Meu nome é Katniss Everdeen. Tenho dezessete anos. Meu lar é o Distrito 12... Ele foi reduzido a cinzas pela Capital. Mas está sendo reconstruído. Participei dos Jogos Vorazes duas vezes. Sobrevivi. Tornei-me o tordo dos rebeldes. Derrubamos Snow. Minha irmãzinha está morta.

E eu... continuo aqui.

Por quê? Por que eu ainda estou viva? Eu devia ter morrido. Não Prim. Seria melhor para todos se eu estivesse morta.

O silêncio do quarto pesa como uma âncora sobre o meu peito. Sento-me perto da janela, com os joelhos encolhidos, abraçando as próprias pernas como se isso pudesse me proteger de mim mesma. Lá fora, o céu se dissolve lentamente nas cores favoritas de Peeta. Tudo parece tão distante, como se eu estivesse presa num mundo ao qual já não pertenço.

Meus olhos seguem o sol que afunda no horizonte, quase sem piscar. Quase como se, ao encarar o poente por tempo suficiente, eu pudesse me dissolver junto com ele, desaparecer naquela luz morna que insiste em sumir. A vidraça fria toca a lateral do meu rosto e um suspiro cansado escapa dos meus lábios. Fico ali, imóvel, os pensamentos desordenados demais para formar sentido, mas pesados o bastante para me manter paralisada.

Mas infelizmente sou obrigada a reagir quando alguém bate na porta algumas vezes. Em seguida, o rangido da madeira cedendo me avisa que ela foi aberta. Respiro fundo, alongando as pernas contra vontade, mas que também já estão com espasmo de cãibras por causa da posição e levanto. No processo, quase piso em Buttercup que está enrolado como uma bola em cima dos meus sapatos. Ele me lança um olhar irritado e mia.

— Não reclame. Esse não é lugar para deitar. — Sem me dar sequer um segundo olhar, ele se ergue com o rabo empinado, solta outro miado indignado e pula direto para a minha cama.

Ignorando o drama felino, abro a porta do quarto e desço as escadas em direção à sala. Parado ali, com uma bandeja de pães nas mãos, está Peeta. Ele me encara. Fico congelada no último degrau enquanto o vejo coçar a nuca com a mão livre, já que a outra equilibra habilidosamente a bandeja.

— Bati algumas vezes, mas como você não respondeu... fiquei preocupado e resolvi tentar a sorte. A porta estava destrancada. Me desculpe.

— Tudo bem... não tem problema. — Respondo, e ele me oferece um sorriso de canto.

Eu retribuo.

Já se passaram quase dois meses desde que voltei da Capital. Estamos nos reaproximando, pouco a pouco. Nunca como antes, pelo menos ainda. Todos os dias ele vem me visitar, traz pães e biscoitos. Conversamos pouco, quase sempre sobre nada. Ele me faz algumas perguntas, sempre uma dúvida para ser esclarecida. E respondo todas. Depois, ele vai embora. Essa é a nossa nova dinâmica: Reconstruir tudo o que foi modificado em sua mente. Em vários momentos dessas perguntas, sinto ele hesitante... frágil. E há também tantas palavras presas na minha garganta, mas nenhuma ousa escapar. Mas quero que elas escapem em algum momento, só não sei como ou se deveria deixá-las fluírem.

Queria dizer que sinto falta dele. Dos seus braços. Do cheiro que sempre me trouxe paz. Queria confessar como me acalma deitar a cabeça em seu peito e ouvir o som firme do seu coração. Queria gritar que só ele parece capaz de colar meus pedaços partidos e me fazer sentir algo além dessa dor surda. Mas não digo. Não sei se ele ainda me ama como antes, infelizmente esse é um fato que imagino que nem o próprio Peeta saiba responder. Se esse sentimento foi apagado definitivamente ou apenas adormecido. Ou… Se eles estão cada vez mais vivos, assim como suas lembranças estão ficando mais claras. Ele não me diz e não pergunto. Não sei como me sentiria em ouvir uma resposta negativa, e também não sei como ele reagiria com essa pergunta depois de tudo o que passamos.

E toda vez que ele se despede depois de uma visita... eu luto contra o impulso de impedi-lo. E fico pensando, pensando e pensando. E acabo não fazendo nada no final de tudo. Ele sai, voltando sozinho para sua casa. E eu, apenas fico. Fico esperando que a noite me engula de novo com os mesmos pesadelos de sempre. O pensamento me deixa mais triste.

— Estava pensando em passar na casa do Haymitch. — Peeta faz uma pausa e continua. — Ontem ele me expulsou. Quando não saí, jogou uma garrafa vazia em mim. Minha sorte é que, bêbado, ele tem uma mira péssima. — Peeta ri, e por um breve instante, sinto algo aquecer dentro de mim. Uma lembrança do antigo Peeta, o que é reconfortante.

— Quer ir comigo? — Ele pergunta, me pegando de surpresa. Desde que voltei, ainda não fui ver como Haymitch está. Afundei tanto na minha miséria que nem pensei nele... enquanto ele provavelmente está afogado em álcool e vômito. Mas ele também não vem me ver, então, estamos quites. A última vez que o vi, foi no dia em que voltamos da Capital, quando ele desapareceu em casa, as garrafas tilintando dentro da bolsa. Mas Greasy Sae sempre me atualiza sobre ele, já que passa por lá antes de vir me ver.

— Separei alguns pães para ele também. — Peeta acrescenta interrompendo meus pensamentos.

Lanço um olhar para cozinha. Sei que Greasy Sae preparou almoço e jantar, mas mal toquei em qualquer coisa. Deve ter o suficiente para uma boa refeição junto com os pães de Peeta.

— Espera um pouco... acho que tenho algo para acrescentar.

Pego uma cesta esquecida no canto, coloco uma tigela tampada com sopa e um pedaço de queijo de cabra, enrolado em papel. De volta à sala, junto-me a Peeta na porta e saímos, caminhando em silêncio pela rua até a casa do nosso velho mentor. Peeta entra sem cerimônia, o ar é quase irrespirável: cheiro de álcool, suor e várias garrafas vazias e outras quebradas espalhadas pela sala.

— É... mesmo com as visitas de Greasy Sae, Haymitch continua... sendo Haymitch. — Comento. Peeta pressiona os lábios e assente. Deixamos a comida sobre a mesa e subimos até o quarto — a parte mais deplorável da casa.

Empurro a porta. Ugh.

Lá está ele, deitado, desgrenhado, sujo, afogado numa poça de vômito sobre o travesseiro. Como ele ainda está vivo, não sei.

— Haymitch? — Peeta tenta, sacudindo a perna dele. Nada. Tenta de novo, em vão.

Já conhecendo o procedimento necessário para acordá-lo de seu coma alcoólico, desço, encho um jarro de água na cozinha e volto. Peeta ergue as sobrancelhas ao entender minha intenção e se afasta. Sem hesitar, despejo a água no rosto dele. Haymitch desperta aos tropeços, arfando, com os olhos turvos e uma faca em punho. Sempre a faca. Parte dele nunca mais vai abaixar essa guarda... e, de certa forma, está certo. Não há mais inimigos à vista, mas os fantasmas... ah, os fantasmas nunca vão embora. Snow fez questão disso. Quando finalmente foca em nós, ele solta a faca e passa as mãos pelo rosto.

— Vocês precisam parar com essa mania de me molhar enquanto durmo! Droga!

Escondo a jarra atrás de mim. Peeta apenas ri, balançando a cabeça.

— Vou buscar seu café, Haymitch. — Diz Peeta, saindo.

Haymitch esfrega o rosto com a parte da camisa que ainda está seca sem tirar os olhos de mim. Olhos vermelho sangue que mais parecem duas flechas venenosas em chamas, prontas para me matar.

— Ainda vou afogar vocês num balde.

Eu zombei. — Boa sorte, com isso. — Nisso, Peeta retorna com nossa cesta e me olha com um sorriso discreto nos lábios.

— Ah, e só pra constar: a ideia da água foi dela. — Peeta aponta o polegar em minha direção. E me lança um sorriso malicioso.

— Esse jarro pode escorregar sem querer de minhas mãos e ir direto para sua cabeça, Peeta. — Minha palavras só fazem o sorriso dele aumentar. Mas seu foco volta para o velho Haymitch, que no momento, continua me fuzilando com os olhos vermelhos.

— O quê? Te fiz um favor. Provavelmente você se afogaria na própria poça de vômito. — Retruco.

Além dos olhos, seu rosto começa a ficar vermelho também. Por alguns segundos, penso que ele possa estar infartando. Mas se seu coração estiver como seus pulmões — diferente do fígado. — ele está muito bem, de acordo aos gritos e insultos que ele direciona para eu e Peeta.

— Caiam fora, os dois! Me deixem em paz! — Ele grita, furioso.

— Não antes de você comer e tomar um banho. — Peeta rebate, enquanto o ajuda a levantar.

— Ótimo. Desde quando contratei serviço de babá?! — Reclama alterado.

— Cala a boca, Haymitch! — Eu e Peeta falamos em uníssono e acabamos rindo, enquanto Haymitch tenta escapar do aperto de Peeta sem sucesso.

Enquanto Peeta o leva para o banheiro, aproveito para trocar os lençóis, usando os que Greasy Sae deixou prontos no guarda-roupa. Jogo os sujos num canto, quase colocando pra fora o pouco que ingerir quando o odor do vômito pega meu nariz.

— Pobre Greasy Sae... — Murmuro.

Depois de muito esforço, banho tomado e com a aparência um pouco mais decente, Haymitch finalmente aceita comer alguma coisa. Quando estamos prestes a sair, ele nos encara de um jeito estranho. Paramos, meio confusos, até que ele resolve falar:

— Gosto de ver vocês dois juntos de novo. Assim... se dando bem. Parceiros. Não achei que ainda veria isso.

Fico em silêncio. O que dizer?!

Já Peeta, enfia as mãos nos bolsos da calça e, mesmo de cabeça baixa, sua voz escapa num sussurro carregado de significado:

— Eu também.

Engulo em seco, meu coração acelerado. Sem saber se respondo uma resposta também, procuro algo para focar minha atenção. Então, magicamente, a linha da minha blusa se torna muito interessante. Eu sou covarde. Penso comigo mesma.


Mesmo que as casas dos vitoriosos fiquem absurdamente próximas, Peeta insiste em me acompanhar até a porta de casa. No qual, agradeço em silêncio. Não por medo, é que… só quero a presença dele por perto. Deixamos Haymitch deitado, limpo e alimentado. Ele prometeu para Peeta que iria dormir, algo que não acredito nem em um milhão de anos. E logo em seguida, mandou a gente embora.

— Bem, eu vou nessa. — Ele começa a se despedir, como faz todos os dias e o pânico me invade. Não quero outra noite sozinha. Não com pesadelos. Não com as imagens dos bestantes. Dos corpos de crianças mutiladas... dos crânios queimados.

Quero Peeta. Aqui. Comigo.

No impulso, seguro seu pulso. Ele me olha.

— Fica. Fica comigo. — Peço, minha voz falhando. Seu olhar escurece, atormentado.

— Katniss... não posso. Não confio em mim.

— Por favor... — Insisto.

— E se eu perder o controle? E se eu te machucar? Nunca me perdoaria... você não entende?!

— Peeta… me escuta. Seus flashes estão cada vez mais raros. E quando acontecem... você consegue dominá-los. Eu. Confio. Em. Você. — Digo com toda confiança que consigo transmitir. Não ligo se ele surtar no meio da noite, juntos resolvemos. Já tivemos fases bem piores. E realmente confio nele, se caso acontecer, ele não vai me machucar. Não mais. Já tiveram outros episódios no decorrer do último mês, foram leves e ele conseguiu dominá-los.

— Katniss... — Ele balança a cabeça, derrotado, com uma expressão que despedaça o pouco que sobrou de mim. Solto seus pulsos, subo as mãos até o rosto dele e, sem pensar, encosto meus lábios nos seus.

Ele não recua.

O calor explode dentro de mim quando ele aprofunda o beijo. Depois de tanto tempo... o gosto dele. Os lábios dele. E aquele calor no qual me faz sentir viva, surge com uma onda tomando conta de todo o meu corpo. Mais cedo demais, Peeta interrompe o beijo e me abraça forte, pressionando os lábios na minha testa. Sei que ele ainda está lutando com os próprios monstros. Sei que estou nervosa, mas não quero que ele se afaste.

— Fica comigo? — Peço de novo, num sussurro. Dessa vez, a resposta vem.

Baixa. Firme. Definitiva.

— Sempre.