Diário de Um Nelliw
6 Missões
A vitória foi bem comemorada pelo nosso grupo. Nós ficamos contentes pela batalha e pela emoção proporcionada, mas acima de tudo, eu estava contente, pois consegui forjar uma vitória para o reino, e assim, eles verão todo o nosso potencial. A noite caía rapidamente por cima de nossas cabeças, trazendo uma brisa noturna gélida e forçando-nos a preparar uma fogueira para nos aquecermos. Alissia é realmente muito sábia, pois rapidamente incendiou um pouco de lenha e as chamas nos davam conforto e paz. Mandei quatro lanceiros ficarem de guarda durante a noite, para não sermos pegos de surpresa, e o restante permaneceu sentada ao redor do fogo, alguns sentados em pedras chatas, outros fizeram um acomodado assento de palha e capim que foi encontrado nas proximidades, enquanto as cabanas eram preparadas para nos abrigar.
A madrugada estava tranqüila, mas eu não conseguia dormir. Alguma coisa na noite me chamava, dizendo que eu deveria seguir com mais ousadia, mas não dei ouvida a minha mente gananciosa. Não conseguindo dormir, levantei-me e comecei a andar por entre as doze cabanas construídas. Todas atulhadas com equipamentos, suprimentos e meus homens que ali dormiam, e somente uma cabana podia-se dizer que estava vaga. A cabana das mulheres, onde Cecil, a jovem Templária e Alissia dormiam, ficava alguns metros mais distante das outras, e somente o nosso sentinela estava próximo. Eu resolvi dar uma espiada por lá, pensando na desculpa de que iria falar com a sentinela, e caminhei por entre as cabanas e pedras, ouvindo o roncar dos homens, o lamento dos mortos e o sussurrar do vento.
Quando me aproximei da cabana, vi somente duas silhuetas dentro dela, e pensei que alguma das garotas devia ter ido a algum mato ou simplesmente é louca de sair à uma hora dessas. Porém, quando cheguei à sentinela, reparei que sua armadura era outra, e não usava lança, e sim, uma espada fina e um escudo pendurado nas costas. A Templária havia assumido o posto, e eu fiquei perplexo.
-Pensei ter deixado um homem fazendo a guarda aqui. Por que está acordada?
-Não consegui dormir, e não gosto de ficar parada, então deixei que sua sentinela fosse dormir. – Ela falava sem olhar para mim, apenas fitando o horizonte. Eu não prestava atenção em outra coisa, a não ser ela. Ela não era extremamente linda, mas a sua aparência lhe dava um ar exótico. Tinha os olhos mais azuis que eu já tinha visto, os cabelos revoltos e louros caíam levemente por cima de seu rosto redondo e macio, e seus lábios finos e pequenos. Uma coisa notável dela era a sua postura. Era alta, rígida, e mostrava que ela não possuía uma delicadeza de mulher, e sim muita força e garra, além de possuir uma musculatura um pouco mais definida. Definitivamente era a mulher mais surpreendente de toda a Midgard.
-Posso saber seu nome em troca desse favor?
-Meu nome não lhe mudaria o fato de eu querer e poder fazer o que eu quiser. – Sua atitude grossa me fez imaginar várias maneiras de fazê-la sofrer, porém, ela me surpreendeu. – Meu nome é Aisha Yuki. Chame-me só de Yuki, se não eu te mato.
-Está bem. – Ela tinha um modo estranho de conversar. Sempre tratando a pessoa como uma criança, mas sempre surpreendente quando confiava nela. — Sabe, é melhor não se esforçar. Logo mais batalhas virão, e é bom termos bom guerreiros descansados e prontos.
-Seja como for, eu estou aqui. Eu não sou uma fiel.
Aquelas palavras ricochetearam no vento e eu estremeci. Ela estava ali pelo mesmo motivo que eu, e devia estar grata por ter a mim como o líder do grupo, pois me deu um sorriso maroto e falou em palavras fracas “Estou contente por alguém perto de mim ser um bom guia”. Recebi como elogio e dei uma boa noite para ela, retornando para minha cabana.
Nossa rotina não mudara desde que começamos a guerra. Nós sempre fazemos os assaltos dos grupos que ali perto paravam, e recolhíamos informações, matávamos os guerreiros e algumas vezes fazíamos cativos, mas eu não os deixava muito tempo, pondo eles em liberdade algum tempo depois. Essa rotina cansativa durou dois meses, e nesse tempo todo, nós ficamos conhecidos como os guerreiros fantasma, cuja localização o inimigo desconhecia e atacávamos de modo furtivo, graças ao nosso posto seguro e bem escondido, além de termos Eremes como o infiltrado e matador profissional para nos dar o butim, e Howard para nos forçar contra a parede de escudos do inimigo. Cecil, que no começo não tinha uma função, foi designada por mim a fazer os golpes à distância quando nosso alvo era apenas um ou dois, e Sagart liderava os cavaleiros para as perseguições com os seus rápidos Peco-Pecos.
Éramos fortes, rápidos, praticamente intangíveis, e poucos lanceiros de nosso lado morriam. Durante três meses de ataques furtivos e massacres escondidos, que resultavam em um desespero por parte do exército e do governo de Lighthalzen, apenas doze de nossos lanceiros morreu, e alguns outros ficavam nas baixas por algum ferimento. E foram os três meses mais alegres da minha vida. Eu matava, ordenava, ganhava a confiança de meus homens e eu os oferecia riquezas e reconhecimento a cada ataque que fazíamos, e nossa tropa ficou conhecida no reino. Cartas iam e vinham de nós para Seyren e dele para nós, contando todos os detalhes da guerra, nos dando instruções, missões e nos mandando notícias. Ficamos sabendo que Seyren agora estava comandando todo o reino e havia montando divisões em seu exército, na qual eram liderados por Generais experientes, mas como ele era o campeão do reino e agora exercia o comando, a vaga de Campeão do Rei que comandava a tropa principal e uma auxiliar estava desocupada, e soubemos que haveria uma competição no reino para determinar quem seria esse campeão. Seyren disse por carta que me recomendava e que não pouparia a vida de ninguém que ousasse impedir minha participação, mas para isso, eu teria de concluir mais uma missão, uma vez que a nossa área seria agora suplantada por uma boa parte do exército, e nossa tropa poderia retornar para assumir postos altos nas fileiras principais. Mas antes de tudo, precisávamos fazer mais uma coisa.
A carta havia chegado logo cedo, trazida por Prince, o lanceiro mais jovem e habilidoso do nosso grupo, trazida as pressas por ordem de Seyren.
-É urgente, mas será nossa passagem de volta. – Ele certamente devia saber do conteúdo da carta, pois falava com uma felicidade imensa. Ou simplesmente Seyren havia contado para ele o que devíamos fazer, mas sendo a maneira que fosse, e abri e li.
Caro Uriu, dizia a carta, fico feliz em lhe dizer que você participará da seleção para campeão do reino, e que não haverá discussões quanto à sua patente. Porém, o conselho exigiu que você cumprisse mais uma missão antes de voltar para Prontera, e isso eu tive que aceitar. A ordem é para que você resgate uma cativa em Lighthalzen, que é de extrema importância para o reino. Ela foi seqüestrada por um grupo de homens sem terra e resgatá-la sã e salva é de vital necessidade. Como auxilio, envio esse código escrito caso a carta não chegue a vocês. K T 1 6 5 1 E. A ordem é invadir Lighthalzen, recuperar a pessoa, matar qualquer um que intervir e trazê-la de volta à Prontera. Use apenas os melhores guerreiros, não use a tropa toda para não chamar atenção.
-Mas que porcaria é essa? – Howard ficou irritado quando eu mostrei para os convocados na minha cabana. Cecil estava sentada, com seu falcão roxo empoleirado em seu ombro, enqunto Howard esmurrava o chão enquanto lia a carta. Eremes e Alissia estavam sentados em silencio e sem dizer uma palavra. Yuki limpava sua espada fina com um trapo, e Sagart estava de pé, de braços cruzados enquanto eu fechava o círculo dentro da cabana. – Aquele maluco metido a rei. Isso é sacanagem não é?
-Não é não, Howard, e agora precisamos cumprir essa ordem.
-É uma puta falta de sacanagem mesmo! – Howard bateu firme a palma das mãos nos joelhos e ficou com uma pose de irritado, encarando a carta no chão em nosso meio.
-Eu só não sei o que é esse código. – Eu não entendia nada de códigos e muito menos tinha idéia do que significaria aquilo, mas Eremes pigarreou e todos prestaram atenção nele. Ele, com os olhos fechados e rosto sério, cruzou os braços e suspirou com um sorriso de triunfo, enquanto nós olhávamos apavorados, esperando o significaria aquela mensagem.
-Sabe, eu tenho que dizer uma coisa para vocês. – Ele começou lentamente, até que tirou do bolso uma foto, que tinha a filha dele brincando com um boneco de pelúcia de um Poring. Eremes começou a soltar lágrimas que escorriam dos olhos e do nariz, com uma voz fina e forçada, e fazendo movimentos exagerados com o corpo. –Eu estou com saudade de minha filinha.
-Seu idiota! – Howard ergueu uma pedra duas vezes mais pesada que ele acima da cabeça, com os olhos brilhando de pura raiva, mirando o Algoz que gesticulava com os braços esticados e mãos espalmadas, pedindo dês culpas. Porém, Alissia, que não havia feito nenhum movimento, levantou-se e deu um tapa em Howard e Eremes com tamanha força, que arremessou os dois para fora da cabana com violência. Calmamente, ela voltou para seu lugar, tendo os olhares pasmos de nós para ela.
-Eles fazem muito barulho.
Rapidamente, a situação voltou a normalidade, e Eremes agora falava seriamente sobre a carta.
Esse código, dizia ele, é uma codificação de um nome e seu número registrado, e tanto na Academia quanto o setor de reconhecimento do reino tem acesso a ela. Porém, variando o tipo de combinação, o registro mostra o tipo de ficha que foi feita para a pessoa. Esse tipo de codificação parece ser de uma ficha criminal. Ou seja, vamos resgatar um detento.
-Por que faríamos isso? – Sagart levantou as suspeitas antes mesmo de falar. Ninguém entendia o porquê de recuperar um presidiário, mas tínhamos a idéia de que ele poderia conter informação relativa ao reino. Mas Eremes, possuía mais conhecimento do que prevíamos.
-Isso aí é o código criminal. E esse código é de...hum...- ele pensou por algum tempo, até que finalmente lembrou, e com um aceno de Alissia, ele falou mais sério do que antes. – Kathryne Keiron.
-Quem? – Todos ali não conheciam Kathryne, mas Eremes parecia conhecer toda a sua vida.
Kathryne era uma mulher, uma poderosa usuária da magia. Ela tinha sua boa vida, mas foi acusada de assassinato e foi presa. Quando conseguiram provar que ela era inocente, ela saiu em busca de estudos e quando voltou para Prontera ela estava louca. Não importava onde, ela manifestava seu poder por puro prazer, apenas para ver os homens sofrerem. Ela foi novamente presa e foi mandada para uma divisão da Academia, onde será vistoriada e entraria em processo de reabilitação. Pelo que me lembro, ela estava bem e seria libertada há um mês.
-Então, o que será que o conselho quer com uma mulher desse tipo? – Perguntei pois eu não tinha realmente qualquer idéia sobre como uma fugitiva depredada poderia ser útil.
-Eu não sei, mas agora não temos escolha. – As palavras de Sagart finalizavam o argumento, e nós sabíamos que era verdade. – Nós que nos reunimos aqui, vamos para Lghthalzen resgatar essa mulher. Senhor Uriu, temos permissão de começar imediatamente?
Eu pensei um pouco. Ir agora significava adiantar o trabalho e voltar para casa mais cedo. Mas nós não tínhamos um plano e muito menos alguma idéia do que vai estar no nosso caminho. Porém, vi a imagem de Seyren em minha frente, e pensei em como ele decidiria, e como sempre, eu sempre fui melhor que ele nesses casos.
-Que se ferre o maldito plano. Vamos meter porrada em todo mundo, socar as nossas espadas nas entranhas daqueles cientistas loucos e vamos resgatar a vagabunda.
E assim foi feito. Deixei Prince no comando dos lanceiros, cavaleiros e atiradores que ficaram, e marchei junto aos meus mais fortes aliados para Lighthalzen. Fomos rápidos e furtivos, sem que ninguém descobrisse, e grassas a Bruma Ofuscante de Alissia, não fomos avistados nem pelas sentinelas mais precisas. Tornamos-nos naquele momento os Guerreiros Fantasma, título dado e odiado pelos inimigos e conhecido entre nossos amigos, e finalmente nós faríamos uma boa oferenda aos deuses, pois nenhuma matança é tão recompensadora quanto invadir o terreno inimigo. E essa foi se não a mais sangrenta, a mais estranha das missões que eu tive, por que ninguém imaginava que Kathryne era uma louca. Uma louca por poder e conhecimento, e ainda mais que isso, a doida mais varrida desta terra odiada pelos deuses. E que Odin me perdoe, mas eu apreciei demais aquela investida.
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