Distopia
1 Distopia - Capítulo único.
Notas iniciais
Distopia — Capítulo único.
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O paraíso não existe. E eu descobri isso da pior forma possível.
É estranho imaginar que justamente eu, Nathaniel Durkheim ¹, acreditava em utopias. Eu, que tanto presenciei o inferno na casa de meus pais ao ser abusado fisicamente por um demônio no qual eu tive que chamar de pai por muito tempo; além de sustentar o ego maldito da minha gêmea porque, mesmo sabendo que ela é extremamente egocêntrica, eu ainda me preocupava mais com ela que comigo. E minha mãe, então... Ela simplesmente só fechava os olhos para a situação e queria mostrar por aí as aparências de uma família perfeita.
Eu cheguei ao ápice de ter que apelar para um pedido de emancipação por não suportar mais minha vida detestável.
E mesmo assim, eu cheguei á crer que felicidade existe. Que utopias existem. Que o amor existe. Que o paraíso está presente em momentos...
Eu sou um grande imbecil. Tsc.
O problema é que a pessoa que me mostrou o paraíso é a mesma que o destruiu e deixou um inferno sem saída em meu peito.
Ah Castiel, se você soubesse a desordem que deixou em meu peito. A angústia que plantou no meu âmago... Se você soubesse...
E será que não sabe?
Hoje, neste maldito reencontro ao acaso, em uma esquina qualquer das ruas de Paris, eu esbarrei em você. Eu te vi depois de tanto tempo, depois de tantas lembranças construídas juntas e desmoronadas particularmente por cada um de nós. Eu te vi. E você me viu.
Talvez tenha sido apenas um esbarrão idiota em um passado não muito distante, no qual o destino fez questão de me relembrar, para me desatinar. Eu estou ficando maluco, Castiel. Agora que cheguei a casa, após este inconveniente reencontro, eu não consigo mais parar de pensar em você. Em nós. No que somos. No que fomos.
É idiota estar parado em frente a janela de vidro, observando a chuva cair lá fora. Eu sei que é. Eu sei o quão estúpido é se sentir como aquele céu acinzentado e desastroso que chora lá fora. Eu sei.
Mas eu sou idiota. Idiota por ainda lembrar-me de tudo. Por querer lembrar-me de tudo.
Lembrar-me da forma que você me beijou de súbito pela primeira vez. Da briga idiota devido ao beijo roubado, que resultou em outro beijo após nos aproximarmos tanto para brigar. Uma briga boba, que resultou em beijos cálidos.
Eu ainda lembro que você tentou argumentar que foi sem querer. Eu havia ficado tão surpreso, que só consegui abrir a boca para discutir minutos depois. E em seguida, outro beijo. E outro, e outro... Até que aquela rotina de beijos ás escondidas foi ficando insuportável para nossos corpos desejosos que queriam muito além. Muito além desse desejo fútil de beijos e abraços.
Meu corpo gritava pelo seu. E tenho certeza que era igualmente correspondido, quando você ia ás escondidas até a minha nova moradia, aproveitando-se do fato de eu morar sozinho para despir-me não apenas de minhas roupas.
Ah Castiel, você conseguia muito mais que isso. Você ia muito além. Você despia minha alma. E eu, ingênuo, deixava-me levar pelos encantos eróticos de suas mãos e seus sussurros desinibidos contra minha orelha. Minha boca correspondia á altura quando chamava seu nome enquanto minhas mãos eram preenchidas por seus cabelos falsamente rubros, te deixando louco. E era mais do que justo: você tirava minha razão, e eu te mostrava a minha insanidade.
Não eram apenas dois corpos unidos em pleno desejo e fogo da adolescência. Eram loucuras, incontinências e devassidão, unidas fortemente á um sentimento agudo no qual as pessoas costumam chamar comumente de amor.
Mas eu sempre achei a palavra amor fraca demais para definir o que fazíamos durante aquelas vastas e despudoradas noites. Era muito, muito mais que essa simples palavra tola.
Entretanto, assim como você me levava aos céus com daqueles abraços incontroláveis, você conseguiu me deixar aos pedaços no inferno de sua covardia.
Você foi um covarde, Castiel. Você é um covarde.
Você teve medo de assumir tudo. Medo do que iriam dizer, ou como iam te olhar. Medo dos julgamentos alheios. Medo da sociedade bizarra que nos obriga a seguir uma linha falsamente reta.
E eu deveria te odiar por isso. E eu não consigo.
Eu choro feito um idiota, tudo isso por conta de um simples esbarrão em uma esquina. Eu sou pior que a chuva lá fora.
Encolho meus ombros e suspiro. Nada disso deveria importar mais. Eu já não deveria ter superado? Foi apenas uma paixão de adolescente, dessas que qualquer pessoa vive durante sua vida colegial, não é? Então por que ainda dói tanto esse término fútil?
Dói te imaginar com aquela garota, mais uma vez, só para poder seguir o “padrão correto” que nos vomita regras dizendo que homens devem ficar com mulheres. Devem amar mulheres.
Será que ninguém percebe o quão absurdo é isso? O fato de uma sociedade querer nos ditar quem nós devemos amar?
Tsc... Eu sou mesmo um idiota.
Entretanto, não pense que eu não notei Castiel. Eu vi seus olhos fundos, seu sorriso extremamente surpreso a me ver, e sua expressão tão transparente diante de meus olhos dourados. Eu notei que não sou o único a manter olhos fundos de noites mal dormidas e pensamentos de passados irredutíveis. E é aqui que eu me pergunto: Será que você também sofre com essa separação?
Talvez sim. Talvez você sofra com o fato de viver uma mentira.
E é então que eu percebo, Castiel. Que as pessoas são como estradas: Algumas te levam ao paraíso, outras, á lugar nenhum. E eu me pergunto: Que tipo de estrada você foi na minha vida?
Enquanto penso nesta pergunta ridiculamente estranha, coloco mais café em minha xícara azulada, voltando para apreciar novamente a chuva e tentar inutilmente desviar o trilho de meus pensamentos que vão sempre até você.
Afinal, o paraíso não existe. Obrigado por me mostrar isso. Eu acho.
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