Notas iniciais
Gente, não entendo bem o funcionamento do site, e essa é a primeira história que publico. Espero que gostem do que escrevo.

2010.

O sol já estava caindo atrás das altas montanhas que cercavam a cidade, e a noite estava vindo com o frio congelante, era só o começo do inverno brusco que estava vindo. Deus havia sido bem generoso nesses últimos anos, as temperaturas não caíram tanto como os anos anteriores da praga.

Toc Toc.

Era Rebecca, entrando no meu quarto sem qualquer autorização.

— Vamos levantando! — Disse ela com um humor impressionante mesmo em meio a tanto caos — Temos que terminar de estocar toda a comida no sótão.

Permaneci calado em baixo do edredom branco que já usava há dois anos. Não havia dormido bem na noite anterior, passei horas apenas olhando pela pequena janela que havia no quarto. Esses últimos meses vinham sendo bem difíceis pra mim. A crise havia voltado.

Meus dedos tocaram levemente no chão de madeira surpreendentemente frio, logo procurando a sandália que havia deixado ao pé da cama na noite anterior. Pela janela vi algumas pessoas trabalhando, não sabia ao certo quem era por causa do meu problema de vista que só piorava com o passar dos anos.

Desci as escadas, logo me surpreendi com um café da manhã e tanto sobre a pequena mesa. Uau. Não via aquilo desde quando minha mãe era viva. Logo atrás da pequena mesa, Rebecca estava em pé, com um sorriso de ponta a outra.

— Parabéns irmãozinho que amo! — Cheguei ao ponto de não lembrar mais do meu aniversário. De qualquer maneira a data não estava correta, desde que começou tudo isso, só tínhamos o calendário do mesmo ano, então seguíamos os dias de 2008.

— Uau! Obrigado — Disse tentando forçar um sorriso. Sem sucesso.

— Fiz isso tudo pra você! Coma! Mas não pense que não irá ajudar hoje. — Saiu com um imenso sorriso pela porta principal.

Naquele momento, me veio em mente o verão de 2000, quando foi diagnosticado a minha mãe uma Leucemia, eu era só uma criança, nem entendia direito o que estava acontecendo, só lembro-me das enormes discussões na minha casa, minha mãe já não era ela, meu pai tinha se tornado um alcoólatra agressivo. E apenas um mês depois disso, ela faleceu. Desde então meu mundo não tinha mais sentido algum, eu passei de uma criança animada, a uma criança só e sem amigos. Aniversário. Essa palavra já não fazia mais sentido, desde então. Cresci com um pai que não se importava nem com seus próprios filhos, que chegava do trabalho pensando em encher a cara e dormir. Cretino. Por ele sofri toda minha adolescência, sem amigos, apenas afundado nos livros.

Não sentir, essa é minha regra, tenho que me lembrar: sentimentos e não lhe ajudam na hora de sobreviver. Logo que terminei o esplêndido café da manhã me preparei um banho para começar o trabalho do dia. Saí lá fora por volta das oito da manhã, o sol ainda brilhava no céu, mas agora com ventos congelantes.

— Peter, vem cá ver o que achamos! — Disse olhando pra mim com uma mão por cima dos olhos protegendo do sol.

Fui andando até ele, ainda com um pouco de preguiça.

— O que? — disse tentando mostrar-me interessado, mesmo sem se importar.

— Olhe, achei um estojo de facas novinho, servirá bem pra aqueles zumbis que estão nas grades. As balas ficam cada vez mais escassas. — Realmente o Guilherme tinha razão, apesar de não haver muitos zumbis ali por ser um pico muito alto era a melhor alternativa. Balas só em casos de emergência.

-É.

***

A noite vinha chegando com uma lua magnífica e com uma onda de frio, solidão e dor, era a pior parte do dia, tudo que eu mais queria era dormir. Fechar os olhos sem nem se quer pensar. Eu já estava cansado de passar toda a noite acordado, pensando, com a cabeça fervendo de arrependimentos.

Quando finalmente consegui fechar os olhos chegou Rebecca me chamando, dizendo quaisquer coisas que eu nem ouvi. Mais um dia, meu Deus, eu não suportava mais isso, eu só queria que tudo isso fosse como aqueles pesadelos que eu tinha no sono da tarde, que minha mãe me acordava, me dando consolo, dizendo que iria ficar tudo bem. Quando pensava nisso, meu coração doía, literalmente. Mas não era então teria que sobreviver.

Levantei-me indo à direção ao banheiro, para tomar banho e fazer o necessário, a água estava muito gelada, o inverno seria realmente muito pior do que os anteriores. Terminei o banho, saí de baixo do chuveiro congelando. Quando me encarei no espelho, percebi como aquele garoto de quinze anos havia mudado, se tornado um homem com uma barba quase que formada, e um rosto cansado. Mas nada disso importava.

Quase todos já estavam lá em baixo esperando para uma "reunião" que Rebecca havia marcado com o grupo.

- Bom dia. — Falou Martin, chegando por último na sala.

- Todos já estão aqui? — Falou Rebecca, logo respondendo a si mesma — Ótimo, nesta reunião falaremos como vamos passar este inverno, que vem com toda força compensando os últimos anos. Então, sem mais delongas, tudo já está pronto então não vamos ter tantas preocupações com isso esse ano. Tudo já está preparado, comida, roupas, e agora não precisamos de uma vigia tão rigorosa, os zumbis ficam mais lentos no inverno por causa do frio e da neve acumulada. O grupo se dividirá em duas casas.

Então ela citou os nomes que ficariam na primeira casa e os nomes da segunda. Nosso grupo era relativamente grande, tinham 14 pessoas, em sua maioria jovem adultos, que era uma coisa boa, nada pior nesses tempos que carregar um peso morto. Lei da sobrevivência.

***

A noite chegou mais uma vez, dessa vez a casa que estava parecia mais vazia, todos já tinha ido para suas devidas casas. Na "A", como Rebecca chamava, estavam eu, Rebecca, Eleonor, Gustavo, Guilherme, Lexie e Ariel. Na casa "B" estavam Julian, Sam, Zack, Martin e outras três pessoas que nem se quer me recordava o nome. Todas as casas do condomínio eram enormes e de luxo, cabiam vagamente todas as sete pessoas, cada uma com seu devido quarto. Ainda havia outras três casas do mesmo jeito, mas ainda não tinha sido feita a vistoria, apesar de tanto tempo nos escondendo nesse condomínio, passamos muito tempo sem habitantes o suficiente para esvaziarmos os errantes das outras casas, Rebecca planejava que logo após esse inverno terminássemos de esvaziar todas as outras casas. Quando enfim passou das 22 horas e deu o toque de recolher todos subiram aos seus quartos como dizia a "mestre do grupo".

Quando me deitei percebi o quando o dia havia sido cansativo, meu corpo doía por inteiro e minha mente estava esgotada para pensar qualquer coisa, quando finalmente fechei meus olhos.

— "Ahhhhhh" — Ouvi um grito ensurdecedor, entrando sem permissão aos meus ouvidos e despertando meu sistema simpático.

- Ariel! — Gritei assim que reconheci sua voz.

Meus batimentos cardíacos aceleraram imediatamente e todos meus músculos se contraíram me dizendo: CORRA! Levantei-me imediatamente corri em direção à porta e desci as escadas tropeçando todos os degraus, Rebecca já estava lá fora correndo em direção a casa C, os gritos de Ariel vinham da lá, agora também ouvia os gritos de um garoto, não conseguia reconhecer esta voz, corri em direção a casa e antes de chegar à porta dois errantes vinham saindo com um cheiro de putrefação que os acompanhavam, me provocando um tremendo enjoo, revirando meu estomago por completo para me lembrar do arroz, carne e feijão que eu havia comido já no chão. Tinha que achar uma solução rápida uma vez que estava totalmente sem nada que pudesse me defender, dei dois passos para trás com os olhos fixos em seus rostos desfigurados por dois segundo, quando me virei e corri desesperado para a casa “A” e pegar uma das facas no quarto do Guilherme. Abri a porta de supetão e subi mais uma vez aqueles poucos degraus e me direcionei ao seu quarto, quando girei a maçaneta percebi que o quarto estava trancado, merda, descendo ao térreo corri para a cozinha a fim de encontrar qualquer coisa que perfurassem a cabeça dos zumbis que já vinham se aproximando da porta da casa que eu deixara aberta, fiquei paralisado percebendo que a morte estava a poucos passos de mim, a cada segundo se aproximando dos meus olhos, dando curtos passos pra trás senti a parede vir contra mim, a morte agora parecia inevitável e tão próxima como nunca, os dois cadáveres vinham a mim sem pestanejar em matar e esquartejar todo meu corpo. Fui deslizando pela parede até encontrar o chão e abraçar meus joelhos, chorando sem saber o porquê.

Logo senti um impacto de dois pesos caírem ao meu lado e um liquido escorrer até molhar minhas calças, ao levantar minha visão vi uma silhueta aparentemente feminina desenhada pela luz que entrava pela porta escancarada logo atrás e pelo escuro que fazia na cozinha onde estávamos.

- Obrigado – disse em prantos ainda sem saber o por que – Mu-muito obrigado.

Ela ficou em silêncio e se virou saindo com um andar misterioso e um rebolar atraente.

- Ei! – Disse em um grito histérico, que certamente atraiu zumbis a metros de distância – Espere! – Falei com outro grito, mas ela continuava andando como se fosse surda ou algo do tipo – Espere, você acaba de salvar minha vida e simplesmente sai como se nada acontecesse?

- Devo dizer algo? – Disse ela com um tom sarcástico em sua voz rouca, sem despertar um mínimo de preocupação com o que havia acontecido momentos atrás.

- Diga-me ao menos seu nome?! – Insisti em conhecê-la, mesmo que seu nome em meio ao apocalipse não dissesse exatamente nada.

Ela virou e continuou seu andar até a porta me ignorando.

Eu estava tentando processar tudo o que havia acontecido: eu quase morrera e do nada me aparece uma estranha, me salva e sai sem me dizer absolutamente nada.

Alguns rugidos e gritos ainda vinham lá de fora e me lembrei do meu proposito nessa cozinha: achar uma faca. Procurei desesperadamente entre as tantas gavetas que compunham os armários da luxuosa cozinha, até achar uma gaveta com as mais variadas facas, de lá peguei a maior que tinha e outra um pouco menor que logo guardei entre a calça e minha cintura. Apressei o passo até a porta que ainda continuava escancarada para ir atrás primeiramente da minha irmã e tentar entender o que estava acontecendo. Logo que pus a cabeça para fora da porta vi dezenas de errantes que perambulavam a área, então decidi tentar a porta dos fundos, fui correndo mas tentado o máximo para abafar os passos na madeira, abrindo a porta dos fundos vi apenas alguns errantes se aproximarem, não sabia ao certo se eram dois ou três, mas conseguiria lidar com eles para chegar a casa C. Passei pela porta e desci devagar os três degraus que compunham a elevação da pequena varanda dos fundos, logo apunhalando a cabeça do zumbi que vinha a minha esquerda, sujando um pouco minha mão com seu sangue cor de vinho, parti ao próximo que estava vindo com seu ranger de dentes a mim, apunhalando-o pelo pescoço, continuei ao meu foco de chegar a casa C, agora sem nenhum obstáculo, correndo apressadamente, ao me aproximar vi Rebecca só, lidando desesperada com um errante, corri o mais rápido que pude para ajuda-la, até que para o nosso alívio ela sacou sua faca do cinto e logo cravou no crânio do zumbi que já estava caindo em cima dela.

- REBECCA! – gritei como um chamado para fugirmos.

Virando sua cabeça pra mim, ela jogou o corpo morto de cima dela e correu olhando para os lados e analisando o que estava acontecendo.

- Vamos embora daqui agora! – Ordenei.

- Mas a Ariel e o Guilherme; — Parou interrompida com o meu grito desesperado.

- Não podemos dar nossas vidas por eles, apenas vamos embora, rápido! – Pegando em seu baço corremos até a grade lateral que nos levaria a floresta – Primeiro você, suba! – Disse fazendo apoio para ela poder subir – Isso! – Respondi quando Rebecca já estava do outro lado da cerca.

- Vamos, venha logo, eles estão vindo!

- Pegue as coisas – disse jogando a bolsa que ela tinha deixado do meu lado da cerca.

Logo quando pulei, vários rostos mortos começaram a se comprimir na grade de ferro.

- Vamos isso acabou. – Disse olhando nos olhos tristes de Rebecca. Tristes pela perca de tudo o que tinha conquistado, pela perca das pessoas que amava, pelo fardo que é viver.

***

A vida parecia rir de mim, quando tudo parecia se estabilizar, mais um golpe acertava minhas costas, me fazendo ir rente ao chão e me dizendo quem realmente manda em tudo. Ninguém tinha me dito como viver, ou tinha me dado armas para entrar nessa batalha, a natureza só me jogou e disse: sobreviva o quanto poder.

Rebecca vinha logo atrás de mim levando sua bolsa em apenas um ombro. Atrás da frieza que eu aprendi ser necessária para sobreviver um turbilhão de pensamentos bombardeavam meu cérebro cansado, que precisava de uma noite de sono. Nosso plano agora era seguir a direita por entre a floresta até chegar à estrada, já que se fazia impossível a passagem logo abaixo da montanha onde se encontrava o antigo condomínio pela quantidade de mortos. Uma, duas horas de caminhada se passaram e nem sinal da estrada que indicava o velho, mas útil mapa que Rebecca tinha em sua bolsa.

- Desculpa Rebecca, mas chega, não aguento mais, andamos a muito tempo, vamos apenas descansar um pouco, ainda são 16 horas, da tempo de um curto descanso antes da noite chegar. – Disse dando uma rápida olhada no meu velho relógio de pulso.

- Tem razão, mas não demoraremos, já está frio com esse sol, imagine quando anoitecer. – Rebecca falou assentindo.

- OK, dê um cochilo, ficarei observando. – Disse assentindo com a cabeça.

- Obrigada, — Disse Rebecca com um sorriso comprimido no seu rosto, e com seus olhos lacrimejando – muito obrigada. Te amo. – Disse soltando toda a represa de lágrimas que guardara por indeterminados anos.

- Hey, shhhh, não chore, estou contigo. – disse abraçando sua cabeça, e beijando por cima do seu cabelo. – Agora durma. – Disse com um sorriso comprimido.

Deixei Rebecca descansar uma hora, abrindo mão do meu descanso. Eu aguentaria. Quando a acordei já eram 17 horas e precisávamos ir, o sol já estava se pondo com uma velocidade típica de inverno. Passaram-se 45 minutos e ainda estávamos sem rumo algum.

- Eu não aguento mais – Disse Rebecca murmurando.

- Só mais um pouco – Insisti com motivação.

- Hey, espere. – Falou Rebecca apontando para uma placa próxima.

“A VIDA JÁ É ESCASSA E DOLORIDA, DEUS ME PERDOE”.

Um cadáver com a cabeça estraçalhada estava caído no chão, sua pele aparentava morta há uns cinco meses.

- Deus! – Rebecca gritou com um ar de nojo.

Logo que tirei o olhar do cadáver, subindo a visão vi uma cabana, típica de famílias que passavam fins de semanas pescando e fingindo ser feliz. Seria perfeito para passar algumas noites até um lugar melhor.

- Vamos passar a noite aqui, Becca. – Falei tentando quebrar a tensão que presenciávamos.

Entrei com minha faca na mão, atento a qualquer partícula que passasse ao meu lado. Não tinha ninguém, ou nenhum zumbi. Havia uma cozinha e um quarto com uma cama de casal. Vasculhei todas as gavetas possíveis na casa em procura de por ventura ter uma chave reserva da porta principal. Sem sucesso. Chamei Rebecca e pedi ajuda para empurrar o velho sofá em frente à porta em prevenção a alguma pessoa que quisesse entrar na casa. Ainda por cima do sofá pus a televisão antiga que tinha lá. Já era noite e eu procurava algo para comer e saciar a fome de um dia e meio que já enfrentávamos. A casa tinha muita comida estragada, a alguns enlatados frios. Era a única opção.

- Certamente essa comida é bem melhor do que a do nosso pai.

- Certamente. – Concordei com uma risada. – Certo, já se passa da hora de dormirmos, vamos Becca.

A noite passou rápida, dormimos como pedra, e com sorte não tivemos problemas com zumbis ou com inimigos piores, humanos. Rebecca, como de costume me acordou. Não parecia tão cedo, eram 9 ou 10 da manhã.

- Levante, vamos procurar água, deve ter algum rio perto dessa cabana, um rio que talvez eles usassem para pesca.

- Ok.

Logo quando escovei com uma velha pasta de dente que tinha encontrado no banheiro nós saímos. A alguns metros andados da escada Rebecca tentava puxar assunto:

- Você acha que passaremos quanto tempo nessa casa?

- Não tenho certeza de nada, vamos ve... – Um barulho de folhas secas sendo pisadas e galhos balançados vieram de trás de nós.

- Shhhhhhh, sem gritos!– Falou a voz do Guilherme vindo logo atrás de nós.

- Guilherme! – Rebecca abriu um sorriso e correu em encontro a ele. – Oh, você está tão mal, o que houve contigo?

- Uma longa história, mas antes, por favor, só preciso de um pouco de água. – Apesar de estarmos indo buscar, restava um pouco na cabana.

Logo entramos lá, apressado pela explicação de todo os caos que houve lá no condomínio, o que restava e quem restava.

- Então nos conte logo. – Disse Rebecca entregando o copo em suas mãos.

— Então, — falou Guilherme bebendo uns três goles de água antes – eu nem sei por onde começar, mas... Eu e Ariel tínhamos um caso, eu sei isso é vergonhoso, e na noite que tudo ocorreu estávamos em frente a casa C. Nos beijávamos freneticamente, quando ela me falou para entrarmos na casa, no inicio eu discordei e continuei a beijá-la, mas ela insistia com desejo, até que por impulso entrei, não pensava em nada mais do que nela, logo quando entramos lá, a casa estava quita como se nada houvesse dentro. Quando avistei um sofá decidi ir até lá, fomos ainda frenéticos até lá, nos beijando com anseio. Ela deitou e eu permaneci em pé tirando minha camisa, quando ela começava a desabotoar sua blusa, já vendo seu sutiã. Mas não deu tempo nem de eu vê-la. De eu ama-la. – Falava agora com uma lágrima descendo pelo seu rosto. – Um daqueles demônios chegou por trás do sofá, silencioso. Eu a quero, eu preciso dela.

Guilherme chorava com a dor da perda, com a primeira das muitas que ainda viriam nesses tempos difíceis, nesses tempos de dor e de choro. Era tempo de sofrer.

***

- Não vi se alguém mais morreu, ou para onde foram, a única certeza que tenho é que mais ninguém ficou lá, todas as casas de encheram de errantes. — Completou Guilherme o seu discurso.

Um silêncio atordoante se fez presente entre nós. Rebecca com seu silêncio que torturava devagar.

— OK. Certo. – Disse Rebecca limpando uma lágrima que já estava perto de sua boca.

— Então é isso? Não vai me gritar? Vai me deixar nessa tortura? – Exclamou Guilherme, chorando.

— Eu poderia. Mas não, aconteceu. Acabou, vamos apenas... – suspirou – sobreviver.

— Sobreviver... Certo. – Completei com um sussurro.

***

Ainda em silêncio descemos e pegamos a água em um rio que cruzava todo o bosque. Guilherme passou o dia deitado, recuperando seu corpo e acima disso sua mente. Às vezes é preciso uma pausa.

Passaram-se dias, e poucas palavras foram ditas, diálogos curtos. Silêncio.

Semanas se passaram, e não havia tortura maior que aquele silêncio.

Um mês nesse estado foi o necessário para eu dar um surto, que nada adiantou. Rebecca parecia morta por dentro, até que finalmente minha quase morte a despertou daquele transe de dor. Meu relógio apontava dia 11 de janeiro, o inverno já estava menos ruim, e ainda estávamos naquela velha cabana, sobrevivendo. Até quando, como de costume saí só pra pegar um pouco de água e talvez tentar a sorte de achar frutas na primavera que já começava a desabrochar. Os errantes já conseguiam se mover mais rápido sem a grossa camada de neve sobre a terra, quando me agachei para pegar algumas frutas – talvez amoras, não lembro – que estavam no chão, senti um impacto me fazendo cair. Quando olhei pra cima um rosto desfigurado lutava pela minha carne, o segurei pelos ombros, lutando também por minha carne. Quando finalmente o grito de Rebecca quebrou seu silêncio, e sem arma alguma ela pegou uma pedra, amassando com ela a cabeça podre do errante de encontro com a árvore que estava logo ao seu lado. Enfim, passamos mais algum tempo sobrevivendo naquele estado. Naquela velha cabana.