou um sorriso e esperou que continuasse.
–Hm, okay. Estou confiando em você, não me decepcione!
A última palavra deixou o meu amigo inquieto. Ele riu nervosamente.
–Nossa me sinto uma pessoa muito confiável.
–Tanto faz, sinto que algo está por vir e que é importante te contar isso.
Antes que Harry fizesse milhares de perguntas, respondi dizendo que era pressentimento de vidente.
–Ah, claro. – ele disse fingindo que entendia. – Mas o que você quer me contar?
–Primeiro quero que me escute até o final, okay?
Infelizmente Harry não tinha muita paciência.
–Okay. – sem nem mesmo respirar continuou. – O que quer dizer?
Ironicamente fiquei irritada com o tom de voz dele comigo. Era exatamente o que eu fazia com as pessoas, então percebi que não tenho esse direito.
–Isso é tão irritante, não saber o que vai acontecer –desabafei -Eu devia saber, sou uma vidente! Como odeio isso....
O olhar dele era de solidariedade. Consigo sentir que no fundo dele, ele já sentiu assim.
–Todo mundo – falou a mim, como se lesse pensamentos. — já sentiu assim.
Uma frase simples e nem um pouco especial, porém o modo que Harry dizia era como confidenciasse um segredo. Consegui ler o que queria dizer: “Até eu, que sou eu, já me senti assim”. Repeti a minha interpretação em voz alta.
–Parece que você me conhece bem.
O garoto sorriu sendo fofo. Um lado que ninguém conhecia.
Depois de um bom tempo calados e resolvi para de enrolar.
–Acho que escutei algo lá fora... – Harry disse olhando para a janela. Lá fora estava igual.
–Deve ter sido impressão – falei e emendei. – Liester me beijou.
Harry piscou e abriu a boca para dizer algo, porém alguém respondeu antes.
–O que!? – Amber falou entrando pela porta.
O meu amigo tocou no meu braço e nos tornamos invisíveis.
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