Divertimento
4 IV. Remu
Misa
Para os shinigamis, humanos não passavam de meros inúteis.
E, assim sendo, se apegar por um deles era como se apegar a nada mais do que um animalzinho de estimação. Entre eles, Remu era uma das que compartilhavam dessa mesma opinião.
Humanos, em particular, eram criaturas cuja existência não fazia sentido, e cuja presença significava, na maior parte das vezes, destruição.
Mas, por mais que fosse uma shinigami, e uma shinigami deveras séria, ela tinha suas fraquezas.
Verdade seja dita, tinha uma só e fatal fraqueza. E ela atendia pelo nome de Misa.
Aquela criança era diferente. Por mais que, na contagem de anos humanos, ela pudesse ser considerada uma adulta, não passava de uma mera criança: inocente, cruel e indefesa.
Indefesa, sim. Remu sabia que havia dado a ela os meios para se defender, mas tinha certeza de que aquela menina não conseguiria usar-se propriamente deles. Ainda que gostasse dela, a shinigami tinha de admitir que as escolhas de Misa eram incompreensíveis, além de perigosas e burras.
Exatamente como as que um certo shinigami fizera. E que o fizeram chegar ao seu fim. Chegava a ser irônico.
Alguém precisava proteger aquela criança. Ela não sobreviveria sozinha às garras de Raito Yagami, e Remu tinha perfeita consciência disso.
No início, Remu assumira o trabalho de “olhar por ela” meramente por respeito à memória de Jealous.
Explicava à jovem japonesa tudo o que precisava e o que queria saber sobre o death note, estudando com curiosidade as reações dela. Que menina estranha. Ela parecia alegre até mesmo depois de saber que o acordo dos olhos de shinigami tomaria metade de sua vida. E não hesitou nem um pouco em fazê-lo.
A cada dia que convivia com ela, se surpreendia um pouco mais. Misa não parecia nem um pouco com os humanos que ela assistia através do portal que conectava seu mundo com o deles.
A cada dia que convivia com ela, ficava mais difícil negar que estava se afeiçoando àquela humana.
Quanto mais parava para pensar, mais Remu tinha certeza que nunca se sentira tão bem ao lado de alguém.
E isso era um fato um tanto assustador.
“Re-mu!” — chamou a humana. — “Você tá me escutando? Parecia que tava em ouuutro planeta.”
A shinigami abanou a cabeça, fazendo o que parecia ser seu cabelo mover-se junto, como quem dizia que não era nada.
A loira, então, encarou-a com curiosidade, mas rapidamente deixou o assunto pra lá.
“O de rendinhas brancas ou o bordado com caveirinhas douradas?”
“O quê?” — Remu indagou, sem entender.
“O vestido, o vestido!” — a loira balançou os vestidos, pedindo urgência.
Até compreender a situação, a shinigami piscou uma ou duas vezes.
“Ah... O bordado.” — balbuciou ela.
Misa então olhou para o vestido bordado em tom de aprovação.
“Obrigada. Remu sempre salva a vida de Misa!” — riu a loira, envolvendo a agora materializada shinigami num abraço.
Se houvesse sangue circulando no corpo de Remu, aquele certamente seria o momento em que ela enrubesceria.
“Às vezes tenho a impressão de que você é algum tipo de anjo que veio aqui me proteger.” — a loira disse, após uma breve pausa.
“Anjo?”
“Uhum. Daqueles com asinhas e auréolas pintados nas igrejas que passam na televisão.”
“Você não faz ideia do que está falando.” — suspirou Remu.
Misa apenas deu uma risada da afirmação. Aquela era uma criança realmente estranha.
Mas era fato que a shinigami Remu estava irremediavelmente apegada à humana Misa.
Talvez aquilo que eles chamavam de “felicidade” não fosse tão ruim.
Ainda assim, ela sabia que aquilo não era nada mais do que uma ilusão. Todas as experiências que teve no passado, incluindo a de Jealous, lhe diziam que devia aproveitar aquela companhia o máximo que pudesse, porque o futuro não seria nada agradável.
E assim o fez.
Até o último de seus momentos.
Notas finais
Ok, desculpem o atraso, mas aqui está.
Eu gostava bastante da Remu. O destino que ela teve foi bem cruel, mas enfim...
O próximo será o Mello, então, até qualquer hora o/
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