Diário De Uma Filha De Hades
26 Ganha-se Um Pouco, Perde-se Mais Ainda
Notas iniciais
Merda, merda, merda! Por que diabos eu as vezes tenho que ser TÃO impulsiva que acabo fazendo coisas idiotas ao extremo sem perceber, só pra me ferrar depois de tudo? Agora, cá estou eu, em uma cela escura, úmida e que cheira a urina por sei lá quantos dias. Minha perna latejava, o que me impedia de andar direito para procurar alguma saída ou coisa parecida. Me arrastei até as barras de forro da cela e prestei atenção nos sons. Sem dúvida eu estava no subterrâneo, mas enxergava algumas pessoas passando pelo corredor escuro. Esmurrei algumas vezes a grade até que um garoto magricela apareceu.
– Da pra você ficar quieta?! — ele trovejou.
Inclinei a cabeça um pouco para o lado sem ceder ou expressar medo — que pra falar a verdade eu estava sentindo naquele momento — e encarei fixamente seus olhos. Ele se encolheu como se tivesse sido apunhalado e recuou alguns passos, sendo surpreendido pelo aperto firme de Christopher.
– Sério? Você quer se achar o esperto com essa ai? — ele empurrou o garoto para o chão. — Saia logo daqui!
Christopher voltou seu olhar para mim, se aproximando da grade com um imenso sorriso no rosto. Se eu não estivesse com medo teria lhe dado um soco só para tirar aquele estúpido sorrisinho presunçoso de seu rosto. Ele agarrou a grade com uma mão e com a outra levantou minha corrente entre os dedos. Tentei pega-la, mas perdi o equilíbrio, voltando ao chão.
– Ah, não se preocupe. Não posso usar isso. É feita apenas para ser utilizada por sua linhagem. — ele voltou a guarda-la no bolso da calça.
– O que você quer? — tentei manter a voz firme. — Qual o motivo de tudo isso?
– Vingança! Deuses? Eles não prestam, nenhum deles! Antes do Jackson vencer a batalha contra Cronos eu fiquei anos sem ser reclamado! Os deuses não ligam pra nós, só ligam pra si mesmos. Luke Castellan estava certo sobre isso, mas apoiou o time errado. Já eu? Eu esperei a oportunidade certa, esperei os primordiais... — ele abriu os braços. — E agora quero destruição e morte! Para os deuses e semideuses que não estiverem do meu lado!
O tom frio dele era completamente amedrontador. Eu estava congelada no lugar olhando fixamente seu sorriso maníaco com a perna ainda latejando e desarmada. Mas se eu tivesse qualquer chance precisava descobrir todo o plano.
– E por que essa merda de perseguição comigo? Tenho certeza que não é por causa de meus belos olhos. — retruquei.
Ele ponderou e abriu a cela me fazendo recuar o mais rápido que minha perna permitia. Eu sabia que ele tinha alguma arma, ele não era idiota, então pelo menos uma vez na vida eu teria que controlar meus impulsos.
– Grande parte dos deuses primordiais estão aprisionados, mas uma em especial me interessa. A mãe noite é a chave pra tudo, porém ela está no Tártaro... Eu preciso de um filho do submundo, vocês caras pálida tem uma facilidade monstruosa de passagem.
Eu tinha parado de ouvir o que ele dizia a partir de "mãe noite". Caramba, Nyx?! Nyx, a deusa da noite? Fumou flor de lótus?!
– Que diabos te dá a entender que eu vou te ajudar? — perguntei.
– Não quer ficar viva? Eu pouparia seus amigos, você teria tudo que quisesse na vida. É só se juntar a mim.
Antes de eu sequer fazer uma objeção Christopher tinha agarrado meu rosto, colando seus lábios nos meus. Não era nada igual aos beijos de Fernando, os de Christopher eram selvagens e bruscos, como um predador. Mordi seu lábio inferior com força, fazendo com que o mesmo recuasse. O sangue escorria por sua boca em uma linha escarlate e ele me olhava com ódio. Agarrou minha perna ferida e a pressionou, arrancando um grito de dor de mim.
– Sabe, achei que fosse mais esperta. Mas não preciso de você. Já tenho tudo o que preciso...
Ele olhou para trás, onde o grandalhão que tinha me nocauteado estava parado de braços cruzados ainda com o elmo escondendo o rosto. Ele fez uma mesura antes de abaixar a cabeça e retirar o elmo lentamente. A principio só vi um emaranhado de cabelos negros, mas a medida em que ele levantava a cabeça meu oxigênio abandonou meus pulmões. A grande cicatriz do lado direito do rosto, os profundos olhos escuros e a pele extremamente pálida me fizeram ficar tonta.
– Diego...
Ele voltou seu olhar para mim, mas aquele garoto que eu chamara de irmão não era mais o mesmo. Não trazia seu costumeiro sorriso caloroso de sempre, era como se ele tivesse perdido sua parte boa e somente a ruim tivesse permanecido. Christopher parecia se divertir com aquilo, mas se levantou e começou a sair.
– Pode acabar com isso Campbell. — ele ordenou.
Diego assentiu, descruzou os braços e levou a mão direita até a bota, de onde ele retirou um punhal. Ele começou a andar em passos lentos em minha direção, girando a lamina entre os dedos de uma forma amedrontadora. Ele me ergueu do chão pelo colarinho da camisa, seus olhos escuros fixos nos meus. Nada, não havia nada ali. Nenhum vestígio de arrependimento ou culpa. Ele encostou o metal em minha garganta.
– Di, esse não é você. Por favor não.
Ele não me deu ouvidos, na verdade parecia que não estava interessado em escutar.
– Eu cumpro ordens. Apenas isso. Adeus Nathalie.
– Ei cara, espera ai! Deixa que eu faço isso, Christopher está precisando de você.
Meu olhar se dirigiu ao garoto de cabelos escuros parado atrás de Diego. Meu sangue ferveu na mesma hora em que Diego me soltou e pude encarar com ódio Claudio Soter. Ele estava com sua espada de bronze nas mãos e olhava para meu outro irmão com convicção. Diego parecia ponderar a ideia mas voltou a se encostar na parede.
– Então termine. — ele começou. — Quero assistir o espetáculo.
Claudio voltou seu olhar para mim e começou a se aproximar. Colocou a espada em um ponto acima de minha cabeça com a ponta voltada para baixo. Quando desceu a lamina eu o interceptei com a minha própria espada. Meu ódio era tanto que não estava raciocinando direito, até a dor parecia não existir. Ataquei Claudio com fúria, enquanto Diego apenas estava parado, assistindo a cena como se fosse algum tipo de filme. Claudio não parecia estar com medo, mas determinado, bloqueando cada um de meus ataques raivosos. Ah sim, eu tinha roubado minha corrente de Christopher na hora que o canalha me beijou. Não é a toa que me chamavam de mão leve na escola.
Claudio conseguiu me derrubar no chão com um baque, pressionando a espada de encontro a minha garganta. Mas seu olhar não era de quem iria me matar.
– Você tem um minuto. — ele sussurrou, fazendo um tipo de movimentação com os dedos.
Em um momento ele estava em cima de mim, no outro tinha uma foice em mãos e atacava Diego com uma rapidez que nunca tinha visto. Mas aquela não era minha foice, seu cabo era prateado e os mesmos detalhes que a minha possuía em roxo na dele eram vermelhos. Ele ergueu os dedos e assoviou, então pude ouvir latidos e gritos vindos do final daquele corredor.
– Athos! — gritei.
Claudio tinha dito um minuto, tempo suficiente para que eu saísse dali. Mas não sem ele. Não dessa vez. Diego estava encurralado na parede e Claudio tinha rompido algum tendão de seu joelho. Subi apressada em Athos, guardei a corrente e sussurrei em suas orelhas.
– Para o acampamento garoto. Mas não esqueça ele.
Athos me obedeceu na mesma hora. Trouxe Claudio para cima, olhando para trás. Christopher e os outros semideuses nos perseguiam, mas Athos os despistou rapidamente.
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Tínhamos escapado, voltamos para o acampamento meio-sangue. Eu estava pressionando o ferimento em minha perna que sangrava e latejava, enquanto Claudio me ajudava a caminhar. Athos vinha atrás, protetor como sempre.
– Claudio...
– Shhh... Você não vai gostar do que vai ver. — ele me interrompeu.
Chegamos ao topo da colina, mas eu não conseguia assimilar, não conseguia digerir o que estava vendo. Meu coração estava apertado enquanto eu presenciava aquele horror na minha frente...
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