Diz pra Mim
15 Lendas
Notas iniciais
Sakura curvou-se diante dos aplausos que recebera e agradeceu as outras maikos que executaram a melodia para si. Só então foi em busca de um bule de chá, começando assim a servir os clientes da casa. Ela sabia que certo ruivo ainda a observava, assim como outros homens, que chegaram até a puxar assunto consigo. Sabia que não podia ignorá-los, mas também tinha em mente que o único que deveria demonstrar tanto interesse, era aquele alguém em especial. Por isso, Sakura lembrou-se das lições de Mikoto, e conseguira ser simpática e gentil.
Os demais clientes fizeram com que perdesse tempo, de modo que, quando iria finalmente aproximar-se de Sasori, outras duas gueixas já formadas disputavam sua atenção. No entanto, Sakura viu quando o mesmo sussurrou algo para o homem ao seu lado e o mesmo afastou as duas utilizando apenas palavras. Era a chance que estava esperando, controlou a insegurança e caminhou graciosamente até o mesmo.
Serviu-o da mesma forma leve que tanto tinha praticado com Mikoto e por alguns segundos, permitiu que o mesmo vislumbrasse da pele de seus pulsos. Por mais insignificante que parecesse, aquele gesto era um sinal que poderia despertar o interesse masculino.
– Nunca antes avistei uma gueixa de olhos verdes e cabelos róseos como as pétalas de cerejeira. –sua voz era suave e calma.
– E admira essas flores, senhor Akasuna? –atreveu-se a perguntar com o olhar baixo.
– Sim e muito, é uma pena que as mesmas floresçam por tão pouco tempo... Bem, vejo que já sabe quem sou. –comentou como se não fosse novidade alguma. – Tenho então o direito de saber com quem falo.
– Meu nome é Sakura.
– Sakura? Nada mais apropriado. Sabe Sakura, me sentiria melhor se me observasse de cabeça erguida, assim como o fez enquanto estava dançando e divinamente, por sinal.
– Arigatô. –agradeceu recatada enquanto atendia ao seu pedido, dando de cara com as feições bonitas do rapaz.
Nesse momento, o mesmo homem que acompanhava o ruivo sussurrou-lhe algo. Por suas expressões aborrecidas, Sasori pareceu não gostar nada do que dissera, mas logo colocou um sorriso nos lábios e despediu-se galantemente:
– Seria bom encontrá-la aqui novamente Sakura, seria como admirar o raro florescer das cerejeiras mais vezes do que é possível. –disse-lhe deixando o local logo em seguida.
Qualquer palavra que pudesse dizer em resposta havia desaparecido de sua mente. E quando voltou a observar o ambiente ao redor de si, deparou-se com outros homens que mostravam claramente em seus rostos que a cobiçavam, enquanto as outras gueixas e maikos não pareciam nada contentes com sua presença ali.
Permanecera na casa de chá até o fim, não deveria ir embora se ainda restasse alguém que pudesse servir. Mas assim que vira oportunidade, deixara o local. Senti-a se estranha com as palavras recebidas pelo ruivo e ao mesmo tempo, acreditava enfim que o plano daria certo.
Enquanto estava á caminho do distrito, viu quando Sasuke os alcançou em seu corcel negro, o mesmo deveria ter ficado a espreita o tempo todo. Como o esperado, o Uchiha não dissera uma só palavra e nem ao menos olhou em seu rosto, de forma que o retorno fora extremamente longo e silencioso.
Ao invés de ir direto para a casa principal, Sakura seguiu Sasuke até a estrebaria, onde o questionou docemente:
– Sasuke-kun... Acha que alguém próximo á Sasori-sama estranhou minha aproximação?
– Não se preocupe, você aprendeu como se engana alguém. –respondeu rispidamente, deixando-a para trás logo em seguida.
Estarrecida, encaminhou-se para os cômodos de Mikoto, que abriu um grande sorriso e apertou a rosada em seus braços sem se importar em amassar os trajes sofisticados que ambas que vestiam.
– Parece que passou uma eternidade até sua chegada, meu kami! Conte-me o que houve Sakura.
A Haruno então fez um relato desde sua chegada á casa de chá, sua dança bem sucedida, os cumprimentos aos demais frequentadores, o êxito em servi-los e por fim, da conversa breve que tivera com o ruivo.
– Não podemos nos deixar levar por palavras belas Sakura, tens que ficar com os olhos bem abertos, mas se foi realmente assim como me contaste, parece-me que em breve o terá em suas mãos. –a morena declarou animada, no entanto as expressões de Sakura estavam justamente o oposto. – O que aconteceu?
– Fiquei feliz por ter conseguido, mas... Sasori-sama foi tão simpático e gentil, não me pareceu o tipo de pessoa que merece ser enganada. –alegou sincera.
– Já conversamos á esse respeito Sakura... Não é justo o que fizeram conosco, aquela Konan mentiu para meu filho e Nagato atacou o clã covardemente, a justiça precisa ser feita.
– Ou talvez se revidarmos com a mesma moeda somente obteremos castigo pior. –lamentou-se em tom melancólico.
– Não o diga nem de brincadeira Sakura! –repreendeu-a. – Além disso, não haverá massacre como o que vimos aqui, apenas a devolução de um lugar que foi sempre ocupado pelos Uchiha. Se posso dar-lhe mais um conselho é que não se deixe levar por esse galanteador ou por qualquer outro, não deixe que isso atrapalhe seus objetivos.
– Hai, tudo bem Mikoto-sama, gomen por dizer coisas tão estúpidas.
...
Madara gargalhou debochadamente:
– Não há motivos para rir. –Sasuke revidou friamente.
– Mas é claro que há! Seu onii-san, que sempre foi um dos homens mais inteligentes entre nosso clã, simplesmente enlouqueceu. Não o culpo por isso, passar o dia todo trancafiado numa jaula junto de Fugaku é torturante para qualquer um.
– Tire-o de lá. –prosseguiu a insistir.
–Itachi escolheu seu próprio caminho, não tenho nada á fazer se a insanidade apossou-se dele. –respondeu calmamente, desde o retorno de Sakura na noite anterior, Madara estava confiante e incrivelmente de bom humor.
– Não aja como se seguisse a vontade alheia, pois nunca o fez. –enfrentou-o batendo as duas mãos sobre a mesa de madeira que os separava.
– Controle-se gatinho assustado. –o sorriso tinha sumido de seus lábios e uma expressão sombria vagou por seu rosto durante alguns segundos. –Não se esqueça de qual é o seu lugar. Irei pensar á respeito do que farei com seu onii-san, até lá não se intrometa.
– Irei me intrometer o quanto for necessário, devo isso á ele. –mais uma vez, Sasuke tomou a frente, utilizando do mesmo tom de voz do tio.
– Não tem ideia do quanto suas palavras soam engraçadas... Justamente você, que entregou toda a família nas mãos do inimigo, agora quer proteger o mais velho. –caçoou.
– Penso que, em relação á traições, você é o único que não pode apontar em minha direção. –dito isto, o mais jovem voltou-se para a saída.
O clima estava gélido naquela manhã. Enquanto caminhava, Sasuke recebia olhares de repúdio dos moradores sobreviventes e quando se via de costas, era como se fosse receber uma facada de qualquer um deles. Não tirava suas razões, afinal ele permitiu que Konan tirasse informações importantes de si tão naturalmente como se diz bom dia á alguém. Ela o fez tão sutil e ingenuamente, como se este fosse seu dom. Bem, poderia até ser um dom, um que era utilizado por todas as gueixas.
Enfim, sentiu uma presença aproximar-se de suas costas, mas não recebeu o toque cortante de uma lâmina e sim, a pesada mão de Naruto sobre seu ombro:
– Ei teme! Puxa, essa sua face está de assustar até os fantasmas dos velhos curandeiros. –comentou em tom de provocação, porém o moreno não pareceu achar graça alguma.
– Cale-se dobe. –cortou-o.
– Não seja tão grosseiro seu baka! –berrou contrariado. – Quero saber como foi o primeiro encontro de Sakura-chan com o alvo. –sussurrou como se fosse um grande e urgente segredo.
– Pergunte àquela pirralha, ela com certeza irá adorar contar o que houve ontem. -ralhou impaciente.
– Nossa, é impossível ter uma conversa decente contigo teme. Está assim, pois teve que vigiá-la? Devia se sentir privilegiado, tenho certeza que assistiu a dança de Sakura–chan. –sorria orgulhosamente.
O Uchiha ia dizer algo ou simplesmente chutar o loiro para o mais longe o possível, quando uma voz, ou melhor, o que ela dizia, lhe chamou a atenção:
– Olhos... Os olhos estão na escuridão, espreitando por toda parte. Eles querem deter o poder de minha juventude, mas não irão conseguir! E quando seus ouvidos estiverem atentos a ouvir meus passos, só receberão os golpes de meus punhos! –era aquele rapaz estranho que fora torturado por Kakashi quem dizia aquilo, e logo algo naquelas palavras soou extremamente familiar.
Olhos espreitando na escuridão, ouvidos atentos á escutar... Isso o remetia ao irmão e a forma confusa com a qual ele dissera coisas daquele tipo em sua última visita, ao mesmo tempo em que parecia paranoico á tudo que estava ao seu redor.
– O que está dizendo? –indagou aproximando-se do rapaz.
– Dos vigias da escuridão, eles se alimentam de várias chamas, inclusive daquela que aquece todo o meu ser: a juventude!
–Sasuke não é saudável que escute os delírios desse jovem, ele está sempre falando coisas desse tipo, não tem como levá-lo á sério. –Naruto aconselhou apreensivo.
– Calado dobe, se quer saber também não é nada saudável escutar á ti.
– Mas é claro que eles buscam outras riquezas da alma para se alimentar. Aqueles que são ambiciosos e fazem até o impossível para obter poder, assim como os que matam qualquer vida sem pesar, também devem fugir para a luz o quanto antes. –o garoto de sobrancelhas grossas continuava a tagarelar.
– Naruto. –Sasuke chamou apreensivo.
– Ah! Agora quer conversar comigo, é? –berrou indignado.
– Por acaso conhece a lenda dos guerreiros da noite? –perguntou ignorando suas palavras, algo parecia começar a fazer sentido diante das loucuras de Itachi e daquele estranho rapaz.
– Não me recordo, digo meu otou-san não tinha muito tempo para me contar histórias quando eu era criança. –Naruto respondeu aparentemente chateado sobre aquilo. – Ei, Sasuke! Aonde vai? -indagou vendo o moreno afastar-se dali em passos duros e apressados.
Ao tentar entrar na área do calabouço onde encontraria o irmão, Sasuke foi barrado pelo carcereiro:
– Madara–sama deixou claro que sua entrada aqui era proibida, senhor. -era um homem de meia-idade, um bom homem, aliás, que estava apenas cumprindo ordens. Sasuke tinha a plena consciência disso, mas se Madara pensava que iria impedi-lo de ver o irmão, estava erroneamente enganado.
– Deixe-me passar. -insistiu indiferente.
– Lamento Sasuke-sama. -o carcereiro desculpou-se.
– Irei lamentar pelo que terei de fazer se continuar a me deter e você ainda mais. -ameaçou com seus sérios olhos negros. – Saia da frente. -a mão tocou o cabo da espada na bainha.
Foi o suficiente para que o mesmo permitisse por fim sua passagem. O Uchiha continuou pelos corredores úmidos e escuros até chegar à cela isolada, na qual seu pai e irmão jaziam presos.
– O que faz aqui, traidor? –Fugaku anunciou antes mesmo de vê-lo.
– Onde está Itachi? –procurava ao redor da cela sem encontrá-lo.
– Eles o levaram, me parece que Madara esteve aqui para vê-lo e então não o trouxeram de volta. Até pensei que tinham o feito ás suas ordens, mas se o procura, vejo que ao menos dessa vez não tem parte nisso.
– É óbvio que não, Itachi sempre foi muito mais próximo á mim do que o senhor foi como meu otou-san. –disse antes de se virar para sair, mas teve a atenção chamada pelo mais velho:
– Está a cada dia mais parecido com aquele verme do Madara, isso só torna a minha dor ainda pior.
Sasuke inspirou fundo, irritava-o ser comparado ao tio e de fato, não queria que Fugaku persistisse naquela situação, no entanto agora ele tinha peças de um quebra-cabeça, que talvez só Itachi pudesse resolver.
Quando entrou nos aposentos de Madara, o mesmo estava em algum tipo de reunião com um bom número de seus ninjas, ele cessou suas instruções assim que o sobrinho apareceu:
– Não me lembro de tê-lo convidado Sasuke. Saia. –e lá estava o mau humor rotineiro de volta.
– Fico satisfeito que tenha me ouvido e tirado Itachi da prisão. Onde o colocou? –indagou ignorando a ordem.
– Em nenhum lugar desse distrito, eu garanto. Itachi não hesitou em me atacar, tive de enviá-lo á um amigo que irá ensiná-lo á ter disciplina e um bom raciocínio novamente... Por bem ou por mal.
Assim que o escutou, Sasuke tirou sua katana da bainha e correu na direção do tio. Quando alguns centímetros os separavam, sentiu mãos lhe puxando e logo, suas costas sofreram o baque com o chão. Recuperou-se rapidamente colocando-se em guarda contra os ninjas que o tinham lançado daquela forma. Arrancou a cabeça do que estava mais próximo e quando ia prosseguir, sentiu a ponta de uma adaga em seu pescoço. Era Madara quem a segurava:
– Eu mandei sair. –Sasuke piscou várias vezes, poderia jurar que os olhos do tio tinham tomado uma cor rubra de repente.
...
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