Notas iniciais
Era estranho como o Canadá era frio e solitário.
Levantei da cama tentando aproveitar o pouco tempo de descanso que tive e corri para o chuveiro.
Duas batidas na porta.
Uma voz feminina gritando que era o serviço de quarto, mas será mesmo.
Enrolada na toalha, com uma faca de cozinha na mão me escondo atrás da porta.
-Entre-
Era impressionante, nem o frio deixava eles descansarem. Abraço a mulher baixa e com os cabelos escuros pelo pescoço. Uma faca no pescoço do mesmo jeito que eles tinham ameaçado meu amor.
-O que você quer?- Pergunto jogando um pouco de água benta no rosto da camareira com cara de latino-americana. Meu coração pulava no meu tórax, meu pescoço doía e minha cabeça latejava.
Olho a garota sorrindo com o rosto fervendo. -Bom dia menina, me mandaram ver como você tá, você é especial garota, você não faz idéia.- Ouvia cada palavra que saia de sua boca tentando observar algum traço de verdade, uma fúria nascia em mim com o desejo de não apenas expulsar o espirito que habitava naquele corpo. Era muito mais do que medo que me movia, eu odiava eles com tanta força que se Lúcifer me encontra-se, sem dúvida, ele faria amizade comigo.
-O que eu tenho de tão importante biscate?- Urrei enrolada na toalha encostada na porta do quarto. -Você não irá ter nada de mim- Disse olhando profundamente seus olhos negros.
-Agora me faça o favor querida, dê o fora daqui, saia desse corpo e vai avisar seu chefe que se ele me quer que ele venha me pegar- Era engraçado mas eu tinha que tentar, afinal esse joguinho só é emocionante em filmes e séries. Talvez se Sam e Dean fossem reais seria assim que eles se sentiriam.
-Você não ousa...- Antes de terminar seus olhos se fechavam vagarosamente e de cada orifício seu saia uma neblina densa e escura, era sujo como a fumaça de um carro.
Então esse era um dos meus dons, mas não é comum uma mulher expulsar demônios sem esforço com apenas ordens e nada mais. Isso era matéria para se pesquisar, afinal conhecia história de santas e beatas que eram capazes de milagres, curas mas expulsar demônios não conhecia.
Hoje não seria o dia que eu buscaria ajuda, meu objetivo deveria esperar, o estúdio de gravação ainda estava longe. O que eu encontraria no caminho daquela estrada.
Hora da pesquisa, hora de revirar a internet.
Meia-noite, novamente perdi a noção do tempo, nada que realmente me interessasse estava na internet. Mulheres possuídas, casos de exorcismos realizados por padres católicos, isso estava um saco e eu não sabia mais por onde buscar.
Pulo dentro do meu Mustang forçadamente adquirido daquela demônio do aeroporto, rodovia 17, chegando a um dos centros vivos do Canadá, seria legal se eu pudesse assistir as Olimpíadas de Inverno ou parasse para experimentar os patins de gelo.
Welcome to Winipeg, Fermor Avenue, lugar pacato, lindas casas, algumas lojas, realmente bem diferente do que é o Brasil. Estava faminta, depois de quase 24 horas sem por nada na boca parei em um fast food próximo de um shopping.
-Hi, I wanna a combo number 1 please- Nem eu fazia ideia do que viria a ser o combo número 1 mas como meu pai me dizia, quando se está com fome qualquer porcaria já é o suficiente para fazer um pé de meia. Uma batata, um hamburger e um refrigerante grande, tão saudável quanto o rodizio de pizza de todo o mês.
Tiro a minha jaqueta jeans, jogo a minha mochila na mesa e começo a comer, não apenas isso, engulo toda aquela gororoba gordurosa até me assustar com a chegada de uma figura interessante.
-Você é a Mary? Estávamos ansiosos em conhecê-la, muito prazer meu nome é Samael- Disse o garoto de olhos azuis e cabelo tão louro quando a mais preciosa barra de ouro de Minas Gerais.
-O que é você, como você fala a minha língua- Eu tinha muito mais perguntas a serem feitas mas a principal se, aquele menino lindo, com cara de anjo era mesmo um anjo.
-Pelo menos eu tenho alguém com conversar- Confessei ao menino que me olhava com olhos estáticos, quase fixos. -Muito prazer Samael- Eu acho.
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