Distantes

25 Capítulo Extra


Notas iniciais
Um pouco de Partilha para que começem a desfrutar dos dois mundos! Boa Leitura!

A caminhada parecia ter sido a apenas um segundo. Todo o campo de batalha passou como um piscar de olhos. Talvez tenha sido apenas porque ele não dedicou tempo algum em observar os corpos pelo caminho, ou mesmo em socorrer os agonizantes. Não procurou entre os caídos qualquer um de seus conhecidos. Ele tinha uma missão, e iria cumpri-la, mesmo que isso custasse um pedaço de sua alma, de sua índole...

Ele não iria parar. E agora que os gritos e as explosões ficaram para trás, e ele podia ver as planícies ao longe, a caminhada ficou bem mais leve, mesmo com os terreno acidentado da descida.

A guerra estava concentrada na cadeia montanhosa que cercava a entrada das Planícies do Éden, tão belas com seus múltiplos jardins e pequenos e delicados bosques, bem próximos aos portais. Do outro lado, haviam as praias de areias coloridas ou pequenas e arredondadas pedrinhas transparentes, e a entrada pelo oceano. Mas Animon algum, mesmo os mais experientes, atreviam-se a enfrentar Elementares da Água. Um Dilúvio na história havia sido o suficiente para provar o poder de se provocar uma familia desses Elementares. Foi muita sorte o tal Velhote Animon, ter completa paranóia com Elementares da Água, e ter construído um barco gigante, ainda em tempo de salvar sua família e amigos. Os Animons poderiam ter sido extintos naquela fatídica batalha.

Mas hoje, quem corre perigo são as crianças no Mundo Extertior, fora de Partilha. E o jovem que, hora corria, hora caminhava, precisava entregar uma mensagem urgente. Ele não podia parar...

— Por favor... Me ajuda...

Ele quase congela quando vê, junto a uma árvore, um menino com os braços presos para trás, amarrado pelo pescoço. Notava-se que ele falava baixo, não só pela pressão do cipó em sua garganta, mas também fraqueza... E medo.

"Você tem uma missão. Nada pode te parar. Você tem que entregar a mensagem. Partilha depende disso. Não pare... Não pare!"

Ele tentava desesperadamente lutar contra sua consciência. E chegou a dar mais alguns passos, quando ouviu alguem se aproximar. Preparou-se para a defesa, ou ataque, o que fosse necessário, e aguardou que se aproximasse...

Então viu, uma grande Animon, cabeça de mulher, no tronco pinças de escorpião e uma cauda venenosa, e pernas também humanas. Ela devia ter uns três metros de altura, e não parecia muito amistosa. Ele baixou a guarda e esperou.

— O que faz aqui, mensageiro? Alguma ordem para mim? — gritava esganiçada, enquanto largava no chão um grande cacho de bananas.

— Para quê o menino? — pergunta ele sem se deixar intimidar pelo tamanho dela, quase o dobro do seu.

— É um elementar que encontrei vagando em meus territórios. Porque se incomodar com um invasor? — ela parecia desconfortável e ansiosa. Isso cheirava mal para o Mensageiro.

— Você ainda não me respondeu, fêmea. Para quê o mantém preso?

Ela olha em volta, e constatando que o Mensageiro está realmente sozinho, responde:

— Ele vai ser uma bela refeição que poderemos dividir, meu jovem... — tenta persuadi-lo. Mas se assusta ao ver que ele recobra a pose de batalha.

O rapaz podia ser jovem, mas havia nele um grande senso de justiça e dever.

— Está me dizendo que fere nossas leis e devora filhotes, além do crime de guerra de manter cativo sem opção de resgate? — a fêmea Animon se retesa e oscila entre o impulso de ataque e fuga — Por violar nossas leis e nos expor à justiça Elementar, removo de teu poder a tutela desse infante, e lhe abomino como fêmea e reprodutora de nossa espécie...

Mas ele não teve tempo de terminar a sentença da besta. Esta, deu um grito altivo, e saltou sobre ele como a fera selvagem que era, e o teria despedaçado com as pinças se ele não estivesse atento. De um salto, jogou-se para o lado, podando a pinça direita dela com seu cutelo.

A besta deu um grito de dor, mas seu instinto de caçadora era mais rápido, e logo o ferão de sua cauda acertava o ombro do Mensadeiro. Por ele ser bem ágil, passou de raspão, mas o suficiente para envenená-lo. Vendo que não tinha outra alternativa, jogou-se no chão ao mesmo tempo que atirava a catana em direção à cabeça de sua oponente. Logo estavam os três no chão: o Mensageiro, a arma, e a cabeça da criatura. Enquanto seu corpo, ainda de pé, distribuía golpes a esmo no ar, até finalmente cair e ficar imóvel, ao lado da cabeça decepada.

Desnorteado de dor, o rapaz não percebeu quando o garoto conseguiu se soltar, tão pouco como ele fez isso, mas notou quando se apropriou da catana e se aproximou dele. Ficou ainda mais assustado quando o garoto cortou a palma de sua própria mão e pingou do sangue que escorria no seu ombro ferido.

— Tente não se mexer muito... Pode ser um pouco incômodo. — o menino não devia ter mais que seis anos, e se antes estava medroso e trêmulo, agora falava com voz firme e segura. — Qual seu nome? Quero saber o nome do meu salvador...

O rapaz sentiu um calor poderoso no ombro, mas não era a ferroada, era um sensação de alívio... E aquilo foi se espalhando pelo seu corpo, como se toda a dor, o cansaço, a fome... Tudo de ruim que seu corpo, colecionara ao longo da dificil jornada, e que até pouco tempo protestava, tivesse desaparecido. E no lugar de tudo isso, agora houvesse alívio, conforto e até prazer. Apenas algumas gotas de sangue...

Ele olhou admirado para os pequenos olhos verdes do menino, meio encoberto por cachos castanho claros, quase louros. Mas sua concentração se dissipou. Sentiu, de repente, uma grande necessidade de dormir. Mesmo não tendo mais aquele peso no corpo, era uma vontade irresistível.

E um pouco antes de fechar os olhos, ainda conseguiu responder:

— Bemiddelaar...

Notas finais
E então? O que acharam? Vamos lá pessoas... estou no caminho certo?? Super beijos, até a proxima!