Distorcida
2 Início - ana II
Notas iniciais
Após ter escovado os dentes e feito um gargarejo com algum anti-séptico bucal para tirar aquele gosto insuportável de vômito da boca, entrou no chuveiro e finalmente tomou o seu banho. Por um instante ficou com os olhos fechados sentindo apenas a água cair sobre seu corpo. Ensaboou-se e lavou os fios dourados, em seguida enxaguou-se e terminou o banho passando o condicionador pós-banho que costumava usar. Jaqueline então se enrolou na toalha e retornou ao seu quarto. Preferia se arrumar lá. Passando pelo corredor, pode observar a bolsa de sua mãe sobre a mesa da sala.
- Mãe?
A garota chamou, mas não obteve resposta verbal. A mãe acenou para ela e apontou para o telefone em sua outra mão. Os gestos pediam para que esperasse, mas Jaqueline não queria esperá-la mais — como sempre fazia — e foi se vestir.
Entrou no quarto e trancou a porta, pois detestava que invadissem sua privacidade enquanto se vestia. Pra falar a verdade, ela sempre detestava quando invadiam sua privacidade de qualquer forma. A loura foi até o armário e escolheu uma roupa simples e confortável, vestiu-se. Apanhou um pente e começou a desembaraçar os fios.
- Jaque? – três batidas na porta.
- Já vou abrir mãe. – a menina levantou-se, mas a mãe a interrompeu do lado de fora.
- Não precisa filha. Tenho que resolver um problema e só devo voltar à noite. Esquenta qualquer coisa pra você jantar, ok?
- Mãe! – abriu a porta apressadamente, mas quando viu a porta da sala já havia batido.
Jaqueline apenas podia ouvir apenas o som dos saltos descendo as escadas ecoando através do corredor até o apartamento em que estava. A garota correu até a janela e pôde ver a mãe lá de cima. Ficou observando-a caminhar apressada até desaparecer de vez na esquina. Estava mais uma vez sozinha. Sempre sozinha. Suspirou desanimada caminhando em direção até a cozinha. Pegou todos os doces que havia lá; comeria até se acalmar... Até o vazio que ela sentia passar.
- Como se isso fosse possível.
Resmungou enquanto devorava uma fatia de torta alemã, mas antes de dar a segunda mordida lembrou-se do seu reflexo gordo no espelho e o pedaço que ela mal havia engolido pareceu inchar em sua garganta. Não conseguiria engoli-lo mais. Largou a torta sobre o balcão ao lado da pia na cozinha e correu para o banheiro. Emagreceria a qualquer custo. Não iria mais ser deixada de lado se ficasse perfeitamente magra, não é? Não seria deixada de lado nunca mais se estivesse dentro dos padrões, não é?
Um sorriso contornou seus lábios e ela repetiu o mesmo ato que havia feito com o chocolate, expulsando aquela gordura de seu organismo. Após terminar, sorriu mais uma vez, ouvindo o som da descarga levando tudo embora. Não comeria mais; e, se comesse, iria se livrar de tudo como havia feito agora e malharia como louca. Jaqueline Miranda Soares seria magra em breve, era uma promessa...
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