Meu calcanhar sangrava e a dor começava a me incomodar cada vez mais. Abaixei-me próximo a cerca de uma das casas do lado sul e olhei pra cima — já estava escurecendo e eu ainda não tinha encontrado abrigo, e algo me dizia que as poucas casas abertas do lado sul não seriam um bom esconderijo.

Meu calcanhar começou a latejar e o sangue parecia ter ganhado velocidade, então, peguei uma das flechas da besta e cortei uma parte da roupa. Com a parte cortada, fiz uma atadura temporária – que isolaria a ferida de possíveis bactérias e pararia o sangue.

Levantei-me e segui pela rua examinando o local. Quando me dei conta, já havia passado cerca de 20 minutos que eu vagava, e o Sol já era quase indetectável. Parei, e olhei a minha volta:

Casas, casas e mais casas.

Eu poderia acampar em uma, mas era arriscado. Então tive uma ideia, consideravelmente maluca, mas era boa; Próximo a casa vizinha, havia uma grande lixeira que servia de ‘’escada’’ pra quem quisesse subir no muro. E era exatamente o que eu queria.

Depois de me equilibrar em cima do muro, caminhei até um trecho que ficava próximo ao telhado de uma das casas. Era ali que eu ia acampar... Um lugar alto, que me dava direito a observar grande parte da rua, sem deixar que os outros me vissem. Eu só precisava CONSEGUIR chegar lá em cima.

Respirei fundo olhando a altura do muro. Cerca de 3 metros, o que era muito alto pra alguém que estava com o pé machucado.

‘’Que a sorte esteja ao meu favor’’ Pensei.

Flexionei os joelhos, para tomar impulso, e pulei. Consegui agarrar a calha do telhado e tentei me impulsionar pra cima. Joguei a perna direita na calha, mas errei. A calha rangeu.

– Não, não, não.

Me impulsionei de novo e travei minha perna em cima da calha. Quase que no mesmo instante em que eu consegui subir, uma parte da calha caiu no chão fazendo um barulho muito forte.

Olhei em volta para me certificar que ninguém havia escutado ou visto aquilo. Fechei os olhos, e me deitei no telhado. Minha perna havia parado de doer.

Depois de um tempo, quando o céu já estava escuro, minha barriga começou a roncar. E a sensação era horrível. Perguntei-me se era assim que algumas das crianças do meu distrito se sentiam... Cheguei a conclusão de que era pior.



Tentei não pensar em comida por um tempo, mas a ideia de ‘’não pensar em comida’’ fazia com que eu pensasse mais ainda. Fazia com que eu sentisse o cheiro. ‘’O cheiro?’’


Ouvi um barulho acima da minha cabeça e me levantei. Um pouco acima de mim um parachute da capital havia caído. Comida!

Agradeci mentalmente meu pai e abri o paraquedas. Haviam 6 bananas, e uma garrafa d’agua. Comi duas bananas o mais devagar de pude, e tomei um pouco da agua. Eu não podia me dar o luxo de acabar com toda a comida, não sabia quando conseguiria mais.

Depois de comer, deitei e fiquei admirando as estrelas. Um dos pequenos prazeres da vida. Estavam lindas. Pensei no meu distrito. Em Roxie e Peter... Em Peter. O arrependimento vinha agora em minha cabeça.

‘’O quão estupida eu fui?’’ – Penso — ‘’Abandonei tudo para me voluntariar. Deixei o possível amor da minha vida, sem ao menos confessar o que eu sentia. Tudo pra provar algo. E agora, nem sei mais se tenho chances de ganhar.’’.

Começo a me sentir vulnerável. Varias coisas passam pela minha cabeça, enquanto tento pensar dormir e quando finalmente consigo um barulho me acorda.

Gemidos ecoam pela rua. Levanto devagar para olhar. Cerca de 20 pessoas então atras de uma garota, algumas rastejam atras dela. Não entendo direito a situação.

Ao se aproximar, vejo que é Brittany Geller — a garota do 7 — me pergunto onde está Philip Grey. Mas a minha curiosidade é logo substituída pela oportunidade de fazer uma aliada.

Eu assovio o mais alto que posso, ela não ouve. Assovio de novo e ela começa a correr em direção a casa.

– Pela lixeira! – Grito o mais alto que posso.

Ela sobe a lixeira e o muro. E corre em direção ao telhado.

– Me ajuda! Me ajuda a subir! — Ela grita desesperada.

Eu fico paralisada. As ‘’pessoas’’ que estão atrás dela tem as faces queimadas ou cortadas, algumas não tem pernas, e outras estão sem um dos braços. Eu entro em pânico.

As criaturas tentam puxar Brittany pelo pé. Ela grita e me pede ajuda. Eu tento me concentrar.

– Jogue suas coisas primeiro!

Ela fica insegura. Mas por fim joga a besta e me estende a mão. Eu estou suando. A adrenalina domina todo meu corpo. Medo.

Uma criatura rasteja pelo muro e me fita. Brittany grita e recua. A criatura ... Tem o rosto de alguém que eu conheço.

‘’Não, não é ele’’ Tento assumir o controle. Pego minha besta, tremendo. E miro.

O tiro acerta a cabeça do bestante que tomba para o lado e cai no chão. Deito no telhado e estendo a mão para Brittany.

– Pula! – Digo.

– Você é louca?

– Eu consegui, você consegue. Agora pula!

Ela me encara por alguns segundos e então toma impulso. Eu agarro uma das mãos dela, e ela segura no telhado com a outra. Eu a puxo.


Ficamos em silencio um bom tempo. Eu escondo meu rosto e começo a chorar enquanto vários... vários mortos-vivos tentam nos alcançar em vão.



– Você está bem? – Ela pergunta.


– Eu devia te perguntar isso – Tento sorrir – Aquele...

– Zumbi?

– É, o que estava rastejando, no muro. Ele... Ele parecia alguém que eu conheço. Desculpe.

– É melhor nos dormimos — Ela diz compreensiva.

– Não. Não as duas juntas. Temos que revezar — Contesto.

– Quer que eu comece?

– Não. Eu não vou conseguir dormir mesmo.

Passo o resto da noite pensando no morto-vivo. E escutando o som das criaturas tentando subir no telhado da casa. Depois de 4 horas, Brittany acorda e eu tento dormir. Desesperada para ver o Sol novamente.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.