Notas iniciais
"Eu nunca repeti o meu nome tantas vezes em um dia só..."

Primavera, ano 1, dia 1.

Acordei cedinho para pegar o ônibus, rumo à Vila do Orvalho. Eram 6h10 quando, com todas as minhas coisas em minhas malas, eu parti. A viagem foi tranquila, consegui até tirar um cochilo no caminho. Quando cheguei, fui recebida por uma moça ruiva e sorridente, que se apresentou como Robin.

— Oi! Você deve ser a Amélie. Sou Robin, a carpinteira local. O prefeito Lewis me enviou para buscá-la e mostrar a você o caminho de sua nova casa. Ele está lá agora, arrumando as coisas para a sua chegada. A fazenda é logo ali, é só me seguir!

Acenei com a cabeça timidamente, agarrando as minhas pesadas bagagens para segui-la. Ela me ofereceu ajuda para levar algumas coisas e, minha nossa! Essa mulher é bem forte!

Quando chegamos à fazenda, o susto foi tão grande que eu não consegui esconder minha reação, derrubando o que eu estava segurando.

A “fazenda” era na verdade era um amplo espaço de terra mal cuidada, cheia de arvores, erva daninhas, mato por todo o lado, pedras e troncos até nas estradas para a casa do vovô.

Robin então soltou um sorriso de deboche e exclamou:

— Esta é a fazenda Blue Bird!

Voltei os meus olhos desesperados para ela, e quando nossos olhares se encontraram ela me provocou de novo, mantendo o sorriso sádico:

— O que foi?

Eu já tinha sido provocada antes, mas agora era diferente; eu estava em um lugar desconhecido, com alguém desconhecido, e as chances de eu ter sido ‘ferrada’ pelo meu avô eram grandes. Até a casa estava caindo aos pedaços!

Robin pareceu entender o meu olhar assustado e exclamou um pouco mais amigável:

— Sim... Está meio abandonada... Mas tem um solo bom por baixo de toda essa bagunça. Com um pouco de paciência, você vai conseguir limpá-la num piscar de olhos!

Continuei controlando a minha respiração para não surtar ali mesmo, quando então escuto um barulho forte vindo da entrada da cabana.

De dentro dela, saiu um senhor suado e de aparência cansada. Ele parecia animado em me ver; usava um bigode branco e simpático no rosto, com suspensórios marrons (que deviam ser moda em sua época de juventude), uma camisa desbotada verde e uma bem cuidada gravata amarela. Tudo o que consegui fazer foi sorrir de volta, escondendo o meu pânico, querendo correr de volta para o ônibus e não voltar mais.

— Ah! Eu estava esperando você! – o senhor exclamou se aproximando.

— Bem vinda! Sou Lewis, o prefeito da Vila Pelicanos!

Ele falava isso com certo orgulho na voz, levantando levemente o rosto toda vez que se apresentava a alguém. Apesar disto, parecia ser muito humilde e gentil. Ele continuou:

— Sabe, todo mundo estava perguntando de você. Não é todo dia que chega um novo morador. É algo importante!

Seu sorriso foi sumindo, e o seu olhar voltou-se para a cabana abandonada. Lewis soltou um longo suspiro e abaixou o volume da voz, como se estivesse de luto.

— Então, você está se mudando para a antiga cabana do seu avô... É uma boa casa, muito ‘rústica’.

Com o comentário de Lewis, Robin não conseguiu se conter:

— “Rústica”? É um jeito de descrevê-la... ‘Caindo aos pedaços’ pode ser um jeito melhor de descrevê-la.

Robin segura uma risada debochada após o seu comentário maldoso.

Como ela ousa? Isto é tudo o que me sobrou do meu amado avô!

Apertei os meus punhos, tinindo de raiva naquele momento.

O prefeito tentou amenizar o comentário de Robin, mas eu nem consegui dar ouvidos. Tudo o que eu queria agora era estar no conforto da minha casa, lendo uma carta amorosa onde meu avô me deixava apenas algumas palavras carinhosas e, no máximo, uns trocados de ‘herança’.

Respirei profundamente e preferi me manter calada, enquanto o prefeito continuou a falar:

— Enfim... Você deve estar cansada da longa viagem. Descanse um pouco. Amanhã você deveria explorar um pouco a cidade e se apresentar... Os moradores adorariam isto.

Ele terminou sua fala e foi andando por entre as pedras e galhos em direção à saída da fazenda, mas antes parou do lado de uma espécie de caixa grande, feita de madeira bruta.

— Ah! Quase me esqueci. Se tiver algo para vender, basta colocar nesta caixa aqui. Passarei a noite para pegar.

O que eu poderia vender daqui? Pedras? Galhos? Eu só tinha minhas roupas em mãos...

Eu estava nervosa demais para pensar em qualquer coisa agora. Acenei simpaticamente forçando o meu melhor sorriso, enquanto via ele e a “adorável” carpinteira indo embora.

Encarei a cabana por mais alguns minutos, e finalmente decidi entrar.

O cheiro de mofo e a poeira densa eram tudo o que eu conseguia notar quando eu abri a porta. Por todos os lados havia folhas secas, teia de aranha e caixas bem lacradas.

Peguei uma vassoura velha e comecei a varrer sem pressa, preparada para gritar e correr assim que visse algum rato ou aranha morando por ali. Correu tudo bem com a limpeza inicial. Fui então abrir as caixas, e soltei um grito de alegria ao ver uma TV novinha guardada em uma delas.

Uma TV! Pelo menos não estou tão longe da tecnologia assim!

Era uma daquelas TVs antigas, mas com cores, e parecia estar funcionando. Conectei-a na tomada e comecei a mudar os canais.

Quatro canais locais? É sério isso?

Joguei-me no chão soltando um murmúrio alto e decepcionado.

Voltei a abrir as outras caixas, esperançosa de achar um (porque não? Nada é impossível né) computador, ou qualquer outra coisa que me conectasse com o mundo exterior.

Encontrei apenas um tapete vermelho e empoeirado, ferramentas, e sementes que eu não soube discernir do que seria.

Levei o tapete para fora e dei algumas batidas nele, e o coloquei perto da cama. Sentei-me no chão e fiquei encarando a caixa de sementes, tentando me lembrar de algum ‘manual do fazendeiro’ que eu assisti no YouTube antes da viagem, que pudesse me ajudar com isto.

Enrolei até dar meio-dia, e resolvi ir para a cidade almoçar por lá.

Como eu não tinha nenhum outro meio de me locomover, fui andando pelas estradas de terra até encontrar os resquícios da pequena civilização. O primeiro estabelecimento que eu vi, foi um pequeno mercado com uma grande placa de madeira entalhada as letras bem visíveis “PIERRE”. Assim que entrei, senti o cheiro de grama e terra, encontrei vários tipos de sementes nas prateleiras (algo incomum nos mercados das cidades urbanas) e fui direto ao caixa.

Um homem estranhamente sorridente e de boa postura me cumprimentou com um ânimo exagerado, se apresentando como ‘o Pierre’. Suas roupas eram perfeitamente alinhadas e passadas, ele usava óculos de armação discreta e penteava os seus cabelos dividindo no meio, levando as mechas para trás. No local havia também uma senhora de cara fechada, que tentava furar a fila para sair logo dali.

Ela tinha cabelos louros e pareciam ser arrumados apenas com as mãos. Pierre se desculpou comigo pela forma como ela agiu, me empurrando para passar logo os produtos no caixa, e disse que o seu nome era Pam. Eu não tinha curiosidade alguma de saber quem era quem, eu estava com fome e tentava pedir informações sobre um restaurante ou algo do tipo.

— O salão do Gus! Descendo em frente, rumo ao mar, você vai encontrar o Salão Fruta Estrelar. O Gus prepara ótimos pratos, e pode te dar um desconto de boas vindas à cidade!

Agradeci e me voltei para a porta, mas não saí antes de ser apresentada pelo Pierre para toda a sua família; a linda moça de cabelos verdes era a sua esposa, Caroline. E uma emburrada adolescente de cabelos roxos foi chamada de Abigail, sua filha.

— Ah. Certo. Ouvi dizer que alguém estava se mudando para aquela fazenda. É uma pena, sempre gostei de caminhar sozinha pela grama alta de lá.— Abigail exclamou e recebeu um olhar de reprovação da sua mãe.

Apresentei-me com toda a educação que John me ensinou a ter, e saí apressada de lá, procurando o tal salão.

Qual o problema com essas pessoas de cidade pequena? Todo mundo se conhece e se trata de forma tão intima... Mesmo que você não queira.

Quando finalmente encontrei o salão, achei curioso o design que Gus escolhera para o local; parecia muito aqueles bares de filmes de faroeste, eu admito que gostei. Assim que entrei, impressionada com o ambiente, trombei sem querer com um antipático homem de shorts praiano e cerveja na mão.

Fui xingada enquanto ele saia pela porta, e segui em frente rumo ao balcão.

É impressionante, ninguém sabe ser neutro por aqui. Ou você é extremamente simpático e inconveniente, ou é um perfeito ‘cuzão’.

Gus se desculpou pela atitude de Shane (o nome do tal cuzão), e me ofereceu o prato da casa de graça, para comemorar a minha vinda à cidade.

Agradeci e comi bem; ele realmente cozinha muito bem!

Enquanto comia, mais moradores entravam e conversavam entre si, me puxando para todas as conversas, como se estivéssemos em uma grande roda social. Conheci então uma espontânea e divertida jovem, de cabelos azuis e parafusos a menos, que se chama Emily. Perto dela, uma simpática artista (foi como ela se apresentou) de nome Leah bebia e comia com a gente. Lewis também apareceu por lá, mas ficou meio afastado do grupo, bebendo com uma senhora que ele mesmo a apresentou, de nome Marnie.

Quando eu finalmente deixei o local, duas crianças passaram correndo e quase me derrubaram. Atrás delas, uma jovem que aparentava ter a minha idade, tentava acalmar os pequenos com uma voz doce e baixa demais para que eles notassem. A jovem se apresentou como Penny e se desculpou milhares de vezes 'pela atitude de Vincent e Jas' antes de voltar a correr atrás das crianças. Pobre moça.

Decidi então descer para a praia, caminhar um pouco na areia e observar o mar. Dizem que isto é relaxante, e relaxar era exatamente o que eu estava precisando no momento.

— Bom dia, senhorita!

Ah não. Mais moradores? Eles estão em toda parte!

Voltei-me para ver quem falava comigo agora, e me impressionei mais uma vez com o que vi. Um lindo rapaz de cabelos longos, roupas que me lembravam da antiga realeza, e um perfume viciante... que foi tirando aos poucos todo o cheiro de terra que eu havia sentido o dia todo. Cheguei a gaguejar ao cumprimentá-lo, e vi o seu sorriso pela primeira vez.

— Está tendo um dia difícil? – Ele continuou, voltando o seu olhar para o mar.

— Não se preocupe, foi assim comigo no primeiro dia também, vão sossegar quando se acostumarem com a sua companhia.— Ele sorriu novamente. Parecia ler minha mente, sabia exatamente o que eu estava passando no momento.

Ficamos mais um tempo ali, observando o sol sumindo no horizonte. Foi quando percebi que passara a tarde toda no Salão, conversando com todos e tentando decorar o nome de cada um para qual eu era apresentada.

Despedi-me do homem que me fizera companhia nos últimos minutos do dia, que se apresentou como Elliot antes de entrar em sua humilde cabana na praia. Voltei apressada para a casa do vovô e caí exausta na cama, adormecendo até o outro dia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.