Diz pra Mim
13 Acertos Finais
Notas iniciais
Jogou um dos leques no ar, rodopiou o corpo e por fim, o mesmo caíra encaixado em sua mão, tão bem posicionado quanto seu par. Mikoto apressou-se em bater palmas, sorrindo abertamente para sua única e aplicada discípula.
– Meus parabéns Sakura! Foi divina, está pronta para se apresentar nas casas de chá. –era bom ver a Uchiha sorrindo daquela forma depois de tanto tempo, e pensar que era graças á ela de uma forma ou de outra.
– Arigatô Mikoto–sama, tu és a maior responsável por isso. –agradeceu.
– Apenas ensinei algumas coisas para quem já tem um talento nato. Está quase pronta, resta o último estágio, que ajudará a encantar não só o tal rapaz, como também qualquer outro.
Sakura continuava intrigada enquanto seguia Mikoto para fora da casa sede do distrito. Só quando chegaram ao pátio, onde muitos moradores passavam carregando mantimentos e ferramentas, mães andavam de mãos dadas com os filhos e ninjas faziam guarda, a mulher esclareceu-lhe:
– A maior ferramenta de conquista que uma gueixa pode ter não é o corpo, quanto menos a beleza em si... As verdadeiras gueixas, acima de tudo, são aquelas que conseguem prender a atenção de todos, com um único olhar.
– Um olhar? –repetiu em dúvida.
– Exato, observe. –disse afastando-se.
Nesse momento, um homem passava carregando uma pequena pilha de lenha. Mikoto então esbarrou no mesmo. O impacto fez com que os três tocos fossem ao chão. Irritado, o homem ia proferir palavras zangadas, mas foi impedido pelo contato direto do olhar inocente e charmoso da mulher, com o seu.
– Gomen. –pediu educada.
– Não, não se preocupe Mikoto-sama, a culpa é minha por não prestar atenção no caminho. –sorriu, pegando a lenha de volta e fazendo-lhe um cumprimento, para só então, seguir seu caminho de volta.
– Viu só? Eu era a desavisada e foi ele quem se culpou. –falou aos risos quando retornou para junto da rosada.
– Como fez isso? –indagou impressionada.
– Erga os olhos lentamente e mire os dele, aliás, mais do que isso: tente enxergar sua alma, daí ou o mesmo estará igualmente preso em seu olhar, ou irá se intimidar tanto, que ainda assim não conseguirá se afastar. –explicou.
– Ouvindo assim até parece ser fácil.
– E será, Sakura. Ainda mais se tratando de ti e esses olhos verdes que os deuses a deram de presente. Agora é a sua vez. –disse delicadamente.
A rosada então tomou coragem e pôs-se a caminhar naturalmente, quando avistou um jovem que caminhava aparentemente apressado. Disfarçada e delicadamente, esbarrou no mesmo e após o impacto, aproveitou para lançar lhe o olhar.
– Gomen, eu não quis machucá-la. Está bem? –pôs-se a perguntar preocupado.
– Hai, não foi nada. –respondeu docemente.
– Tem certeza? Posso acompanhá-la até sua casa se quiser.
– Arigatô, mas realmente não é necessário. Tenha um bom dia. –cumprimentou-o educadamente e então, subitamente se retirou. Ainda sentia o olhar do jovem sobre si quando se juntou novamente á Mikoto, a mesma tinha um olhar cumplice e satisfeito para si.
– Isso foi muito bom. –a morena elogiou quando já se encontravam novamente em casa. – Homens são como pavões Sakura, eles gostam de exibir sua plumagem, ser admirados e reverenciados, quer seja por sua beleza, inteligência, riqueza, mas principalmente pelo seu poder.
– Madara é um grande exemplo disso, certo? –perguntou inocentemente, porém foi inevitável que ambas caíssem na risada.
– Hai, isso mesmo, é um verdadeiro pavão! –Mikoto concordou. – Voltemos ao assunto... É essencial que elogie e que saiba conversar sobre os assuntos que interessam ao tal Sasori, descobrirá isso o observando e ouvindo as palavras que troca com seus conhecidos. Seja sempre polida, flexível em suas opiniões, mas decidida e lembre-se: o maior vislumbre que pode oferecer ao mesmo é a vista da suave e delicada pele de seus pulsos no momento em que for lhe servir o chá.
– Compreendo. –assentiu atenciosamente.
– Tem se saído tão bem Sakura, progrediu em meses o que eu levei anos para aprender, parece até que nasceu para isso. No entanto, lamento que tenha se tornado uma maiko por motivos tão baixos. –disse-lhe.
– Arigatô Mikoto–sama, não há motivo baixo algum. O que importa é a reconquista da dignidade de todos os Uchiha.
– És tão madura também... Direi a Madara que está pronta e rezarei bastante aos deuses para sua proteção e sucesso. –beijou-lhe a mão, despedindo-se, por fim.
Sakura tinha total confiança no que dissera á Mikoto, no entanto não podia ignorar o grande fardo e responsabilidade que tinha agora sobre as costas. Em breve saberia se tanto esforço iria valer a pena, mas antes disso tinha de se apressar para mais um treino com Sasuke.
Desde que ganhara do moreno a katana curta, passara a apreciá-la todas as noites antes de dormir. Esperava nunca precisar usá-la, quanto menos sujar sua lâmina prateada com o sangue de alguém. Até podia se tornar uma gueixa um dia, porém jamais seria uma assassina, nunca se colocaria no mesmo nível daqueles que assassinaram seus pais covardemente.
O dojo estava vazio quando entrou. Geralmente seu “sensei” sempre chegava com antecedência, mas Sakura preferiu não pensar muito a respeito e pôs-se a praticar sozinha, com a ajuda dos bonecos de treino. Foi enquanto deferia um golpe que sentiu um calafrio percorrer seu corpo do início da coluna até os pés. Rapidamente olhou ao seu redor, porém não viu nada, as portas se encontravam fechadas assim como tinha deixado. Tratou de afastar tais sensações e continuou seu treino normalmente.
Um segundo calafrio surgiu, dessa vez tinha a certeza de que não era a única naquele local e quando mais uma vez virou-se, dessa vez com sua katana em mãos, foi surpreendida pela própria espada de Sasuke apontada ao seu pescoço. O mesmo tinha sido extremamente silencioso e parecia levemente surpreso por ela tê-lo percebido, e também pelo bom reflexo da garota, que assim como ele próprio, tinha conseguido posicionar a katana curta próxima ao seu pescoço.
– Humpf. –afastou-se. – Assustada?
– Pensei que estava imaginando coisas. –respondeu meio embaraçada.
– Se tiver de enfrentar inimigos, eles não serão imaginários, pirralha. –rebateu. – Minha okaa-san diz que está pronta para cumprir sua missão, mas Madara quer saber se foi tão aplicada aqui, quanto aos seus leques.
– E não poderias simplesmente responder á ele que sim? –soltara antes que pudesse se conter, não esperava que Sasuke admitisse ao tio que estava se empenhando verdadeiramente.
– Poderei, depois que nos confrontarmos. Vamos, ataque-me. –determinou jogando a bainha de lado, não pretendia usar armas.
Sakura repetiu o gesto e colocou-se em posição de ataque. Investiu com o punho direito, mas Sasuke desviou facilmente e lhe dirigiu um chute, que abalou um pouco seu equilíbrio, embora tivesse conseguido defender-se. Então foi a sua vez de tentar um golpe com as pernas, mas o Uchiha a bloqueou. Tentou mais um golpe com o punho e quando pensou que o acertaria, ele segurou-o antes que fosse atingido e a puxou em sua direção, fazendo com que ficasse de costas para si. Passou o braço livre em torno de seu pescoço a fim de imobilizá-la, enquanto lhe passava uma rasteira com uma das pernas. Era o fim, Sakura conhecia as regras pelas muitas vezes que vira Sasuke e Naruto lutando e sabia que sempre acabava quando um deles era derrubado ou incapacitado.
– Parece que meu tio não terá a resposta que esperava. –comentou sem humor, permanecendo diante dela.
Sentia-se irritada. Não tinha se machucado e teimado tanto em aprender em vão... Foi então que uma ideia lhe surgiu, não foi Mikoto quem dissera que um olhar era a melhor arma que uma gueixa poderia ter? Subiu seu olhar ao dele, que continuava ali parado a encarando. Julgara por segundos ou até mesmo minutos o tempo em que ambos pareceram ficar simplesmente presos em um único e simples gesto compartilhado pelos dois: um olhar.
– Até quando ficará aí caída, pirralha? –Sasuke foi o primeiro a despertar, erguendo uma mão para ajudá-la.
A rosada foi rápida. Puxou-o com toda a força que pôde, fazendo com que o Uchiha caísse no chão próximo á si, então se colocou sobre o mesmo e posicionou suas mãos ao redor de sua cabeça, como se estivesse prestes a torcer-lhe o pescoço.
– Como você mesmo diz, nada de baixar a guarda. –a garota soltou com ar de vitória.
O rosto de Sasuke e principalmente os olhos negros, que geralmente nada deixavam transparecer de suas emoções, mostravam-se agora pasmados com a reviravolta sofrida. Sakura por sua vez, tratou de desfazer o sorriso que havia mostrado antes que desse conta, e desconfortável pela forma e posição na qual estavam, afastou-se e sem esperar pela bronca, deixou o dojo.
...
Enquanto isso nos calabouços, Fugaku jazia recostado em uma das extremidades da cela fria. Os cabelos estavam maiores do que costumavam ser, a barba também havia tomado grande parte da pele de seu rosto, mas ainda era possível ver suas expressões abatidas. Madara não queria permitir visitas á ele e o filho, dissera uma vez em que estivera ali, que desejava que ambos se acostumassem com a solidão –“aquele desgraçado” – pensou consigo mesmo, torcendo para que Mikoto permanecesse bem.
Já Itachi, que estava igualmente acabado, se encontrava de pé, com a testa recostada ás grades. Parecia cada dia mais distante, ás vezes fazia perguntas estranhas e mostrava-se atento a cada movimento dos ninjas que os guardavam.
– Lembra-se daquele velho tratador de corvos que trabalhou para os Uchiha desde os tempos de meu bisavô? Ryu era o nome dele, se não me engano... –começou pensativo.
Fugaku não respondeu, embora estivesse ouvindo as palavras do filho. Quando se está no silêncio constante, qualquer som se torna digno de atenção:
– Ele vivia contando histórias á mim e Sasuke quando éramos crianças. –repreendeu-se por dizer o nome do irmão, desde a noite do massacre, Fugaku passara a odiar ouvir aquele nome tanto quanto o de Madara. – Uma de nossas preferidas era a dos guerreiros da noite, frutos do escuro e da ambição dos homens. Ele os descrevia como homens cobertos da cabeça aos pés, alguns relatavam ter visto seus olhos, negros como a noite, cinzas como os restos de um morto após seu funeral, ou ainda rubros como o sangue de um jovem. Moviam-se através das sombras e onde quer que exista a sede por poder, eles estariam.
– Aonde pretende chegar com essa lenda? –o mais velho indagou sem entender.
– A nenhum lugar, estava apenas recordando memórias da minha infância. –respondeu com um quase sorriso, enquanto seus olhos pareciam buscar algo aos arredores obscuros da cela.
...
Sakura observava o luar refletido no riacho, quando viu uma figura de cabelos dourados e olhos azuis vívidos, parar ao seu lado. Eles mal tinham conversado desde o episódio no prostíbulo, a rosada não fazia questão de disfarçar sua decepção com o rapaz que parecia extremamente envergonhado por tal:
– Ei, Sakura-chan.
– Naruto. –disse seu nome sem delongas.
– Gomen por tê-la deixada sozinha naquele lugar, eu não devia ter caído nos braços da primeira que encontrei em meu caminho. –parecia uma criança que pedia desculpas á mãe após ter sido pega no flagra.
– Já disse que não me deve desculpas. Por acaso viu Sasuke? –preferiu mudar de assunto a continuar a ver as expressões de culpa no rosto do rapaz.
– O teme? Encontrei-o agora a pouco após ter saído de uma reunião com Madara. Não parecia muito contente, estava igualmente azedo como quando perde para mim em um combate. –contou inocentemente, a garota não pôde segurar o riso. – O que foi? Do que não estou sabendo? Sakura–chan, diga-me! –exigiu curioso.
– Digamos que eu apenas, o peguei com a guarda baixa. –contou, fazendo com que o loiro caísse numa gargalhada descontrolada.
– Não acredito! Teme foi derrubado por uma pirralha, como ele mesmo diz!
– Mas não comente nada com o mesmo, ele saberá que contei e a última coisa que quero, é deixá-lo mais zangado comigo. –pediu segredo.
– Ah, assim não tem graça... Pode ser, vou guardar essa derrota nas profundezas de meu ser. –prometeu e em seguida, pareceu lembrar-se de algo: – Agora me lembro, o teme disse que Madara ia dar início ao plano amanhã, já que concluístes ambos os treinamentos.
Ouvir aquilo foi um alívio, o provável era que Sasuke não dissera que havia sido derrotado, mas o que quer tenha dito, foi o suficiente para que pudesse finalmente botar tudo em prática.
...
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