Notas iniciais
Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Eu quero escrever”, eu dizia. “Então sente e escreva”, eles diziam. Eu apenas dava de ombros, deixava para lá, comentava sobre o tempo ou cantava uma canção. Eu já não mais tentava fazer com que entendessem que não era tão simples como eles faziam parecer.

É Natal. Eu sei que você, assim como eu, se imaginou com uma roupa quentinha e confortável, quase uma extensão do seu cobertor, com uma caneca de chocolate quente aquecendo dedos e garganta, enquanto contempla a neve calma pela janela próxima à lareira. Mas minha cidade está enfrentando um calor de 33 graus, e o que cai lá fora não é neve, mas sim uma forte pancada de chuva. O único boneco de neve que fazemos por aqui é pequeno, cúbico, e está derretendo rapidamente dentro do meu copo de suco.

Eu poderia estar à janela, observando as gotas de chuva atingindo as flores ou o suspiro aliviado da terra ao receber uma breve trégua do sol escaldante. Contudo, estou aqui, sentada à mesa, observando uma janela muito mais branca e sem graça, desprovida de qualquer cenário, também conhecida como editor de texto.

Eu deveria estar escrevendo, criando alguma história nova, desenvolvendo um roteiro interessante e revisando a gramática. Mas estou apenas tamborilando meus dedos pelo teclado como um piloto inexperiente e desesperado que tentar salvar um avião em queda apertando todos os botões possíveis. Talvez o nosso desespero seja equivalente.

Vasculhei minha mente, percorri todos os caminhos que conheço e até me aventurei pelos que desconheço, mas nada encontrei. Tirei a poeira de uma pilha de ideias antigas escondidas em um canto, mas nenhuma me pareceu promissora. Corri até a sala de novas ideias apenas para encontrá-la vazia. Observei o tempo passar enquanto meu tempo se esgotava e nenhuma nova ideia se apresentava.

Procurei palavras, conjunções, verbos, figuras de linguagem, mas não encontrei nem mesmo uma vírgula. A sala de palavras também estava vazia, como se todas estivessem aproveitando as férias de final de ano, transformando minha mente em um amontoado de salas quietas e vazias. Meus dedos aproveitaram a oportunidade e decidiram começar uma greve.

Algumas ideias surgiram, é claro. Materializaram-se em minha mente de forma brilhante e me encheram de esperança, mas quando tentei moldá-las e aprisioná-las eternamente em algumas palavras, as perdi completamente. Lembro-me de ter lido em algum lugar que escrever é uma forma de mutilação contra a ideia, uma vez que ela nunca vai ser tão perfeita no papel quanto é em nossa mente. Talvez eu nunca tenha compreendido isso plenamente até estes últimos dias. Tive ideias que, em minha cabeça, seriam suficientes para um livro particularmente grande, mas que, na prática, não preencheram meia página.

Acho que tudo se resume a períodos. Tenho períodos de intensa produtividade, quando gostaria de abandonar tudo e todos, esquecer-me das minhas responsabilidades e passar o tempo todo escrevendo, sentindo que nem mesmo assim conseguiria transcrever tudo o que estou pensando. Em outros períodos, escuros e tristes como o que vivo agora, eu não sou capaz de escrever uma linha sequer. Muitos chamam isso de bloqueio criativo, mas é muito mais do que isso. Não é como se houvesse uma parede entre você e a sua criatividade, algo sólido que lhe impede de acessar o maravilhoso mundo das ideias e que precisa ser derrubado ou contornado. Na verdade, é como se você escalasse esta parede e simplesmente não encontrasse nada do outro lado. Você alcança o topo da parede do pensamento e é recompensado com uma página de palavras desconexas e pobres, juntando-se em um roteiro muito parecido com o do último livro que você leu. Uma bela pilha de nada.

Talvez isso se deva ao fato de que minha produtividade dependa de diversos fatores combinados, tais como inspiração, motivação e tempo. Principalmente tempo. E, no momento, eu estou cansada. Adoraria ter acordado descansada e cheia de energia, como nos filmes românticos de qualquer sessão da tarde, mas o aspirador de pó despertou meu mau humor com um rugido. Algo muito comum na vida de qualquer escritor que mora com uma família obcecada por limpeza e mantém seu quarto em uma bagunça completa, como um ato sujo de rebeldia. Eles não entendem que minha inspiração chega devagar, na calada da noite, e me arranca o sono com promessas bonitas e cenários brilhantes. Não, isso não importa. O importante é que a cozinha esteja limpa antes das primeiras visitas do dia. Provavelmente acordar cedo em feriados seja crime em algum lugar do mundo. Talvez eu devesse pesquisar e passar minhas férias por lá.

E esta é a história de como eu perdi mais algumas horas de navegação inútil na internet. Meu celular tocou algumas vezes e eu levei menos de um minuto para responder cada notificação, o que não é surpreendente já que ele nunca está a mais de vinte centímetros da minha mão, cada toque desperta a parte do meu cérebro responsável por ações instantâneas. Respondi um e-mail, curti algumas fotos, li o perfil de pessoas desconhecidas que curtiram minha foto com um livro que eu nem sequer estou realmente lendo, e nem uma palavra a mais foi escrita. Gostaria que meu editor de texto tivesse um alerta sonoro, similar ao celular, que chamasse minha atenção a cada dez minutos de inércia.

Talvez eu devesse parar. Se eu simplesmente desistisse não precisaria mais ficar remoendo o fato de que não estou cumprindo minhas metas e expectativas. Neste caso, quem sabe, este sentimento de vazio causado pelas expectativas frustradas acabasse desaparecendo. Mas se eu parar, o que farei então? O emprego bem que poderia se beneficiar de um pouco mais de atenção de minha parte, ou talvez estudar algo diferente. Sempre disse que nunca pararia de estudar, mas desde que recebi meu diploma entrei em férias eternas. Perdi a paciência para com as aulas, os colegas idiotas e os professores chatos de sexta à noite. Sinto falta de aprender, mas estudar é um martírio. O principal, porém, é que nada disso faz meus olhos brilharem, ou me faz acordar no meio da noite para anotar ideias e frases aleatórias. Quero criar personagens e não planos de negócio.

Talvez eu devesse enfeitar a árvore de Natal, esquecida em algum armário qualquer e me sentir útil por alguns minutos. É só um grande pedaço de plástico branco, pois segundo minha mãe, parece neve. Para mim, parece apenas o fantasma de uma árvore, e talvez seja mesmo. Um fantasma preso eternamente à minha casa, ano após ano, tendo seus galhos torcidos e retorcidos para receber os mesmos enfeites por alguns dias. Eu adoraria guardá-la enfeitada, e então no ano que vem, só precisaria retirar o plástico, talvez com um suspense rápido e um abracadabra como em um truque barato de mágica. Mas até agora ninguém sentiu falta da árvore e, secretamente, quero dar-lhe um ano de folga também, um merecido descanso.

Talvez esta seja a resposta e eu só precise mesmo de um descanso, como aquela retorcida árvore de plástico. Não há mais barulho de chuva, então acho melhor calçar minhas botas e sair por aí, respirar o ar úmido e sentir uma brisa que não seja a do meu ventilador. Com um pouco de sorte, quando eu voltar, terei ideias para preencher ao menos algumas páginas. E se eu tiver muita sorte algum espírito bondoso já terá escrito minha obra prima por mim.

Minha mãe me pergunta onde estou indo. Está chovendo, ela diz. Estou indo buscar ideias, respondo. Ela ri, acostumada com minhas excentricidades. Não está mais chovendo, mas é nítido que se trata apenas de uma pausa temporária. Olho rapidamente para o guarda-chuva e decido deixá-lo ali mesmo. Se minhas ideias vierem com a chuva não quero que nada fique no caminho.

E quem sabe, no fundo, todos eles tenham razão. Talvez eu devesse mesmo sentar e escrever. Mas ainda tenho um longo caminho para percorrer até que eu possa me dar ao luxo de parar. Preciso mostrar às ideias onde elas podem me encontrar, e até que isso aconteça, eu ainda preciso ir atrás delas.

Depois, quem sabe, eu possa sentar e simplesmente, escrever.

Notas finais
Espero que tenham gostado da leitura! :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!