Diário De Um Sobrevivente
5 Mudanças
O velho se aproximou da gente erguendo a pá.
— Falem logo! O que querem aqui? — o velho, mesmo sendo raquítico e aparentemente incapaz de lutar, causava medo com sua expressão maníaca e sua pá ensanguentada.
Ele deu mais dois passos até nós quando meu tio saiu dentre as árvores com Bruna em seus calcanhares.
— Mais invasores? Saiam a minha fazenda! — o velho gritou erguendo a pá acima da cabeça, prestes a atacar.
—Fazenda? — me perguntei, estava longe do alcance da pá e me perguntava por que esse louco não tinha nenhuma cerca na sua fazenda.
— Escuta, não queremos brigar, podemos resolver esse problema com calma! — meu tio falava exasperado.
— Vocês são invasores! Invasores têm de ser punidos! — o velho gritou no auge da sua fúria, eu me perguntava o porquê de ele ter nos salvado se achava que nós éramos invasores.
Não havia tempo para Johan pensar sobre isso, ele não presenciara a cena e o velho estava enlouquecido por um motivo que desconhecíamos. O velho baixou a pá sobre meu tio que desviou atirando-se para um lado, a pá afundou no chão de terra fofa e meu tio levantou-se afundando o grande machado que trazia no pescoço do velho.
Johan pareceu triste com aquele ato, mas não tínhamos tempo para ressentimentos, pois mal o corpo do velho caiu com uma batida seca no chão um homem mais novo e mais forte surgiu da porta dos fundos de uma grande casa que só agora notávamos carregando uma espingarda.
— Pai! — o grito de dor do homem foi reconhecido por mim, que já senti aquela mesma dor.
Os zumbis acompanharam o grito do homem e começaram a berrar em coro, avançando e se empurrando em direção à borda do buraco, por um insensato momento pensei na possibilidade de aquelas coisas ainda conservarem algum tipo de sentimento e sofrerem a perda daquele que lhes dava alimento. Porém esse raciocínio irracional só durou um segundo, senti-me logo puxado a realidade e percebi que eles estavam apenas sendo atraídos pelo cheiro de sangue.
Todos os pensamentos foram arrancados da minha cabeça por uma tempestade de adrenalina, o homem nem se abaixou para verificar o estado do pai, ele correu da porta de casa até nós e engatilhou a arma contra meu tio, Johan desesperou-se ao perceber que a sua própria ainda estava desengatilhada às costas.
Um tiro soou e o homem caiu morto com um tiro no peito, fumaça saía do calibre 38 erguido que Bruna trazia, ela acabara de salvar a vida do meu tio.
— Desculpe Johan! Não havia outro jeito — Bruna pediu e eu percebi todos os motivos pelos quais ela deveria estar pedindo desculpas.
— Não seja idiota! Você salvou minha vida! — meu tio parecia estar segurando o coração que tentava pular pela boca. — Agora temos que cair fora daqui, os zumbis que ouvirem esse tiro logo virão para cá.
Nós corremos de volta até o esconderijo com armas em punho, mas foi um trajeto seguro e sem surpresas, quando lá chegamos as mulheres nos perguntaram sobre a comida e nós mostramos nossas mãos vazias com tristeza.
Carlos chamou meu tio para lhe falar algo em um canto silencioso, percebi que era uma conversa importante e passei por eles lentamente para ouvir.
— Johan nós ouvimos um tiro daqui, se nó conseguimos ouvir esse tiro, imagina quantos zumbis não conseguiram ouvir também! — Carlos falou-lhe claramente desesperado.
Eu subi para falar com minha mãe, ela estava melhorando e conseguia conversar mais ultimamente, embora não comesse direito e passasse boa parte da noite chorando em silêncio.
— Oi mãe! — falei fazendo ela se virar, estava fazendo crochê, o armazém onde estávamos era de uma loja de tecidos.
— Oi George! Você está bem? Eu ouvi um tiro, você sabe o que foi? — minha perguntou preocupada.
— Sim mãe, foi Bruna que atirou... — eu contei a história para minha mãe, o que acabou fazendo-a dormir, eu cobri ela com um cobertor e observei meu tio subindo para conversar com Mark Eagle.
Mark Eagle era o homem que vigiava a entrada do esconderijo daquela grande janela do lado oposto onde eu e minha mãe dormíamos. Eu nunca soube se esse era o nome verdadeiro dele ou se era um apelido para dar ênfase as suas habilidades com uma L96 que ninguém sabia dizer onde ele havia conseguido.
A noite caiu fria e imponente, porém calma. Todos nós comemos pouquíssimo no jantar e fui me deitar com meu estômago protestando a ofensa feita a ele.
Não tivemos nenhum sinal de perigo até a meia noite chegar sorrateira e cheia de malícia.
Eagle acabou dormindo, uma falha humana perfeitamente aceitável, porém mortal dada a ocasião.
Meu tio teve a ideia de colocar armadilhas com sinos em pontos estratégicos para uma ocasião como essa, e o primeiro a acordar os ouvindo soar foi Carlos.
Ele correu até uma das janelas e quase soltou um berro quando viu uma caravana de zumbis passar à frente do armazém. Eram centenas deles e Carlos correu desesperado até Mark.
— Mark acorda! — falou ele baixinho quando chegou lá em cima.
Mark acordou assustado.
— O que houve?
— Você deveria estar vendo isto, olhe pela janela!
Os dois olharam e Mark também quase soltou um grito quando viu o bando que passava.
— Droga, deve haver centenas deles! — Mark concluiu.
— Sim, o que podemos fazer?
— A primeira coisa que você deveria ter feito é acalmar o resto de nós — meu tio apareceu atrás deles agachando-se e espiando pela janela. — Droga são muitos, acho que o que podemos fazer agora é ficarmos calmos e quietos, talvez eles apenas passem por nós.
Um som de vidro quebrando pôs a ideia do meu tio abaixo. Lá de cima ouviram o grito de terror de Mirelly, um zumbi havia enfiado o braço por uma janela de vidro quebrando-a.
Eu desci quase que voando e arranquei o braço com uma facada. Ele caiu e ficou se sacudindo até parar. Mirelly ainda gritava enquanto Kátia tentava acalmá-la, Indy agora acordava e os outros corriam a pegar as armas.
Os zumbis batiam insistentemente na porta e nas paredes, alguns quebravam os vidros e tentavam entrar.
— Empurrem os armários para as janelas! rápido! — gritei para o grupo e nós começamos a tapar as janelas, eu empurrei um armário junto com Carlos e os outros taparam as outras janelas.
Demoramos bastante, pois os armários eram pesados. Três zumbis conseguiram entrar e nós tratamos de decepar todos eles.
—Droga! Esses malditos sentem nosso cheiro! — meu tio gritou enquanto esmagava a cabeça de um que acabara de decepar.
Ouvimos um tiro de rifle.
— Eagle não gaste balas! Desça aqui! — Carlos gritou.
— Mãe! Temos que ir embora! — gritei.
Eagle e minha mãe desceram.
— Droga, o que vamos fazer? — Mark perguntou quando se aproximou de nós.
— Johan isso é verdade? Vamos partir? — minha mãe perguntou assustada.
— Sim é verdade, esse lugar não é mais seguro, talvez ainda caia hoje — uma batida num dos armários confirmou as palavras do meu tio.
— Mas como vamos fazer isso? — Mirelly perguntou amedrontada.
— Isso foi a única coisa que consegui guardar quando saí do exército com aquele caminhão — meu tio falou enquanto tirava uma granada da cintura. — Tudo bem, escutem com atenção! Vamos ter apenas uma chance, cada um de vocês vai pegar uma arma, nada de armas brancas, nós temos que atirar pra valer! Depois da explosão vamos sair em fila até o caminhão, teremos que correr, Carlos e Bruna vão para o carro como de costume, sejam espertos e rápidos! Infelizmente se alguém ficar para trás vai ser deixado para trás, há centenas deles e não temos a mínima chance de parar para enfrentá-los!
Meu tio, Eagle e Kátia foram até onde estavam as armas enquanto eu, Carlos e Bruna atirávamos através dos espaços nos armários. Nós tínhamos armas porque éramos os que mais saíam em busca de comida, assim como meu tio. Nós guardamos as armas em uma caixa metálica fechada com quatro cadeados, uma chave ficava comigo, uma com meu tio, outra com Carlos e a última com Eagle, isso servia como prevenção para que ninguém enlouquecesse e usasse as armas contra o próprio grupo.
Eles dividiram as armas para todos os membros do grupo, menos para Indy que não sabia atirar ainda.
Quando estávamos todos prontos Carlos e meu tio abriram o grande portão de frente e eu e Eagle tratamos de atirar em todos que estiveram empurrando-o.
Depois de derrubarmos uma dezena deles meu tio jogou uma granada que fez mais dezenas deles voarem e se despedaçarem, corremos então em fila até o caminhão, Bruna e Carlos logo entraram no carro, por serem somente dois eram mais rápidos.
O resto de nós correu até o caminhão, eu ia à frente com Eagle e Bernard, Kátia vinha com minha mãe logo atrás e no final da fila vinha meu tio cobrindo Mirelly e Indy.
Modéstia a parte acertei com precisão três cabeças, duas canelas e três peitos, Bernard também acertava bastante, minha mãe tinha medo de atirar e Kátia demorava demais mirando. Eagle atirava para todo lado e errava bastante, pois não tinha prática com o tipo de arma de uma mão como a Taurus PT59 que carregava. Meu tio derrubava todos em que atirava e Mirelly também tinha medo de atirar.
Sem meu tio perceber um zumbi surgiu por trás de Mirelly e a derrubou fazendo a arma voar de sua mão, Indy apenas gritou impotente. Lembrei-me do que meu tio disse, mantive o pessoal andando afinal estava à frente do grupo, mas o que ele fez me surpreendeu, ele atirou no zumbi que estava sobre ela e em seguida no que apareceu atrás de Indy, voltou até elas e levantou Mirelly que choramingava no chão.
Porém ele sozinho não podia derrubar todos os zumbis que se aglomeravam em torno deles, eu fiz com que todos entrassem no caminhão e voltei contrariando os protestos da minha mãe que era contida por Mark.
Atirei em dois zumbis fazendo-os cair e pulei no centro do círculo formado por vários deles ao lado do meu tio. Nós dois juntos atirávamos nos zumbis, mas quanto mais caíam mais surgiam e eles estavam se aproximando, meu tio tirou a escopeta e começou a derrubar vários deles por tiro, mas ainda não era o bastante.
— Tio por que você fez isso? — perguntei aos berros. — Você mesmo não disse que quem ficasse para trás...
— Não pense mais nisso George! — ele gritou para mim enquanto atirava. — Às vezes as regras precisam ser quebradas, mesmo que tenham sido criadas por nós mesmos! Aqueles que rompem as regras são escórias, é verdade. Mas aqueles que abandonam seus amigos são piores que a escória!
Fiquei estranhamente emocionado quando ouvi aquilo, naquele momento percebi que meu tio era alguém em quem eu poderia confiar e que ele sempre iria me ajudar quando estivesse ao seu alcance. Em seguida a esse pensamento percebi que os zumbis ainda se aproximavam e tive medo de morrer, mas não por mim mesmo e sim por causa da minha mãe que não resistiria a outra perda.
Quando achei que os zumbis iam nos devorar um carro atropelou dois deles e balas derrubaram mais quatro.
— Corram idiotas! Saiam daí! — Carlos gritou na direção do carro, enquanto Bruna atirava.
Nós o obedecemos, corremos enquanto atirávamos em todas as direções. Aproveitei a oportunidade e puxei Indy pela sua mão macia. Fiquei aliviado quando nós quatro conseguimos entrar na carroceria e Bernard arrancou seguindo o carro de Carlos que ia à frente, nos conduzindo ao desconhecido, que seria qualquer lugar longe dali e esperávamos no fundo do coração que fosse seguro.
— George ouça, a humanidade pode estar em decadência e talvez à beira da extinção, porém você não pode deixar que os sentimentos de humanidade em você também sejam extintos, lembre-se do amor, da amizade, do companheirismo e da compaixão, assim talvez tenhamos uma chance de superar esse terrível tempo de sombras que nos cerca e quem sabe reviver — meu tio falou fazendo lágrimas indesejadas escorrerem pelo meu rosto, lágrimas de aceitação de que talvez merecêssemos uma nova chance. Porém só a teríamos se nos permitíssemos sermos dignos de obtê-la.
Notas finais
Obs: ninguém morreu pq fiquei com pena, mas no próximo não haverá piedade muhahahahaha!
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