Notas iniciais
Era impressionante, de todas as crenças que já tive, de todos os medos que eu já passei na minha infância, nunca pensei que isso aconteceria com a minha família.
Final do mês de dezembro, uma época relativamente depressiva para mim, retornava para a minha casa no final da noite do último dia de aula da escola. Essa época é alto verão, calor, abafado e uma chuva que deixaria qualquer inglês morto de inveja.
A rua estava completamente vazia, ao dobrar a esquina tinha aquela sensação de que alguém me observava, nunca fui muito medrosa mas ainda sim agarrei o crucifixo que madeira preso no meu cordão, um presentinho do meu irmão mais novo e por mais brega que possa parecer, era uma espécie de proteção, me ajudava a não ter medo de nada.
Alguns metros antes de chegar no portão da minha casa reparo os postes, um a um se apagava como se alguém desligasse o botão de cada luz. Parecia muito o filme Constantine, mas ainda sim não via demônio ou anjo nenhum me seguindo e com certeza nenhuma figura com aparência de morcegos gigantes.
Abro o portão, uma calma aparente que me assustava, os cachorros estavam ao meu lado quietos, pulando nas minhas mãos como se quisessem dizer algo importante para mim.
Foi assim que meu mundo inteiro ficou preso por um fio fino de seda, vi um homem alto, branco e de terno com uma faca apontada para meu namorado, uma mulher loira, pequena e de cabelos longos apontando uma arma para minha mãe e meu irmão. Meu pai, graças a Deus não havia retornado do trabalho e isso me deixou aliviada.
—_ Você sabe o que queremos, olhe para você menina, você tem uma fagulha, um brilho que poucos tem, você sabe o que tem e queremos ele para nós.-- Disse o homem de terno com a faca no meu amor.
—_Trarei o que quer que você deseje mas eles não tem nada a ver com isso, não será bom para sua reputação matar inocentes.-- Minha fala saiu quase uma súplica, eu conhecia algumas coisas sobre o mundo oculto, tinha dons que evitava ao máximo utilizar ou fazer com que os outros vissem o meu lado aberração.
—_Ela tá certa, deixe eles vivos, teremos uma garantia caso ela falhe__ Disse a loira com um sorriso de leve abaixando a arma e guardando-a no bolso.
—_Viu, até ela concorda comigo__ Falei tentando manter a calma. __Mas não vá achando que sairá assim__ Ameacei.
—_Regna Terrae, cantate deo
psalite dominio,
qui vehitur per calus
caelos antiquos!
Mal havia iniciado o ritual romano e todos aqueles que ameaçavam a minha família acabaram por dar um passeio. Os corpos dos possuídos caíram um por um de maneira quase ensaiada, aparentemente vivos.
Foi assim que eu me livrei de um casal bem arrumado desfalecido, uma maneira tão criativa que qualquer um ficaria orgulhoso de mim.
Assim começou a minha jornada, os demônios retornariam e sem dúvidas aqueles que mais amo correria perigo ao meu lado, saí de casa correndo, chorando para não vê-los ao longe acenando e desejando que Deus me acompanhasse nessa jornada.
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