Distúrbios.
5 Comida
Notas iniciais
IV
O dormitório envolvia-se num silêncio que, com o brilho cálido da Lua, beirava o etéreo. Os levados que deram trabalho para dormir descansavam em solitárias, dopados ao ponto de reduzirem frases longas e odiosos a frases curtas de amor ao próximo.
Larry dormia de lado, encolhido e abraçado na caixa de sapatos. Havia a sombra de um sorriso na cara, de quem desfrutava um bom sonho. Desfez-se ao levar um tapa na nuca. Tampou logo a boca, evitou de soltar um ai alto suficiente para acordar os colegas. Sentou na cama que agradecia mentalmente por não fazer barulho algum de tão dura que era. Levantou o pulso.
/Por favor, não me façam rasgar a pele com os dentes/
Seu pedido foi atendido, João Pestana apareceu ao seu lado agachado no chão. Um cadáver ambulante de gente. Unhas grandes, ásperas e amareladas que se contorciam como os chifres que saiam das têmporas. Pele branca rabiscada por veias concentradas nos olhos abissais e na barriga d’água. De longe, seria confundido com um Papai Noel satânico que come as crianças como peru natalino.
– Boa madrugada, Sr. Pestana – sussurrou Collins. Doze anos de experiência fizeram o menino não ter medo das monstruosidades, só de gatos, porque são criaturas malignas vindas dos confins do inferno. João Pestana tinha preguiça de articular palavras com a boca, julgava a tarefa como muito trabalhosa. Os lábios azulados abriram um sorriso em resposta ao cumprimento.
Pressionou a unha contra o pulso de Larry e arrastou. Sangue escorria da abertura, o pequeno teve de morder a própria bochecha para aturar a dor. Fora um corte preciso, mas ardido, como se as unhas do bichinho fossem feitas de sal e limão, desgastando-se ao percorrer sua pele.
João Pestana ficaria por lá, gostaria de observar o filhote de mundano realizar o rito de emergência, afinal, o sangue do guardião era para enganar os estômagos insaciáveis. Serviria até o garoto encontrar comida melhor, como uma irmã da Sra. Ratazana ou uma galinha azarada. Se continuasse a empanturrá-los com a entrada por muito tempo, a fechadura afrouxaria e eles fugiriam. E deixariam Larry sem carinho porque papai e mamãe diziam que dentro da caixa tinha o amor deles também. Se os bichinhos saíssem, o amor deles também fugiria do filho ruim.
Molhou os dedos com o sangue, pintando a boca que ficava numa das laterais menores. Ao terminar, os dentes tortos de tubarão fechavam-se e engoliam o xarope de groselha. Deveria ser breve, ou os bichinhos confundiriam-no com um pedaço de torrada com geleia.
Coçou os olhos, estava um pouco zonzo. Mal suspeitara que talvez definhasse por hemorragia. O cheiro metálico ficou mais forte, uma poça rubra diferenciava a Zona da Alegria das demais camas. Continuou a alimentar os sete, mesmo de vista turva. Alimentava por medo, pena, afeição. Como dono da caixa, tinha responsabilidades e um exemplo a dar.
Larry conseguiu amolecer o coração – se é que ele tem – molengo de João Pestana. Ele deslizou o polegar frio ao longo do corte, que parou de sangrar e ganhou uma casca grossa com o toque mágico.
– Obrigado – deu três batidinhas no cabelo inchado e fedorento.
(De nada), sorriu. Mostrou os dentes negros, havia uma centopeia que caminhava entre eles. Larry achou nojento, coitado do filhote de cobra que aguentava o hálito de João Pestana. Estava incomodado, mas ignorou. Quando os bichinhos estavam sem aprontar, facilitavam as coisas. Sabia, porém, que ao término da refeição, eles estariam prontos para pegar peças. A comida fortalecia a fechadura, mas também os bichinhos. Quando papai explicou isso, as contestações do pequeno fizeram-no perder a paciência e expulsá-lo aos chutes do quarto.
Lutava contra o cansaço, continuaria o rito até sentir que havia uma muralha dividindo o mundo da caixa do mundo das pessoas. Entretanto, João Pestana não ajudava. Ele passava o pó mágico de uma mão a outra como as cartas de um baralho. Os grãos dourados, lascas dos sonhos infantis roubados, faziam cócegas em seu nariz, quero fazer Larry dormir em nuvens de lã.
Pronto. A quantidade de sangue conseguiria saciá-los. Daí em diante, iria ao banheiro tomar banho e trocar as roupas sujas. Primeiro, na verdade, procuraria onde ficava o banheiro. Depois, passaria no depósito para pegar um monte de toalha e limpar a mancha de sangue no colchão que era do tamanho de sua cabeça. Bobagem, as enfermeiras entenderiam a situação.
Quis conferir, antes de tudo, se João Pestana estava lá. Sim, e esfregava as mãos carregadas de purpurina. Jogou na cara do menino com aquela expressão perpétua de bode sonolento. Larry tentava respirar que nem gente, mas não conseguia. O pó grudava que nem cola nos olhos, nariz, boca. O ar pesado pressionava-o contra a cama. As pálpebras cederam, por mais que lutasse. Os músculos relaxaram, deu-se apenas ao trabalho de abraçar a caixa. Contava ovelhas com a ajuda de João Pestana, que abria as tripas das já contadas para não ter confusão. Quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro, adormeceu. Partiu no Expresso Leite e Biscoitos, rumo à Terra dos Sonhos.
???
Carregava a caixa no colo. O banco da primeira classe era confortável, e a janela, extensa o suficiente para uma bela vista das montanhas de açúcar, uma tinha o tamanho do Everest! Queria que o Expresso parasse para mergulhar naquela imensidão branca e nunca mais sair. Caso contrário, podia dar um jeito de quebrar as janelas, ou até...
Um homem entrou com o carrinho de lanches. Usava um colete azul bordado, sapatos sociais e roupas bonitas. O menino estava com o uniforme do hospício manchado de sangue, não que se importasse com isso. No mundo dos sonhos, não existem preocupações. Poderia andar por aí com a cabeça de um homem biscoito decapitado, se quisesse.
Deu um boa noite muito bem humorado. Perguntou ao pequeno qual seria o pedido. Intestinos de alcaçuz doce? Drops de dente de leite? Recomendou a especialidade do chefe que, por sinal, era ele: coração de dama decaída, tinha uns frescos na cozinha! Não poderia observar se o moço educado dizia a verdade, porque ele usava uma máscara de ferro que cobria o rosto todo. Só deixava a boca de fora, e, mesmo assim, hastes metálicas dividiam-na do pescoço suculento do sardento. Vendo a indecisão do menino, pegou uma das bandejas vazias e pôs a sua frente. Fechou com uma tampa e, ao abrir, apareceu um bombom recheado de chocolate derretido do tamanho de uma maçã. O menino ficou surpreso, bateu palmas para o chefe mágico mascarado. E escritor, adicionou o rapaz. Ele disse que era cortesia da casa.
Deu uma mordida forte e quase quebrou os dentes. Havia uma coisa dura dentro. Rasgou o doce em dois, o recheio viscoso sujou a mesa. Junto com ele, saiu uma chave do tamanho da palma de uma mão. Era das pesadas e, com ela, havia um papel preso por um laço vermelho bem feito. O moço da máscara disse para o menino prosseguir. Leu o papel escrito à mão.

Por trás da máscara, o estranho sorriu amigavelmente antes que o túnel da realidade engolisse-os.
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