Notas iniciais
Boa leitura

Naruto andava de um lado para o outro do quarto, as mãos indo para a cabeça a cada minuto. O Alpha estava a ponto de arrancar os cabelos e tudo aquilo nada tinha a ver com sua habitual hiperatividade. O Uzumaki só conseguia pensar que todo planejamento feito visando os próximos seis anos de sua vida havia sido perda de tempo

— Naruto, eu não sei como isso foi acontecer, tá? Estou tão surpreso quanto você — o tom de voz de Sasuke era baixo e nele não havia nenhum sinal de arrogância, muito menos do costumeiro sarcasmo.

O shifter se encontrava encolhido na cama de solteiro do namorado, as costas encostadas na cabeceira e os braços abraçando os joelhos, a postura corporal frágil não negava a casta à qual pertenciam, embora aquele Ômega fosse osso duro de roer, como dizia a sabedoria popular.

— Sasuke, como foi deixar isso acontecer? Droga! Eu não acredito. Por que isso tinha que acontecer logo agora? — Naruto não conseguia assimilar a informação que recebeu do outro por mais que tentasse.

Seu namorado estava Grávido? Ele seria pai aos dezoito anos? Naruto estava prestes a ingressar na melhor faculdade de medicina do País do Fogo. Era cedo demais. Ele havia estudado exaustivamente por três anos na expectativa de conquistar a bolsa de estudo integral na universidade, a qual ganhou após concorrer com mais de cem shifters de lugarejos carentes assim como ele. O estudante se mudaria dali três dias para a Vila da Lua. Aquela revelação havia lhe tirado o chão sob pés

— Eu estava tomando o inibidor, não falhei um dia sequer nos últimos meses. A não ser que… — Algo passou pela cabeça do Ômega. — O lote comprometido que a secretária de saúde recolheu no começo do ano — Sasuke abriu um sorriso como se tivesse feito a descoberta do século, mas sua felicidade não durou muito.

— Você só pode estar brincando. Quer eximir da culpa colocando-a no sistema? — Naruto parou diante do Uchiha, que fechou a cara e passou a olhá-lo de modo incrédulo — Ah, já sei! Isso é para me fazer ficar em Konoha? — Naruto parou de falar e foi sua vez de parecer ter feito um grande achado — Sasuke tem certeza que está esperando mesmo um be…

O Ômega ajeitou a postura e no segundo seguinte estava de pé diante do Alpha. O indicador da destra em riste apontando para o rosto do Uzumaki. A fragilidade de antes totalmente esquecida sobre o colchão. O chakra do Uchiha exalou decepção e mágoa, além de uma hostilidade feroz que o loiro ainda não conhecia.

— Não ouse pôr em palavras o que está passando nessa mente de merda, dobe! Pois, não responderei por mim, além do mais, o que quis dizer com se eximir da culpa? A que culpa você está se referindo?

Foi a vez de Naruto encolher os ombros. De fato se expusesse o que passou por sua cabeça arrepender-se-ia para sempre. Estava agindo como um perfeito idiota. Ele e Sasuke se conheciam há anos. Sempre brigaram muito. Os desentendimentos se estenderam até o ano anterior quando, após uma briga por um motivo qualquer, se beijaram. E o beijo foi o estopim para a primeira transa dos dois. Os dois nunca nomearam aquela relação, todavia nunca ficaram com outras pessoas. O Ômega a sua frente foi o primeiro e único shifter com quem o Alpha fez sexo e vice-versa.

— Me perdoe… — Naruto abaixou a cabeça e o tom de voz. A presença, antes agressiva, foi totalmente recolhida e agora o rapaz lembrava mais a de um cachorrinho vadio revirando lixo.

Uma lágrima solitária rolou pelo rosto do Ômega ao constatar que seu julgamento havia sido certeiro, contudo Sasuke ergueu a cabeça e empinou o nariz. O ar de superioridade comum a todos os membros do clã Uchiha estava lá.

— Meu pai sempre teve razão, você não é Alpha para mim. Eu deveria ter escutado seus conselhos e nunca ter chegado perto de ti — A voz do Ômega estava embargada, mas ele não choraria na frente do outro.

— Teme… — Naruto o chamou pelo apelido que há muito tempo havia deixado de ser ofensivo e tentou tocá-lo, entretanto foi rechaçado com uma tapa — Por favor, não faça isso.

— Não me toque!

Naruto sentiu a dor presente naquelas palavras. O Ômega pertencia a um dos quatro clãs nobres de Konohagakure. Título que não significava muito desde a queda da monarquia e a entronização dos Hokages, no entanto, ainda conferia status social na Vila onde viviam. O título de nobreza do namorado foi a maior motivação para que o Alpha desejasse se tornar médico. O Uzumaki sempre sonhou ser alguém que Uchiha Fugaku um dia quisesse ter como genro.

— Eu sempre te amei Naruto. Isso não foi algo que eu tenha planejado, como também não planejei engravidar, e embora não acredite, não fiz de propósito. Mas quer saber? Estou feliz. Sabe por quê? Porque aqui dentro… — Sasuke colocou a mão no ventre de forma protetora e quando Naruto deu um passo à frente para alcançá-lo, ele se afastou e seguiu com o duro discurso — Tem um pedacinho de nós dois se desenvolvendo.

Naruto não previu o rumo daquela discussão. Ver tamanha decepção no olhar que o namorado dedicava a si o fez piscar mais vezes do que conseguiu contar. Estava abalado, no entanto, Sasuke não deu trégua:

— Sei que tem tudo planejado para os próximos anos de sua vida. Mas não se preocupe que nem eu, nem seu filho seremos empecilhos para esse planejamento.

— Teme, por favor… — pela primeira vez, desde que o Ômega entrou em seu quarto naquela manhã, Naruto olhou para ele.

Sasuke completara dezessete anos há uma semana. Se para o Uzumaki, que estava prestes a entrar numa renomada faculdade, saber da existência de um filho naquele momento era desesperador, imagine para o Ômega, que ainda estava no colegial e pertencia a uma família extremamente conservadora. Certamente o Uchiha encontrava-se tão ou mais apavorado que ele. Talvez a única coisa que não o fizesse sucumbir fosse o vínculo afetivo que já devia ter estabelecido com o filhote, diferente de Naruto que ainda não…

O filhote…

Foi só pensar nele e Naruto sentiu. Nos segundos em que Sasuke se calou e somente sua respiração descompassada podia ser ouvida no interior do cômodo. Foi sutil, quase efêmero, contudo apaziguador. Ela estava lá. A energia vital que precedia o chakra, elemento essencial presente nas células e na psique dos Shifters desde o momento da concepção. O Alpha ficou tão atordoado ante a percepção do filhote que se afastou do Ômega. Um, dois, três passos. Sasuke, por outro lado, entendeu seu afastamento da pior maneira possível, ficando ainda mais desapontado.

— Nós jamais seremos um estorvo em sua vida… — Sasuke dirigiu-se à cadeira que estava em frente à mesa de estudo de Naruto, pegou sobre a mesma sua mochila e colocando-a sobre os ombros concluiu — Adeus, Naruto — o Ômega deixou o quarto logo em seguida.

Assim que o Uchiha partiu, Naruto se sentou na cama. Ele continuou inerte por alguns minutos até que seu pai entrou no cômodo e se acomodou ao seu lado sobre o colchão. Minato trazia consigo duas garrafinhas de cerveja gelada. O mais velho nada disse, estendeu uma das garrafas para o estudante e em seguida deu uma golada na que ficou em sua mão.

— Por que Sasuke tinha que ficar grávido logo agora? — Aquela pergunta não queria calar.

Naruto sabia que Minato e também sua mãe haviam escutado toda a discussão e estava bastante envergonhado. Os três moravam em um apartamento pequeno, onde ter privacidade era uma tarefa difícil. Esse era mais um dos motivos dele querer melhorar de vida antes de construir uma família. O estudante queria ajudar os pais a comprar uma boa casa em outro lugar.

Minato não respondeu logo de cara, calmamente terminou a cerveja e colocou a garrafa vazia aos pés da cama. Além de pai, era o melhor amigo do filho, a quem o jovem recorria independentemente da situação.

— Porque você foi irresponsável? — Minato entendia que era tarde demais para dizer o óbvio. Ele compreendia que a atitude babaca do filho foi provocada pelo choque inicial de saber que seria pai, contudo não passaria a mão na cabeça de Naruto — A tarefa de evitar filhos e até mesmo doenças dentro de uma relação não é dever de um só.

Desde que percebeu que os adolescentes estavam tendo uma vida sexual ativa, Minato não foi negligente. Intensificou as orientações dadas ao filho desde que o rapaz entrou na puberdade. Ele explicou sobre cio, inibidores e muito mais. Não foram poucas às vezes que se viu colocando preservativos na carteira e na gaveta do estudante. O Namikaze abriu as portas de casa para que o casal não procurasse lugares onde não pudesse ter uma relação sexual segura e saudável, entre outras coisas.

Minato cedeu a vontade súbita de dar um cascudo no idiota sentado a seu lado.

— Ai pai! Por que fez isso?

— Porque você é um idiota Namikaze Uzumaki Naruto! O Uchiha não merecia ouvir as barbaridades que você disse, sendo que você também tem sua parcela de culpa no que aconteceu.

— Pai, por favor, já estou me sentindo um lixo.

— Eu não acabei.

Naruto murchou feito planta seca.

— É para se sentir assim mesmo! Eu não o criei para se tornar um moleque quando ficasse adulto, o criei para se tornar um homem honrado e responsável. Um Alpha que assume o que faz, independentemente de quais sejam as consequências.

— Pai, meu futuro, tudo que planejei… — Naruto começou, porém, Minato o repreendeu com o olhar de modo a alertá-lo que ainda não era seu momento de falar.

— Sua bolsa de estudos na Vila da Lua é sua, nada irá mudar isso, você fez com que merecê-la. Eu e sua mãe estamos muito orgulhosos, mas não a use como desculpas para impor mais um fardo sobre os ombros de seu namorado. Sasuke terá fardos ainda mais pesados sobre as costas daqui em diante.

Minato observou a garrafinha de cerveja intocada na mão de Naruto. A consciência de que seu filho havia crescido o acertou em cheio. Ele ainda recordava do dia que soube de sua existência. Medo, desespero e por fim um amor tão grande que não podia mensurar. Ele era tão jovem quanto o rapaz. Foi obrigado a adiar muitos sonhos, além de abrir mão de muitos projetos futuros na época, inclusive oportunidades de trabalho no exterior porque seu filhote nasceu com problemas de saúde graves que se estenderam até que completasse dois anos de vida. Um período muito difícil, onde a família quase foi à falência, mas que alicerçou e fortaleceu o vínculo existente entre os três, e mesmo diante de tantas tribulações, aqueles, sem dúvida nenhuma, foram os anos mais felizes de sua vida.

O mais velho colocou a mão sobre o ombro do filho e deu um leve aperto ali. Pensou no Ômega que deixou sua casa há minutos atrás, assolado por sentimentos ruins que atravessaram as finas paredes e chegaram até ele e Kushina no quarto ao lado. Sua esposa ainda o seguiu, mas Sasuke ao notar a presença da beta recolheu a própria e sumiu sem deixar rastro.

— Seu namorado está certo. Ele não planejou ficar grávido, mas ele está. O que você fará diante dessa constatação?

Naruto ergueu o rosto para encarar o pai e foi seu momento de observá-lo. Olhar para seu pai era como olhar-se no espelho. Aquele homem era seu maior referencial. Diferente de Kushina, que era uma força agressiva da natureza e de quem Naruto herdou 99,9% do temperamento expansivo, Namikaze Minato era a calmaria e gentileza em pessoa.

— Pai, eu não sei — Naruto foi sincero. Até aquela manhã todo seu futuro estava planejado em uma pasta no drive de seu notebook. Ter um filho era algo muito maior do que um cronograma de atividades. A voz de Naruto estava emocionada. Há vinte e quatro horas a única coisa que passava por sua mente era que precisava apresentar-se na faculdade dali uns dias. Seus amigos até mesmo haviam realizado seu bota-fora, para despedir-se dele — Eu realmente não sei.

Minato puxou o filho para um abraço quando finalmente seu menino desabou em meio às lágrimas. Tão imerso em sentimentos contrastantes que ficava impossível defini-los ou separá-los um a um.

— O que sente pelo Sasuke, filho?

A pergunta abalou as estruturas do mais novo. Ele nunca admitiu em voz alta, no entanto, estava consciente que amava Sasuke, contudo não se sentia digno desse amor. Ele recordou o dia em que foi à mansão Uchiha pela primeira vez. Este dia marcou sua vida e foi quando ele percebeu que os dois vinham de mundos totalmente diferentes.

Ele e Sasuke haviam ido até à residência do Ômega para fazer um trabalho escolar. O Alpha jamais esqueceria do olhar que Fugaku lhe dirigiu naquele dia ao vê-los juntos no tapete da sala. Ficou evidente que o líder do clã Uchiha nunca aceitaria a proximidade entre seu precioso filho e o aluno bolsista da instituição, que só estudava numa escola referência porque seus pais eram professores na unidade. Anos se passaram e mesmo o Uzumaki fazendo o seu melhor sempre, o olhar superior que Fugaku dirigia a si continuava o mesmo.

— Eu o amo pai — Naruto se desvencilhou do abraço para responder olhando nos olhos do Alpha — E é justamente por amá-lo tanto que estou tão apavorado. Nunca serei capaz de dar a Sasuke a vida luxuosa e confortável que ele tem hoje ao lado de seus pais.

Minato ergueu o canto dos lábios e limpou o rosto do filhote.

— Sasuke nunca esperou isso de você, filho — Minato não trocava muitas palavras com o namorado do filho. Sasuke não era um shifter tão espontâneo quanto Naruto, contudo, nem de longe era como muitos de seus parentes, a aparência esnobe do adolescente era apenas encenação e até um meio de proteção. O jovem era um dos poucos Ômegas nascido num clã nobre e de predominância Alpha. O que aumentava as expectativas e a pressão dos parentes em relação a ele.

O Namikaze espalmou a mão esquerda sobre o peito do filho na altura de seu coração:

— Ele sabe quem você é Naruto e também sabe o que você tem para oferecer. Aquele Ômega sempre soube.

— Eu o decepcionei, pai. No momento que ele mais precisava de mim… Sasuke jamais irá me perdoar.

O Namikaze meneou a cabeça. Embora fosse homem feito, seu filho ainda tinha muito que compreender sobre vínculos.

— Sim, você o decepcionou, e não posso garantir que não fará isso outras vezes em suas vidas, mas por hora tem que se redimir da grande bobagem que fez hoje. Ficar aqui sentado nessa cama não irá fazer com que seu Ômega o perdoe. Nesse instante Sasuke precisa de algo que dinheiro nenhum no mundo pode comprar.

Minato acenou indicando a entrada do quarto, sugerindo com o gesto que Naruto fosse atrás do namorado. O mais velho tinha certeza que após aquela conversa, seu filho estava preparado para lidar com tudo que viria a seguir. Ele e a esposa jamais deixariam os jovens desamparados, caso ambos precisassem, porém, agora era o momento dos dois adolescentes se resolverem.

Naruto ergueu-se da cama e rumou em direção à porta, quando a abriu deparou-se com Kushina, que quase caiu aos seus pés. Estaria a Beta atrás da porta o tempo todo em que ele e o pai conversavam? Certamente, todavia o Uzumaki não quis perder tempo pensando na invasão de privacidade cometida por sua mãe. Ele precisava encontrar seu namorado quanto antes.

— Filho! Só mais uma coisa… — seu pai chamou, já de pé no centro do cômodo, os braços sobre os ombros da esposa posicionada confortavelmente à sua frente. Uma imagem linda e digna de uma foto de casal:

— Parabéns, papai! — Minato e Kushina disseram em uníssono.

Ambos ostentando na face imensos sorrisos, como os excelentes vovôs babões que seriam no futuro.

(...)

Era quase noite. Naruto já havia andado toda a vila à procura de Sasuke, inclusive foi à mansão Uchiha, de onde praticamente foi expulso pelos empregados que lhe avisaram, contribuído mais para seu desespero, que o Ômega estava desaparecido desde as primeiras horas da manhã.

Uma lembrança invadiu a mente do Alpha enquanto se aproximava dos limites da aldeia da folha.

— A gente podia morar aqui, né? — Aos treze anos sua euforia ao fazer aquela proposta era contagiante, mas não contagiou o amigo.

— ‘Tá legal, dobe — Sasuke estava sentado na grama escrevendo em seu caderno de atividades quando o respondeu. Ele não admitiu, embora tenha gostado daquela ideia maluca do colega de classe.

— Não é brincadeira, teme! Poderíamos construir uma cabana nessa clareira — Naruto fechou um dos olhos depois de esticar os braços para frente e colocá-los na altura de seu rosto. Ele aproximou uma mão da outra e através do enquadramento vislumbrou a suposta construção — A gente pescaria no rio, beberia água de coco de coqueiros… Ah! Também poderíamos colher mangas e jamelões na fazenda que fica a alguns quilômetros daqui.

O Alpha voltou-se outra vez para o Ômega com o característico sorrisão de orelha a orelha.

— Roubar, você quer dizer? — Sasuke riu das absurdas sugestões — E por que raios eu ia querer morar com você um dia? Ainda mais aqui, no meio do nada? Eu moro em uma mansão, Naruto, parece maluco — o Ômega continuou fazendo o trabalho escolar tranquilamente, mas seu coração bateu de um jeito diferente, em seu íntimo, cogitar aquela possibilidade.

Ofendido com a observação do Uchiha, o Uzumaki retrucou.

— Um dia eu serei tão rico quanto seus pais, e além de uma mansão te darei um monte de coisas valiosas que eles jamais poderão te dar.

— O que há de tão valioso no mundo que você pode me dar que meus pais também não possam, dobe?

— Eu ainda não sei, mas um dia eu irei descobrir e te dar. Eu te prometo!

Sasuke riu outra vez. Teimoso feito mula como era, o Ômega não duvidava que Naruto um dia cumprisse aquela promessa.

Assim que se lembrou da clareira, o Uzumaki soube onde procurá-lo. Ele recolheu sua presença e ficou à espreita ao invés de se aproximar. Sasuke estava tão triste e magoado que não teve coragem de se achegar temia piorar seu estado, no entanto, o ímpeto protetor comum a casta Alpha o dominou no instante que algo passou por sua mente: Seu namorado estaria ali desde que saiu de sua casa sem se alimentar, beber água ou descansar? Naruto não pensou em nada depois disso e foi ao encontro do namorado, que estalou a língua assim que o estudante se sentou a seu lado.

— Tsc! — Sasuke fechou a cara e seguiu desenhando com o dedo indicador, círculos imaginários na grama.

Naruto aos poucos foi expandindo sua energia protetora, na mesma proporção os sentimentos ruins que assolavam Sasuke foram amainando, embora o Ômega se mantivesse emburrado e mexendo na grama.

Um longo tempo se passou em que ambos os shifters ficaram em total silêncio.

— Eu o senti… — Naruto por fim falou dando fim ao silêncio. Ele analisou as feições de Sasuke, que pareceu confuso ao ouvir a frase fora de um contexto — O bebê. Eu o senti mais cedo e estou sentindo-o novamente agora.

Sasuke ficou imóvel diante daquela informação. Não era assim que o loiro pretendia começar aquela conversa, mas foi impossível ao sentir tão forte a energia do filhote, que parecia querer se fazer notar.

— É como se eu tivesse um coração batendo fora do meu peito. É engraçado.

Naruto sorriu largo ao tentar explicar o inexplicável. Ele colocou a destra no peito tentando sem sucesso desacelerar os batimentos cardíacos. Em contrapartida, Sasuke virou o rosto para olhá-lo e no processo colocou a mão no ventre esquecendo totalmente da grama. O que nenhum dos dois Shifters sabia era que, apesar de ser um pedacinho de ambos, como o Uchiha disse no início daquele dia, o filhote tinha vida própria e no momento estava interagindo com os pais. Tomava forma, naquele efêmero instante, um elo que transcendia a ciência e se aproximava do divinal.

O mais velho ajoelhou-se diante do Ômega, que se assustou com o gesto brusco.

— Perdoe-me por te fazer sofrer quando deveria te apoiar incondicionalmente — Naruto segurou as mãos de Sasuke, que não repeliu o contato — Eu amo você. Mais do que eu poderia imaginar. Me perdoe, por favor! Eu prometo…

— Não prometa! — Interrompeu Sasuke — Você já me fez promessas demais no passado. Todas ainda estão aguardando para serem cumpridas! — Sasuke exclamou sabendo que o namorado já havia cumprido a maior promessa que fez a ele mesmo sem saber.

— Eu…

— Calado! Eu ainda não terminei! — No rosto de Sasuke estava a expressão indiferente de sempre, embora Naruto sentisse pelo vínculo que o namorado se encontrava ansioso e amedrontado — Não interessa como irá fazer para cursar a faculdade de medicina e cuidar de mim e do bebê, pois, sei que quando meus pais souberem desta gravidez eles iram me deserdar e eu deixarei de pertencer a uma família nobre.

Naruto riu quando Sasuke soltou suas mãos e cruzando os braços virou o rosto evitando seu olhar. Ainda havia nele resquício de tristeza, a rejeição de sua família era seu maior medo, mas a mágoa de antes não estava mais lá, ao invés dela estava o gostoso cheirinho de sândalo, tão característico de seu Ômega e que o Alpha tanto amava.

— Eu posso tocá-lo? — Naruto pediu sabendo que o namorado havia entendido o pedido.

— Tanto faz — Sasuke deu de ombros e subiu um pouco mais os braços dando a Naruto uma visão panorâmica de seu ventre, ainda sem nenhuma alteração física visível — E é Filha! Nossa filha…

(...)

— E ele te perdoou assim tão fácil touchan?

— Claro Naoko, Sasuke-tousan sempre foi louco por mim — Naruto piscou um olho para a filhote que o encarou com desconfiança.

Sempre que podia o doutor Uzumaki Naruto cumpria um ritual que adorava, mesmo com o pouco tempo que possuía devido à residência em neurocirurgia. Ele contava histórias à filha ao colocá-la para dormir. A história da vez era a do amor entre ele e seu esposo, coincidentemente a que a menina mais gostava de ouvir. Ok, ele não contava para a filhote os detalhes sórdidos, como o fato de ter surtado ao saber de sua existência, muito menos o fato de quase ter posto o relacionamento dele e do ômega a perder. Aquilo já havia sido superado há muito tempo e contribuiu para o amadurecimento do casal.

Ele e o Ômega se casaram dois anos após o nascimento da filhote. Naruto não deixou a bolsa e foi para a Vila de Lua como planejado. Arranjou diversos meios, desde auxílio-transporte a alimentação, para se sustentar na faculdade nos primeiros anos do curso. Ele se tornou assistente de muitos professores. Arubaito que o ajudou muito com as despesas na casa dos pais durante o período que Sasuke ficou por lá e ele vinha sempre vê-lo nos finais de semana.

Sasuke e o pai, como o esperado, se desentenderam por conta da gravidez e o mais novo preferiu sair de casa para evitar maiores conflitos. A briga deles durou até o nascimento de sua filha, quando seu sogro não resistiu a saudade que sentia do caçula e cedeu a vontade de vê-lo e consequentemente conhecer a netinha. Fugaku e Mikoto foram até a maternidade com o filho mais velho, Itachi, acompanhar a cesárea do Ômega. O cunhado foi o único Uchiha com quem contaram desde o início, visto que sua sogra era submissa ao esposo. Essa parte da história dos Uzumakis Uchihas, Naruto e Sasuke sempre omitiram da pequena. Naoko era apaixonada pelos avós e os avós por ela, isso era o que importava para o casal.

Seu companheiro terminou o colegial, mas só entrou na faculdade de direito, meses antes deles se casarem. Atualmente Sasuke estava estagiando na área e em via de concluir a formação. Em breve o Ômega seria um Advogado formado, profissão pouco comum para Shifters de sua casta. A vida deles ainda não era o mar de rosas e talvez nunca fosse. Há poucos meses haviam dado entrada na pequena casinha onde anteriormente pagavam aluguel e lutavam diariamente para que o futuro da família fosse melhor, sem que precisassem recorrer a ajuda de seus pais, mas ambos não eram orgulhosos a ponto de rejeitá-la quando a coisa ficava preta.

— O tousan fala o mesmo de você… — Naoko disse já quase cedendo ao sono e fazendo Naruto parar de divagar — Que é você quem sempre foi louco por ele — bem aquecida sob os edredons, a pequena Alpha deu uma risadinha que o fez se lembrar de seu esposo.

Naruto acariciou o rosto da menina e sentiu-se revigorado apesar do cansaço do corpo após tantos plantões consecutivos. Todas as vezes que eles interagiam, e isso considerando o tempo em que ela ainda era uma sementinha no ventre de seu esposo, isso acontecia.

Naruto sorriu.

Naoko era a perfeita junção dele e de Sasuke. Os olhos ônix como os do pai Ômega e os cabelos extremamente loiros como os seus. Ele tinha certeza de que aquela menina era seu bem mais valioso. Olhando-a tão de pertinho compreendia o que Minato lhe disse certa vez. Sasuke sempre soube o que ele, um Alpha sem sobrenome, muito menos nobreza tinha a lhe oferecer.

— E ele não mentiu — Naruto se viu confessando — Eu sou completamente louco pelo seu tousan, princesa. Mas… — o Alpha fez ares de mistério ao colocar a mão próxima aos lábios em forma de concha — Jamais conte isso para ele. Ok?

Naruto deu outra piscadela para a menina, que ao tentar fazer o mesmo acabou fazendo uma careta engraçada.

— Dattebayo. Esse vai ser para sempre o nosso segredinho, touchan!

— Sim. Esse vai ser para sempre o nosso segredinho, filhota — Naruto deixou um beijinho de boa noite na bochecha da menina, que virou para o lado e imediatamente pegou no sono. Ele ajeitou o edredom sobre seu corpinho e erguendo-se da cama apagou o abajur de raposa sobre a mesinha de cabeceira da criança. Só então o Alpha se dirigiu a seu próprio quarto, onde seu amado esposo o aguardava bem acordado.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!