Notas iniciais
Oi, gente! Então, pra quem me conhece: eu não morri. Pra quem não me conhece: oi, eu não morri. Queria escrever uma coisa fofinha e saiu isso. Espero que gostem :)

– Você foi a primeira pessoa que eu beijei, lembra?

Eu lembrava. Tínhamos onze anos e estávamos brincando de verdade ou desafio no aniversário de uma das garotas da classe. Desafiaram-no a me beijar e justo quando eu estava rindo nervosamente, certo de que ele nunca teria coragem, senti seus lábios rasparem nos meus. Foi tudo muito rápido.

– De certa forma, é certo que passemos o dia dos namorados juntos, já que você foi meu primeiro beijo – continuou. Quando bebia, ele não conseguia calar a boca.

– Isso não tem nada a ver ou eu estaria bebendo com aquela garota que usava meias coloridas e muitas fivelas no cabelo na quarta série – falei, bebendo um gole da minha cerveja.

– O quê?! Você beijou a Renata Almeida antes de me beijar? Estou com o coração partido agora. Espero que ela tenha sido gentil com você, sabe como é, sendo todo sensível e tal. Aposto que o meu beijo foi muito melhor, eu já tinha até tirado meu aparelho naquela época. Bom, pelo menos você pode dizer que eu fui o seu segundo beijo. Espera, eu fui o seu segundo beijo, né?

– Cala a boca, Quim.

Quim já estava bem bêbado, mas se levantou para pegar mais cerveja na geladeira. A minha tinha ficado quente, mas eu engoli o resto mesmo assim, aceitando a gelada que meu melhor amigo jogou em mim ao voltar.

Quim se sentou ao meu lado no chão, com as costas no sofá, seus ombros tocando os meus, o cheiro de cerveja e dos seus cabelos (uma mistura de shampoo de mel e cigarros) invadindo meu ar.

– Por que nós nunca temos namoradas em dias como este? – perguntou de repente. Eu sabia que seu silêncio não duraria muito.

Dei de ombros.

– Porque eu não gosto de garotas – respondi.

– Certo, então por que você não tem um namorado?

– Eu devo ser muito feio – achei seguro dizer.

Quim riu, batendo a cabeça no sofá e derrubando um pouco da sua cerveja nos meus jeans.

– Isso eu não posso contestar – falou, virando-se para olhar para mim. – Mas eu sou bem gostoso, então isso não explica o fato de estar sozinho.

Olhei para ele por cima da minha garrafa de cerveja. Estava meio escuro, com apenas a luz amarela do corredor acesa (estávamos atrás do sofá), mas eu ainda podia vê-lo bem, talvez por conhecer seus traços como se fossem os meus. Cachos rebeldes, sobrancelhas grossas, olhos pálidos, ossos da clavícula salientes.

Meu sorriso machucou meus lábios secos.

– Você não está sozinho – murmurei, desviando o olhar e apoiando o lábio inferior no bocal da garrafa.

Senti a cabeça de Quim em meu ombro sua voz sonolenta muito próxima da minha orelha.

– Tem razão. Estamos nessa juntos. Nós já somos velhos demais pra fazer pactos? Somos, não é? Quer dizer, estamos na faculdade – continuou com seu balbucio alcoolizado. – Foda-se, vamos fazer um pacto.

– Do que você está falando?

– Vamos passar todos os dias dos namorados juntos pro resto da vida.

– Você está bêbado.

– E você está dizendo o óbvio. Qual é, Milo. A verdade é que você é meu melhor amigo e eu não gostaria de estar com mais ninguém agora. E mesmo que nós tenhamos alguém no futuro, vamos fazer deste nosso dia, ok?

Ele segurou meu braço com a mão gelada da cerveja e eu não pude recusar.

– Feliz dia dos namorados, então.

– O mesmo pra você, meu amigo.

...

Estava na frente de uma dessas lojas à moda antiga, que vendiam aquelas coisas bem “masculinas”, como canivetes e charutos. Havia uma caneta que tinha me chamado a atenção na vitrine e estava debatendo internamente se valeria a pena gastar tanto dinheiro numa coisa inútil daquelas (não que a caneta fosse inútil, mas fazia o mesmo trabalho que uma bic que me custaria dois reais). Porém era um presente. E um ótimo presente. Caro, mas impessoal.

– O que você está olhando, Milo? – Victor, meu namorado, perguntou, apoiando o queixo em meu ombro.

– Procurando um presente para o Quim – respondi e em seguida murmurei para mim mesmo. – O que foi que eu dei para ele ano passado mesmo?

– Você estava falando sério? – perguntou com uma voz meio irritada, se afastando de mim.

Virei-me para olhá-lo e vi que Victor tinha fechado a cara. O que era uma pena, porque ele tinha uma cara muito atraente, com aqueles olhos amendoados, pele que parecia chocolate derretido e perfeitos lábios carnudos – lábios que agora estavam apertados na linha mais fina que conseguiam (que não era muito fina, mas dava para perceber que ele não estava feliz, de qualquer jeito).

– Sobre o quê? – tentei me fazer de inocente, embora soubesse muito bem do que ele estava falando. Estava cansado de ter aquela conversa. A mesma que tivera com quase todos os meus namorados nos últimos sete anos.

Estava namorando Victor há pouco mais de quatro meses e gostava bastante dele. Era a primeira vez que namorava uma pessoa por mais de um mês em uns dois anos e estava bem satisfeito com nosso relacionamento. Victor era inteligente, bonito, bem sucedido e simpático, o que muitas vezes compensava pelo meu mau humor, emprego de merda (o que mais eu faria com um diploma em filosofia além de ser professor substituto numa escola em que ninguém estava interessado no que eu tinha a ensinar?) e aparência mediana. Ele até tinha se dado muito bem com meus amigos, Joaquim, Kael e Elisa, o que por si só era um feito surpreendente.

Isto é, até chegar o mês do dia dos namorados e eu precisar dizer que teríamos que fazer planos para outro dia.

– Sobre toda essa história de você passar o dia dos namorados com esse seu amigo – Victor respondeu, cruzando os braços sobre o peito. – Só eu que acho isso estranho? Ele não tem uma namorada? Ela não reclama?

— Mérope já se acostumou. É algo que fazemos há muito tempo, desde antes de ele a conhecer. É o nosso “lance”, como o Quim fala.

— Um lance muito esquisito, se você me perguntar. Não faz o menor sentido e eu não gosto disso, Milo. Você deveria passar esse dia comigo, não com ele.

— É só uma data comercial e todas esses besteiras, Vic. Não significa nada.

E, romanticamente, esse dia não tinha nada de especial, não para nós. Mas costumava ser um dos meus dias preferidos do ano, desde que começara a passá-lo com Quim. Ficava um pouco envergonhado ao pensar que tivera muitos namorados nos últimos anos (Kael e Elisa não conseguiam superar a brincadeira de tentar lembrar os nomes de todos eles e nunca pararam de rir por eu mesmo ter esquecido alguns), mas o dia dos namorados era sempre com meu melhor amigo, mesmo aquele em que eu tinha estado em um intercâmbio em Barcelona. Quim chegara de surpresa e provocara tanto meu namorado da época que fiquei solteiro no mesmo dia.

Fora preciso uma banana split com extra chantili, uma massagem nas costas e uma volta na roda gigante do Tibidabo (Quim tinha medo de altura e vomitou numa lata de lixo na saída enquanto eu comprava algodão doce) para que eu o perdoasse. Talvez eu o tivesse feito rápido demais, mas nunca havia conseguido ficar com raiva do cara por muito tempo (e havia conseguido uma foto com a cara dele na lata de lixo para futuras chantagens).

– Eu não consigo acreditar que seus antigos namorados estivessem de boa com isso – a voz de Victor me trouxe de volta à conversa.

– Vic, não vou falar com você sobre meus ex namorados – já estava sendo difícil impedir que um de meus amigos soltasse a verdade sobre quantos haviam sido, eu realmente não precisava entrar de bom grado no assunto.

Porque a verdade é que eles não estiveram. De boa com isso. Alguns até estiveram, mas era só porque pensaram que ia acabar rolando uma coisa a três (o que...não. Definitivamente não). Desses eu tive o bom senso de correr bem rapidinho. E os outros, bem, todos haviam terminado comigo pouco depois ou, no caso do Hector (o espanhol), no mesmo dia.

Meus relacionamentos nunca duraram muito.

Dei de ombros para a expressão contrariada de Victor, entrei na loja e comprei a caneta.

...

– Você vai comer isso?

– Joaquim, eu estou levando o garfo à boca, é claro que vou comer.

– Tudo bem, você que sabe. Só achei seus jeans meio apertados...

Soltei o garfo no prato e o empurrei para ele com raiva.

– Espero que você engasgue e morra – disse enquanto via-o cair de cara no meu delicioso espaguete.

Quim sorriu com os dentes sujos de molho de tomate.

– Se eu morrer, vou deixar minhas dívidas pra você – ameaçou, de boca cheia.

Levantei da mesa, levando meu copo de suco de uva e indo sentar no sofá.

– Prefiro pagar todas agora a ver o bolo alimentar meio mastigado na sua boca de novo – falei, ligando a TV e conectando a Netflix. – Será que dá pra comer de boca fechada?

– Tá, mãe.

Rolei os olhos e comecei a procurar algo para assistir. Tinha passado no apartamento de Quim depois do trabalho, o que não era incomum, mas essas visitas tinham rareado há alguns meses, com as horas extras que eu vinha fazendo e o tempo que passava com Victor. E, quando saíamos, normalmente era com nossos amigos. Então fazia algum tempo que não ficávamos sozinhos.

– O que você quer assistir? – perguntei, indo logo para as séries de TV, porque Quim não conseguia manter a atenção em nada que durasse mais de uma hora. Filmes eram uma tortura para ele.

Ele terminou de comer e levou nossos pratos para a pia da sua cozinha americana, enxaguando-os enquanto pensava no que queria ver.

– Eu comecei a assistir H2O Meninas Sereias com a Elisa – começou, me fitando com esperança enquanto secava as mãos num pano de prato.

– Não – virei o rosto para a tela, para não precisar ver aqueles olhos enormes e pidões. – Nem pensar.

Ele veio para o sofá e se jogou ao meu lado.

– Por favor, Milo – falou, esticando as sílabas como uma criança.

Balancei a cabeça.

– Eu me recuso. Não. Dance Academy já foi traumatizante o suficiente. Estou colocando um fim nas séries de pré-adolescentes.

Quim conseguiu se movimentar no espaço minúsculo entre o braço do sofá e meu corpo e deitou com a cabeça em minhas coxas, os cachos escuros do lado do seu rosto tocando levemente minha barriga onde a camisa que eu usava tinha subido.

– Você está se tornando um velho muito sem graça – comentou, se contorcendo para ficar confortável.

– E você não tem treze anos – retruquei, minha mão parada no ar por alguns segundos antes de descer para acariciar seus cabelos.

– Tá, que seja, coloca Breaking Bad ou alguma outra série “adulta” – sim, ele fez as aspas com as mãos.

Quim odiava Breaking Bad.

Suspirei e acabei colocando Um Maluco no Pedaço, porque era uma das poucas séries que nós dois amávamos (e sabíamos as falas de cor).

Eu sentia falta disso, de ficar em casa assistindo séries na Netflix com meu melhor amigo. Estar com aquele ladrão de espaguete me trazia uma paz que poucas coisas me traziam, mas...por alguma razão que eu não sabia explicar, as coisas não eram as mesmas entre nós. Eu nem sabia quanto tempo fazia, quando aquilo tinha começado, aquele incômodo, aquela insegurança, aquela...hesitação ao redor dele. Às vezes eu me pegava pensando duas vezes antes de dizer ou fazer algo, quando antes eu podia ser completamente sem filtro com Quim. Apenas com ele. Quim não me julgaria por dizer coisas estúpidas ou comentários inapropriados, não me empurraria quando eu me tornasse muito pegajoso, não fecharia a porta do seu apartamento para mim ou me faria sentir menos que a pessoa insuportavelmente maravilhosa (palavras dele) que eu era.

Mas já fazia um tempo que eu ligava antes de aparecer, que reescrevia minhas mensagens antes de enviá-las, que hesitava antes de tocá-lo como eu sempre fizera.

Já fazia um tempo que estar com ele não era mais totalmente confortável. E eu sentia falta disso. Sentia falta da nossa familiaridade. Até dos nossos dias dos namorados. O última havia sido...rígido, tenso.

Um esforço, quando tudo entre nós sempre tinha sido fácil.

Quando eu havia começado essa luta para lhe comprar presentes que não significavam nada?

Quim havia cochilado com meus carinhos quando ouvi o barulho de chave na fechadura e, em seguida, da porta da frente abrindo.

Sorri para a morena baixinha entrando com sacolas de supermercado.

– Olá, Merope Xarope – cumprimentei com um sorriso, deixando minha mão cair no sofá.

– Má Milo, quanto tempo! – Mérope deixou as compras na mesa e me deu um sorriso, para em seguida olhar para o namorado apagado em meu colo.

– Você vai ter que me ensinar esse truque um dia – falou com um sorriso enquanto tirava os sapatos. – Eu nunca consigo fazê-lo assistir nada comigo, ele começa a andar pela sala em menos de dez minutos.

Senti meu rosto esquentar e olhei para o rosto bonito de Quim, os cachos bagunçados pelos meus dedos e os cílios fazendo sombra em sua pele.

– Ele também não assistiu muita coisa hoje – forcei um sorriso. – Caiu no sono no segundo episódio.

A série ainda estava passando e, por um segundo, era como se as risadas de auditório estivessem zombando de mim.

– Pelo menos assim você consegue assistir alguma coisa – Mérope riu, sentando-se ao meu lado. – Ele não me deixa em paz um segundo, não assisto um filme inteiro há meses

Ela parecia querer conversar, mas, de repente, tudo o que eu queria era sair dali.

– Desculpa, Mér, eu tenho que ir – falei, tirando a cabeça de Quim cuidadosamente do meu colo e me levantando. – Esqueci que tinha combinado de me encontrar com o Vic – menti.

Ela assentiu e Quim nem se mexeu, continuou dormindo pacificamente enquanto eu calçava meus tênis e praticamente corria para fora. Meu estômago estava em nós e, mesmo quando já estava na rua, caminhando em direção ao metrô, algo estava me incomodando. Fisicamente mesmo, como se houvessem insetos caminhando embaixo da minha pele.

Era tarde e o tempo já estava frio. Apertei meu casaco, fechando o zíper na frente e me apressando. Entrei na estação meio vazia e peguei meu celular para mandar uma mensagem para Victor, perguntando se podia ir dormir na casa dele. Não queria voltar para a minha. Não queria ficar sozinho.

Ele respondeu rapidamente e eu senti como se finalmente pudesse respirar fundo, aliviado. Minha pele não pinicava tanto quanto antes. Entrei num vagão quase vazio e me sentei, encostando minha cabeça no vidro gelado.

Desde quando Mérope tinha a chave do apartamento de Quim?

Era isso o que estava me incomodando tanto?

O rosto adormecido dele apareceu em meus pensamentos sem pedir permissão.

Joaquim nunca pedia permissão para nada.

...

Entrei no bar e logo encontrei a mesa mais barulhenta, meus amigos já tendo claramente bebido pelo menos duas torres de cerveja. Tirei meu gorro e minha jaqueta, pegando a cadeira ao lado de Joaquim.

– Grande Miiiiilo – Kael cantou, levantando seu copo como num brinde.

– Ele não é grande, idiota – Lisa cortou, levando seus olhos avaliadores para mim. – Você tem o quê, 1,75m?

– Isso não é alto? – Kael retrucou.

Eu ri, principalmente quando os dois bêbados começaram a discutir minhas proporções. Não importava o assunto, Elisa e Kael iam dar um jeito de discordar em absolutamente tudo, era praticamente uma lei da natureza.

Sorri para Quim enquanto os dois discutiam, batendo meu ombro de leve no dele.

– Oi.

Ele virou seu rosto para mim e forçou os lábios para cima. Eu conhecia todos os seus sorrisos e aquele era um que não queria ser. Era triste, contido e não alcançava seus olhos pálidos.

– Oi – respondeu.

Ele estava usando uma camisa de mangas compridas vermelha que eu não reconhecia. Achei estranho, já que ele nunca gostara de cores vivas e quase todo o seu guarda roupa era composto por pretos, azuis escuros, verdes musgo e cinzas. Aproximei-me para vê-la melhor.

– Roupa nova? – perguntei, olhando-o curiosamente.

Ele deu de ombros.

– Presente da Mérope. Ela diz que meu guarda roupa é depressivo.

De repente, Elisa começou a gritar:

– Roaquim Armando De La Vega, como você pode fazer isso?

Oh, deus, eles já estavam começando com a novela mexicana.

– Ele traiu sua esposa, Meropina Catarina Gusmán com o garoto que limpa a piscina! – Kael contribuiu, olhando com espanto para nós.

– Oh, não! Como isso é possível?

– Os dois foram flagrados no ato na dispensa da grande mansão do casal pela cozinheira fofoqueira!

– Espera aí, quem é a cozinheira fofoqueira? – não consegui segurar a pergunta. Na nossa novela, Joaquim, ou melhor, Roaquim era o protagonista – muitas vezes anti-herói – pegador com muito gel no cabelo, Elisa era a viúva rica amargurada, Kael, o amante ganancioso louco para dar o golpe do baú e eu era a mocinha pobre e inocente que sofria com as maldades de todo o elenco. Apropriado. – E o limpador da piscina?

– A cozinheira é o porteiro do prédio do Quim, ele é sempre muito abelhudo – respondeu Elisa. – E o cara da piscina é você, Mi.

Balancei a cabeça, rindo.

– Mas eu sou a mocinha inocente! – contestei.

Kael bateu seu copo na mesa, falando alto:

– É isso que você falou pros seus catorze namorados? Como é o nome do novo mesmo?

Mandei o dedo do meio para ele enquanto Elisa fazia o favor de corrigi-lo com um “foram só onze, o Calça de Couro, o Pingado e o Sugar Daddy foram loucuras transitórias”.

Quim revirou os olhos e bebeu o conteúdo do seu copo em um gole.

– Por que vocês ainda ficam fazendo essas brincadeiras de criança? – reclamou, sem olhar para a gente.

Ele estava brincando? Ele amava brincar de novela mexicana!

– Falou o cara que assiste Dance Academy— Kael retrucou, caindo numa risada alta e alcoolizada.

– E H2O Meninas Sereias com a Lisa – revelei, o que só o fez rir mais, com Lisa acompanhando-o.

Joaquim, no entanto, não parecia achar graça. Tirou umas notas do bolso, jogou sobre a mesa e se levantou, quase derrubando a cadeira. Antes que nós três conseguíssemos entender o que estava acontecendo, ele já estava quase na porta do estabelecimento. Levantei-me quando vi sua silhueta desaparecer pela porta e fui atrás dele, deixando minhas coisas lá mesmo.

Saí para a rua escura e gelada e o vi encostado no muro ao lado, acendendo um cigarro, os cachos rebeldes bagunçados pela brisa noturna.

– Que porra foi essa lá dentro? – questionei irritado, próximo o suficiente para inalar a fumaça do seu cigarro.

Foi quando percebi que seu cheiro estava estranho. Não era ruim, era diferente, não era o aroma suave do seu shampoo de mel, era quase como...

– Eu só estou cansado, Milo – ele respondeu, tragando e desviando os olhos.

– Você está usando perfume? – a pergunta atravessou meus lábios antes que eu pensasse um segundo sobre ela.

Quim franziu o cenho e baixou o cigarro, pousando seu olhar tempestuoso sobre mim.

– Você está me escutando? – demandou, balançando a cabeça. – Eu tô cansado! Que porra interessa se tô usando perfume? Qual o seu problema?

Fiquei calado, estupefato, por um momento. Quim era tagarela, agitado, hiperativo até, mas nunca grosseiro ou combativo. O que diabo estava acontecendo? E por que eu estava deixando-o falar comigo daquele jeito?

– O meu problema? – gritei de volta. – Não fui eu quem saiu do bar batendo o pé só porque meus amigos estavam se divertindo!

– Sendo crianças idiotas!

– Cala a boca, você sempre foi mais criança que qualquer um de nós!

Ele soprou fumaça na minha cara e jogou o cigarro quase inteiro no chão.

– Então chegou a hora de crescer – sussurrou, o que, depois de nossa discussão acalorada, parecia ainda mais cortante. – Não somos mais crianças, Milo. Temos que parar de agir assim.

Estávamos tão perto que seu cheiro, o familiar, de cigarros e pele e Quim, e o da colônia nova e forte demais estavam de deixando tonto. Sua respiração esquentava meu rosto.

– Eu vou viajar com a Mérope no dia dos namorados – sua voz era como uma confissão, como se fosse algo que ele não conseguisse dizer em voz alta. – Pactos são idiotas e a gente não está mais na faculdade.

Meu coração falhou uma batida e, em seguida, começou a bater tão rápido que eu o escutava em meus ouvidos. Quim estava tão perto, mas parecia se afastar de mim. Estava tão perto que eu podia tocá-lo, abraçá-lo, prendê-lo. Exceto que...

Eu não podia.

Ele nunca tinha estado tão distante.

– O que você quer dizer com isso? – perguntei fracamente.

Ele voltou a desviar os olhos.

– Que eu cresci. Você devia fazer o mesmo.

Eu dei um passo para trás e toda a conexão entre nós pareceu perdida. Ele se virou para ir embora, mas antes disse:

– Boa sorte com o Vic.

Eu fiquei olhando suas costas naquela blusa estranha que cheirava como se ele pertencesse a outra pessoa.

...

Rodei o embrulho com a caneta nas mãos. Nem era mais dia dos namorados e eu tinha ido até ali. Era um pouco patético, na verdade. E muito egoísta. Eu não sabia se o amava, como Victor havia me acusado, eu não tinha ideia do que era aquilo, eu...eu só sabia que a ideia de perder um pedaço de Quim, o pedaço que sempre foi meu, que era minha segurança e minha certeza, bom, machucava. Me amedrontava. Paralisava. Era como não ter pernas de uma hora para outra. Era como não ter olhos. Não ter nada.

Era estar completamente imóvel e sozinho e vulnerável e assustado.

Valia a pena invadir a comemoração de amor deles por isso? Por esse sentimento que nem era sentimento, era mais...falta? Falta de tudo o que me fazia inteiro?

Era estúpido, egoísta e inconsequente.

E eu não podia fazer isso.

Voltei pelo corredor e desci as escadas da pousada charmosa para onde Joaquim e Mérope tinham vindo comemorar o dia dos namorados. Uma data comercial e superficial, que não tinha nenhum significado real. No entanto, isso era mentira. Eu sentira na pele ao sobreviver àquele dia. Eu sentira quando doze se transformara em treze e eu ainda estava no carro, quilômetros ainda me separando dele. E eu sabia disso mesmo enquanto repetia as palavras como um mantra em minha cabeça.

A pousada ficava na beira de um lago limpo e bonito. Era tudo terrivelmente romântico e meu estômago parecia dar voltas.

Saí do prédio e fui até a beira do lago, pensando em como Victor havia terminado comigo mais cedo, na primeira vez que comemorava aquela data com alguém com quem estava envolvido.

– Não tenho interesse em estar com um cara apaixonado por seu melhor amigo – ele havia dito durante a sobremesa, calma e ponderadamente. – Estamos nesse restaurante há mais de uma hora e você não olhou para mim uma só vez. E tenho certeza que não pensou em mim também, embora eu esteja na sua frente. Você está pensando nele.

Você está pensando nele.

Estava?

Eu não pensava em Quim, apenas em partes dele. No cheiro dos seus cabelos. Nos ossos de sua clavícula, pulsos e quadris, sempre tão salientes, mesmo que ele não fosse magrelo. No lado esquerdo do seu sorriso, o que sempre parecia mais alto que o direito. No formato dos seus lábios quando ele esticava as sílabas do meu nome, na quantidade de palavras que ele era capaz de falar por minuto, na sua mente que não cansava, na sua incapacidade de ficar quieto por cinco minutos, na sua gargalhada, nas suas mãos, nos seus dentes meio tortos.

Na sua presença. Na sua falta. No buraco que ele costumava preencher na minha vida. No vazio que eu sentia sem ele.

É, não havia espaço para Victor ali, mesmo que ele fosse um cara maravilhoso. Não havia espaço para mais ninguém.

E havia sido por isso que eu saíra do restaurante, entrara no meu carro e dirigira durante sete horas para aquele lugar. Para encontrar Joaquim. Meu Quim.

Ele não é seu, Milo.

Era cedo, tão cedo que o lugar estava vazio e silencioso. Nosso dia havia passado, nosso momento, se é que ele um dia existira. Talvez ele simplesmente não sentisse nada por mim, era inclusive o provável. Ele tinha Mérope e ela era incrível. Eles tinham um ao outro há anos.

Olhei para o embrulho nas minhas mãos e, num impulso, joguei-o o mais longe que pude. Ele caiu na água com um barulho alto.

– O que era aquilo? – uma voz perguntou às minhas costas.

Virei-me rapidamente com o susto, sentindo o coração na boca.

Quim estava parado a alguns passos de mim, usando calças sociais e uma camisa branca meio aberta, sem gravata. Não parecia ter vindo de nenhum dos quartos, parecia estar chegando da rua, como se tivesse passado a noite acordado. Seus olhos estavam fundos e com círculos roxos, sua pele parecia cansada, seus cabelos, a bagunça costumeira.

Minhas mãos tremiam.

– Seu presente – respondi.

Ele tirou os sapatos e as meias e se aproximou. Fiquei sem ação enquanto o via tirar a camisa e jogá-la displicentemente no chão.

– O que você...? – comecei, mas ele pulou no lago antes que eu pudesse terminar, gotas de água gelada espirrando em meus jeans.

Vi-o desaparecer debaixo da superfície e quase entrei em pânico. Era inverno, por deus! O idiota ia pegar uma pneumonia.

– Sai daí, seu babaca! – gritei, me aproximando o máximo que podia. – Essa água tá congelando!

– Não enquanto não achar seu presente – falou antes de mergulhar novamente.

Idiota teimoso!

– É só a droga de uma caneta! – gritei quando ele subiu mais uma vez. – Não tem nada de especial!

Ele se virou para me olhar, com a água na altura do peito pálido e nu.

– Se você comprou pra mim, é especial, Milo – sua voz era baixa, tímida. –Tudo o que vem de você é.

Tirei os sapatos e as meias antes que ele pudesse mergulhar de novo. Tirei o suéter e a camisa que estava usando enquanto ele ficava lá, parado, fitando-me, gotas caindo de seus cabelos e percorrendo seu rosto, seu pescoço, seus ombros. Tirei os malditos jeans também, porque não teria outra coisa para vestir quando saísse dali.

– O que...? – dessa vez fui eu quem o interrompeu mergulhando no lago.

A água era tão gelada que fiquei sem fôlego no momento em que minha cabeça submergiu. Senti como se um milhão de agulhas perfurassem meu crânio e fiquei tonto por um segundo. Mãos se fecharam em meus braços e me puxaram para cima. O ar úmido e pesado entrou rasgando meus pulmões.

– Você enlouqueceu?! – Quim gritou na minha cara, seus dedos apertando minha pele.

– Olha quem fala! – devolvi com o pouco fôlego que tinha, meus lábios tremiam e eu estava balançando a cabeça para tirar o cabelo dos olhos, mas ele estava grudado na minha testa.

Quim passou uma mão por meu rosto, fazendo isso por mim, quase como um reflexo.

– Eu sei nadar, você não! – sua voz era irritada, mas seu toque em meu rosto era gentil.

– Estamos no raso! Qual o seu problema?

Quim me largou e baixou os olhos.

Senti a perda do seu corpo, o meu esfriando agora que o seu estava longe.

– Mérope diz que eu estou apaixonado por você.

Eu não sentia meus dedos.

Eu sentia tudo.

– Victor diz que eu estou apaixonado por você – murmurei.

Ele levantou os olhos, gêmeos da superfície do lago, mas não frios, nunca frios.

– Você está? – perguntou, a voz assustada, temerosa, esperançosa.

– Não sei – respondi. – Você está.

– Não sei. Mas estou aqui, Milo.

– Eu dirigi a noite toda – minha voz saía como se eu estivesse chorando, mas as gotas que se prendiam em meus cílios eram do lago.

Quim me puxou para seus braços, nossa pele se tocando, quente e fria, nossas respirações se misturando, se confundindo.

– O que vamos fazer? – sua voz era quente em meu pescoço, uma carícia, uma provocação, um convite.

Apoiei meu rosto em seu ombro e passei meus braços por seu corpo, sentindo o meu descansar, meu coração se acalmar, minhas angústias se desfazerem.

– Não quero ser só mais um na sua lista – ele continuou com voz trêmula, desenhando padrões em minhas costas com os dedos.

Beijei a pele fria do encontro entre seu ombro e pescoço,

– Você não é, nunca vai ser.

Sua mão voltou ao meu rosto, seu polegar acariciando minha mandíbula, tocando levemente meu lábio inferior, forçando delicadamente minha cabeça para trás, para me fazer olhá-lo.

– Tudo bem, então – murmurou com um minúsculo traço de sorriso em seus lábios arroxeados pelo frio.

E aquele era um sorriso que eu não conhecia. Que me aqueceu mesmo na água gelada.

– Posso te beijar agora?

– O quê, estamos brincando de verdade ou desafio de novo?

– Ah, cala a boca, Milo.

– Vem calar.

E ele veio.

Notas finais
Obrigada por ler!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!