Diário de 83
19 Cedo Demais
Notas iniciais
Encino, Califórnia – 19:55 hrs
16 de maio, 1983
Michael, Janet e eu estávamos assistindo ao programa da NBC, eles estavam transmitindo o festival Motown 25, e novamente veríamos a melhor apresentação daquela noite. Ver de novo até era legal, mas nada se comparava a assistir ao vivo.
Estávamos em Hayvenhurst novamente, Michael me convidou pra passar uma noite lá, no dia seguinte voltaríamos ao The Lindbrook. Janet e eu estávamos no sofá, Michael estava no chão, entre as pernas dela, recebendo um afago na cabeça enquanto via a TV. Esse era o momento do passo pra trás. Ficamos em silêncio, contemplando cada movimento com atenção, até ele finalizar a apresentação.
— Qual o nome desse passo? — Janet perguntou.
— Os jornais estão chamando de "passo da lua". É quase ilusório, como uma Gestalt. Dá a falsa sensação de que o dançarino está sendo puxado pra trás enquanto caminha pra frente — eles lentamente se viraram e me olharam em seguida. Eu dei ombros. — Que foi? Eu tô fazendo meu dever de casa, só isso.
Michael gargalhou e balançou a cabeça negativamente.
— Eles querem saber demais, mas não estão errados. Porém eu preciso deixar claro que eu não criei esse passo, eu usei o que já existia dele ao meu favor, eu só pensei na música. As pessoas gostam de teorizar e complicar coisas simples.
— Mano… o que você sentiu quando dançou naquela hora?
Janet perguntou. Fiquei em silêncio, era realmente uma boa pergunta.
— Não pensei em nada, se é o que quer saber — ele sorriu. — Senti a música… como se eu fosse uma ferramenta nas mãos de algo ou alguém maior do que eu.
— Mas você ensaiou isso? Você sabia que seria assim?
Enfim perguntei. Ele olhou pra mim, em seguida desviou para o chão.
— Sim, eu ensaiei. Eu sabia que ia me apresentar sozinho por último, e sabia que teria que ser a melhor apresentação. Mas, sendo bem sincero, eu esperava fazer melhor.
Nos entreolhamos, incrédulos.
— Tá de brincadeira…?
— Irmão, foi a melhor apresentação da noite! Não vem com os teus complexos agora…
— Vocês não entendem, eu podia ter feito melhor, e eu tinha tudo a meu favor.
— Me diz uma coisa… o que é que teve de tão ruim na sua performance?
Ele riu.
— Não digo não, você vai ficar reparando nos meus defeitos, vocês dois!
— Ei! A gente tá iniciando na música, nada mais justo que contar os seus segredos.
Comentou Janet, eu ri em seguida.
— Deixa ele, um dia eu vou descobrir esses defeitos.
— Nem tenta, Mort, ele tá te enrolando. Não tem defeito nenhum, mas ele fala isso pra a gente perder o sono tentando achar.
— Eu não sou cruel assim…
Nós rimos em conjunto, em seguida Janet se levantou e acendeu a luz da sala. Eu estava tão distraído que custei a entender que o Michael estava cheio de pedrinhas coloridas no cabelo.
— Drittsekk…
— Bom, de uma coisa eu sei: o mano tem uma péssima sensibilidade.
— O quê?! — ele passou a mão na própria cabeça e sentiu as pecinhas. Eu ri alto em seguida — Janet!!
Ela me acompanhou na gargalhada.
— Cara, ela te encheu de pedrinha!
— Pedrinha?
— São as minhas miçangas! Ah, vá, ficou bonitinho.
— Janet, eu vou te esganar se você não tirar isso de mim agora!
— Ei! Já que os pais saíram e só tem a gente aqui, eu podia testar uma coisa em vocês?
Nos entreolhamos, mas, antes que questionássemos, ela correu pro primeiro andar e voltou com uma pequena maleta de coisas.
— Nem vem…
— Eu só quero saber o efeito que a mesma maquiagem dá em pele branca e preta. Ninguém vai zoar vocês, relaxa, eu não vou contar nada…
— Nem vem!
Dessa vez eu falei. Ela levou as mãos à cintura.
— Mike, você usa maquiagem ocasionalmente. Qual o problema?
— Você vai me deixar ridículo, pensa que eu não sei?
— E Mort, você já usou maquiagem antes.
— O quê?! — como diabos aquela menina sabia daquilo?! Os únicos que sabem são o Mags e o Paul, foi numa época que eu tava fissurado no Freddie Mercury, mas eu usava apenas nos shows — Como você sabe??
— Eu posso ter aprendido um pouco de norueguês? — ela sorriu com malícia — Ou eu posso conhecer outras pessoas que falam norueguês? Não sei…
Revirei os olhos.
— Peste — me virei pro Michael. — Com todo respeito à sua irmã.
Ele segurou um riso.
— Mana, nem pensar.
Cruzei os braços e fiquei ao lado do Michael, também reafirmando minha decisão. Ela olhou pra gente e, não sei como, em poucos instantes aquelas mãozinhas estavam passeando pelos nossos rostos. Janet pintou o Michael e não deixou que eu olhasse, em seguida fez o mesmo comigo. Senti o rímel, o delineador, o batom, eu só conseguia imaginar o quão ridículo ficaria. Quando ela terminou, nos colocou de frente pra um espelho.
— Ta-dam! Resultados: gosto do batom pitanga no Morten, mas o delineador azul metálico fica muito melhor no Michael.
Nos olhamos, e não conseguimos conter a risada. Putz, se o pai deles visse isso…
— Nunca mais te deixo pintar minha cara.
— Dá um desconto, hoje eu tô ficando mais velha.
Eu arqueei a sobrancelha.
— Como assim?
— Ela faz aniversário hoje.
— O quê? — aniversário? Sem bolo, sem parabéns? Okay, eu nunca curti as festas de família mesmo, mas pelo menos um bolinho, não? — Ei, parabéns, tampinha! Mas todo mundo esqueceu, pelo visto.
Eles pareciam desconfortáveis, me questionei o motivo.
— A gente não comemora essas coisas, Morten…
— O quê? Também não?
— Estamos comemorando o quê? Um ano mais perto da morte? Pelo menos, é isso que a mamãe diz…
Comentou Janet. Putz, que loucura… e eu achando que minha mãe que era a rigorosa. No fundo, acho que nem mesmo eles curtem a ideia.
Pigarreei.
— Desculpe.
— Não esquenta, bobão — ela falou, se levantando em seguida. — Eu vou arrumar essa bagunça. Melhor vocês usarem um demaquilante, algumas coisas aí são à prova d'água, última tecnologia.
— O quê?!
Exclamamos ao mesmo tempo. Argh, aquela pestinha!!
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20:40 hrs
Janet já tinha ido dormir e os pais do Michael ainda não haviam chegado. Ele me chamou pro seu antigo quarto, e eu é que não ia recusar, queria aproveitar esse tempo juntos.
Me sentei na cama, de frente pra ele, e o moreno começou a passar aquele produto gelado na minha cara. Apertei os olhos enquanto o algodão roçava suavemente na minha pele, refrescando os meus poros daquele produto desconfortável. O rosto do Michael já estava limpo, faltava apenas o meu pra gente se livrar da brincadeira daquela tampinha.
Quando senti a última pincelada do algodão no canto da minha boca, ele se aproximou, eu senti sua respiração aquecer os meus lábios. Relaxei os músculos da minha face e esperei que ele me beijasse, e, quando Michael começou, eu devolvi na mesma vontade. Ele beijava a minha boca como se estivesse devorando algum doce gelado e tivesse pressa pra que não derretesse; ele molhava os meus lábios, brincava com a minha língua — eu gostava, eu queria de novo e de novo.
Se Michael era tão inocente assim, eu não sei, mas ele beijava bem pra caralho.
— Que gosto você sentiu…?
Sussurrei ao abrir os olhos. Ele lambeu os beiços e me respondeu.
— De loção de limpeza.
Ele riu, nós gargalhamos juntos.
— Você ainda fica excitado quando me beija?
Perguntei. Eu realmente tinha essa curiosidade, mas um lado meu só queria provocar. Ele corou como um morango maduro e desviou os olhos para o próprio colo.
— Eu te odeio…
Eu ri.
— Não precisa responder, se não quiser. Mas vai ser uma pena… eu queria mesmo saber.
Num gesto rápido e talvez impensado, Michael agarrou minha mão, em silêncio, e a levou ao seu colo. Eu estremeci, não pensei que ele seria capaz, ou pelo menos não ainda. Eu toquei, eu pude sentir o princípio de alguma coisa acontecendo; eu queria provocar, mas ele pareceu ler a minha mente, pois tirou minha mão dali o mais rápido possível.
Suspirei, eu precisava descarregar o tesão que eu estava sentindo.
— Michael…
Antes que eu dissesse alguma coisa, ele me derrubou na cama e voltou aos beijos que me enlouqueciam. Eu desabotoei sua camisa até onde consegui, beijei o seu pescoço e o seu tórax enquanto sentia sua respiração acelerar. Pela primeira vez ouvi o seu gemido, e foi tão natural, tão genuíno, que eu realmente me entreguei àquela sensação depois de ouvi-lo.
— Michael, Michael… tempo, tempo.
Ele saiu de cima de mim. Pude dar uma olhada no nosso estado e percebi que já era tarde demais pra gente e pra as nossas roupas.
— M-me desculpe…
— Na próxima, a gente podia tentar algo mais, se você quiser…
Captei o momento que ele imaginou as possibilidades, pois apertou os olhos em vergonha e desviou o olhar.
— Não, não, tá tudo bem… — ele puxou um travesseiro para abraçar — quer ir primeiro? Eu me arrumo no closet, tenho tudo que preciso lá.
— Tudo bem…
Me levantei e fui dar um jeito na minha situação. Tudo que eu precisava era só de umas toalhas descartáveis, roupas novas e muita sorte. Peguei a mochila que eu havia trazido e vesti a minha calça de tecido moletom e ligas confortáveis, eu já ia dormir mesmo. Voltei e vi que o Michael já havia saído do closet.
— Não sabia que você era tão sensível…
Me aproximei com um sorriso no rosto. Michael mordeu os lábios, mais envergonhado que realmente provocador, e deixou, sem relutância, que eu o abraçasse pela cintura. Eu o beijei novamente, aos poucos nossos corpos naturalizavam aquele contato, nos dando resistência. Michael retribuiu o meu beijo e soltou um gemido baixo no ato, eu suspirei durante o carinho e me contive.
— Morten… — ele sussurrou, finalizando o beijo — eu estou cansado. Vamos dormir?
— De conchinha?
Provoquei, rindo em seguida. Ele revirou os olhos.
— Não vou te prometer nada...
— Você quem manda, super astro. Vou só pegar uma água.
Dei um beijo na sua bochecha e saí pra pegar um copo d'água. Não tive nem tempo de pôr o pé pra fora, Janet já estava virando o corredor.
— Ué, o que ela tá fazen…
Travei ao pensar nas possibilidades. Ela estava no corredor errado, o quarto dela nem ficava naquelas bandas, mas isso é algo que ela já sabia, ela mora lá, porra! Então, ela só pode… ela só…
Puta merda.
Fui atrás daquela pestinha. Virei o corredor e a encontrei entrando no próprio quarto, mas eu fui mais rápido e cheguei antes dela trancar a porta.
— Se você não sair daqui, eu vou gritar!
— Shh, calma, calma… não precisa — passei a mão no cabelo. Estava tão perturbado com as minhas suspeitas que não consegui ficar com raiva dela, nem me importar com a sua ameaça, eu somente queria resolver isso. — Você tava naquele corredor por quê?
— Não te interessa.
— Calma, Jan, eu não quero brigar contigo. Eu vou embora, tá? Só… me diz o que você ouviu.
Ela arqueou a sobrancelha. Eu a olhei por alguns instantes, aquele olhar cínico não me enganava.
— Eu faço essa mesma cara quando quero mentir, nem adianta.
Ela suspirou.
— Você tá tendo um caso com o Michael?
Quando as palavras que eu mais temia saíram da boca dela, meu coração parou por alguns instantes, meu corpo travou e gelou imediatamente, quase pensei que cairia morto ali. Pela minha cara pálida, ela percebeu que era verdade, vi quando suas pupilas contraíram por medo de ter acertado.
— Puta merd… — ela levou a mão à própria boca, impedindo-se de completar o palavrão.
Suspirei… É, Janet, eu pensei a mesma coisa.
— Você não vai contar, não é? Pra ninguém… nem pra ele.
— Ele não sabe?
— Não, só eu te vi.
Ela assentiu depois de recuperar do choque.
— Okay, okay… Você guardou meu segredo, não lembra? Eu guardo o de vocês.
Drittsekk, é mesmo! Soltei um suspiro profundo e aliviado quando lembrei daquilo, e fiquei feliz que ela me considerava dessa forma. Mas, ainda sim, tentei não passar desespero.
— Obrigado, tampinha.
— De nada. Sendo sincera, eu pensei que vocês estavam ouvindo alguma gravação de pornografia, eu tentei muito não cogitar isso. Mas enfim… que bizarro.
— Por que bizarro?
— Porque vocês são dois caras, né? Eu jurava de pés juntos que o Michael era só diferente, não pensava que ele era gay.
— Michael não é gay… com outros caras. Só comigo. Ele deve ser "Mortenssexual".
— Você inventou isso agora!
— Tanto faz, não importa o que ele é ou o que eu sou, a gente gosta um do outro de verdade. Eu protejo a integridade física dele, ele protege a minha mental, um vai ajudando o outro nos altos e baixos…
— Eca.
— Tenta ficar feliz pelo seu irmão. Ele gosta de mim de verdade.
— Eu ainda tô suando frio, então nem vem! Até eu me acostumar, vai demorar. Só façam menos barulho e tomem cuidado. Se o papai souber, vai enfeitar o chão da sala com a sua pele branquinha.
Eu aquiesci, errada ela não estava.
— Eu sei. God natt, tampinha.
Ela sorriu fraco ao se lembrar daquelas palavras.
— "Gu nó"…
Eu saí e deixei ela digerindo tudo. Mesmo que a Janet ainda não conseguisse entender aquelas coisas, eu sabia que aquelas palavras dolorosas que ela me disse eram medo do que aquele romance proibido poderia causar. Nem eu sabia onde isso ia dar, mas, a cada dia que eu passava ao lado do Michael, mais eu queria me certificar de que ele ficaria bem.
Nem me lembrei de pegar o copo d'água, fui direto pro quarto dele, em passos calmos, e o vi deitado na cama. Ele se sentou na borda e me chamou. Fui em sua direção e me sentei à sua frente.
Nos olhamos em silêncio.
— É cedo demais pra falar que te amo…?
Michael me olhou com uma certa surpresa, que tentou disfarçar com um sorriso fraco. Ele levou uma mão ao meu rosto e roçou o dorso na minha pele, como sempre fazia.
— Por que você diz que me ama?
— Porque eu quero que você fique bem. E… ver você mal me preocupa. Eu quero que você fique bem, mesmo que isso me prejudique de alguma forma.
Ele desviou o olhar e refletiu sobre aquilo.
— Como sabe que me ama, e não que está apaixonado por mim?
Pensei sobre aquilo, putz, tá aí uma boa pergunta.
— Não sei…
Ele voltou a me olhar.
— Não vamos pensar sobre isso agora, é muito complicado — ele beijou o canto da minha boca. — Boa noite.
Apenas pisquei os olhos uma vez, em resposta, e fui ao seu lado pra me deitar.
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