Distorcida

1 Início - mia I


Notas iniciais
Capítulo betado pela Rô. Rô, te amo

Jaqueline Miranda Soares, apenas quinze anos; um metro e sessenta e sete de altura, e setenta e dois quilos. Gorda demais para idade e altura que tinha, ela sabia, não era cega.Mas parecia que todos queriam fazer-lhe o favor de lembrá-la daquele fardo.

Ela tinha pais divorciados, e por ter escolhido viver com a mãe raramente via o pai. Afinal, ele havia sido promovido em sua empresa e isso incluía fazê-lo mudar de estado. A mãe, por sua vez, também trabalhava demais, Jaqueline – embora morando com ela – dificilmente a via e, mais difícil ainda, conseguia conversar com sua mãe. A mulher sempre estava exausta demais para falar com sua menina, o trabalho dela não era nada fácil. As poucas palavras que trocava com sua filha eram nos intervalos comerciais de algumas novelas, dizendo apenas: “Nossa filha! Como você está gorda...”

“Eu já sei disso mamãe, não preciso que a senhora me diga” – A garota pensava sempre por trás do sorriso amarelo que dava a mãe.

Jaqueline era muito sozinha e sempre pensou que o motivo da sua vida ser tão patética era porque ela era tão gorda. “Muito gorda” salientou olhando-se mais uma vez no espelho do banheiro, nua. Os fios louros que possuía (iguais aos do pai) caíam sobre os ombros, cobrindo os seios fartos.De fato a única parte do corpo que ela admirava em si mesma, eram os seios.

- Se eu fosse mais magra... – ela falou, observando-se enquanto comprimia a barriga e empinava os seios.

Ah! Sim. Se ela fosse mais magra, com toda a certeza não seria a piada da escola, todos os garotos engoliriam cada ofensa falada anteriormente para que apenas pudessem ter a chance de sair com ela um dia. Ela sabia.

- Maldita gordura! Maldita comida! – Bufou quando parou de comprimir a barriga.

Jaqueline encarou o espelho novamente com seus olhos esverdeados, que puxara também do pai. Para que olhos tão bonitos? Para que eles serviam, se o importante era ser magra? Uma lágrima desceu pela bochecha rosada, aliviando a dor que o eco em sua cabeça causava; um eco onde todos gritavam com ela chamando-a de gorda. “Tão patética... Eu sou tão patética.” Outra lágrima escorreu dos seus olhos, e em seguida mais outra e, mais outra. Jaqueline se recolheu na posição fetal, as lágrimas agora caiam sem piedade pela face da menina.

- Estúpida! Eu sou uma estúpida... – Ela tentava secar as lágrimas, mas outras tornavam a cair.

Já havia feito um tempo, desde que ela pensara em se matar e livrar sua mãe de toda a vergonha que causava. Mas no fim, não conseguira e nem conseguiria... Porque no fundo ela sabia que era muito mais que uma gorda patética; no fundo ela também era uma covarde que era incapaz de por fim a própria vida.

- Desculpe por ser do jeito que eu sou.

O estômago dela se contraiu dolorido. Talvez isso tivesse ocorrendo por todo aquele chocolate que ela havia comido algumas horas atrás. Se não fosse tão gulosa, certamente não seria tão gorda... Oh! A quem ela queria enganar? Ela mesma era a culpada por ser tão patética, por ser tão gorda... Ela sabia disso, mas colocar a culpa em alguém era mais fácil de fazer e de se aceitar.

O abdômen dela se contraiu mais uma vez, a dor só passaria se ela colocasse tudo aquilo que ingerira para fora. E sem pensar duas vezes apanhou a própria escova de dente e induziu o vômito. Logo ela havia colocado tudo para fora, seu corpo estava começando a compreendê-la... Seu organismo parecia entender agora a necessidade que a garota tinha. O chocolate havia sido rejeitado pelo corpo. A garota sorriu satisfeita.

- Obrigada – ela agradeceu a sua mais nova “amiga” que, até então, não conhecia o nome, mas logo aprenderia que ela se chamava bulimia. “Mia” para os mais íntimos.