Diário de 83
9 Um Dia Comum
Notas iniciais
Los Angeles, Califórnia – 12:50 hrs
25 de fevereiro, 1983
Era terapêutico olhar a paisagem passar pela janela durante o trajeto para Los Angeles.
Eu estava em uma daquelas limusines clássicas e majestosas. Michael estava do meu lado, um pouco mais afastado, e eu resolvi pegar uma revista para folhear. Era o dia do evento da ET, Michael iria conceder uma entrevista a eles antes da premiação, ele me contou que eles estavam comemorando as 2 milhões de vendas do Thriller. Imagina vender 2 milhões de cópias… 2 milhões de pessoas te ouvindo, sabendo quem você é. Quadruplica isso, pois esses caras têm família, amigos… Isso é grandioso demais. Eu estaria nervoso a essas horas, mas Michael soava como se a gente fosse dar uma volta na Disneyland, ele sorria com naturalidade e olhava a paisagem despreocupadamente.
— Como você consegue…?
— Como eu consigo o quê?
Putz, era pra eu ter pensado nisso calado.
— Nada…
Ele não pareceu satisfeito, pois seu sorriso lentamente se desfez. Eu já havia percebido que o Michael não usava mais os óculos escuros quando falava comigo, e os colocava quando falava com pessoas que não tinha muito contato. Ele os colocou novamente e eu percebi naquele momento que alguma coisa estava errada.
Eu passei tanto tempo cogitando sobre os planos do Branca que fiquei bom em criar teorias da conspiração (sim, talvez eu esteja ficando maluco. Socorro!), mas o meu palpite era que a minha forma introvertida incomodava ele a certo ponto. Michael me tratava como um melhor amigo, eu ainda não. Eu não controlo muito isso…
Mas fiz um esforço.
— Como você consegue ficar tão calmo…? Mas a gente já teve essa conversa.
Michael aquiesceu.
— Sabe quantas vezes eu já encarei uma câmera, um microfone e uma plateia? Isso acaba virando rotina…
— Eu sei… uma hora eu me acostumo — peguei uma revista logo em seguida, a primeira que vi. Michael estava nela, tinha um olhar e sorriso que encantavam qualquer mulher acima dos 40 anos. — "Rolling Stone"... uau… Quantas capas de revista você já estampou?
— Essa foi uma das primeiras. Eu tenho uma história engraçada com ela…
— Quer me contar?
— Não sei… Você quer saber?
Ah, não acredito que ele soltou essa.
Fiz um olhar de "óbvio" e vi quando a sobrancelha dele arqueou, ele tava querendo me provocar. Depois disso, vi um sorriso surgir em seu rosto (bem como eu havia desconfiado).
— Eu enviei uma carta a eles, perguntando se queriam me entrevistar. Eu tinha lançado Off The Wall há algum tempo. Eles recusaram, e agora, poucos anos depois, eles me pediram uma entrevista.
— Uau… que história…
Eu não sei se teria a mesma atitude dele. Os caras rejeitaram ele! Eu no mínimo mandaria à merda.
— Eu disse que talvez concederia… talvez não. Aceitei porque me pediram desculpas, e eu não guardo mágoas. Eu gosto de estar bem com todo mundo.
— Você é um "príncipe" mesmo…
Eu brinquei. Ouvi ele gargalhar, Michael retirou os óculos novamente e eu enfim aceitei que ele estava de bem comigo.
— Vindo de você, é um pouco esquisito ouvir isso.
— Eu não curto elogio de homem, mas, se vier de você, eu até dou crédito. Você é a vossa majestade, sir Michael Jackson.
Ele deixou outra risada escapar. Cara, ele ri muito engraçado! É agudo como se eu estivesse estrangulando um rato (não que eu tenha tentado, calma!). Eu gargalhei no mesmo instante.
— Então tá. Eu, como sua majestade, declaro que os elogios entre a gente não são mais esquisitos ou constrangedores.
A limusine parou e a nossa conversa sumiu na mesma hora. Logo os seguranças viriam abrir a porta, então paramos de fazer bagunça e ajeitamos nossos casacos. Michael pôs os óculos e segurou um sorriso no rosto.
— Vamos, playboyzinho.
Eu segurei uma expressão boquiaberta e Michael tentou a todo custo não rir. O guarda abriu a porta, ele saiu logo em seguida e eu corri pra acompanhá-lo.
— Eu vou começar a te chamar de mauricinho.
Sussurrei, ele não conteve a risada, mas o seu som foi abafado pelos flashes. Alguns fotógrafos saíram do buraco do inferno pra vir fotografar a gente, era a primeira vez que sairíamos juntos na foto. Michael sorriu cordialmente, porém não ficamos muito, ele seguiu para dentro do prédio, o trabalho estava só começando.
E foi no meio dessa confusão que eu me lembrei de uma coisa. Uma coisa que começa com “La”, termina com “Toya” e que estava me atormentando há um tempo…
— Ahm… Michael…
— Vem comigo.
Ele me guiou pelo pulso, eu segui os seus passos e dos velhos que o rodeavam. Mal tinha percebido, mas já estávamos cercados por eles. Fomos direto ao cenário da entrevista, muita gente queria falar com o Michael, mas eu notei que havia uma curiosidade velada sobre mim.
— Quem é ele…?
Ouvi alguns sussurrarem. Michael tomou as rédeas.
— Ele é o Morten, meu amigo. Eu quero que ele fique por perto.
Depois dessa fala, todos naquela sala passaram a me olhar diferente, a me tratar diferente, é assustador como a palavra da pessoa certa pode mudar tudo.
— Morten… "senhor" ou "você"?
Levei as mãos aos bolsos e sorri discretamente.
— Ah, pode ser "você", eu sou novinho.
— Você vai ficar aqui, tá bom? O senhor Jackson vai ser entrevistado ali, não vai ficar tão distante pra você. Quer beber alguma coisa?
— Tem água com limão?
O que foi? Tem que aproveitar!
Me acomodei na cadeira que eles me arrumaram (é bem mais confortável que a da entrevista anterior) e esperei pela bebida. Me serviram assim que a entrevista começou, Michael novamente parecia tranquilo e familiarizado com tudo, falava as coisas como se tivesse estudado a noite toda e estivesse afiado pra uma prova (eu torço pra ficar assim um dia, porque meu plano inicial era deixar o Magne tagarelando no meu lugar). Eu aproveitei a deixa para catar minha câmera e fazer um registro silencioso e sem flash do momento.
Enquanto tirava as fotos, me lembrava mais uma vez do pedido que aquela maluca da irmã dele havia feito pra mim. Eu não fazia ideia de como faria pra convencê-lo sem fazê-lo desconfiar que ela havia me obrigado, mas eu teria que dar o meu jeito ou eu teria minha pele exposta ao sol mais cedo ou mais tarde.
A entrevista seguiu sem maiores problemas, e, após o tempo esgotar e as câmeras pararem de gravar, Michael se prepararia para o evento de premiação. Me levantei e o segui rapidamente.
— Michael, posso falar contigo?
— Diz…
— Então… sua irmã… a mais velha, a menina do salto alto.
— A La Toya? O que tem ela?
— Então… — ai porra, como é que eu falo isso?? — você não acha que ela daria uma excelente atriz?
Vi na mesma hora o olhar dele se fechar em confusão, o cenho franzir como se estivesse perguntando o que foi que eu havia cheirado, e o rosto se virar em minha direção.
— Você… tá gostando dela?
— O-o quê? — que legal, nem passar uma porra de uma mensagem eu consigo sem parecer malicioso.
— Porque, se estiver… eu não recomendo. Ela já tá saindo com um cara.
Naquela hora eu paralisei. Ela sentou no meu colo… me beijou… não é possível que ela tenha arrumado um namorado durante esses 5 dias (ou é?). Eu sabia que essa menina era doida.
De qualquer forma, eu ainda tinha lances em jogo.
— Ah, cara, não é isso…
— Vamos pro meu camarim? Tô te achando meio estranho, acho que você precisa beber alguma coisa.
— Que nada, cara, eu já quero tirar a água, não piora o meu quadro, não.
Ele soltou um riso curto e me puxou pra um lugar mais reservado. Fomos pro tal do camarim, um canto com uma mesa cheia de coisas gostosas e outra mais longe com maquiagem e outras frufruzices. Eu roubei um bombom e voltei a falar.
— Ah, vai me dizer que você não vê grandes qualidades artísticas nos teus próprios irmãos? Eles cantam, dançam, sapateiam, atuam, fazem malabarismo…
— Isso é novo pra mim — Michael riu.
— Eu sei, eu sei, exagerei, mas tô falando sério. Não tem como descolar um papel pra ela em algum projeto seu?
Nesse momento foi o Michael quem ficou em silêncio. Ele lentamente encostou-se numa mesa próxima e tocou a parte interna da bochecha com a ponta da língua. Seu olhar foi para outra direção, ele estava pensando.
— Ela te pediu isso...?
Puta merda…
Fiquei em silêncio. Eu não tinha nada de bom pra dizer, ele já havia descoberto tudo.
— Morten…
— A sua irmã quer muito trabalhar contigo. Ela não sabia como pedir, então falou comigo. Não fica bravo com ela… dá essa chance a ela.
Eu sei, eu deixei as coisas mais agradáveis pro lado da Toya, mas eu realmente não tô afim de ver dois irmãos brigados por essa bobagem. Eu sou trouxa? (Sim, Morten, você é.)
Michael não respondeu nada concreto, apenas me olhou como se estivesse pensando o que iria fazer comigo, em seguida se levantou e se aproximou de onde eu estava.
— Eu me resolvo com ela, tá bom…? Não se preocupe.
Ele pegou uma uva daquela mesa e comeu, em seguida saiu da sala e me deixou lá. Senti um peso sair das minhas costas.
— Vamos, o show ainda não acabou.
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Encino – 21:04 hrs
Já era noite, as luzes estavam apagadas, uma parte da mansão estava dormindo. Eu estava na varanda. O céu espalhava o pouco de neve que ainda tinha, a natureza estava se preparando para a transição de estações. Logo seria primavera.
Coloquei uma roupa mais confortável, não estava tão frio assim, me senti bem pra vestir uma camisa de mangas curtas e botões soltos. Me sentei próximo à janela, acendi alguns abajures e fiquei admirando o céu. Michael chegou logo em seguida, me deu uma taça vazia e encheu com um líquido que a princípio eu não sabia o que era.
— Eu não gosto de beber álcool, mas… — ele deu ombros e encheu a própria taça em seguida — só um pouco de champanhe.
— Você merece. O troféu é incrível, Michael.
Ele sorriu e se sentou ao meu lado.
— Eu pensei em deixá-lo na parede do meu quarto, mas ele é muito grande.
— O seu quarto também não fica de fora…
— Eu sei, mas e se eu receber mais como esses? Eu preciso me prevenir.
Eu deixei uma risada escapar e bebi um pouco da minha taça.
— Duplo disco de platina. Será que um dia eu chego lá?
— Você ainda duvida? Sua voz é… — ele custou a falar a palavra seguinte, mas prosseguiu, com um sorriso envergonhado no rosto — linda.
Eu sorri.
— Isso não foi nada esquisito…
— … nem constrangedor — ele riu — Palavras da vossa majestade.
Eu suspirei, relaxei os ombros e voltei a olhar para a paisagem lá fora. Eu sou apaixonado pela natureza, e era legal saber que outra pessoa tinha a mesma linha de pensamento. Teríamos assunto até o entardecer.
— Eu tô afim de fotografar as primeiras flores que desabrocharem. Logo no começo de março a transição começa, se não me engano.
— Eu espero que eu esteja com o dia livre, quero ver isso pessoalmente.
Ficamos em silêncio mais uma vez. Michael mordeu os lábios e voltou a olhar pra mim, parecia estar procurando assunto.
— O que você achou do evento?
— É bem legal, as pessoas te tratam com um respeito impressionante, mas eu sei que o status influencia bastante nisso.
— Sim, todo mundo é muito gentil.
— A Jane Fonda te premiou, cara… deve ser muito legal conhecer esse pessoal que tá a mais tempo na fama.
— Ah, a Fonda é muito doce e divertida…
— Ela até que é gata pra uma senhora de quarenta e tantos…
Eu puxei o assunto, falar sobre mulher era algo trivial pra mim, mas eu notei como ele se calou ao ouvir minhas palavras. Olhei pra tentar adivinhar o motivo e vi as suas bochechas corarem.
Eu sorri. Isso vai ser interessante.
— Gosta de mulheres mais velhas ou mais novas, Michael?
— Ah, eu… sei lá…
Gargalhei.
— Fala, cara! Não tem mesmo nenhuma preferência? — eu suspirei, pensei em iniciar o assunto pra tentar deixá-lo mais confortável — A única mulher mais velha que eu lembro de ter gostado foi a minha professora do ensino médio. Que mulher linda, meu pai…
Depois de alguma relutância, ele topou entrar no assunto.
— Bom, as minhas namoradas geralmente são mais novas… Mas eu… eu gosto de uma pessoa mais velha.
— É mesmo? Quem?
Tomei o resto da minha taça. Olhei pro lado e percebi que o Michael havia parado na metade, a conversa realmente parecia estar triturando os pensamentos dele.
— Eu gosto da… Diana. A Diana Ross — depois de ter tirado o peso do mundo das costas, ele tomou o líquido de uma vez.
— Hm… já ouvi falar nela. Já pensou em falar pra ela?
— Você sai revelando essas coisas pra toda mulher que gosta?
— Não, geralmente elas vêm até mim.
Eu sorri de canto, mas ele não parecia muito feliz. Eu devia ter pensado nisso… nem sempre vai ser fácil como é pra mim.
— Desculpa…
— Tá tudo bem, eu sei que ela também gosta de mim. Só… é difícil.
— Ela gosta de você? Então onde tá o problema?
Michael suspirou.
— Morten, ela é quatorze anos mais velha que eu. Ela não quer. Só isso.
Somente aquelas palavras já me fizeram entender. Se já é difícil engatar um relacionamento sério, imagina quando a diferença de idade é inegável? Sobretudo quando se está na situação do Michael… normalmente o oposto não é tão condenável.
Suspirei.
— Tudo isso é uma grande merda social.
Ele me encarou em silêncio, em seguida assentiu e voltou a admirar a própria taça.
— Eu concordo… Bom, tá tarde… eu tenho que ir dormir.
Ele se levantou e levou a minha taça vazia. Eu também quis aposentar a noite, então me levantei e fechei a janela.
— Boa noite, cara.
— Boa noite.
Saímos por corredores diferentes. Fui até o meu quarto e me joguei na cama, mais um dia comum havia se passado: um dia sem a presença do Branca, aprendendo coisas, sem fazer nenhum progresso, mas, também, sem me sentir completamente vazio. Eu não fazia ideia do que esperava por mim no mês que vem, mas de uma coisa eu sabia: Michael me ensinaria alguma coisa e eu me divertiria com isso.
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