Depois da despedida, outros Pacificadores entram e levam-me para o trem junto com a garota, Gabriella.

O trem é impecável. No vagão principal há mesas de mogno e recipientes de vidro de vários formatos cheios de doces e coisas que dariam pra alimentar uma família inteira. Algumas Avox paradas esperando nossas ordens. E poltronas postas em um canto do vagão ao lado de taças e garrafas de vinho.

A garotinha vai direto pegar os doces. E eu me sento para abrir o pacote que Roxie havia me entregado.

Dentro dele, duas pequenas tortas – uma de limão, e a outra de chocolate — que, sem via de duvidas, foram feitas pelo o irmão dela, Peter. Ele era alto e consideravelmente forte. Tinha os cabelos negros como os da irmã e olhos azuis. Era tipo de menino que deixava qualquer menina derreter, congelar, e derreter novamente.

Eu adoro tortas. Mas me sento culpada. Ele já havia dito que gostava de mim milhares de vezes, e eu sempre fui indiferente, mesmo gostando dele. Não podia me distrair com namoros. Eu tinha que treinar para os jogos. Roxie sabia que eu gostava dele, mas ela dizia que eu era fraca demais pra assumir.

Acabo com uma das tortas em questão de minutos. A outra eu deixo em cima de uma das mesinhas. Caso a menina do meu distrito queria. Depois, vou para o vagão onde fica o aposento dos tributos para ver o que mais tem no pacote.

Dentro de um saco, há um vestido. Com tecidos que eu nunca vi na vida, e não sei como Roxie conseguiu. Mas sei o porque de haver um vestido no pacote. Roxie queria que eu o colocasse quando fosse descer do trem, na Capital. Ela queria que todos vissem uma de suas criações, falava isso desde os 13 anos, quando eu conversava com ela sobre como meu pai gostaria que eu fosse um tributo.

Ela queria ser uma das estilistas da Capital. E achava que se eu aparecesse com um vestido dela, todos se interessariam e implorariam pra ela ser uma estilista da Capital. O era impossível afinal, ela era do Distrito 10. Estava condenada a trabalhar em fazendas de corte ou na manutenção da diversidade genética do rebanho com a implantação de embriões de vacas longamente congelados. E ninguém sabia nem o seu nome. Mas ela ainda acreditava nisso.

Quando volto para o vagão principal vejo meu pai, ou melhor, meu mentor Will Solace, conversando com a garotinha. Eles estão sentados em volta de uma grande mesa comendo alguns aperitivos juntamente com a mulher do vestido laranja, Rosie. Ela é a primeira a me ver entrar.

– Belo vestido! Onde consigo um desses? Venha. Sente-se aqui.

Durante toda a viagem a menina não para de falar. Ela faz perguntas sobre como ela deve se comportar, ou qual é o melhor modo para sobreviver. Meu pai responde sempre que pode e Rosie fica feliz com o entusiasmo repentino da garota.

Eu me sinto invisível na mesa até que a garota diz

– Você é filha do mentor. Pra que se voluntariou?

E então meu pai me encara esperando a resposta. Penso em algo pra responder, mas sem sucesso, eu me levanto.

– Talvez porque eu queira – Digo desconfortável por ter sido encurralada por uma menina de 12 anos. – Vou me deitar.

Ninguém diz nada, e então eu me retiro.

Acordo quando o trem para na Capital. Olho pela janela e vejo centenas de moradores da Capital acenando para o trem. Tento sorrir, pois possivelmente, algum deles pode ser meu patrocinador. Uma pessoa louca por apostas e sangue.

E então o trem para, e eu me junto aos outros para descer.