Diário Número 13
3 Capítulo 3.
Eles passaram um bom tempo no táxi, calados, olhando e acariciando um ao outro, sem dizer uma única palavra. Jamye sorria, mas estava um pouco preocupada. O que ele quer dizer com “dar grandes passos”? É o famoso “relacionamento sério”? Ou apenas um grande passo mais próximo dele? Ela piscou, irritada por estar preocupada com isso. É um sentimento adolescente e ela o odiava. Ela não se importava nada de estar em um relacionamento sério, mas ele era tão novo... Quinze anos! Cada vez mais ela se sentia obrigada a lhe contar o segredo.
“Só quinze anos. Eu não devo, não está sério o suficiente” pensou ela, forçando-se a parecer feliz e confortável, contornando os traços do rosto de Cody com a ponta dos dedos enquanto o garoto a fitava seriamente.
– Estamos chegando – disse ele de repente, ajeitando-se no banco.
– Jura?! – exaltou-se Jamye em resposta, jogando-se para a janela e olhando ao redor.
Mas tudo que havia eram árvores e mato. Nada, além disso. Nenhum ser vivo a não ser eles e alguns animais que Jamye pôde sentir, até identificar pelo cheiro. Havia um esquilo por perto e algum outro animal longe o suficiente para que ela não o identificasse de pronto.
Olhou para frente e depois para a outra janela. Árvore, árvore. Animais. Vaga-lumes. Nada que ela já não tivesse visto na vida.
– Que é isso? Você vai me jogar no mato e me estuprar? – perguntou ela virando-se para Cody, arqueando a perfeita sobrancelha loira.
Ele riu, esticando os dedos para brincar com uma mecha de cabelo dela.
– Ideia tentadora, mas não. – E foi tudo que ele disse.
– Jamye... Diga a ele que desceremos aqui – disse Cody devido ao francês fluente de sua namorada. Ela riu, assentiu e disse ao homem em um perfeito francês “senhor, desceremos aqui”. Cody o entregou uma boa quantia em dinheiro e então saiu. Antes que Jamye pudesse fazer o mesmo, ele tampou seus olhos.
– Nada de espionar – disse e ela apenas assentiu.
Cody a guiava com um braço em volta de sua cintura enquanto Jamye tropeçava em algumas pedras e praguejava consigo mesma em silêncio por ter vindo com aquele bendito salto. Ela tentou aguçar os sentidos para descobrir alguma coisa. Só ouviu uma correnteza calma de um lago, algo balançando, sentiu o cheiro de Cody, principalmente e havia alguns animais. Nada que confidenciasse a ela algo sobre a surpresa. Ela apenas sentiu Cody abrir algum tipo de porta, sentiu cheiro de madeira. Uma cerca de madeira. Cuidadosamente, ele a passou pela porta, passando logo atrás dela.
– Eu reclamaria do seu salto se você não ficasse tão bonita com ele e alta o suficiente – brincou Cody, quando pararam de repente.
– Vamos Cody, eu quero ver! – Riu ela, batendo levemente o pé.
– Tudo bem, tudo bem... – Ele riu e, antes de destampar os olhos de Jamye, aproximou bem seus lábios do pescoço dela, roçando-os no mesmo, enlouquecendo-a. – Eu só quero dizer... Que espero que você goste. De verdade.
E então, depositou um pequeno beijo em seu pescoço e destampou-lhe os olhos.
Ela não pôde ter reação imediata. Gritar pareceria ridículo? Jamye odiava fazer qualquer tipo de escândalo. E que tal chorar? Não... Também considerado um tipo de escândalo, drama ou desespero. Sorrir não seria o suficiente. Mas o que exatamente era aquilo? Era lindo e ela sabia que era deles.
A coisa começava com um pequeno jardim. Um jardim perfeito, infestados de rosas vermelhas, as favoritas dela. Havia outros tipos, mas as rosas eram as atrações principais ali. Dava para ver que estavam bem cuidadas e continuariam assim, Cody com certeza não permitiria que nenhuma coisa favorita de Jamye morresse. Havia uma árvore cheia de maçãs, coisa que Jamye não via há alguns anos, quando a natureza era algo frequentemente visto. A macieira foi o que realmente chamou sua atenção.
No meio do jardim, havia um estreito caminho de pedras com curvas perfeitas que levavam a uma pequena casa. Um chalé charmoso de provavelmente dois andares, perfeito. Havia ramos de rosas por ele, dando voltas em pilastras, crescendo gentilmente nas paredes. O chalé tinha uma natural coloração de marrom, e dava para ver que havia vários tipos de madeira feitos especialmente para cada parte externa. Uma para a porta, outra para a parede...
Mas aquilo também não era o que mais chamava a atenção. Logo atrás, havia uma versão pelo menos dez vezes menor do que a Torre Eiffel original. Inconscientemente, Jamye agarrou seu colar inspirado no monumento, admirando aquilo. Com certeza não demorou mais de que alguns meses para ser feito, mas mesmo assim... Quanto Cody haveria gasto naquilo? Ela pensou na coisa mais cara que dera a ele. Um Porshe. E ele nem tinha idade para dirigir ainda, embora o dirigisse algumas vezes.
Voltando as reações... Nada muito exagerado. Ela se virou e o puxou, beijando-o. Com certeza não haveria palavras para aquele presente. Ele apenas retribuiu, passando as mãos por suas costas e sorrindo entre o beijo.
– Preciso saber o que achou – disse ele, tão perto dela de um modo que, quando falava, seus lábios roçavam nos dela.
“Ah Cody, se você soubesse... Não estaria tão próximo de mim agora” pensou ela antes de sorrir. Ela olhou fundo naqueles olhos verdes. O que diria?
– É lindo. É perfeito. É o desespero da sua conta no banco – ela riu gentilmente.
– O dinheiro não importa – ele riu também, apertando seu queixo.
Mas é claro que, pra ela, significava alguma coisa. Ele só tinha quinze anos e ele comprou um chalé para os dois? Ele com certeza não sabia o que estava fazendo. E se eles terminassem, o que fariam com aquele chalé? Como é um presente dele para ela, continuará sendo dela, mas ela teria a audácia de usá-lo? A o colar com a palheta de Cody pareceu arder no seu pescoço e ela se afastou dele lentamente.
– E a Torre Eiffel tem um elevador? – perguntou ela, entrelaçando seus dedos nos dele para não deixar seu desconforto transparecer, e ele pareceu ter acreditado pois riu calmamente como se não houvesse nenhuma preocupação no mundo, o riso que Jamye adorava e a fazia sorrir junto com ele.
– Tem, sim. Mas não vamos para lá agora. – Ele se abaixou e, antes que Jamye pudesse questionar o porquê, ele colocou um braço em torno de suas pernas, a virou e de repente ela estava sendo carregada. Automaticamente, envolveu seus braços em seu pescoço e riu.
– Como é? Somos casados agora? – Perguntou, de repente pensando no diário que deixara em casa e rindo com a pequena piada interna. Seu diário não iria gostar nada desta história.
– Não. Ainda não. – respondeu.
Jamye riria, mas ele estava sério. Ele falou sério. Cada vez mais ela sentia-se preocupada e irritada. Não dava para gostar de uma criatura como ela e ela não poderia amá-lo, ela não poderia ter sentimentos. Mas essa história ridícula de se envolver com humanos... Ela desenvolve coisas ridículas, como sentimentos. Cody não poderia se apegar. Ela até poderia, com certeza não sentiria algo como aquele de novo, ou pelo menos um medo como aquele.
– Está pronta? – perguntou ele quando finalmente chegaram à porta. Ela apenas assentiu ainda pensativa demais para dizer alguma coisa e então ele simplesmente girou a maçaneta e a pôs no chão.
Mesmo no escuro, ela conseguira perceber muitas coisas. Mas o interior do chalé lhe pareceu muito mais bonito quando Cody acendeu as luzes. Enquanto ele pegava algumas chaves dentro de uma jarra laranja-claro, ela piscou, novamente pensando no quanto aquilo deveria ter custado.
Era um lugar tremendamente formidável. O chão era todo coberto por um carpete peludo de uma cor ente o bege e o branco, e o cômodo a sua frente era a sala. Havia um grande sofá de couro preto bem ao meio dela, a sua frente uma mesinha de centro e logo uma enorme TV de tela plana. Atrás do sofá, havia encostado-se à parede uma poltrona vermelha, onde de um lado estava uma vitrola antiga e ao outro lado estava uma enorme estante de madeira cheia de livros e discos. Coisas antigas, coisas que Jamye adorava. Ela conseguia ver seus livros favoritos e um disco dos Beatles além de outros. Em um canto da sala, estava uma escada de madeira.
Iluminando tudo aquilo, havia um pequeno lustre de cristal que não exagerava muito. Era totalmente perfeito. Ela deu alguns passos a frente para notar um breve corredor coberto de rosas vermelhas falsas do chão até o teto. Ele havia pensado em tudo, as flores de verdade não sobreviveriam. O corredor revelava uma pequena sala roxa com uma lareira e pufes, e logo além da sala, Jamye percebeu, mesmo com a luz do cômodo apagada, que ali era a cozinha.
E agora, o que ela diria?
– Tire os sapatos, Jay. – Disse Cody, fazendo-a sobressaltar. Surpreendida novamente. Mas, mesmo assim, ainda presa com o olhar no interior maravilhoso do chalé, ela tirou o salto e sentiu o carpete peludo e macio acariciar gentilmente seus pés. Eram quase cócegas, mas ela riu mesmo assim.
– Isso aqui é maravilhoso, de verdade. Não acredito que comprou um chalé pra mim. Um chalé pra mim em Paris. Um chalé pra mim em Paris com uma mini-Torre Eiffel apenas para mim. Como é que eu vou retribuir isso agora? – Disse ela, nervosa e sem olhar diretamente para ele.
Ele deu uma curta risada, tirando os sapatos também e se aproximando dela.
– Faremos assim, então: eu te dou o chalé e em troca você me dá seu coração.
“Meu coração que não bate. Você quer essa coisa morta?” pensou ela. Era o que ela deveria ter dito, mas apenas suspirou com um sorriso fraco.
– Não me parece de bom tamanho.
– Jamye, é a única coisa que eu estou pedindo a você! – Ele segurou seu rosto como fizera antes, novamente como se estivesse com medo que ela fugisse. Ela piscou com força, e passou pela sua cabeça que ele realmente estivesse com esse medo.
Ela, em resposta, ficou na ponta dos pés para ficar a sua altura e o beijou gentilmente, quase como se estivesse com medo de quebrá-lo. Era sempre assim, ela sentia como se ela tivesse que protegê-lo e não ao contrário, e como não sentir isso? Ela era 185 anos mais velha que ele, e o monstro ali era ela. Se Cody tinha que ser protegido de alguém, era dela mesma.
– Ele é seu – ela sussurrou. E estava sendo sincera.
Ele sorriu, apenas isso. Ela tinha um chalé em Paris e ele o coração dela. E eles permaneceram nesse silêncio por algum tempo, até o próprio Cody se afastar.
– Você deve estar com fome – disse ele e ela apenas assentiu, embora não estivesse. Comida não era nada para ela. – Eu aprendi a fazer comida italiana.
– Estamos na França – ela riu.
– Mas eu estava na Itália, aprendi a fazer comida italiana e vou fazer comida italiana. – Ele arqueou a sobrancelha e sorriu para mostrar que estava brincando. – Alguma outra objeção?
– Não. Não vamos desperdiçar seu mais novo dom. – Ela sorriu também. E então olhou de relance para a escada. – Enquanto isso posso ver o segundo andar?
– É claro. Eu te chamo quando terminar. – Ele mordeu sua bochecha levemente, sorriu e foi para a cozinha.
Jamye apenas suspirou. Que grande bagunça essa em que ela havia se metido. Talvez ela devesse se distrair no segundo andar para pensar um pouco sobre isso. Então esse era o grande passo? Era um passo enorme. Tentando tirar isso da cabeça, ela deixou seus sapatos ao lado da porta de entrada e subiu correndo as escadas.
A escada dava para um longo corredor, com portas até o fim. Ela não acendeu as luzes do corredor, não precisava. Começou a vasculhar o que havia além das portas. A primeira estava trancada. A segunda era um pequeno cinema, com uma enorme tela e poltronas que faziam massagem. Haviam estantes com filmes preferidos pelos dois. Foi na terceira porta que ela encontrou ia contra tudo que o chalé era. Estava tudo uma bagunça e ela imaginou se aquela porta não deveria estar trancada.
Havia velharias do chão até o teto. Livros, pertences, roupas, CDs. Ela vasculhou os livros. A saga inteira de As Crônicas de Nárnia, alguns livros de Harry Potter, Anne Frank. Alguns contos de fadas. Acidentalmente, ela deixara um livro cair. Quando o pegou para colocá-lo de volta ao lugar, notou que não era um livro. Um diário. De Cody? Ela esperava que sim. Um dos enigmas que ela mais tentara decifrar era os pensamentos de Cody, o que ele pensava sobre ela. Talvez achasse até o porquê daquele chalé.
Ela abriu na última página em que havia escrita. As outras adiante eram apenas papéis em branco. O último havia sido escrito há uma semana trás.
“Então... acho que é o fim” escreveu a caligrafia perfeita. Não era a de Cody. “Todos nós iremos morrer. Não há uma arma contra isso, eu procurei por tudo. Consortes não arranjam solução. Alguns já passaram para o lado deles. Minha mulher está morrendo por ter levado uma mordida de um deles. Lobisomens. Por que agora? Por que nos odeiam tanto? Eu venho adotado uma dieta de sangue animal há anos. Apenas animais. Nunca fiz nada para nenhum deles. Mas talvez estejam tentando protegê-los. Os humanos, digo. Não os culpo, somos predadores. Sem Margaret, não imagino a Terra no seu curso normal, então, aos poucos, me deixarei morrer também. Alguém vai achar este diário. Seja humano, vampiro ou lobisomem, consorte... E é bom que saibam. É bom que sejam avisados. Se você for como eu, um aviso: corra. Eles sentem o seu cheiro. Corra se ainda conseguir enxergar o sentido de viver para você, embora seu coração não bata. Eu e Margaret iremos para a Indonésia, achamos justo que ela parta dessa vida lá, onde nasceu. Deixarei este diário aqui, para você que deve ser avisado. Sei que vou salvar a vida de alguém com isto. Que a sorte esteja ao seu favor.”
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