Distantes
17 Capítulo 16 - A Origem
Notas iniciais
Samantha ainda tinha muitas perguntas a fazer. Ela precisava saber sobre sua infância. Sobre seu pai e seu irmãozinho. Sobre a tia misteriosa... Até agora, fora o que Sofia e Lúcia haviam lhe contado, só havia conseguido arrancar mais alguns detalhes de Michele. Mas quando perceberam suas intenções, mandaram Ana Clara levar a mãe ao salão, com alguma desculpa como 'emergência capilar', ou qualquer coisa parecida. Deixando Samantha ainda mais impaciente.
A menina ficava repassando todas as informações obtidas, e fazia ligações entre elas e o passado da família. Mas para cada resposta que encontrava, multiplicavam-se as perguntas.
Ela já havia entendido que os Elementares sabiam quem tinha chance de ter a natureza elementar de acordo com o histórico familiar. Existiam registros de praticamente toda árvore genealógica mista, desde a vinda deles para nossa Terra, que alias, aprendera que na dimensão deles é chamada Partilha.
Sentada na espreguiçadeira, em frente a piscina, ficava observando Sofia ensinando a Urias como usar a manipulação da água. Agora ficou fácil entender como um rapaz tão grande e musculoso nadava com tanta facilidade. Ele nunca tivera aulas de natação, sempre foi pobre como os irmãos, talvez até mais, mas era entrar numa piscina ou no mar que a água parecia obedece-lo — o que agora sabia que era de fato o que acontecia.
Na primeira vez que os irmãos foram à praia, foi com Urias, seu pai e seus quatro irmãos. Ele levou todos na kombi em que trabalhava transportando peixes do pier ao mercadão popular da cidade. Eles tinham nove anos na época. Era a primeira vez de Urias no mar também, pois o pai trabalhava muito para dedicar um pouco de tempo ao lazer. Esses momentos eram raros.
Mesmo inexperiente, foi incrível como que, ao contrário dos gêmeos, não tomou nenhum 'caldo' e parecia completamente à vontade no mar. Realmente em casa. A expressão de satisfação nos olhos do pai era notória. Nenhum dos seus irmãos tinham a mesma facilidade. O orgulho de seu pai era quase palpável. Como se não esperasse menos de seu menino. Agora tudo fazia muito mais sentido. Não apenas por não serem mais crianças inocentes, mas também pelo que já conheciam da própria história.
Entretanto, sob um novo ângulo também via a morte do bondoso homem alguns meses depois.
Ela queria saber se havia alguma ligação, entre as perdas que suas famílias sofreram e suas verdadeiras origens.
O pior é que estava convicta que havia... Tudo culpa de uma guerra muito mais antiga do que se pode contar nos anos da Terra. Era fechar os olhos e se lembrava de Michele narrando a historia de Partilha:
"No início dos tempos, nós também tivemos um casal humano, e esse casal teve filhos. Por uma disputa religiosa pela preferência da divindade, eles brigaram. A soberba do caçula? A inveja do mais velho? Jamais saberemos de quem foi a culpa. Numa luta, o mais velho feriu de morte o mais novo, e ao seu sangue tocar na terra, clamou por justiça*.
A criação se revoltou. Os elementos tomaram o partido do caçula, e juraram proteger sua descendência e dar-lhes longevidade. Os animais tomaram partido do mais velho, pois ele se recusara a matar um cordeiro, preferindo ferir o próprio irmão. As árvores e todas as plantas, juntaram manter a neutralidade, afirmando que deles dependia a vida, mas que ocasionalmente elegeria um representante, de um lado ou de outro, sempre visando o equilíbrio. Até que a guerra acabasse.
Então foi feita a Partilha. E toda batalha que aconteceu e acontece é por território tanto quanto é por orgulho e razão.
É importante lembrar: nada desta Terra pode matar um Elementar ou um Animom. Apenas o que vem de Partilha fere de morte quem vem ou quem descende de lá."
Era simplesmente fascinante, pensar que todo aquele blablablá nas aulas de religião sobre a Criação do planeta, também acontecera em outra dimensão. Só que com outras consequências. Ela ficava pensando em outros mitos lendários, como o da serpente e da maçã — se é que o tal fruto era mesmo uma maçã. Os mesmo de outras religiões, além do cristianismo. Buda, não poderia ser alguém especial em Partilha também? Ou Maomé... Agora até os deuses metamorfos egípcios pareciam bem reais, provavelmente Animons... Ela tinha realmente muitas perguntas (e com certeza não abriria mão das respostas). Mas precisava ter foco.
Muitas dessas perguntas ela poderia procurar as respostas depois. No momento, tinha de se concentrar em coisa mais importante: sua família.
E se Sofia e os outros se recusavam a dar respostas às suas perguntas, ela sabia onde encontrar.
Com certeza ela era a última pessoa no mundo que Samantha quisesse falar. Mas para saber a verdade, ela iria falar com Rafaella."Hora de pôr o papo de mãe e filha em dia, direto com a mamãe...".
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