Divã - As Crônicas do Cristal Vermelho
20 Don Juanito
Notas iniciais
Desde a noite do fantasma passou-se um mês. Dick cumpriu sua promessa, e vinha quase todas as noites para me ver. Conversávamos por horas! Ele me contou tudo o que estava acontecendo com o pessoal da Liga, disse que todos tinham ficado um pouco dispersos, cuidando de suas cidades, afinal, não haviam muitas ocorrências mundiais para se preocupar.
– Mas e você? — eu disse — O que tem feito?
– Ah, eu fiquei em Gotham. — Dick respondeu, como se não fosse óbvio — Depois da morte do Bruce, decidi fazer algo mais interessante com a fortuna dele além de financiar as aventuras do Batman e da Liga.
– Hum, financiando a Liga... — eu debochei — Fala, tio Patinhas!
– O que foi? Bruce era rico, sabe! — ele retrucou — Podre de rico!
– Tá, o que você fez? — eu desconversei.
– Eu transformei a mansão Wayne em um orfanato. — Dick respondeu — Existem mais órfãos em Gotham do que se pode imaginar. Combater o crime também é fornecer um futuro melhor para aqueles que precisam.
– Nossa, Dick... — eu suspirei — Isso é ótimo! Bruce era filantropo, estava sempre fazendo caridade, mas você foi mais além.
– Gosto de ser bonzinho. — Dick disse, orgulhoso.
– É, o bonzinho que enche de pancada os criminosos. — eu ri.
– O mundo precisa de bonzinhos bons de briga. — ele respondeu.
– E de humildade também. — eu fiz ele rir.
***
Passar tanto tempo numa fazenda no meio do nada era bem interessante, afinal, quase não havia ninguém para te incomodar, mas chega uma hora que ficar vendo milhos e mais milhos te enche o saco. Então decidi ir para Metropolis com a Dakota, passar uma noite divertida lá. O programa acabou sendo ir ao cinema assistir Batman: The Dark Knight Rises. Bom, parece que não consigo fugir desse assunto. Mas até que o filme é bom.
No caminho devolta para a fazenda, tentei puxar conversa com a Dakota. Era muito estranho ficar no mesmo ambiente que ela sem conversar.
– E então, Dake... — eu tentei — o que achou do filme?
– Um pouco sombrio no começo. — ela simplesmente disse, voltando a olhar para a paisagem.
– Aham... — eu insisti — Bruce pareceu bem melancólico mesmo. Cara, aquele Bane foi bem cruel...
– Nada diferente de um líder da Liga das Sombras. Eu gostava mais do Liam Neeson. — Dake respondeu — Ele era um cruel bem interessante. Eu gostaria de ter trabalhado com ele, deve ter sido fera.
– Liam é mito mesmo. — eu concordei — Mas Anne Hathaway em um filme do Batman... isso é uma coisa que eu não esperava!
– É que todo mundo vê ela como princesinha... — Dake disse — Ver ela como uma vilã, ou naquele caso, uma anti-heroína, foi bem mais divertido.
– E aposto que ela também gostou de interpretar uma namorada do Batman! — eu fiz Dake rir.
– Sabe de quem eu gostei neste filme? — ela disse, de repente.
– Quem?
– O John Blake. — ela respondeu.
– O Robin?
– Aham. — ela suspirou — Que Robin fofo! Dava vontade de apertar! Bem diferente aquela coisa que a gente tem lá em casa! Só dorme! Affe!
– Eu também achei ele fofo. Eu particularmente adoro aquele ator, Joseph Gordon-Levitt é mesmo um ator muito fofo, e eu também senti vontade de apertar as bochechas dele em A Origem! — eu ri — Mas tenha pena da nossa coisa, quer dizer, Robin, ele está em coma!
– Que filme é esse A Origem? — Dake perguntou.
– A gente assistiu ele semana passada! É aquele filme que o DiCaprio morre! — eu retruquei.
– Qual deles? — Dake provocou.
– Retardada. — eu bufei.
De repente, Dake arregalou os olhos, olhando para frente.
– Ivy, você deixou as luzes acesas? — ela disse.
– Claro que não! Quando a gente saiu, ainda era dia! — eu respondi.
– Então tem alguém invadindo nossa casa! — Dake se desesperou.
Eu corri com carro o mais rápido que pude, e quase estacionei DENTRO da casa, mas por pouco consegui parar o carro. Dake estava certa. As luzes da sala, cozinha e andar de cima estavam todas acesas, o que era muito estranho.
– Quando a vovó deveria voltar mesmo? — Dake disse, descendo do carro.
– Em 3 meses se houvesse alguma emergência. — eu respondi — Em 7 até o fim do cruzeiro.
– Então, quem pode ser? — Dake sussurrou.
– Eu não sei. — peguei a espingarda que o vovô sempre deixava embaixo da soleira — Mas está com sérios problemas.
Dake suspirou fundo, enquanto eu tomava a dianteira. Assim que entramos na varanda, ela pegou o taco de beisebol que por algum motivo ela tinha deixado lá mais cedo. Eu tentei abrir a porta, mas ela estava trancada, o que era muito estranho.
– Que tipo de ladrão tranca a porta? — Dake disse.
– O tipo que entra pela janela. — eu tirei as chaves do bolso e destranquei a porta.
Quando entramos, a televisão estava ligada em um programa de culinária, e todas as luzes estavam acesas. As janelas estavam fechadas, e não havia sinal de arrombamento, nem sequer um caquinho de vidro no chão.
"E agora, despeje o vinho tinto lentamente no caldo..."
– Certo... — uma voz disse.
Ouvi uma rolha de garrafa de vinho saltar, e logo depois, ser despejada. Dake segurou meu pulso, enquanto caminhávamos em direção à cozinha. Havia um rapaz lá. Devia ter a idade de Dake, cabelos negros, pele clara. E mexia em uma panela no fogão. Eu acionei a espingarda, e apontei para ele.
– Você tem 30 segundos para largar esta garrafa. — eu disse, ameaçadora.
O garoto apenas olhou para mim, e voltou a mexer na panela.
– Se eu largar, o molho desanda. — ele deu de ombros.
– Molho? — Dake largou o taco, aproximando-se da bancada.
Ela ignorou completamente perguntas mais importantes como quem é você?, como entrou aqui?, e por que diabos abriu a melhor garrafa de bourboun?
– É para acompanhar a costela. — ele largou a panela, e tirou uma travessa do forno, colocando-a no balcão. O cheiro da costela assada era incrível. E ele estava ignorando completamente o fato de que eu tinha uma arma apontada para ele.
– Como você entrou aqui? — eu insisti.
– Eu já estava aqui dentro. — ele respondeu, aí então eu abaixei a arma.
– Damian? — eu perguntei — Damian Wayne?
– Com quem você está falando? — ele ergueu os olhos, olhando confuso para mim — Sou John Blake.
Dakota riu um pouco alto demais. Eu olhei para ela, fulminando-a.
– John Blake não existe! — ela riu — É só um personagem de filme!
– Como assim? Eu existo! — ele retrucou — Sou John Blake!
– Não, você não é! — Dake insistiu.
– Eu sou sim! — ele ficou zangado.
– Certo, Sr Blake. — eu interrompi os dois, sentando em um dos bancos, na bancada — Você se lembra de como veio parar aqui?
– Sim. — ele suspirou, despejando o molho na costela — Eu estava pescando na beira do lago, quando Edward e Kennedy Quincy apareceram. Aqueles dois nunca foram com a minha cara, sabe, nem mesmo antes de eu ir para o orfanato.
– Perdão, que orfanato? — eu perguntei.
– O orfanato dos Wayne. — ele respondeu — Então eles começaram a rir e me insultar, diziam palavras horríveis. E então , queriam saber se eu sabia nadar. Eu nunca soube, nunca consegui aprender. Eu me recusei. Eles me bateram. Eu só me lembro de ser jogado no rio... e depois, acordar naquele quarto azul, lá em cima. Aliás, agradeço por me tirarem do rio. Sou muito grato.
– Você fala sempre assim? — Dake riu.
– Perdão, não entendi. — John retrucou.
– Assim, cheio de formalidades e tals. Que esnobe! — Dake debochou.
– Retire o que disse! — John disse, furioso. — Retire!
– Certo, crianças, já chega. — eu me levantei. — John, agradeço seus esforços por fazer o jantar, mas acontece que nós duas já comemos, então jante você. Dake, eu quero que suba e vá tomar um banho.
– Ah, Ivy... — ela bufou.
– Agora. Eu ainda estou com a espingarda, não se esqueça disto! — eu ralhei.
Ela bufou e subiu as escadas. John olhou para mim.
– Que menina insolente! — ele rosnou.
– Irmãos. Você se acostuma. — eu simplesmente disse — Agora coma, você passou muito tempo desacordado.
– Eu sei que a senhora já comeu, mas faria a gentileza de me fazer companhia? — ele pediu.
– Senhora não, Don Juanito, – eu ri — pode me chamar de Evelyn, ou Ivy, tanto faz.
– Tudo bem. Evelyn. — ele riu — E mais uma vez obrigado.
– O que é isso! — eu brinquei — Tiramos garotos do rio o tempo todo!
– Imagino, — ele riu — mas desta vez estou agradecendo por não atirar em mim.
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