Disturbia
6 VI - Eu Fiz Porque Eu Te Amava
Notas iniciais

Dean respirou fundo ao subir os últimos degraus da escada da casa de Bobby. Seguiu devagar até o quarto no final do corredor. Era onde Sarah costumava ficar quando ia à casa do tio e era onde ela estava hospedada agora. A porta estava entreaberta e ele hesitou entrar, por pelo menos duas vezes.
A memória do que aconteceu passava como um filme na cabeça do loiro e ele odiava aquela sensação. Foi a primeira pessoa que se machucou com ele a frente de um caso. Se ela tivesse morrido, ele teria ficado arrasado e tudo porque ele queria mostrar que conseguia ser tão bom caçador quanto o seu pai. Uma coisa ínfima que poderia ter custado a vida de Sarah.
Salvation – Iowa — 1998
O prazo que John havia dado aos rapazes estava se esgotando. Faltava agora somente duas semanas para que ele retornasse e os levasse dali. Para Dean, foram os piores três meses da sua vida. Para Sam, nunca havia se sentindo tão bem.
Sarah havia se tornado uma amiga e tanto para ele e todos os dias, eles saiam a tarde, por volta das três, para ir ao seu lugar secreto. Um celeiro abandonado de uma fazenda falida, cerca de dois quilômetros da casa de Bobby. Eles seguiam caminhando pelas estradas e parecia que o tempo voava. Sarah seguia na frente, sorrindo e Sam vinha logo atrás. Adorava estar com ela e quando pensava que teria que entrar no impala e deixá-la para trás, o seu coração doía demais.
Nem bem andaram alguns minutos, Sarah puxou o braço do moreno.
– Samuel, olha. – falou a jovem, apontando para um cervo que apareceu na mata. – Não existem cervos em Salvation.
– Parece que um deles se perdeu. Devemos fazer alguma coisa? – Sam perguntou confuso.
– Ele parece bem. – a loira sorriu.
– É, ele parece bem. – concordou o rapaz. – É melhor deixarmos ele onde está. – Voltaram a encarar o animal, até que Sarah ouviu alguma coisa na mata. Sam virou-se para olhar o que era e percebeu o vulto de um homem passar correndo na direção do cervo. Usava uma grande capa preta. Quando voltou a encarar o animal, ele estava no chão e a coisa em cima dele. – Sarah, volta.
– Voltar? Para onde? – perguntou a garota. Assustou-se com a atitude do moreno em passar em sua frente, protegendo-a.
– Corre para casa.
– Eu não vou deixar você aqui. – puxou-lhe o braço e segurou em sua mão.
– Eu estou bem atrás de você. – falou ele. – Corra como nunca correu na sua vida.
– Sammy, você está me assustando.
– Corre, Sarah. – pediu a última vez quando o homem levantou de onde estava o cervo e o encarou. – Agora.
A loira saiu em direção a clareira que dava acesso a uma estrada de barro, por onde eles voltariam para a casa de Bobby. Vez ou outra olhava para trás para ter certeza que Sammy estaria ali, embora o rapaz tivesse bem atrás dela. Como ele mesmo havia dito.
Os dois cruzaram a pista de barro e alcançaram a estrada, chegando minutos depois no deposito de ferro velho. Sarah foi a primeira a entrar em casa e Sam veio logo atrás. A loira fechou a porta quando o moreno passou correndo.
– Eu estou com falta de ar. – a menina resmungou, encostou-se a uma parede. Sam se aproximou e segurou o rosto da jovem. Mesmo também tendo dificuldades para respirar, tentou acalmá-la.
– Inspira... Devagar. – falou e respirou fundo, fazendo com que ela o acompanhasse.
– O que aconteceu? – perguntou Bobby vindo do andar de cima. Ouviu as passadas rápidas e o barulho da porta batendo. Dean e Ted, que jogavam vídeo game, se levantaram e vieram para a entrada da casa.
– Está melhor? – perguntou Sam e Sarah concordou com a cabeça. Abraçou a garota que começou a chorar.
– O que aconteceu, Sammy? – perguntou Dean seriamente. O moreno apenas levantou a cabeça e encarou os dois caçadores. Olhou rápido para Ted, como se dissesse que não poderia falar por causa dos "civis" ali. Mesmo que Sarah tivesse visto a criatura também.
– Sean, pode levar Sarah para cima e colocá-la na cama? – pediu Bobby.
– Claro, tio. – respondeu o rapaz. – Vem Sarah.
A jovem pegou na mão do irmão e os dois subiram as escadas em direção ao segundo andar.
– Okay garoto, agora que estamos sozinhos, o que aconteceu? – perguntou Bobby.
– Tem alguma coisa na floresta, alguma coisa maligna. – respondeu o rapaz.
– Como assim? – foi a vez de Dean perguntar, enquanto arregalava os olhos verdes.
– Eu e Sarah seguíamos na direção da velha fazenda Wood e, para chegarmos mais rápido, cortamos caminho pela floresta. Vimos um alce.
– Não tem alce em Salvation. – comentou Bobby.
– Foi o que Sarah disse e começamos a discutir sobre o que fazer com ele, porque provavelmente ele havia se perdido ou coisa do gênero. Resolvemos deixá-lo lá, já que certamente ficaria bem. Foi aí que vimos a sombra preta se aproximar e matar o animal. Estava sugando o sangue dele.
– Vampiro? – perguntou Dean.
– Muito estranho um vampiro sugar sangue de animal, não é do feitio deles. – falou o mais velho.
– Mas pode acontecer? – Sam encarava o velho caçador com o cenho franzido. Queria saber mesmo o que foi aquilo que havia na mata.
– Pode acontecer. – respondeu Bobby. – Olha garoto, eu não quero mais que você e Sarah sigam por aquelas bandas, entendeu?
– Sim Bobby. – concluiu Sam.
– Vocês poderiam ter sido mortos hoje. Você sabe as coisas que tem aí fora e, no entanto, colocou a minha sobrinha em risco.
– Eu a protegeria.
– É, eu sei que protegeria. – o homem tocou no ombro do menino. – Faltam duas semanas para que o pai de vocês venha buscá-los. Vamos manter as coisas como estão.
– Como assim manter as coisas como estão? – perguntou Dean seriamente. – Bobby, temos um vampiro à solta. – a palavra "vampiro" o loiro quase sussurrou.
– Até o momento não houve ataque a humanos, Dean.
– E como você nomeia isso que ocorreu com o Sam e a Sarah?
– Eles só estavam no lugar errado e na hora errada. – respondeu o caçador. – Eu não vou permitir que vocês corram perigo. John me mata se souber que você ou o seu irmão estão caçando um vampiro naquela mata fechada.
– Ele não precisa saber. – disse o loiro
– O Bobby tem razão, Dean. Deixa as coisas como estão. Se o vampiro começar a atacar as pessoas, outros caçadores virão para dar cabo dele.
– Se ele tivesse matado a sua namorada, o que você faria?
– Sarah não é a minha namorada. – Sam assumiu uma postura séria e triste, ao mesmo tempo. – E ele não a matou.
– Dean Winchester, eu não quero ouvir você falar mais nesse vampiro, ou seja lá o que for. Entendeu?
– Bobby...
– Entendeu, garoto, ou vou ter que ligar para o seu pai? – O homem encarava Dean seriamente, até que o jovem respirou fundo.
– Entendi.
– Bom garoto. – falou ele. – Agora eu vou ver como está a Sarah e criar uma história que explique o que ela viu.
Bobby deixou a sala e subiu as escadas em busca dos sobrinhos, deixando os dois garotos no andar de baixo da casa.
– Você tá bem? – perguntou o loiro para o irmão.
– É, eu estou bem. – respondeu Sam.
Dias atuais:
– Ei, eu posso entrar? – Dean pediu enquanto empurrava a porta do quarto. Sarah estava deitada na cama, com dor de cabeça.
– Eu não estou bem para brigar com você, por isso, sai daqui. – mandou ela encarando o homem.
– Ótimo, porque eu não quero brigar com você. – o loiro entrou no quarto e encostou-se à parede. Sarah pegou um travesseiro e o arremessou em sua direção. O homem segurou o objeto antes que pudesse alcançá-lo.
– Sai daqui. – falou ela.
– Me perdoe. – despejou Dean e Sarah paralisou. – Eu queria ter te dito isso naquele dia, mas...
– Mas eu fiquei em coma. – respondeu seriamente.
– Eu fui te ver no hospital, levei um murro do seu irmão, meu irmão passou a me odiar e Bobby ficou seis meses sem falar comigo por causa daquilo. Além do fato de meu pai ficar furioso e passar um bom tempo sem confiar em mim. – confessou respirando fundo. – Não acha que eu já paguei tudo o que eu devia?
– Não, isso foi muito pouco para o que você merecia. – respondeu a jovem seriamente, enquanto Dean se aproximava da cama.
– Não faça isso, Sarah. – cruzou os braços. – Não ponha toda a maldita culpa em minhas costas. Eu me lembro de ter mandado você voltar, eu me lembro.
– Eu não podia te deixar lá sozinho. – gritou a mulher e levantou-se. – Você foi um cretino quando não pensou em Sam ou nos outros. – Ela falava alteradamente. – O que seria do Sammy se você morresse? – aproximou-se e empurrou Dean para trás. – O que seria do Bobby, ou do seu pai, ou de mim? – cada pessoa que citava, seguia empurrando Dean ainda mais para trás. Quando citou a si mesma, o homem segurou em seu punho. Imobilizando-a.
– Você? – perguntou sério. – O que você tinha a ver com isso?
– Nada. – respondeu a mulher e virou-se, mas Dean não largou o seu punho.
– O que você tinha a ver com isso? – repetiu a pergunta e Sarah o encarou seriamente.
– Eu te amava. – respondeu e puxou o braço, aproveitando que Dean ficou perplexo com a revelação e parou de apertá-la. – Eu fiz porque eu te amava e não ia deixar você ficar sozinho, enfrentando o que quer que fosse aquela droga.
– Você me amava? – perguntou ele.
– Você é surdo? – Sarah aproximou-se outra vez.
– Porque você não me contou?
–Porque eu não te contei? Vai se fuder, Dean. Eu tinha um amor platônico por um cara cinco anos mais velho que eu e que só queria estar em bares ao lado de meu irmão. Usando uma carteira de identidade falsa para dizer que já tinha vinte um e poder beber álcool. Sumir durante a noite e aparecer bêbado e fedendo a perfume de mulher barato pela manhã. – a raiva estampava o rosto de Sarah. – Oh claro, me lembro agora que era isso que eu queria para mim. Deveria ter dito que te amava, não acha?
– Sarah...
– Saia daqui. – mandou a mulher respirado fundo e tentando se controlar.
– Me desculpe. – Dean aproximou-se da jovem e pegou em seu braço, mas Sarah foi para cima dele. Empurrou Dean até uma parede. Puxou uma faca, que ela andava na bota, e colocou no pescoço dele.
– Se você tocar em mim outra vez, eu juro que vai estar engasgando com o seu sangue antes que possa se arrepender de tê-lo feito. – O liberou da parede e se virou. – Dê o fora daqui e eu não vou mandar outra vez.
O homem não disse mais nada, porque não havia mais nada a ser dito. Ele começou a entender a razão da magoa da garota e percebeu que não foi só o acidente que a deixou amargurada. Seguiu para fora do quarto e assim que saiu, Sarah empurrou a porta com toda a força que tinha.
Quando levantou as vistas, o loiro deu de cara com Sam e com Bobby parados, estupefatos, no inicio do corredor. Apenas aguardavam para se intrometer na briga se a coisa ficasse pior do que já estava. Dean os olhou seriamente e balançou a cabeça. Desceu as escadas da casa, pegou a chave do impala e saiu em direção a um bar. Ficar bêbado era a única coisa que ele queria.
Sam olhou para o mais velho dos caçadores tristemente, porque não queria que aquele clima de hostilidade continuasse. Até porque Sarah, ele e Dean teriam que conviver juntos por um longo tempo. Foi só ai que percebeu que os objetos dos quartos, que estavam com as portas abertas, começaram a levitar.
Correu até o quarto de Sarah e abriu a porta com um chute.
– Sarah.
– Eu não consigo me controlar, Sammy. – explicou respirando fundo enquanto tudo a sua volta estava quase alcançando o teto.
– Ei, olhe para mim. – o moreno segurou o rosto de Sarah, entre as mãos. – respira fundo. – A mulher começou a acompanhar a respiração serena do homem até que as coisas caíram no chão. – Você não pode se aborrecer.
– É a droga do seu irmão que me deixa louca. – respondeu chateada, mas não chorosa.
– Vocês vão ter que se acertar um dia, Sarah. – começou a falar e a loira ameaçou se afastar. Sam a apertou em um abraço. Os músculos de Sarah, que estavam tensos, relaxaram imediatamente. Ela adorava o cheiro de Sam, uma das poucas coisas que a acalmava. – Mas tudo em seu devido tempo.
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