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●●●01


Passei parte da infância obcecado com a ideia de ter um cachorro. Meus amigos e vizinhos contavam suas aventuras ao lado de seus cães, e eu, como uma criança ávida por experiências, logo questionei meus pais sobre a possibilidade. A resposta foi imediata e clara: não. Sem chance de mudar de opinião, sem sequer um incentivo para manter aquele sonho que, com o tempo, acabei esquecendo.


Meu irmãozinho era asmático — o que dava certa razão à firme recusa dos meus pais — depois de tantas crises, compreendi que um cão poderia, de fato, causar transtornos à nossa família. Não pensei mais na improvável hipótese de cuidar de um cachorro. É claro que, aos dez anos, eu não pensava nas responsabilidades envolvidas nisso tudo. Saber que meu irmão poderia piorar apenas por causa do meu desejo egoísta me comoveu.


Quando, aos trinta e cinco anos, pedi a minha amada namorada em casamento, enfim, ouvi um “sim” como resposta. Fomos morar em uma casa no nordeste do Arizona. Uma residência simples no deserto alto, rústica e voltada ao visual tradicional. A cidade tinha poucas ruas principais e uma estrada estadual que cortava o centro — por onde passavam os mesmos rostos, pessoas que nasceram ali e, com toda certeza, ali morreriam. O horizonte era amplo e avermelhado, com as formações rochosas que recortavam o céu azulado. Comunidades Navajo rodeavam nossa casa, com seus moradores discretos, firmes em seus modos e tradições, tribos que guardavam os segredos de seu povo.


Eu, como um homem caseiro, amava o ar seco da região, o calor dos dias e o frio das noites. A imagem do céu noturno salpicado de estrelas, o cheiro da terra depois da chuva escassa, o som do vento serpenteando entre os monólitos de arenito... Tudo me soava aconchegante e perfeitamente adequado à minha natureza. Mas, para ela, um casebre no meio do deserto não bastava. Apreciava nossa casa e gostava da vizinhança. Os Navajo, sempre se mostraram respeitosos conosco, e seus costumes não me incomodavam. Tinha até mesmo certa admiração por aquele povo, sua cultura — habilidade com a tecelagem, com a criação de ovelhas, com os rituais de cura e respeito à terra. Existia um apreço sincero, sempre gostei de suas histórias ao redor do fogo e dos pequenos mercados de artesanato. Quando passavam montados em seus cavalos ou antigas caminhonetes, cedia um cumprimento sorridente.


A carta de divórcio chegou como um peso esmagador, destruindo todas as expectativas de vida que eu ainda ousava manter. Depois de quase dois anos vivendo como marido e mulher, entramos em um conflito um para com o outro. Como todo casal, brigávamos — só não percebi que aquilo havia se tornado parte da nossa rotina. Achei normal. Uma noite no sofá, uma semana sem sexo e, depois, a volta ao cotidiano. Mas não era assim que as coisas funcionavam. Ela foi embora. Levou meus sonhos com ela, nosso “felizes para sempre”. Tudo acabou. E eu mal percebi como aconteceu.



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●●●02


Havia chegado mais cedo do trabalho, numa tarde de outono, aonde o sopro seco sussurrava segredos entre as pedras do deserto. O ar exalava poeira dentre o cedro de galhos rígidos e contorcidos. Depois de um dia analisando lotes de compra e venda, tudo o que eu mais queria era afundar meus pensamentos em um travesseiro.


Quando desci do carro, tive um vislumbre dos meus vizinhos — três das crianças da família Navajo que morava na propriedade ao lado. Aqueles pequenos corriam aos risos, descalços, não pareciam se incomodar com o calor da terra batida. O mais velho devia ter oito ou nove anos. Todos transpareciam a inocência da pouca idade. O pai, apartava um rebanhos ao pastoreio. Lançou um cumprimento a mim, atribuido de mesma forma.


“Crianças”, pensei, com um sorriso breve, vendo-os desaparecer da vista. Tive uma sensação boa, revivendo meus próprios momentos de liberdade, sentindo o solo quente sob os pés. Agora essa época já passara, e o que restou disso não se destacava entre meu martírio.


Entrei em casa com o mesmo ar fúnebre de sempre. O interior parecia tão escuro e sem vida. A mobília, antes cuidada com a madeira bem conservada, agora era deixada às custas do tempo e do pó. Os retratos de nós dois juntos haviam sido retirados do lugar de antes. Ainda não estava acostumado com a solidão. Esperava — ao abrir a porta — ouvir a voz que tanto amei me recebendo. Minha esposa.


Troquei a roupa do trabalho e não apenas lavei a sujeira do corpo, mas também, por algum instante, as mágoas. Depois do banho, vesti um pijama leve — tudo com a intenção de me sentir o mais à vontade possível. Liguei a TV. Estava passando o jogo — 13 à 23, dizia o placar. Meu time vencia, mas com isso mão senti nada. Aproveitei o ar noturno. Tomando de uma lata de cerveja, comendo um salada de tomates, molhados ao azeite — sempre amei tomates.


As horas da noite se seguiram comigo no sofá, comi, bebi. Apenas descansando.


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●●●03


Quando acordei, deparei-me com uma madrugada tomada pelo silêncio. Apenas o som da TV ecoava pelas paredes da casa — um filme tão antigo que as imagens se desfaziam em preto e branco. A lata de cerveja escorregou da minha mão e caiu no chão, entoando o barulho oco do alumínio contra o piso de madeira.


O que realmente chamou minha atenção foi o som que me despertara. Um ruído de movimentação. A princípio, pensei ter imaginado. Talvez fosse a televisão. Talvez fosse só o vento, que por vezes geme entre as frestas da janela. Mas o som veio outra vez — mais próximo,

mais real.


Levei-me à suposição de que fossem as crianças do vizinho, aquele rancheiro navajo que vi mais cedo cuidando das cabras. Talvez estivessem pulando o cercado do meu quintal e entrando no terreno para brincar. Ou quisessem me assustar com alguma travessura. Já havia encontrado antes pequenas pegadas marcadas na terra vermelha. Nem considerei o fato de ser madrugada — tinha certeza de que aqueles moleques queriam apenas me encher o saco.


Levantei do sofá com certo receio, como se algo dentro de mim já soubesse que aquela noite não seria como as outras. Meus passos foram mansos, e minha mente, turva pelo sono. Abri a porta dos fundos e encarei o breu seco do quintal. A lâmpada amarela sobre a varanda tremeluzia, ameaçando se apagar a cada rajada de vento que vinha do sul.


O som que alcançou meus ouvidos foi o da noite tomando forma em melodias esquecidas — o canto abafado dos insetos do deserto, o pio distante das cigarras, o farfalhar das folhas secas das poucas árvores do quintal. Uma sinfonia de silêncio cortado por respirações da terra antiga. A brisa carregava o frio da altitude e um cheiro metálico que não consegui identificar.


- Quem está aí? — resmunguei para a escuridão, recebendo apenas o silêncio como resposta. — Quem está aí?! — repeti. Novamente, nada.


Minha visão alcançava um pouco além do cercado de arame farpado, onde o terreno se desfazia em pedras e cactos esparsos. A luz pálida do luar revelou os contornos das formações rochosas que margeavam o fundo da propriedade — silhuetas erguidas como sentinelas ancestrais. Já estava prestes a desistir e voltar para dentro quando ouvi novamente o barulho.


Passos.


O som estalando pelo solo pedregoso, movendo-se entre arbustos de creosoto com uma leveza anormal. Uma sombra percorreu a borda das pedras — uma silhueta diferente: alta, magra, rápida. Não consegui distinguir o que era, ou quem era. Mas quando percebi, já havia desaparecido, deixando para trás apenas seu espectro arrepiante... e o som de seus passos, que pareciam continuar mesmo na ausência da figura. Ruídos no meio do deserto.


Entrei novamente em casa, assustado. Não conseguia entender o que acabara de ver, mas sabia que não era algo comum. Meu coração batia acelerado, acompanhado por todas as vozes em minha mente, sussurrando possibilidades para aquela situação

tão inusitada.


Fechei a porta dos fundos e, de forma instintiva, a tranquei. Verifiquei todas as janelas e portas da casa, certificando-me de que estivessem bem travadas. Depois disso, sentei-me, tentando organizar os pensamentos, alinhavar as teorias que meu medo insistia em alimentar.


Após algum tempo, decidi que o melhor seria tentar dormir. Entrei no quarto, trancando a porta — e me deitei de bruços, com o travesseiro sobre a cabeça. Pensando. Refletindo.


O medo invadia minha mente.

A sensação de não estar seguro.

De estar sendo observado.


Não consegui dormir em momento algum. E quando o dia amanheceu, ainda estava deitado, preso à mesma inquietação.


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●●●04


No dia seguinte, a imagem da "coisa" ainda era nítida em minha mente. Embora tentasse seguir com o trabalho, uma sensação incômoda me acompanhava. A cada movimento, uma presença invisível parecia me observar, seus olhos me seguindo, me estudando. Aterrorizado, tentava me convencer de que era só um reflexo de minha mente cansada. Mas, mesmo assim, a sensação de ser vigiado não desaparecia. Era como se o espaço ao meu redor estivesse, de alguma forma, distorcido, pesado demais para ser real.


Eu, que sempre havia buscado explicações lógicas para tudo, agora me via preso em uma teia de incertezas. Racionalmente, sabia que a noite anterior fora apenas um delírio, um produto do cansaço, do álcool, da sobrecarga do trabalho. Mas algo dentro de mim se recusava a aceitar essa explicação. A lógica, que sempre havia sido meu refúgio, parecia agora frágil e insuficiente, como se o mundo que eu conhecia começasse a se desintegrar sob o peso de um pesadelo que se recusava a desaparecer.


"Aquela sensação de ser estudado, vigiado".


Na tentativa de afastar o medo, concentrei-me no que fosse racional: o desgaste físico, a bebida, o sono insuficiente. Mas, por mais que tentasse, a sensação persistia. Era como se algo — ou alguém — estivesse ali, invisível, esperando para se revelar. Como se meus próprios olhos não pudessem confiar em tudo o que viam, como se o simples fato de olhar para o vazio fosse suficiente para tornar aquele medo concreto. O mais estranho era a certeza de que os olhos da "coisa" estavam ali, me observando, mesmo que eu não pudesse vê-los.


E foi quando ela apareceu. Como um raio de sol rompendo o nevoeiro. Bela, como sempre. Desde o início da empresa, eu notava aquela doçura em seu olhar — mesmo nos dias em que minha aliança ainda pesava no dedo, já a notava. Nunca passamos de cumprimentos curtos, cordiais. Mas naquela manhã, ela parou em frente à minha mesa, sorrindo, com um copo de café na mão e um olhar curioso.


- Você parece exausto — disse com um meio sorriso, como se já soubesse a resposta.


- Noite ruim — murmurei, tentando parecer mais leve do que me sentia. — Acho que o sofá venceu de novo... ou algo mais.


Ela riu baixo, um som breve e sincero.


- Sei como é. Meu gato decidiu que minha cabeça era um travesseiro essa noite. Acordei com o focinho dele grudado no meu nariz.


Sorri pela primeira vez em horas. Mas a náusea sobressaiu-se sobre mim, elevando o arrepio nos pelos da nuca, a ânsia no estômago. Olhos que me vigiam.


- Parece uma forma carinhosa de sufocar alguém — disse tentando esconder a tormenta interior.


- Ele aprendeu com a dona — brincou, dando um gole no café. — Bom, espero que hoje a cama ganhe.


- Espero também. E boa sorte com o gato.


Ela piscou e se afastou. Por um instante, o peso da noite anterior pareceu um pouco mais suportável. Os murmúrios rodeando meus pensamentos suavisaram em sua breve, mas memorável passagem. O restante do meu dia, se resumiu a sua presença, olhando-a de canto de olho, procurando palavras para próxima conversa — não estava mais casado, e talvez não precisasse mais estar só.


Mas não sentia-me só. Aquela sombra ainda me rondava.


Durante o sono daquela noite, murmúrios vieram me assombrar, como se já não bastassem durante o dia — Uma aranha, negra, grande, antiga. Andava sobre suas oito pernas, guiando algo, alguém, pelo deserto vermelho. Era ela, a avó aranha, mostrando o caminho para o próximo passo. Acordei sem entender o sonho.


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●●●05


Voltei pra casa mais tarde que o normal. A estrada parecia mais longa naquela noite. Os espinhaços à margem da rodovia, antes tão familiares, agora se encurvavam sobre o asfalto como sombras prestes a engolir qualquer sinal de vida. Era como se o tempo tivesse parado para observar minha passagem solitária.


Estacionei o carro de frente à varanda. Escutei o barulho ao lado, meus vizinhos celebrando algo, juntos, e felizes, soando como risadas — invejei tal alegria — O som dos insetos era abafado, e mesmo o vento parecia ter desaparecido. Tudo estava quieto demais.


Assim que abri a porta, senti o ar frio me envolver. E não era só o ar noturno do Arizona — havia algo diferente, algo que parecia ter permanecido dentro da casa o dia todo, esperando meu retorno. O tipo de silêncio que pesa nos ombros e aperta o peito. A casa estava fria, contradizendo o calor do dia inteiro. Fria, com o ar parado e pesado. Um cheiro estranho, de algo morto, podre. Era fraco, mas obstante para me incomodar. Resolvi tirar o lixo para fora, e mesmo depois disso, o cheiro permanecia. Podridão. Vinha do lado de fora, do meu quintal, um bicho morto provavelmente... ou talvez não.


Joguei a chave sobre a mesinha de entrada e, antes mesmo de tirar os sapatos, fui até os fundos. Tranquei a porta. Duas vezes. E puxei as cortinas. Não sei bem por quê. Só sentia que precisava fazer isso. Me sentei na beirada do sofá, mas não liguei a TV. Apenas fiquei ali, escutando. Esperando, talvez. O som da minha respiração era o único ruído. A "coisa" não voltara — ou talvez tivesse voltado e agora apenas esperasse, em silêncio, pela hora certa.


Pensei na colega do trabalho. No sorriso dela. Na forma como o mundo pareceu menos horrível por cinco minutos. Foi quando me dei conta de como o contato humano se tornara raro. E, pior, o quanto eu havia me acomodado nessa escassez.


Me levantei e fui até a estante. Havia um porta-retrato virado para baixo ali, esquecido entre livros e pilhas de contas. Peguei-o com uma hesitação quase infantil, como se temesse reabrir uma ferida que, no fundo, nunca cicatrizou. Era uma foto nossa. Minha ex-mulher e eu, sorrindo diante do lago, em uma manhã de verão. A luz era perfeita. Nossos olhos brilhavam. Por um instante, quase pude acreditar que aquilo ainda era real. Em seu armário, as roupas formavam paletas coloridas sobre os cabides. Passei as mãos sobre cada peça de roupa, pensando em como ela as vestia bem.


Lembrei-me de tantas discussões. Quando ela mostrava-se insatisfeita pela vida como dona de casa. Quando eu cobrava os afazeres domésticos, me via na razão, mas assim que levantei as mãos contra ela, o rumo das coisas foi diferente. Minhas crises de ciúmes já não pareciam fazer tanto sentido, e então, ela disse que iria embora. E foi — ou não, talvez não.


Mas a verdade é que tudo o que restava eram lembranças dos sons de passos invisíveis na mata, agora com o aroma da morte exalando seu fedor.

Porém, durante toda a noite, nada de incomum aconteceu, os ecos que a noite entoava eram os sons da natureza — uma música distante, tocando o batuque de tambores e melodias antigas. Os tribais reuniam-se entorno da fogueira, cultuando seus rituais aos ares.


Aquela noite, com alguma dificuldade, consegui enfim dormir bem, lutando contra o ar gelado da casa envolvido em cobertores. Ainda assim, não me via como completamente seguro. Sentia que, ele ainda estava a espreita.


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●●●06


Semanas se passaram desde aquela noite em que vi a, "coisa". Aos poucos, o medo opressivo foi se dissipando, diluído pela rotina e pela lógica confortável que minha mente insistia em resgatar. Acabei aceitando que tudo não passou de uma ilusão — um delírio provocado pela exaustão, pelo isolamento, pelas madrugadas vazias demais.


Li o jornal, as notícias regionais, procurando desviar os pensamentos. Catálogo 13, 23. Categoria de culinária. Receitas com tomates. Nada interessante.


Mas, mesmo assim, algo permaneceu. Um resquício daquela presença. Os mesmos olhos que pareciam me seguir durante o dia, me fitar no escuro do quarto, me sondar nos momentos de silêncio. Estranhamente, fui me acostumando com isso. Como quem se habitua a uma dor crônica, que não some, mas se torna parte da existência. Mesmo depois de limpar o terreno e procurar sua origem, a pestilência não mudou em nada. Um fedor que vinha da mata, e quando o vento batia, chegava até meu terreno. Mas também aprendi a lidar com isso.


No trabalho, as coisas também começaram a melhorar. Recebi uma promoção — algo pequeno, mas suficiente para me devolver um pouco da autoestima perdida. Ganhei o título de funcionário do mês, com direito a um retrato sem graça no mural da empresa. Meus colegas comentaram, mas o que realmente me marcou foi o olhar dela. A colega do café, agora com nome e voz frequentes no meu cotidiano.


Depois dos parabéns, nossas conversas passaram a durar mais do que alguns segundos. Começaram com piadas rápidas, depois vieram histórias do dia a dia, confidências leves. Era sutil, mas estava ali — um interesse que eu me forçava a acreditar. Criei expectativas, é claro. Pequenas fantasias de jantares caseiros e risos compartilhados, como se, enfim, um novo capítulo estivesse prestes a começar. Como se fosse possível, depois de tanto tempo, deixar a solidão para trás.


Mas não estava sozinho, os olhos eram minha companhia.


O frio tomava meu quarto, e tremendo entre os cobertores, encontrei uma forma através do sono.


Um coiote, sentado sobre um pedra branca, me olhava com olhos sábios. E queria pergunta-lhe algo cujo não conseguia dizer, quando ele soltou um uivo ao céu mergulhado em negro. O som porém, soou como uma melodia tocada

a flauta.


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●●●07


Fui até o mercado da cidade no fim da tarde. A luz do sol, dourada e oblíqua, pintava as fachadas antigas com tons de ferrugem e laranja queimado. O mercado ficava no centro, uma construção de concreto cru, mas com uma estranha vitalidade, como se fosse o único ponto de encontro legítimo entre todos os mundos que dividiam aquele pedaço esquecido do Arizona.


Entrei com uma pequena lista em mãos — pão, leite, ovos, café, tomates — e a intenção de voltar logo. As ruas estavam movimentadas, a feira do mês fora organizada entre os quarteirões, com tendas que anunciavam suas especiarias, seus produtos e mercadorias. Os Navajo estendendo tapeçarias tão belas, tão detalhadas e acabadas. Dentre essas, uma que me chamou atenção — um coiote, humanoide, tocava

uma flauta.


Pessoas iam e vinham, o barulho de inúmeras vozes conversando, negociando. Tentavam me levar a comprar seus produtos, utensílios e além. Acabei comprando um número

de rifa.


Senti-me desconfortável, um tanto inseguro talvez, esbarrando entre as pessoas até alcançar meu carro que parecia muito mais distante do que eu estacionara. Entre tanta gente, os olhos se esgueiravam de forma traiçoeira. Um arrepio sobre a espinha, como se a qualquer momento, novamente a sombra fosse mostrar sua face.


Mas, quando a encherguei entre a multidão, um raio de sol pareceu me iluminar, espairecendo minha mente perturbada — minha querida amiga do trabalho, convidando as pessoas para sua causa, ali, em meio a feira.


Decidi que iria até ela, trocar uma ou duas palavras fora da área de trabalho, isso seria um avanço entre nós dois. E mesmo com medo, inseguro e tomado pela timidez, fui até ela — de ombros encolhidos e cabeça baixa — ao me ver, pareceu contente.


- Que alegria ver você aqui — disse com sua doce voz — venha conhecer nossa campanha.


Me guiou até onde estavam as gaiolas.


- Cães? — perguntei, esboçando um sorriso — não sabia que gostava de animais.


- Esses estão na fila de adoção... mas o tempo deles está acabando — sua voz perdeu um pouco do brilho, em seus olhos havia alguma tristeza.


Olhei para dentro das jaulas. Cada focinho parecia carregar uma história quebrada. Havia um pequeno, coberto de pelos sujos e embaraçados, que tremia sem parar. Outro, magro demais, exibia as costelas como se a fome tivesse o esculpido. Um terceiro, de olhar fixo e focinho longo, apenas me encarava, chorando baixinho. Todos pareciam... contidos, como se esperassem seu julgamento.


- O que acha de levar um para casa? — ela perguntou, com uma leve inclinação da cabeça.


Hesitei. O calor do fim de tarde parecia ter se condensado dentro de mim. Um cachorro? Perguntei a mim mesmo. A lembrança de um sonho passado se reviveu entre meus pensamentos. Sempre quis um cão, parte da minha infância se resumiu nisso, mas depois de tanto tempo, um cachorro entrava como o menor dos meus desejos.


- Talvez... — respondi, embora não soubesse exatamente a quem. A ela? Aos cães? Aos olhos invisíveis que, mesmo ali, eu ainda sentia cravados em minha nuca? Se negasse a proposta, poderia destruir toda minha imagem de bom moço. Tudo o que construí até então, poderia ter sido em vão — Teria algum não tão novo, não tão velho?


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●●●08


Quando cheguei em casa, me perguntei até que ponto a busca por aceitação, por amor, me levaria. Quais decisões eu tomaria, movido pelos temores de ficar sozinho. Ali, no silêncio da cozinha, enquanto guardava as compras nos armários, me senti desamparado, realmente só, deixado a qualquer custo. Mas não, não estava sozinho. Ele estava ali, sentado sobre o tapete da sala, me olhando com desconfiança. Depois de farejar cada canto da casa, como um explorador incansável, decidiu que esperaria pelo meu próximo movimento. E eu também aguardava, em silêncio.


- Será que é tão difícil assim? — perguntei ao cachorro, mas, claro, ele não respondeu.


Deu alguns passos em minha direção, farejando meus pés. Sua respiração pesada e seu nariz ágil não passavam despercebidos. Era grande, um cão imenso, quase como um lobo, mas com a cara de um bobo, não de uma fera. Forte e ao mesmo tempo gordo. O pelo, espesso e negro como a noite, os olhos atrevidos, mas ao mesmo tempo dóceis, que, mais cedo, conquistaram minha dúvida sobre a adoção. Não tinha raça definida, mas eu conseguia imaginar as raízes de seus ancestrais. Um cão que eu teria amado ter quando garoto — embora nunca fosse muito exigente com isso. E agora, pensei, não teria sido uma má ideia trazê-lo para casa.


- Vem — chamei, colocando o pote e a ração no chão.


Recebi um kit de cuidados ao adotá-lo — saco de ração, pote d'água, e uma coleira vermelha, digna de um nome. Huck. Ao ler o nome na identificação, sorri. Um nome simples, mas com peso. "Huck", em homenagem ao meu velho amigo de infância, que me levou a aventuras entre páginas, Huckleberry Finn. Algo nele me dizia que esse nome combinava com seu jeitão de malandro. Minha amiga me disse que ele tinha sido de rua por muito tempo, abandonado ainda filhote. "mas agora tem uma casa", ela disse, mais para mim do que para ele. Huck continuou a comer sem se preocupar com mais nada.


Um bom menino, não é? — falei, acariciando sua cabeça. Passei minhas mãos pelo seu pelo macio, de um toque surpreendente, como se fosse mais um sonho que se concretizava.


Huck parecia se adaptar rapidamente. Até agora, não havia rosnado ou mostrado qualquer desconfiança pela casa. Parecia até grato. Ele me olhava de uma maneira que só um cão poderia olhar — um olhar de total

lealdade e afeto.


O que vamos fazer agora? — perguntei, falando com a voz suave, como se conversasse com uma criança. Huck abanou o rabo como resposta, latindo de felicidade.


Em um impulso, peguei a bolinha de borracha e a lancei pelo cômodo, até a sala de estar. Huck disparou em minha direção, correndo com a graciosidade de um atleta, mas também com o desajeito de um cachorro grande demais para a velocidade que tentava alcançar. Ele escorregou no piso, suas garras riscando a madeira. Latiu, arfando, até pegar a bolinha e trazê-la de volta. Colocou-a em minhas mãos, molhada de saliva. "Um sonho de infância tornado realidade."


Agora, podia dizer que não estava sozinho. Mas, no fundo, ainda havia algo que me incomodava. Algo estava errado.


Não sabia aonde estava, mas ali me encontrei, rodeado por paredes enegrecidas pelo tempo. Colunas com rostos, diferentes faces, máscaras. Acordei assustado, Huck me encarando, alerta.


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●●●09


Com o tempo, aprendi a cuidar de Huck. Nossa rotina foi se tornando mais natural. Ele adorava brincar pela manhã, cochilar à tarde, e depois se agitava de novo no final da tarde, antes de cair no sono pesado à noite. Tentávamos manter hábitos saudáveis, saindo para passeios sempre que podia, dedicando a ele o pouco tempo livre que eu tinha.


Huck parecia se adaptar bem, e nosso laço ficou mais forte a cada dia. Como se, de repente, minha vida estivesse voltada para ele, e a vida dele fosse inteiramente dedicada a mim. Pela primeira vez em muito tempo, encontrei algo que se assemelhava à felicidade. Quando voltava do trabalho, cansado e mergulhado no desânimo, já não encontrava um lugar frio e vazio. Em vez disso, era recebido por latidos animados, amor expresso em mordidinhas carinhosas.


13 e 23, era esse o número da rifa que havia perdido — uma decepção despercebida por tantos momentos passados ao lado dele.


Descobri que adorava cócegas na barriga. Ficava feliz ao perseguir a bolinha, e gostava de deitar na minha cama, sempre junto. Amava comer quase tudo o que eu estivesse comendo, embora insistisse sempre na ração. E odiava tudo que fosse de leguminosas, verduras ou frutas. Uma ou outra comia, porém, os tomates eram seus verdadeiros inimigos. As vezes, o dava um pedaço, mas ele logo se retraia e jogava longe a fruta com o focinho.


Mas nem tudo estava bem. A sensação que me perseguia nunca me abandonou. O frio da casa, o fedor no ar, os olhos que pareciam me seguir, me investigar. Já faziam parte do meu cotidiano, mas continuavam a me incomodar.


Huck, meu fiel guardião, estava sempre à minha disposição. Dormia no pé da cama, me protegendo contra os terrores da noite. Mas até ele parecia atormentado pela mesma sombra invisível que me perseguiam. De vez em quando, olhava para a escuridão da mata, ganindo ou choramingando. Quando seus olhos se fixavam em algo invisível, parecia enxergar o que eu não via. Quando farejava um odor estranho, repulsivo até para ele, olhava para mim com uma expressão de alerta, como se quisesse me avisar de algo que eu não conseguia compreender.


Os vizinhos navajos começaram a aparecer com mais frequência. Eles gostavam de Huck, sempre o acariciando seu pelo e brincando com ele. As crianças adoravam passar o tempo com ele, muitas vezes tomando o meu lugar nas brincadeiras.


O rancheiro me ensinou técnicas de seu povo para manter Huck como um bom cão de guarda. Até me passou uma receita de chá com ervas locais, algo que ele jurava ajudar na saúde do cão. Perguntei sobre o cheiro que envolvia minha casa, se isso alcançava o terreno dele, ou se talvez tivesse algo para resolver. Mas ele não quis aprofundar-se no assunto.


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●●●10


Ela trouxe um café extra naquela manhã, no serviço.


- Achei que você pudesse estar precisando — ela disse, deixando o copo de papel ao lado do meu teclado.


Não era nada demais. Um gesto comum, desses que as pessoas fazem quando estão de bom humor. Mas eu estava carente, e quando a alma está seca, qualquer gota parece o dilúvio.


- Obrigado. — Minha voz saiu mais rouca do que eu gostaria.


Ela sorriu. Um sorriso sincero, aberto. Raramente sorria assim no final. Sempre perguntava de Huck, se estava bem, se conseguia dormir tranquilamente a noite. Ele se tornara um assunto constante durante nossas conversas. E eu disse que adotá-lo, havia sido o melhor que eu poderia ter feito. Amava aquele cão.


Ao longo da semana, ela se sentou perto de mim duas vezes no intervalo. Perguntou onde eu morava. Comentou que também odiava o vento cortante do deserto à noite. Riu quando eu reclamei do barulho do gerador na base. Toquei seu ombro uma vez. Por acaso, talvez. Ela recuou. Mas eu quis acreditar

que não.


Na sexta-feira à noite, o refeitório estava quase vazio. A maioria já tinha voltado para os alojamentos. Ela estava de pé, segurando a bandeja, procurando uma mesa. Eu levantei a mão.


- Quer sentar aqui?


Ela hesitou por um segundo. Só um segundo. Mas eu vi. Mesmo assim, ela veio.


Comemos em silêncio por um tempo, depois comecei a falar — sem muito controle, na verdade. Contei do meu divórcio, da casa vazia, da dificuldade de dormir. Ela me ouviu. Não falou muito. Só olhou.


- Às vezes eu fico pensando — disse por fim — que você é a única pessoa aqui que... entende.


Ela franziu a testa, como quem pisa em falso.


- Entende o quê?


- A solidão. O peso. — Eu estava me inclinando na direção dela, talvez demais. — Você me faz sentir... menos estranho.


Houve uma pausa. Depois, o toque delicado da realidade voltando com força.


- Eu gosto muito de você, mesmo. Mas como colega. E... eu espero que não esteja entendendo as coisas de outro jeito.


Meu corpo congelou, mas o sangue não. Ele correu quente, rápido, direto para o estômago.


- Ah. Claro. — Sorri. — Eu só estava desabafando.


Ela se desculpou com os olhos, mas não com palavras. Pegou a bandeja, disse algo educado e saiu.


Mais tarde, já em casa, fiquei deitado de olhos abertos por horas. A respiração da criatura no deserto parecia ecoar dentro de mim. Rítmica. Certa. Quente. Seus olhos me virando de dentro a fora. Huck chorava baixinho ao meu lado, na cama.


"Ela também era uma delas", pensei.


Qualquer mulher que sorrisse mais do que devia. Todas iguais, no fim. Oferecem calor só até você esticar a mão. Depois puxam de volta e fingem que foi você quem entendeu errado. Minha ex-mulher, seu rosto chegou a mim como um rompante. Também havia ido embora, depois de descobrir que eu realmente era, talvez eu fosse o problema.


"Ela foi embora, eu levei ela embora"


A imagem dela rindo com o cara novo do time técnico me veio como uma punhalada. A mesma risada que eu achei que era minha. Sentia um misto de emoções : ódio, raiva, repulsa, nojo.


"Falsidade é uma linguagem antiga. Mas agora eu entendo. Agora eu falo também."


Fechei os olhos e vi a criatura do deserto se aproximando. Uma sombra magra, alta, sua face, escurecida pelo breu da noite. Huck fungou, rosnou, e chorou.


Pela primeira vez, não tive medo.


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●●●11


Era um dia sombrio. O suficiente pra roubar o ânimo de respirar.

Fiquei ali, afundado no sofá, sentindo o suor escorrer pela nuca, frio, enquanto o tempo se arrastava como um animal ferido. E foi nesse torpor que algo começou a se dissolver dentro de mim — uma clareza incômoda, um lampejo de realidade. Minha vida, minhas fantasias, minhas certezas... tudo soava falso. Uma peça mal ensaiada. Ilusão.


Huck arranhava a porta com insistência, suas garras riscando a madeira como se quisessem me lembrar de que o mundo ainda existia lá fora. Ele queria sair. Sentir o cheiro do vento, explorar a rua, talvez se embrenhar na borda da mata como fazia às vezes. Eu, no entanto, não tinha essa coragem. Mal conseguia me mover — quanto mais encarar o sol, ou o que quer que estivesse à espreita do outro lado da cerca.


- Quieto — murmurei, sem nenhuma convicção.


Bufei ao me erguer, surpreso por ainda conseguir mover o corpo depois de tanto tempo jogado ali. Abri a porta e deixei que ele saísse. Só pelo quintal, talvez uma volta rápida na rua. Achei que voltaria logo.


Voltei pra dentro. Afundei-me de novo nos meus pensamentos — esses labirintos sem saída que percorro dia após dia. As horas escorreram lentas, pesadas. O calor não cedia. E Huck… não voltou.


Foi aí que a inquietação começou a se instalar. Devagar, como uma sombra entrando por baixo da porta.

Aonde ele teria ido? Por que estava demorando tanto?


Olhei pela janela. Tudo parecia igual. Mas havia algo no ar — um silêncio espesso, anormal, como se o próprio deserto estivesse prendendo a respiração.


- Huck? — chamei, esperando vê-lo surgir da mata, com a língua de fora e o rabo abanando. — Huck?


Nada. Nenhuma resposta. Só o som abafado do vento. E o medo… ele veio rastejando.


Eu deveria ter ido com ele. Deixei que fosse sozinho, como se fosse só um cachorro, como se sua vida fosse menos importante que meu torpor. A culpa pesou. Pensei na ingenuidade dele, no quanto confiava em mim. Meu bom cachorro.


Saí pela rua, chamando, gritando seu nome. Procurava seu pelo negro em meio ao vermelho do entardecer. Mas ele não voltou — nem quando o sol sumiu.


E eu fiquei ali, com a mesma solidão de sempre… mas agora sem Huck. Talvez eu não o merecesse. Tudo o que restou foram os olhos. Aqueles que sempre me observavam. A presença.


Ela nunca me deixou. Persistente, silenciosa. Seu cheiro, seu frio, grudados em mim como sombra. No trabalho, evitava encontrá-la. Quando nos cruzávamos nos corredores, fingia não ver. Mas eu via. E, às vezes, antes de dormir, murmurava seu nome como se fosse uma oração. Como já fiz uma vez com minha esposa — ex-esposa. Teria sido esse meu erro? Seriam os olhos que me vigiavam um castigo pelos meus pecados? Talvez. Talvez não.


O fato é que, naquele mesmo dia, reencontrei a que antes foi só uma “colega de trabalho”. Os vermelho dos tomates manchou sua roupa, tal como uma vez manchou as de minha esposa.

E depois, voltei pra casa.


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●●●12


Eu já não entendia mais a razão de tanto sofrimento. Tanta dor, tanta solidão.

Ver a bolinha de Huck jogada num canto da sala me rasgava por dentro.

A faca sobre a mesa, ainda suja do sumo dos tomates, me trouxe de volta a pequenas lembranças — memórias que se agarravam com unhas e dentes ao que restava de mim.


Quantas vezes tentei fazer Huck comer tomates? Ele odiava. E era engraçado quando esfregava a fruta no focinho e latia, indignado, como se eu tivesse cometido um crime. Agora, não podia mais rir disso.


O cheiro no quintal se tornara insuportável. Um fedor ácido, podre, pairando no ar como uma maldição antiga. Tentei entender de onde vinha — e percebi que não conseguiria mais me acostumar com aquilo. Mas, curiosamente, não senti medo. Tudo era fruto de meus pecados.


Os sonhos haviam parado. Não me levavam mais para lugares estranhos, nem para visões aterradoras. E foi aí que compreendi: eu só estava existindo. Vivendo por inércia.


Procurei ajuda entre meus vizinhos Navajo. Perguntei sobre Huck — se o tinham visto, se ele havia passado por ali. Mas não recebi respostas. Apenas olhares duros, distantes. Não eram mais os mesmos que me ofereciam chá quente, histórias e sorrisos de fim de tarde. Agora, estavam mudos.

Até as crianças haviam sumido.

Antes, costumavam passar pelo meu terreno, brincar com Huck, me fazer perguntas curiosas. Agora, silêncio.


Foi numa dessas tardes áridas que encontrei um deles. Um dos pequenos. Sentado na sombra do meu cercado.

Era o mais velho dos filhos do rancheiro. Estava sozinho, e havia algo quebrado nele.


Aproximei-me devagar, com cuidado.


Estava sem camisa. O corpo magro, castigado pelo sol. Os cabelos escuros presos em fitas coloridas. Os pés descalços, um deles sangrando — pisava numa poça onde os tomates se espatifaram, vermelhos demais.


- Tudo bem? — perguntei, me abaixando ao lado dele.


Ele tentou se levantar, mas o ferimento o impedia. Me ajoelhei, estendi a mão.

- Você se machucou? Pisou em algum espinho?


O menino não respondeu de imediato. Seus olhos me encaravam com um tipo de receio que doía.


- Onde estão seus irmãozinhos? Foram buscar ajuda?


Ele baixou os olhos. Depois, murmurou:


- Ele está mal, sabia?


- Quem? — perguntei, já sabendo a resposta.


- Ele te amava. Gostava quando você fazia carinho, gostava de brincar… Mas aquilo o levou... Sempre se disfarça, se esconde em outras peles, para vigiar, roubar o lugar.


- Do que fala? — disse assustado, confuso.


- Troca peles... Quer trazer dor, observar... é um coiote, ou um lobo, ou um pássaros... um cão...


A voz do menino saiu baixa, carregada de verdade. Daquela que fere.

Meu coração apertou. Tive vontade de perguntar mais. Mas fiquei mudo, como se minhas palavras estivessem soterradas sob todo aquele silêncio vermelho.


- Huck — sussurrei em um vazio profundo.


Não consegui dizer muito mais a ele. Apenas o envolvi com cuidado nos braços e o levei até sua casa. O menino não resistiu. Estava exausto, ferido — e talvez com medo, mas não de mim.


Chegando lá, o pai dele abriu a porta antes mesmo que eu pudesse chamar.

Me olhou como se já soubesse.

Como se me esperasse.


Sem dizer palavra, arrancou o filho dos meus braços com um gesto seco, quase violento, como se estivesse salvando-o de alguma criatura. Seus olhos me atravessaram com puro desprezo. Nenhum obrigado.

Nenhum gesto de reconhecimento. Apenas aquele olhar duro, velho, que parecia pesar séculos de história e dor.


Fechou a porta com força. E eu fiquei ali, sozinho no alpendre, sentindo algo apertar por dentro.


Tudo estava estranho.

Tudo estava diferente.


Aquela família, antes tão calorosa, agora me tratava como um intruso.

Como alguém contaminado. Ou pior — como alguém que trazia o mal. Voltei pra casa sentindo o calor do sol ceder espaço a um frio que não vinha do vento. Vinha de dentro. Vinha do vazio onde Huck costumava estar.


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●●●13


Naquela noite, o céu parecia mais baixo. As estrelas se escondiam atrás de nuvens paradas, pesadas, como se o mundo todo segurasse a respiração. Eu não conseguia dormir. Havia algo errado no ar — como uma febre invisível. Estava só, com o frio cobrindo a casa, levando consigo o cheiro, mais forte,

mais perto.


Foi quando ouvi. Um arranhar na porta. Lento. Rítmico. Como antes.


Meu coração congelou por um instante. Me levantei sem pensar, o corpo se movendo sozinho. A cada passo até a porta, o som ficava mais intenso. Rasgado. Como se as garras estivessem mais longas. Mais fundas. Abri. E lá estava ele.


Huck.


Era ele, ali, na minha frente. Mas diferente. Seu pelo negro estava opaco, sujo de barro e... algo mais. Algo espesso, escuro, grudado em tufos. Seus olhos, antes vivos e brincalhões, agora refletiam algo fundo. Fosco. Como se me olhassem de muito, muito longe.


Ele me encarou por alguns segundos, quieto. Sem latir. Sem abanar o rabo. Apenas me fitando. Quase humano. Quase… julgando.


- Huck? — perguntei, ajoelhando.


Ele se aproximou com passos duros, pesados, e encostou o focinho na minha mão. A pele dele estava gelada. Mais do que deveria. O toque não trouxe o alívio que eu esperava. Trouxe algo diferente. Uma sensação de que... não era ele. Mas era, só poderia ser. Seu porte grande, o pelo escuro, até mesmo a coleira vermelha, mostrava seu nome na plaquinha dourada. Era o Huck, era o meu cão.


Não soube o que fazer, ele permaneceu ali, me olhando, esperando. Senti um arrepio, um frio, uma sensação. Queria tê-lo abraçado, mas não consegui, seria como abraçar um estranho. Ainda assim, o deixei entrar. Andou pela sala, farajando, perambulando de canto a canto da casa. Depois de algum tempo, talvez estivesse se recordando de

seu lar.


- Huck, vem aqui menino — chamei, tentando aceitar sua volta.


Ele veio. Sentou-se em minha frente, com seus olhos me encarando. Reconhecia aqueles olhos, já tinha os visto muito antes. Não eram os olhos dele, do meu Huck. Não era difícil fazer a distinção.


Mas tem de ser. Me obriguei a acreditar.


- Aonde esteve amigão- acariciei sua cabeça, o pelo duro, falho — tive... saudades.


Ele afastou-se para longe, sentou em minha frente, e voltou a me encarar, fitando meu ser, meus pecados, minha alma. Não parecia respirar, não como antes. Huck sempre teve a respiração pesada, ofegante de tanto brincar, tanto correr, mas agora, não.


Levantei-me do chão, e enfim comecei a ficar feliz pela sua volta, embora ainda tivesse a sensação. Seus olhos, eles me eram estranhos. Aquele cão em um todo me era estranho, mas ignorei tudo e apenas decidi que, finalmente meu Huck estava ali, comigo.


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●●●14


Os dias passaram como vultos indistintos. As horas escorriam pelas frestas das janelas, e a casa parecia mais vazia do que nunca — apesar da presença de Huck. Era ele, mas não era. Andava pela casa em silêncio, sempre me observando. Nunca latiu. Nunca abanou o rabo. Só olhava. Como se esperasse algo. Como se julgasse.


A rotina voltou a se arrastar. Os mesmos passos, os mesmos gestos. Mas tudo estava desalinhado. Como um mundo levemente torto, onde os objetos pareciam ocupando lugares errados, onde o tempo se curvava de forma estranha.


Ela nunca mais apareceu. Aquela que um dia chamei de colega. Seu nome sumiu das conversas, mas estampava cartazes nos postes da cidade, nas paredes do mercado. “Desaparecida”. E, mesmo vendo seu rosto impresso em preto e branco, não senti nada. Para mim, ela já tinha desaparecido muito antes. Já estava morta — talvez desde o momento em que encostou a mão ensanguentada no avental. Talvez desde o dia em que sussurrei seu nome sem paixão.


Tentei retomar algum tipo de normalidade. Caminhar com Huck. Alimentá-lo. Mas havia algo de errado. Às vezes ele simplesmente não se movia — ficava parado por horas, encarando um ponto qualquer da casa. Ou a mim. Sempre quieto, sempre frio.


As noites eram piores.


Os vizinhos, antes distantes, agora se reuniam em torno de grandes fogueiras. Os sons dos cantos e tambores ecoavam pela planície como um feitiço antigo. A música dançava com a fumaça, subia como uma prece desesperada ao céu vazio. E Huck… Huck estremecia. Não com o corpo, mas com o olhar. Ele odiava aqueles sons. Ou talvez temesse. Seus olhos, tão fixos, tão escuros, pareciam buscar abrigo em mim — ou talvez me culpar.


A verdade é que já não sei mais o que sinto. Se é arrependimento ou apenas o peso de estar vivo. A casa está cheia de ausências. E Huck, ou aquilo que voltou no lugar dele, é só mais um fantasma entre tantos.


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●●●15


O turbilhão de pesadelos se intensificou, cada noite mais opressora que a anterior. O deserto, outrora refúgio, transformou-se em meu cárcere, a ânsia insuportável penetrando meu ser. Um sonho, porém, se destacou: não vi a criatura canina rondando a casa, mas lembranças que me assaltaram, lembranças que eu tanto queria esquecer.


A carta de divórcio, esmagada contra meu rosto, o fracasso escorrendo em lágrimas; as malas da minha ex-mulher à porta, prontas para a partida que nunca aconteceu — pensava ter acontecido, acreditava nisso — Ela estava ali, numa vala de tomates podres, cantando o soneto que eu ouvia em meus momentos de solidão, exalando um cheiro fétido. E não sozinha: outra figura, com quem eu procurei me relacionar, a acompanhava, ambas abraçadas entre as manchas

vermelhas.


Era um resumo da minha vida, visto pela lente da loucura. A quanto tempo minha sanidade se esvaía? Os olhos da criatura que me apareceu uma noite, e desde então não partira, me observavam através dele. Sempre ali, me fitando, acordado ou dormindo.


Frio, um frio cortante.


As duas me rejeitaram, perderam a chance — perderam a vida — Os Navajo, também me abandonaram, e agora perderam seus filhos. Todos afogados na sopa vermelha do meu quintal – uma verdade que eu conhecia, mas que ninguém mais sabia, ninguém poderia saber, exceto Huck, meu fiel amigo.


O uivo do coiote, a guia da aranha, a sabedoria dos antigos. Uma pele, duas peles, muitas peles disfarçadas, escondidas, a me vigiar, sobre as vestes de animal.


Acordei. Era de tarde, a casa sombria e gelada, mesmo com o calor ao lado de fora — o relógio marcando: 13:23.


O olhar insistente, pouco vivo, ainda me seguia. Levantei-me com sede, fome, exaustão. O cheiro era forte, as moscas se aglomeravam no quintal. Abri a geladeira, Huck sempre atrás de mim. Então, uma ideia.


Peguei um tomate, vermelho e suculento, parti-o ao meio. Mordi uma metade, deliciosa. A outra, a lancei ao chão, rolando aos pés de Huck. Ele olhou para a fruta, para mim, cheirou-a. Um, dois, três... e comeu.


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"Será que o etíope pode mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Se fosse possível, também vocês poderiam fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal".


Jeremias, 13:23.




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