Vocês devem achar que Gothan não foi mais que um brinquedo em minhas mãos. Como um bom conto de bardo, a história deve ser passada com a imagem heróica e fabulosa de seu protagonista. Seja em batalhas épicas que duraram dias, ou em uma demonstração de poder tão grande que humilha todos inimigos. Os contos são sempre a favor do herói. Então, obviamente é fácil entender que a luta contra o Senhor das Trevas foi difícil, entretanto não tiro o meu mérito, pois realmente ele foi estúpido.

Com o ocorrido, muitos mistérios surgiram em minha mente. Os sete generais das trevas, o destino de Midgard a qual estaria ameaçada no futuro e até mesmo a vida do jovem Aldora. Tudo isso percorria minha mente como uma flecha certeira de encontro ao alvo. Porém, deixei meus pensamentos ruins de lado e me concentrei no futuro da família, pois agora tinha um herdeiro legítimo, digno de um Nelliw. Aliás, seu nome foi uma escolha minha e de meu falecido pai. Nascia Kem Nelliw no ano de 1991, duas horas após a morte de Uriu.

Quanta felicidade senti no dia em que vi aquela criança enrugada e cheia de vitalidade nos braços da minha amada. Nunca havia visto um bebê chorar mais que Aldora, ou espernear tanto quanto ele. Lá estava o meu filho recém nascido, fiquei maravilhado com aquilo.

A infância é uma fase importante para qualquer pessoa, principalmente quando passada com a família. Kem e Aldora foram criados como irmãos, mesmo o meu filho adotivo ter o cabelo esverdeado, ser um pouco mais magro e ter o rosto mais fino. Ambos se perdiam no tempo enquanto brincavam juntos. Eu acompanhava o crescimento alegre deles, embora sonhasse muitas vezes com o que Gothan havia dito, e me preocupava com o destino deles, principalmente o de Aldora.

O tempo passou e desde o nascimento até o ano de 1998, apenas em sonhos eu via algum resquício de medo. Nunca ao longo desses sete anos eu havia pensado que talvez não fosse Aldora que carregaria um destino trágico, mas sim aquele a quem ele se aproximava.



A tarde estava bem agradável, mesmo na hostil vila dos orcs. Fazia muito tempo que não caçava monstro algum e com toda certeza o Senhor dos Orcs que eu conheci havia sido derrotado e morto, pois era a tradição de que o melhor da tribo desafiasse o seu líder. Meus filhos me acompanhavam, nós três estávamos prontos para qualquer coisa.

Kem seguiu a linhagem da família e se tornou espadachim. Ao contrário de mim, ele parece ter gostado mais de usar as armas do que treinar a arte do dragão. Também não deixou o cabelo crescer, fazendo com que ele ficasse bagunçado e jogado para o lado. Pensei em rebeldia por parte dele, porém após pensar melhor e ouvir um monte de coisas da minha esposa, deixei de lado.

Aldora rumou para algo diferente. O sonho dele era ser um alquimista, porque poderia lidar com a vida ajudando de um jeito melhor as pessoas. No momento em que ele havia me contado fiquei apreensivo, me lembrei de Dereck e das palavras de Gothan. Novamente, graças aos apelos e sermões de minha mulher, deixei de lado, e ele se tornou um bom mercador.

Naquela tarde, nós três fomos para a vila, em função do treinamento que os dois jovens estavam precisando. Eu apenas cuidava para que eles não morressem, não interferia nos seus combates. Estava tudo indo bem, alguns já haviam sido derrotados, só que Kem desapareceu. Eu e Aldora procuramos por todos os lados, derrubávamos mais orcs e não achávamos o espadachim.

- Kem! – Eu gritava para o alto. – Onde será que ele se meteu?

- Será que ele foi pego, pai? – O mercador olhava-me com um pesar profundo. Afaguei sua cabeça e o tranqüilizei.

- Não, ele é um Nelliw, como você também é.

- Mas... Eu sou muito diferente dele. – Aldora me olhou triste. – De você e da mamãe.

Ele estava certo, mesmo sendo tão jovem sabia distinguir as coisas. Firmei um joelho no solo e me aproximei dele, encarando-o disse.

- Filho, eu sei como se sente. É só olhar para as fotos do vovô, eu não sou parecido em nada com ele. E eu sou um Nelliw!

Antes que Aldora pudesse falar, um som chamou a nossa atenção. Um estrondo seguido de um baque surdo, e depois um silêncio mortal. Encarei meu filho adotivo e assentimos. Corremos o mais rápido possível na direção do barulho, e quando havíamos chegado, um orc estava tombado, sem vida e com um corte transversal nas costas. Estava embaixo de uma árvore, caído como se tivesse sido atacado de surpresa e tropeçado nas pequenas raízes que saíam do chão.

E de cima da árvore, caindo com a espada apontada para o chão, Kem cravava sua arma ao lado do corpo sem vida.

- Peguei... Peguei! – Dizia sem fôlego. – Pai, eu peguei um...

Ele estava bem cansado, mas sem nenhuma ferida aparente. Estava rindo pelo seu feito, e olhava com muito entusiasmo para mim e para Aldora. Sua lâmina pingava sangue, e seu rosto estava suado e cheio de barro.

- Pai, vamos caçar mais? – Ele perguntava com ansiedade.

Olhei para Aldora, que respondeu com um suspiro. Eu sabia. Ele estava cansado, pois não era tão forte quanto o irmão. Embora suas habilidades fossem extremamente úteis.

- Acho que por hoje é só, Kem.

Ele ameaçou ficar triste, no entanto, correu para o lado de seu irmão e passou o braço por trás do pescoço e segurando firme o ombro. Seu sorriso estava largo, e o mercador olhava atônito para ele.

- Na próxima vez, eu e o meu mano vamos dar uma surra em alguns Grand Orcs!

Eu gargalhei como não fazia há anos. Aqueles dois garotos me davam muita alegria. Abracei os dois e nos dirigíamos para a saída. Kem ia à frente, erguendo e balançando sua espada, enquanto Aldora andava quieto, apenas observando o irmão escandaloso. Naquele instante, pensei ter visto olhos vermelhos na sombra de Kem, então balancei a cabeça e continuei. Estávamos indo para casa...