Diário De Uma Filha De Hades
30 Uma Vitória de Sofrimento
Notas iniciais
Meus ossos se congelaram no lugar em questão de segundos. Não podia acreditar no que estava acontecendo e nem em quem estava parada ali diante de meus olhos, sorrindo e apreciando a vitória. Nem me lembrei que estava apoiando Isa até ela se remexer novamente.
– Mas que bela cena... — Nyx começou — Semideuses como vocês tentando impedir minha ascensão? E ainda em tão pouco número?
Não consegui pensar em mais nada. Se Nyx estava aqui então já tínhamos perdido completamente essa guerra. Tentei arrastar Isa pelo chão, mas estava sendo uma tarefa difícil e cansativa, já que isso estava causando dor na garota. Estava tão distraída que não percebi a aproximação de Diego ao meu lado.
– Eu levo ela.
Isa recuou quando o garoto tentou toca-la, não sei se foi por medo ou por raiva, mas Diego pareceu afetado.
– Isa, sou eu. Sou mesmo eu...
A loira cedeu por fim, passando os braços ao redor do pescoço de Diego que a levantou do chão com facilidade. Seus olhos escuros e agora familiares encontraram os meus e sua pergunta já tinha sido captada.
– Vá, tire ela daqui. Leve Gabriela e Thays junto com você, pode ter problemas pra sair.
Ele assentiu e chamou as garotas. Seus passos foram rápidos e ele já estava fora de vista em pouco tempo. Agora minha atenção estava voltada em Nyx que ainda sorria vitoriosa, deixando o ambiente mais escuro do que já era. Puxei minha foice e esperei. Claudio, Fer e Pedro colaram em mim, cada um com suas armas em mãos, pois além de Nyx outras coisas começaram a sair pelo portal.
– Alguém ai quer entregar os pontos agora? — Pedro perguntou, concentrado em alguns dos monstros que nos cercavam.
– Não mesmo Para Raio. — Fer retruco — A gente vai lutar.
– Então é bom ninguém morrer aqui. — falei partindo para o ataque.
O peso de ter uma perna estropiada logo se tornou evidente. Eu não tinha mais a agilidade anterior e nem podia forçar muito, mas ter treinado pra suportar isso foi o que me salvou. Eu mandava os monstros de volta para o Tártaro um por um, mas sempre Nyx trazia mais e mais para a batalha.
Claudio agora estava perto de mim usando sua foice. Ele suava e ofegava, seu corpo tremia, as ainda estava alerta o suficiente.
– Isso não vai acabar nunca. — falei enquanto derrubava mais um — Temos que eliminar Nyx do jogo.
– Sim. Vai, eu seguro os que tentarem te parar.
Assenti, mirando na mulher pálida próxima ao portal. Respirei fundo e impulsionei meu corpo para frente em uma corrida calculada o suficiente para não ser prejudicada. Derrubei alguns monstros a minha frente sentindo a presença de Claudio atrás de mim, até chegar a Nyx. A Mãe Noite interceptou meu golpe com duas espadas encurvadas e de aspecto ameaçador. Seus olhos negros e sombrios focaram diretamente nos meus e seu sorriso foi de perfurar os ossos.
– A filha de Hades que derrotou Érebo... Pena que não vai ter a mesma facilidade aqui.
Nyx empurrou as espadas de modo que perdi o equilíbrio por algum tempo, suficiente para a deusa desferir um chute em meu rosto. Nyx era rápida e conseguia fazer muitos estragos mesmo sem usar suas mortais armas. Consegui revidar usando o cabo da foice para atingir as pernas de Nyx. A deusa pareceu desnorteada, o que me deu tempo de cortar uma parte de seu abdome. O icor — sangue dourado dos deuses — escorreu por seu manto negro enquanto desferi mais alguns chutes e golpes de foice.
Eu estava exausta enquanto Nyx me observava com um olhar assassino. Seus golpes se tornaram mais violentos, sua perícia com as espadas era aterrorizante. Eu tinha cortes e hematomas por todo o corpo, minha roupa estava em farrapos. Meu cabelo grudava em meu rosto e meus braços mantinham a vã tentativa de continuar lutando. Nyx fez um fundo corte em meu braço esquerdo que parecia ter congelado. Grunhi pela dor com minha visão agora embaçada.
– Você luta bem. — Nyx chutou a mão em que eu segurava a foice. A arma voou de minha mão. — Mas não é o bastante.
Ela usou as duas espadas, executando um golpe em forma de "X" por toda a extensão da frente do meu corpo. A dor aguda do frio emanado das espadas me fez gritar e cair de joelhos no chão. Nyx novamente chutou meu rosto que pendeu para o lado, e de novo, e de novo até eu não conseguir mais ter certeza de estar viva ou morta. Ela segurou minha cabeça pelos cabelos, me fazendo olhar em seus olhos negros.
– Tenha uma boa noite, Nathalie Kennedy...
Meu corpo tombou para o lado com força. Eu estava morta? E se estava... Por que a morte doía tanto? Meus olhos não focalizavam em nada, somente via vultos e escutava os sons dos filhos da deusa tentando dar cabo de meus amigos. Mas onde estava Nyx? Ela não iria deixar o serviço inacabado.
– Criança insolente!
Direcionei o olhar em direção a voz da deusa que inflamava de raiva. Claudio estava a sua frente com expressão séria e...
Não! Não, ele não podia! Não deveria!
As foices... As nossas foices estavam juntas. Claudio usou o verdadeiro poder delas.
Ele atacava Nyx com precisão nunca vistas e velocidade aterradora. As foices pareciam dançar nas mãos dele que conseguia obter sucesso em todos os golpes, atingindo a deusa em diversos lugares de uma só vez. Quando a desarmou se deu por satisfeito e a empurrou para a parede com um baque surdo.
– Se esse era o único jeito de te mandar de volta para onde você merece, então que assim seja!
Claudio começou a falar algo em grego antigo, que só me dei conta do quão aterrorizante era quando ele terminou.
– Syndyáste tis psychés tou Hades, na dechtheí ti̱n prosforá mou. Apodochí̱ psychí̱ mou kai na anoíxei ti̱n pórta sta Tártara. Párte óloi ósoi tha éprepe poté na meínei ekeí.*
Um forte clarão vermelho emanou das foices, abrindo um portal atrás de Nyx. A deusa olhou aterrorizada e em seguida para Claudio, tentando em vão se segurar em alguma coisa. Porém a força do portal tinha sido grande demais, seus servos começaram a ser lançados novamente pelo portal junto com a Deusa.
Me apoiei nos braços tentando em vão me levantar, voltando a cair novamente no chão. Claudio me olhava e lançou a foice em minha direção, a mesma voltando as formas de corrente e anel. Quando meu irmão começou a ser sugado pelo portal meus olhos marejaram. Ele tentou resistir de tal forma que sua alma começou a se separar de seu corpo. Sua mão fantasmagórica se ergueu em minha direção em um silencioso "adeus" quando seu corpo e alma finalmente foram puxados para o Tártaro. Onde antes existia o portal agora existia uma espécie de poeira prateada.
Minhas mãos se fecharam em punhos, pude sentir minhas unhas se enterrando na carne com força. Meus dentes estavam trincados e apertei meus olhos com força sem conseguir conter as lágrimas. A dor que eu sentia pelo corpo não era nada. Consegui me por de joelhos, tremendo pelo esforço, mas ainda assim... Isso não importava. Eu perdi meu irmão. O perdi pela segunda vez.
Com esse pensamento minha cabeça pendeu para trás. Minhas lágrimas agora rolavam descontroladamente por meu rosto, mas não me importei. O grito de dor e angústia que saiu de minha garganta foi cortante e doloroso.
– NÃO!!! — gritei com todas as forças que consegui arranjar.
*"Ceifeiras de almas do Hades, aceitem minha oferta. Aceitem minha alma e abram o portal para o Tártaro. Leve todos aqueles que jamais deviam ter saído de lá."
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