Diversas Cartas
4 Capitulo 4: Carta para o vovô
Notas iniciais
Olá querido vovô...
Quando pensei em escrever essa carta, nunca pensei que poderia ser tão difícil começar ela. Não que não saiba o que falar, apenas não sei como explicar tudo que quero através de palavras... Mas por que digo isso? Porque palavras não seria o suficiente para explicar o que quero, nem as palavras com seus diversos sentidos seriam capaz de tal façanha, mas vou tentar. Na verdade, eu tenho que tentar, ou morrerei com isso dentro de mim, sem nunca ter dito por medo ou vergonha de dizer. Mas agora, o que eu tenho a perder, não é mesmo?
Pensei em começar essa carta falando em como doeu não te ter no dia do meu aniversario de quinze. Como foi difícil saber que você não estava lá, com sua risada estrondosa e sua voz alta. Mas não acho que o certo seria começar assim. Até porque, ai não seria o começo, não é mesmo? Não sei para que ainda pergunto, não é como se o senhor fosse me responder, né.
Parei por alguns minutos para pensar... Sim, pensar. Como disse, antes não sei explicar com palavras aquilo que quero dizer. Mas vou tentar, tenho que tentar.
Lembro-me das vezes em que ia na sua casa. Não era uma casa tão grande igual à da minha tia, mas e daí? Aquele era o seu lugar, o lugar aonde você se sentia bem e disso ninguém poderia reclamar.
Lembro-me de quando era pequena e amava ir na sua casa, amava subir nos pés de árvores e ficar brincando com a minha irmã. Amava no final da tarde poder tomar água de coco e me sentar em alguma sombra que tivesse. Amava conversar (o que eu continuo amando, devo ressaltar). Gostava de ouvir as suas histórias, e me rachava de rir com todas elas...
Amava saber que era querida, que ao meu lado eu tinha o meu vovô, e que por mais que morássemos longe, você sempre estaria ali por mim... De dia, quando estava na sua casa, amava olhar os aviões no céu. E algumas vezes destruir algumas flores que tinha ali. Sei que era errado, mas tente dizer isso para alguém tão levado quanto eu era. Também amava ver as criações, e um dos poucos patos que você tinha comprado.
Vivia zoando da minha irmã, toda vez que ela tentava pegar um beija-flor, e por mais que ela não conseguisse, ela permanecia tentando... E quando chegava a noite, logo eu saia para o lado de fora e observava a magnitude do céu negro e o brilho daquelas estrelas aparentemente tão pequenas.
Mas como nada é perfeito, o tempo passou. Eu deixei de ser aquela mesma menininha, cresci, e nesse meio tempo em que eu cresci, acabei esquecendo as coisas que são realmente importantes. E no lugar delas, substitui por coisas fúteis e que apenas com o tempo eu perceberia isso. Assim, vovô, acabei me esquecendo de certa forma do senhor. Em vez disso, a cada dia me importava mais ainda com as coisas fúteis. A tecnologia tinha virado algo indispensável na minha vida, meu celular e meu tablet se tornaram meus melhores amigos. E aqueles que eram verdadeiramente meus amigos foram esquecidos, como algo que não fosse importante. Então foi apenas quando eu mais precisei dos meus amigos, que percebi que mesmo eu tendo os deixados, eles sempre estariam lá por mim..
Mas de uma forma diferente, eu voltei a ser aquela sua menina de quando pequena. E hoje em dia, pego-me lembro que quando chegava o natal ou ano novo, toda a família se reunia. Uma vez na casa da minha tia e outra na casa da minha mãe, e como sempre a alegria rolava solta. Assim como todos, me vestia com a melhor roupa, melhor tênis e até mesmo a melhor meia que tinha. Até porque, tudo que queria era começar um ano novo de uma forma nova, sempre desejando que aconteça o melhor, só não esperava que naquele mesmo ano eu fosse te perder.
Quando recebi a notícia, era como se fosse irreal, sabe? Não dava para acreditar no que estava dizendo, e talvez foi por isso que foi fácil lidar no começo. Talvez por causa do choque, não senti nada, era como se tivesse falando da morte de um estranho para mim. Mas quando enfim me vi só, era como se tudo tivesse vindo de uma única vez. As lágrimas pareciam que não tinham fim, por mais que tentasse pará-las, elas continuavam a descer… Mas aquilo foi bom, pois de uma certa forma um pouquinho da dor sumiu. Não acabou tudo de uma vez só, sempre ainda tem aquela dor, dor ao lembrar que poderia ter dito mais e demonstrado mais. Dor de saber que não poderei escutar sua risada estrondosa, ou que ao tentar te imitar eu não corra o risco de começar a chorar. E de tudo que poderia ter mais me marcado, foi ver o carro te levando embora. Ele estava te levando embora para longe de mim de vez, e depois apenas as memórias restariam… Sei que fui fraca ao não te ver de perto, sei que perdi minha última chance de te olhar e me despedir. Mas tente me entender vovô, eu não queria que minha última lembrança do senhor fosse dentro de um caixão. Eu não queria que a lembrança da sua risada, fosse substituída pela sua em um caixão. Frio, duro e sem mais aquele coração que antes batia tão freneticamente e que agora tão silencioso se encontrava.
Sei que a vida não é como nos livros, que sempre haverá um final feliz. Mas para você, vovô, eu fiz uma promessa... E irei a cumprir. Não importa o tempo que vá passar, mas sei que eu vou cumprir. E o senhor vovô, sempre estará no meu coração e nas minhas lembranças.
Beijos da sua neta Aylla...
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