Distantes

6 Capítulo 6 - Uma Nova Evidência


Notas iniciais
Aos 37 leitores fantasmas, aguardo anciosamente suas manifestações... rsrs Boa leitura!

Depois da vigésima tentativa fracassada, Filip olhava pensativo para o aparelho à sua frente. 'Talvez oitenta...?'' — perguntava para sí mesmo. Já havia tentado levantar cento e oitenta quilos. Depois reduziu pra cento e sessenta. 140. 120. 100. Agora reduzia mais duas barras de dez. Preparou-se e puxou as argolas com toda força que tinha. Levantou-as com certa habilidade. Mas não. Nada parecido com o feito do dia anterior.

Estava desde cedo na academia, tentado compreender a todo custo, os eventos da manhã anterior. Decidiu não ir a escola tentando ganhar um pouco de tempo para se recompor. Para encontar uma explicação... 'Adrenalina. Claro. Porque não pensei nisso antes?''. Olhou-se no espelho que estava a sua direita, encarando bem seus olhos e levando à mão na testa suada, puxou algumas mechas para trás.

'Dizem que uma mãe pode levantar um carro para salvar seu filho. É a adrenalina, a urgência de um momento de desespero. Pronto. Ta explicado.' E sorriu satisfeito com sua conclusão. Olhou no relógio da parede em frente. Desmontou o aparelho que usava. Jogou atoalha de rosto no ombro e foi para o chuveiro, para uma ducha bem mais tranquila.

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Ao aproximar-se da sua rua, Filip não precisava ver a casa para lembra como era. Na rua de paralelepípedos, era uma das poucas casas que não tinha muro na frente, apenas uma grade antes do pequeno jardim abandonado e tomado pelas ervas daninhas. Quem cuidava do jardim era o pai. Então, depois que partiu, Filip ainda tentou cuidar das pequenas camomilas e margaridas que pintavam de branco e amarelo o gramado verde. Pensava que quando voltasse, o pai ficaria orgulhoso dele e satisfeito com seu jardim. Talvez o homem enxergasse algo bom naquela casa, além da esposa bêbada. Talvez ele visse os filhos. Quem sabe ele visse Filip. E visse o quanto o amava. Quem sabe esse amor valesse o suficiente para que ele não partisse mais.

Filip balanço de leve a cabeça para expulsar esse sentimento de rejeição. Olhando pra frente viu o matagal que um dia foi jardim, em frente à casa de telhas colonial. Aquela ja havia sido uma casa muito bonita. Com a fachada verde claro descascando, lembrava ainda, a casa que fora em outros tempos. Tempos em que uma família feliz vivia lá.

Deu a volta pela calçadinha estreita que circundava a casa do lado da entrada de carros. Ao entrar pela porta da cozinha, deu de cara com a irmã.

— Oi.

— Oi. Eu tava esperando você. — ela parecia um pouco preocupada, mas isso não afetaria Filip. Ele já tinha desvendado o mistério, e não era nada demais.

— Diga.

— Queria falar sobre ontem...

— Aquela garota do portão está bem ?

Ela parecia surpresa com a pergunta, mas logo se recompôs. — Ela está bem..., quebrou o braço direto e ainda está em observação, mas em casa. A Victoria ficou com ela hoje, por isso ganhamos mais um dia antes de ela dar uma de inquisidora. Agora me diz : a quanto tempo tem essa força?

Filip foi até a geladeira, pegou uma garrafa d’água e, enquanto enchia um copo, perguntou sem olhar para a irmã:

— Que força? Força moral ? — e ria pra sí mesmo.

— Não se faça de bobo Filip. A quanto tempo sabe dessa superforça? Ontem pensei que tinha sido coincidência quando eu vi o acidente antes dele acontecer, mas se você também tem uma habilidade...

— Perai, você VIU o acidente acontecer? — agora Filip parecia realmente interessado no assunto, porque, até então, só a irmã havia visto ele fazer algo de incomum, e ele ainda não sabia que ela havia salvo as outras três meninas.

Samantha pareceu considerar um pouco mais o que havia dito. Franziu a testa enquanto tentava se lembrar de mais detalhes do dia anterior.

— Bem, na verdade não. Eu sabia que algo ia acontecer. Que alguma coisa estava errada, indo para um lugar estranho... Inapropriado.

Filip prestava bastante atenção no que a irmã dizia, bebericando sem pressa sua agua gelada.

— Eu vi. Na verdade eu vi. Só que não fazia sentido. Vi um carro vermelho indo de encontro a parede, e acho que foi instinto descobrir a parede certa.

O rapaz se lembrou do momento em que, da sala do diretor, viu o carro da professora que passara mal ao volante, movendo-se rápido demais, estanho demais... E de encontro à parede da quadra. Lembrou-se da sensação de confusão que teve, até perceber o que estava para acontecer, tarde demais. Mas quis esquecer. Ele já tinha encontrado uma razão logica para o que aconteceu depois. E estava satisfeito com essa explicação. Não queria mais complicações na sua vida. Sem aviso algum, virou as costas e já saía da cozinha quando sua irmã segurou seu braço.

— Onde você vai ? Pensei que estávamos tentando entender o que aconteceu conosco. — disse sua irmã genuinamente confusa com o comportamento o rapaz.

— O que aconteceu com VOCÊ. Porque EU sou completamente normal. O que aconteceu comigo foi um pico de adrenalina, só isso.

Inconformada, Samantha se colocou na frente do rapaz, de braços cruzados, impedindo-o de sair, esperava que ele entendesse a seriedade do que ela dizia.

— Filip, estou falando serio. Nada disso é normal. E você tem tanto a descobrir quanto eu. Já sabemos que eu possivelmente posso prever alguma coisa que está prestes a acontecer. E que você tem força bruta anormal, o que não sabemos é porquê. Provavelmente algo do nosso DNA ou do nosso sangue, já que somos irmãos. Você conhece algum outro caso estranho ou fantástico da nossa familia?

— Tipo a nossa mãe ser uma esponja humana de álcool? — pergunta o rapaz cheio de sarcasmo.

Samantha fica decepcionada e prefere não responder. Para ela, a doença da mãe nunca foi motivo de piada. Ao perceber o comportamento da irmã, Filip conserta a postura e responde da forma mais convincente que pode.

— Sinto muito em não poder ajudar Maninha, mas não sei nada de nossa familia bastarda. E também não tenho nenhuma habilidade especial. Passei a manhã toda levantando pesos, bom, pelo menos tentei levantar, mas não consegui mais que 80 quilos, e mesmo assim suei bastante pra isso. Por isso acredito mesmo que o episodio de ontem foi movido a adrenalina e stresse. Não há outra explicação.

— Não, Filip, não pode ser só coincidência...

— Chega Samantha, não tem nada de especial em mim... Aliás, em nós... Deixa de ser sonhadora. Esse não é um dos seus livros. Somos reais. Pessoas reais não são especiais, a não ser que sejam ricas.

— Filip, por favor, me escuta...

— CHEGA SAMANTHA! — e no seu ímpeto de raiva, desfere um golpe de punho fechado na bancada de aço da pia, deixando um sulco no metal polido do tamanho da sua mão fechada.

— Diga agora, que não somos especiais... — fala a menina sem tirar os olhos do amassado no metal, enquanto o pasmo adolescente a sua frente ergue novamente o punho bem lentamente, observando o estrago feito na cozinha da família Vallery.

Notas finais
Espero que estejam gostando... PS: Ainda a procura de um capista...