Depois que entramos, subimos a escada e caminhamos em silêncio até o meu quarto. O silêncio entre nós não é desconfortável... É mais como um espaço denso, carregado de tudo aquilo que ainda não conseguimos dizer. Mas, assim que cruzamos a porta, ele para bruscamente. Meu corpo se sobressalta, e, antes que eu possa entender o que está acontecendo, ele segura meus ombros, me obrigando a encará-lo.


— O que foi? — pergunto, sentindo o coração acelerar. Será que justo agora, nesse momento, Peeta vai ter uma crise?

Mas, ao observar seu rosto, percebo que suas feições não estão contorcidas, e suas pupilas não estão dilatadas. Ainda assim, sua inquietação é palpável. Então, sua voz angustiada toma conta do quarto.


— Katniss... Preciso que você me prometa, que se algo acontecer… se eu perder o controle, você cortará minha garganta se for preciso. Me promete?! — Sua voz sai baixa, e carregada de tensão. Seus olhos estão arregalados, aflitos... e, sinceramente, queria bater em Peeta. Ele não vai parar até que eu prometa.


— Prometo. — Digo. Prometi com a única intenção de tranquilizá-lo.

Ele respira fundo.


— Se eu te pedir... se eu te pedir pra se afastar de mim... você se afasta imediatamente. Entendeu? Essa é a minha condição para poder ficar.


— Tudo bem, entendi. — Minto. — Não se preocupe... nada vai acontecer comigo, Peeta.


Mas ele não parece convencido.


Ele desvia os olhos por um segundo. Será que ele está percebendo meu blefe?

Eu não queria fazer nenhuma promessa. Porque, no fundo, eu sei... sei que se ele tiver um surto, se aquele maldito hijacking tomar conta, eu não sei se vou conseguir me afastar. Não vou e não quero deixá-lo sozinho. Mas se isso o tranquiliza no momento, e se isso significa que ele ficará essa noite comigo… falo o que ele quer escutar.

Apertando sua mão com força, falo novamente:


— Prometo, Peeta. — Sussurro.


Sem pensar muito, me aproximo e enlaço meus braços ao redor dele. Deixo minha cabeça repousar em seu ombro e ele me abraça de volta. Ficamos assim por alguns minutos, sem nenhuma palavra dita. E uma calmaria que não sentia há muito tempo, se apodera, vibrando pelo meu coração. Minha mente está vazia de pensamentos ruins, me sinto leve. Gostaria de me sentir assim todos os dias. Aos poucos, sinto o corpo dele relaxar ainda mais nos meus braços. Ergo o rosto e percebo que ele fechou os olhos, como se segurasse o mundo nas pálpebras. Desfaço o abraço, só o suficiente para segurar sua mão.


— Vem — murmuro, guiando Peeta até minha cama. Subo, sem soltar seus dedos e ele vem junto. Quando já estamos deitados, Peeta desliza o braço por trás da minha cabeça, me puxando para que eu use seu ombro como travesseiro. Fecho os olhos, me permitindo sentir. Cheguei a acreditar que nunca mais teria isso.


— Boa noite, Peeta — sussurrou.


— Boa noite, Katniss — ele responde. E o sorriso que percebo na voz dele, faz outro surgir discretamente nos meus lábios.

E, assim, quando menos percebo, adormeço envolvida no calor dele.


Durmo.

E pela primeira vez em muito, muito tempo, é um sono real. Um sono tranquilo. Um sono de quem, por algumas horas, esquece que o mundo pode ser cruel.

Quando abro os olhos, a luz do dia atravessa a janela, aquecendo meu rosto. Minha cabeça ainda repousa no braço de Peeta, e o outro braço dele permanece sobre meu corpo protetoramente. Um sorriso se forma sem que eu perceba. Sinto aquela paz rarefeita, quase impossível, me invadir. Levanto um pouco a cabeça e ele ainda está dormindo. Seus cabelos loiros estão bagunçados e caem sobre a testa. Sua boca está entreaberta, suas feições tranquilas. De repente, suas pálpebras se mexem e seus olhos se abrem, e um par de íris azuis me observam.


— Bom dia. — digo sem graça. Ele me pegou enquanto o observava dormir.

Que ótimo, Katniss…

— Bom dia. — Ele sorri. — Sem pesadelos? — pergunta, arqueando uma sobrancelha.


— Sem pesadelos. E você?


— Também não tive. Dormi... dormi tão bem, Katniss. Como não dormia há muito tempo — diz, pensativo.


— Isso é bom. — Digo.


— Mais do que bom. — Conclui ele.

Preciso de um pouco de ar fresco, e estava ponderando levar Peeta para conhecer o lago hoje. Mas a caminhada até lá é cansativa, não sei se ele toparia ir comigo… Mas mesmo assim resolvo perguntar.


— Me acompanha em uma caminhada? — Pergunto sem revelar muita coisa.


— Hoje? — pergunta.


— Sim.


Ele franze a testa.


— Pra casa de Haymitch?!


— O quê? Não, a visita de ontem vale por uma semana. E a casa dele não é uma caminhada, três passos e já estamos em sua porta.


Peeta rir.


— Que lugar seria esse?


— Um lugar muito especial. Pelo menos... é pra mim.


Ele me observa, e então assente.


— Qualquer lugar. Te acompanho para qualquer lugar, Katniss. — Seus braços me apertam e ele beija o topo da minha cabeça.

Satisfeita com sua resposta, me aconchego ainda mais no calor do corpo aquecido de Peeta.



Depois que descemos, tomamos café da manhã juntos, e quando digo juntos, incluo Buttercup. O gato horroroso e chato que exige explicitamente sua parte com miados escandalosos. Peeta coloca ele no colo e o alimenta com fatias de bacon e pão. Enquanto mastigava, vejo pelo canto do olho o gato me encarando. Posso jurar que ele ainda está com raiva porque pisei na cauda dele ontem. Talvez, ele esteja planejando minha morte. Vai saber. Pego mais alguns pedaços de frutas fatiadas e observo Peeta. Ele sente que o observo e levanta a cabeça. Acho que ficamos alguns minutos assim, nos encarando. Sinto que ele quer me dizer algo, mas por algum motivo, prefere permanecer em silêncio. Seus olhos denunciam sua inquietação interna, mas não acho que seja algo relacionado às lembranças, é algo de agora.


Quando terminamos, Peeta diz que precisa passar em sua casa antes de irmos. Enquanto isso, tomo um banho e preparo algumas coisas para levar, na verdade, alimentos que Greasy Sae insiste em deixar de fácil acesso para mim. Ela diz que se só depender de mim, vou morrer com o estômago colado, porque não me alimento. Talvez ela não esteja totalmente errada…

Separo frango frito, queijo, algumas laranjas e encho uma garrafa térmica com chá, colocando tudo em minha bolsa de caça. Quando saio de casa, vejo Peeta caminhando em minha direção. Seu cabelo, ainda úmido, está penteado para trás. Ele trocou de roupa, e o cheiro fresco de seu sabonete alcança meu nariz. Ele carrega uma mochila nas costas, e me pergunto o que ele colocou nela, já que não expliquei realmente para onde iríamos.


— Pronta? — pergunta. Ele aperta um dos olhos por causa do sol e sorri.


— Eu acho que sim. — Digo. — O que tem nessa mochila?


Ele arruma a mochila no ombro e arqueia uma das sobrancelhas.


— Algumas guloseimas, a gente pode ficar com fome no caminho.


— Eu não falei pra onde a gente iria. — Provoco.


— Sou um homem precavido.


Balanço a cabeça e sorrio.


— Vamos. — Digo. Seus lábios ficam trêmulos enquanto ele segura o riso e estende a mão para mim. Sem hesitar, eu seguro.

E, assim, de mãos entrelaçadas, seguimos em direção à floresta.



O cheiro da campina me invade assim que cruzamos o Meadow. A luz do sol acaricia meu rosto mais uma vez, e às vezes, olho para Peeta enquanto caminhamos. Ele parece pensativo, observando o verde das árvores e alguns pequenos bichos que passam correndo. Nada será como antes — disso, não há dúvidas. Mas, com Peeta, eu sinto o desejo de não desistir. Isso é algo positivo. Algum sinal de esperança para alguém que não tem mais nada. Peeta também perdeu tudo, mas diferente de mim, sinto que ele não quer desistir. Ele ainda tem força e o desejo de lutar por dias melhores dentro dele. E o admiro por isso.

Digo pra ele que precisamos fazer uma rápida parada na velha árvore oca, onde ainda guardo meu arco e minha bainha de flechas. Gosto de deixá-los aqui. Meu pai escolheu esse esconderijo e, mesmo podendo levá-los para casa agora, esse é um dos poucos vínculos que ainda compartilho com ele. Não quero mudar isso. Me abaixo para pegar o arco, e percebo Peeta tenso. Ergo os olhos, fazendo uma pergunta silenciosa.


— Vamos caçar?! — pergunta, confuso.


Não consigo segurar o riso.


— Não, mas sou uma mulher precavida — devolvo suas palavras de mais cedo.


— Espertinha — vejo sua boca tremer, tentando conter o riso.


— Afinal, nunca se sabe o que podemos encontrar pelo caminho. Não está nos planos virarmos o prato principal de algum animal selvagem hoje. — Complemento.


— Você tem razão.. Nem hoje e nem nunca — ele assente com a testa franzida. — Então vamos logo para esse lugar misterioso, porque já estou ficando curioso.


— Vamos, senhor curioso — digo, me levantando. Peeta segura imediatamente minha mão livre.


Mãos entrelaçadas, seguimos pela trilha que conheço desde criança. A caminhada não é exatamente curta, leva algumas horas e fico preocupada que Peeta fique exausto por causa da perna. Mas mantemos um ritmo lento e, aparentemente, ele está indo bem. Então, seguimos, cada passo vai valer a pena. A cada curva, a floresta parece se abrir, se transformar... nos recebendo de braços abertos. E, quando finalmente chegamos, suspiro satisfeita.


— Chegamos. — Anúncio. Peeta olha para todos os lados, completamente admirado.


— Uau! — Ele gira lentamente, observando tudo: a velha casa de um cômodo, o lago, a paisagem… — Katniss, esse lugar é magnífico.


— É, eu sei.


Ele me olha como se eu tivesse acabado de revelar um segredo precioso.


— Como você descobriu isso?


— Foi meu pai quem encontrou um dia enquanto caçava. Acho que descobriu o lago quando ainda era jovem — faço uma pausa, lembrando do nosso tempo juntos. — Costumávamos nadar aqui nos domingos de verão. Foi aqui que aprendi a nadar — sorrio, mas é um sorriso triste.


— Ele te ensinou muito bem, assim como te ensinou a ser uma ótima caçadora — Peeta diz, provavelmente lembrando da última arena.

A arena-relógio. Aquela em que fomos obrigados a nadar.

Ele levanta a mão e, suavemente, passa o polegar pela minha bochecha.


— Vem… vamos sentar ali, perto daquelas pedras — sugere, apontando.


O lugar que Peeta indica não tem muitas pedras como ele disse — é mais grama. Mas vamos até lá mesmo assim. É um canto confortável, com sombra, bem próximo à margem do lago.

Sentamos e abrimos a bolsa e a mochila que Peeta trouxe. A caminhada longa tem seus benefícios: meu estômago começa a roncar, e fico satisfeita com isso.

Já a mochila de Peeta realmente estava cheia de guloseimas: vários tipos de biscoitos, mini tortas e alguns doces que ainda não provei. Na verdade, nunca os tinha visto. Mas Peeta diz que é uma receita nova que ele inventou recentemente. E são deliciosos.


Enquanto comemos, observamos juntos os peixes saltando na água e o vento brincando com as folhas no chão. Alguns pássaros cantam nas árvores, chamando a atenção de Peeta, que observa encantado a cantiga.

Depois de saciados, encosto no ombro de Peeta. Ele, em resposta, apoia a bochecha no topo da minha cabeça.

Quando dou por mim, minha mente começa a trazer lembranças de meu pai e minha irmã. E uma melancolia se apodera do meu peito.


— Sinto tanta falta do meu pai... — deixo escapar, e minha garganta aperta imediatamente. — Sinto tanta falta da Prim. Minha irmãzinha se foi, Peeta. Nunca mais vou vê-la e nem ouvir sua voz ou sua risada. — Não sei porquê trago isso justamente agora. Creio que a emoção de está novamente no lago, aflorou minhas emoções já fragilizadas. Mas tenho os braços de Peeta para me acalentar. E é isso o que eles estão fazendo no momento, me abraçando com força, me aconchegando e tranquilizando.


— Nunca vamos esquecê-la. — Sussurra. — Sua irmã era querida e amada por muita gente. Seu jeitinho doce e forte... sempre pronta a cuidar dos outros — a voz de Peeta embarga, e ele para de falar. Quando se recompõe, sua voz ainda carrega um tom triste. — Também sinto falta da minha família, mas não podemos mudar o que aconteceu com eles.


Respiro fundo, tentando conter as lágrimas. E Peeta continua:


— Seu pai era um homem incrível, Katniss. Todo mundo o admirava aqui no Doze. Meu próprio pai vivia rasgando elogios para ele. Mesmo que seu pai não soubesse, era muito respeitado.

E quando ele cantava? Ah, até os pássaros paravam para escutar… Igual a você.


Um soluço feio escapa da minha boca, mas tento controlar para não começar uma tempestade de lágrimas sem fim.

Estou tão cansada de chorar.

E esse era pra ser um dia tranquilo — e não cheio de lembranças amargas e dolorosas.

Passo a mão no rosto para afastar as lágrimas teimosas, limpo a garganta e tento mudar de assunto.


— Meu pai achava que há muito tempo atrás havia muitos prédios por aqui.


Peeta franze a testa. Não sei se foi pela minha mudança brusca no assunto ou se realmente as suspeitas do meu pai despertaram sua curiosidade.


— Por que ele achava isso?


— Porque ainda dá pra ver algumas das fundações... — respondo, olhando em direção à margem e Peeta se estica, tentando olhar na mesma direção.


— Estou pensando agora na quantidade de segredos que guardam esse lugar. Quantas pessoas já viveram aqui? O que aconteceu com elas? Tantas perguntas e nunca teremos uma resposta concreta. Tudo tão incrível e ao mesmo tempo frustrante.


Balanço a cabeça concordando.


— Faz muito tempo que não venho aqui... Mas antes, era como ter meu próprio santuário.


Peeta assente.


— Alguém mais conhece esse lugar? — pergunta Peeta de repente.


Sinto meu corpo enrijecer e encaro o lago mordendo o lábio inferior.


— Eu já trouxe Gale aqui... — Minha voz sai mais baixa do que eu gostaria.

Ele não diz nada de imediato. Só tenta, sem muito sucesso, sorrir.


— Desculpa, essa pergunta foi tola.


— Eu precisava conversar com ele, e aqui era o local mais seguro que eu conhecia. Snow estava seguindo cada passo que eu dava.


— Katniss... você... sente falta dele? Quero dizer... do Gale? — Peeta pergunta, enquanto distraidamente passa o dedo na terra, deixando uma mini trilha entre a grama.



Eu sinto falta de Gale?! Sim, mas não como Peeta está pensando. Gale era meu parceiro de caça e melhor amigo. Mas com a morte de Prim, tudo isso mudou. Obviamente isso requer uma explicação mais detalhada, mas no momento, me permito uma resposta curta a Peeta. Pelo menos por enquanto.


— Gale era meu amigo. Depois da morte do meu pai, ele foi de extrema importância para a sobrevivência da minha família. Então, sim. Sinto falta dele, mas não dá maneira como você está pensando, Peeta. — digo — Criamos um vínculo de parceria, mas só fui descobrir o quanto esse vínculo era frágil no treze. Mas agora, tudo ficou no passado.


Me afasto um pouco e o encaro. É impossível interpretar o rosto dele. Ele só me encara digerindo minhas palavras. Então, faço a única coisa que meu coração manda. Me inclino e beijo ele.

Meus lábios encontram os dele e ele corresponde.

Eu não sei exatamente em que momento tudo ao nosso redor ficou tão silencioso.

O mundo parece ter recuado um passo, como se quisesse nos deixar sozinhos.

Não era a primeira vez que nos beijávamos — longe disso. Já perdi a conta de quantos beijos trocamos.

Mas, dessa vez não havia hesitação.

Não havia pressa.

Não havia aquele “e se” ecoando dentro da minha cabeça.

Era um beijo cheio de certeza.

Daquelas que não se dizem em voz alta, mas que tomam cada célula do corpo como uma verdade absoluta.

Naquele instante, éramos só nós dois.

E isso bastava. Isso era tudo.

Quando o ar se torna uma necessidade, me afasto, ainda ofegante.


— Você me faz querer sair desse vazio, Peeta. Você é a única pessoa que me faz querer continuar. — Finalmente assumo pra ele.


Seus olhos brilham, surpresos, como se minhas palavras tivessem atravessado algo profundo dentro dele.


— Obrigado, Katniss. — sua voz mal passa de um sussurro. — É muito importante ouvir isso de você.


Não dizemos mais nada.

Apenas deito minha cabeça em seu colo, e seus dedos começam a deslizar lentamente pelos meus cabelos, como se acariciassem não só os fios, mas também as dores que ainda guardo.

E ali, entre o cheiro das folhas, da terra úmida e o calor do seu corpo, eu me permito sentir algo além da dor.

Algo que esteve em silêncio aqui dentro, à espera.

Algo que todos ao meu redor pareciam enxergar muito antes de mim.

Mas agora... agora eu vejo.

Eu sinto.

E, pela primeira vez, acolho esse sentimento.

Sem medo.

Sem dúvida.

Sem receios.

Só sentindo o quanto é real.







Notas finais
Continua...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.