Dividida
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O sol entrava pelas persianas, lentamente. Eu não tinha dormido e Niall também não, tinha ficado toda a noite a mexer-me no cabelo e a cantar baixinho para mim.
Não me sentia capaz de me mexer. Estava completamente apagada, como se me tivessem arrancado o coração. Limitei-me a mexer-me quando, horas depois, a minha mãe o seu namorado entraram no quarto.
- Sophie? – A minha mãe chamou, baixinho, e eu corri a abraçá-la. Chorámos ambas, naquilo que deve ter sido uma meia-hora. A minha mãe pediu para Niall e Marcus sairem, o que fizeram prontamente, não sem antes Niall me dar um beijo no cabelo.
Conversámos muito, eu e a minha mãe. Sobre Marie, sobre o meu pai, sobre a nossa vida futura. E a minha mãe, nessa conversa, decidiu que queria viajar com Marcus, à volta do mundo. Passar o resto da vida a viajar, com as malas às costas. Tentar ser um pouco mais feliz, depois de tanto sofrimento.
- E quanto a mim... ? – Perguntei, a medo, não querendo ficar sozinha naquela casa.
- Que tal ires viver para Londres? – Ela sugeriu e eu arregalei os olhos. – Não com Harry, claro, mas ficava mais descansada tendo-te lá.
Continuámos a conversar, tomando decisões. Procurámos apartamentos para mim na internet, mas nada de definitivo. O pior, esse, ainda estava para vir, o funeral da minha irmã. Como a morte não tinha sido súbita, não iriam fazer autópsia e o funeral seria logo naquela tarde. A minha mãe saiu, depois de me abraçar, para poder avisar todos os familiares do que tinha acontecido e eu deixei-me cair na cama, recordando todos os momentos que passara com aquele pequeno anjo que era a minha irmã. O seu nascimento, o diagnóstico da sua doença, a morte do nosso pai, as brincadeiras,as noites em que dormíamos juntas e ela me atirava para fora da cama... estava num total transe até me ter apercebido do telefone a dar sinal de vida... uma data de vezes.
“ Sophs, o Niall contou-nos o que aconteceu. Queres que vá ter contigo? Eu sei que...mas pronto. Love you LOTS hazz xx”
“Vim a casa tomar um banho e trocar de roupa. Se quiseres que volte, basta mandares-me uma sms, volto praí num instante. Força princesa, até já. Niall xxx”
“Qualquer coisa diz-me que vou ter contigo! Zayn xxx”
“Filha, toma um banho e come qualquer coisa. Convém estares na igreja às 14h...Força filha e calma. Love you”
Olhei para o relógio, que marca uma hora da tarde. Deveria ir tomar banho, mas antes enviei uma mensagem ao Niall.
“Tenho de estar na igreja às 14h. Podes vir ter comigo agora? Traz uma pizza ou algo assim, por favor. Sophie”
Levantei-me e atirei o telemóvel para cima da cama. Um duche rápido, umas calças de ganga e uma t-shirt preta, comprida. O cabelo solto, com os óculos de sol a prendê-lo. Estava a calçar as all star no momento em que a campainha tocou.
- Hey, Sophs. – Niall estava à minha porta, com três caixas de pizza.
- Obrigada Niall, mas hmmm... eu não como assim tanto?
- Nós também viemos! – Niall entrou e quatro rapazes sorridentes apareceram à porta, o que me fez sorrir. Harry estava ali, quando eu precisava dele. Mesmo à minha frente.
- A minha mãe está a pensar dar a volta ao mundo num cruzeiro, depois disto acabar. – Comentei, enquanto “brincava” com a primeira fatia de pizza no prato. Os rapazes já tinham limpo as três caixas.
- Então e tu? – Louis quis saber.
- Ela falou em eu ir para Londres, mas não sei se quero.
- OHHH anda! – Harry gritou e eu assustei-me, saltando na cadeira. – Podes viver connosco e ir connosco em tour e...
- Por amor de deus, Harry... – murmurei, ao mesmo tempo que Niall punha a mão no meu ombro.
- Sophie? Temos de ir andando, está na hora...
Saímos de casa e caminhamos a pé até à igreja. Durante o caminho, um grupo de fãs meteu-se com os meninos e eu continuei a andar, deixando-os ficar sozinhos com as fãs. A certo ponto, o Niall alcançou-me.
- As fãs Niall... – murmurei, enquanto ele me abraçava e punha todo o meu metro e sessenta e dois debaixo da sua “asa”.
- Elas não queriam falar comigo, mesmo. – Ele respondeu-me, deixando cair uma lágrima. – Já estou habituado.
- Oh... – Beijei-lhe a bochecha. – Vou querer sempre falar contigo. – Prometi, arrancando-lhe um sorriso.
Chegámos à igreja e Niall libertou-me do seu abraço, preferindo dar-me a mão e tenho de admitir: foi incansável comigo durante toda a cerimónia. Esteve a meu lado quando fui “ver” a minha irmã pela última vez, abraçou-me e deixou-me chorar no seu ombro enquanto ouvia a minha mãe, Marcus e as minhas avós falarem de Marie. Quando chegou a minha vez, ele beijou-me a testa e sussurou, antes de me levantar – Força. É por ela, só mais este esforço. Daqui a nada vamos para casa...
E eu levantei-me, dirigindo-me ao altar. Fixei toda a gente (incluindo o resto da banda, que acabara de entrar e ficara ao fundo da igreja), respirei fundo e comecei a falar.
- A Marie sempre foi, sei lá... a luz da minha vida. – Eu sorri, por entre as lágrimas. – Desde que nasceu, andava sempre colada a mim, queria fazer tudo o que eu fazia. E, depois da morte do nosso pai, eu fui deixando. Entrou para o ballet na mesma companhia e continuou lá, mesmo depois de eu desistir. Foi quem me puxou para voltar à vida depois de uns acidentes que aconteceram na minha vida há dois anos. – Olhei diretamente para Harry, que baixou a cabeça. – Nos primeiros tempos, ela devia ter uns três anos, e dormia comigo todas as noites. E tentava sempre animar-me, mesmo sendo tão pequenina. Se hoje sei cozinhar tão bem, é graças a ela. – Ri-me e a minha mãe esboçou um sorriso. – Enquanto a maioria das crianças quer trazer todas as guloseimas do supermercado, a Marie queria fazê-las em casa. E, por isso, aprendi a fazer todos os doces que uma criança gosta. E dava-os a ela quando ela estava internada. Posso dizer que, para além de ter sido minha irmã, foi como uma filha e sei que vou amá-la para sempre.
Saí do altar e voltei para o pé de Niall. A minha mãe, sentada do outro meu lado, apertou-me a mão e sorrimos as duas, por entre as lágrimas. Estava na hora do cortejo fúnebre até ao cemitério.
Niall seguiu ao meu lado durante todo o cortejo, a rodear-me com o braço. Zayn, Liam e Louis seguiam perto, e Harry dava-me a mão. Estávamos mesmo no final do cortejo, mas eu conseguia ver a minha mãe lá à frente, abraçada a Marcus.
O funeral propriamente dito foi tão rápido que nem dei conta dele. Antes de baixarem o pequeno caixão da minha irmã, fui até lá (sempre seguida de perto pelos cinco) e deixei no seu pequeno pulso a minha pulseira favorita, com o meu nome, que ela sempre me tentara roubar.
Fechei os olhos para não os ver enterrar a minha irmã e o Niall abraçou-me com uma força imensa. Deixei-me ficar nos seus braços, sem forças para o abraçar. Ouvia o barulho das pessoas a irem embora e Niall continuava ali a suportar-me.
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