Distance
1 Expulso.
Notas iniciais
Luke
Desci as escadas lentamente. Minha mãe estava parada, de frente para a tevê, assistindo uma das fitas que o médico tinha receitado pra ela. Eu sabia que não podia ser visto, pois na noite passada eu tinha sido proibido de dormir fora de casa, e eu tive que ir fazer uma visita de última hora á Silena. Travis e Connor estavam tomando seu café da manhã. Rezei para que eles não me vissem. Estava quase atravessando a sala, quando Connor me viu e abriu um sorriso zombeteiro.
– Mãe, olha o Luke aí! Foi dormir na casa da namorada de novo? Hm... – Os dois irmãos gêmeos gargalharam. Mamãe me fuzilou com seus intensos olhos azuis. Antigamente eles eram azul piscina, mais depois que ela começou a ter ataques histéricos (às vezes ela quase tem piripaques) seus olhos ficaram enevoados, e mudaram para um azul meio esverdeado. Consequências do tratamento, Katie, a inimiga- quase namorada do meu irmão, explicou-me uma vez.
– Luke. Castellan.
Suspirei e removi as alças da minha mochila, jogando-a no chão. Desde que meus pais se separaram, minha mãe começou a enlouquecer. Então, certo dia, ela caiu e rolou três andares de escada. Sobreviveu por pouco, mais isso mexeu com as lembranças dela, de modo que ela começou a achar que meu pai ainda era casado com ela. Quando eu estava na escola, ela invadiu a mansão do meu pai, Hermes, e o pegou conversando com a nova esposa. Minha mãe, May, achou que ele estava traindo-a e rolou um barraco enorme. Ela melhorou, só que agora mantem uma raiva enorme dele. Daí a minha irmã mais velha, Alyssa, começou a parar de frequentar nossa casa e começou a andar com um grupo chamado caçadoras que eu não ouço muito falar, já que a professora Ártemis proíbe qualquer tipo de coisa sobre esse grupo. A mãe de Katie Gardner, a garota por quem Travis tem uma queda secreta, faz um tratamento à base de ervas na minha mãe, que eu não entendo nenhum pouco.
– Olha mãe – Tentei arrumar a situação. – Silena não sabia que página era o dever de casa. Eu só fui até lá para passar as páginas do dever. Como já estava tarde ela me chamou pra dormir na casa dela...
– E rolou nheco-nheco – Completou Travis, com uma expressão de você me agradece depois que tiver sido expulso de casa.
O lábio inferior de minha mãe tremia. Ela se aproximou ainda mais da televisão. Sabia que aquela era a hora de recuar antes que recebesse uma televisada na cabeça.
– Me desculpa mãe? – Pedi.
– Certo – Ela murmurou, seu rosto estava sem expressão.
– Então... Tá. – Concluí a frase, sorrindo meio hesitante pela falta de expressão de May. Caminhei relutante até a porta segurando a mochila.
– ESPERE! –Ela gritou, no momento em que eu puxava a maçaneta. Recuei até onde estava antes. – Você só tem permissão pra entrar nessa casa no final das aulas desse ano. – Decidiu.
– O QUÊ? – exclamei. – Mãe, por favor, onde é que eu vou dormir?
–Quando é hora de fazer safadeza você não quer ficar em casa né? – Ela ergueu a sobrancelha, me fuzilando com o olhar. – Você não põe os pés nessa casa até o ano que vem, vou avisar os seguranças. Até qualquer dia, Luke.
Ela fez um gesto em direção á porta. Dei um suspiro e caminhei em direção á saída, fuzilando meus irmãos ao passar por eles.
Caminhei em direção á minha sala de aula. Já fazia dois meses que as aulas tinham se iniciado e eu já havia entendido quase tudo da matéria. Quando entrei na sala, todos estavam fora do lugar. Havia uma mochila no lugar onde eu costumo me sentar, no meio. A professora estava fazendo algumas anotações. Perguntei á ela quem estava sentado ali.
– Desculpe-me Luke. – A professora Héstia sorriu bondosamente. Ela tinha cabelos castanhos claros e tinha 21 anos. – Mais o senhor Atlas exigiu que sua filha ficasse no meio, para enxergar melhor.
– Quem é a filha dele?
–Zoe doce Amarga.
– Que tipo de nome é Zoe doce amarga? – Indaguei, tentando não rir.
– Cada nome esquisito que existe hoje em dia – Ela suspirou. – Se você visse...
E voltou sua atenção pra o papel. Havia só um lugar vago: O penúltimo lugar, na fileira ao lado da janela. Olhando para a janela, havia uma pessoa, que eu julguei ser um menino olhando pela janela. Pelo menos, usava roupas bem masculinas e a touca me impedia de ver seu rosto. Somente quando o ventilador foi ligado, o indivíduo tirou a touca.
Cabelos negros e longos caíram sobre os ombros dela. Pude ver boa parte de seu rosto: Sua pele era pálida de uma maneira não muito exagerada; Seus olhos cintilavam, e eu notei que eram azuis elétricos. Seus lábios eram extremamente vermelhos, num tom meio vinho.
Ainda estava meio distraindo observando-a quase em câmera lenta, quando ela me pegou espiando. Olhou-me de uma maneira indiferente e colocou novamente a touca da jaqueta, dessa vez escondendo-se completamente.
Um garoto meio baixo e moreno com uma franja em cima de um dos seus olhos passou ao meu lado. Puxei-o pelo pulso.
– Ei, Franjinha negra – Falei, enquanto o garoto tentava se soltar. – Conhece aquela garota ali? – Indiquei a morena da janela, olhando calmamente a paisagem lá fora.
– Ah sim – Ele sorriu, satisfeito com alguma coisa – Aquela ali é a Thalia. Não sei o exato motivo, mais ela veio do segundo b. Dizem que elas são uma sala só pra garotas, chamadas caçadoras.
Meu sangue gelou. Fiz sinal para que ele prosseguisse.
– Minha irmã faz parte delas. E aquela ali – Ele indicou uma garota de cabelos cor de chocolate e nariz arrebitado, que tinha um arquinho brilhante preso nas mechas, como se para demonstrar sua superioridade. Ela havia se aproximado de Thalia e conversava animadamente com ela. Parecia esnobe e eu não simpatizei. – Foi ela que convenceu minha irmã a entrar pras caçadoras. Vem de uma família meio séria e por causa disso ela fala numa linguagem antiquada. – Ele mordeu o lábio, desconfortável. — As caçadoras são uma sala em que só a professora Ártemis dá aula. Dizem que ela obriga as alunas a serem virgens. E que elas são extremamente perigosas. E ano passado um aluno viu uma das caçadoras fazendo algo na sala da direção. Ele foi encontrado morto semanas depois.
– Hm... –Murmurei. – O quê será que leva uma garota a mudar de sala com dois meses de aula, e aceitar uma coisa dessas, franjinha negra?
Ele deu de ombros.
– Não faço ideia. E o meu nome é Nico.
O sinal tocou.
– Valeu Franjinha negra. – Agradeci, dando tapinhas em seu ombro.
Enquanto eu me dirigia ao fundo da sala, ouvi-o gritar:
– Meu nome é Nico, Droga!
Sentei-me no penúltimo lugar, da fileira da janela. Joguei silenciosamente minha mochila no chão, e ergui os olhos para a garota. Ela não parecia saber que eu estava ali. Enquanto a professora Héstia se apresentava para as alunas novas, que por acaso eram quatro, virei-me discretamente para trás. Eu estava extremamente curioso sobre aquela garota e Nico parecia saber muito pouco sobre. Thalia encarava o chão, como se ele fosse um motivo de tristeza.
Respirei fundo e perguntei, num sussurro:
– Conhece uma caçadora chamada... Alyssa?
A garota ergueu os olhos do chão e me encarou. Parecia ter dificuldade em me olhar nos olhos.
– Perdão?
– Eu quero saber se você conhece uma caçadora chamada Alyssa.
–Olha, eu não sei o quê você está pensando... –Ela olhou rapidamente para a professora que conversava com Zoe doce amarga e aproximou-se do meu ouvido. Sua voz me fez arrepiar ao sussurrar: — Mais quero saber quem te contou sobre a Aly.
– Ela é minha irmã – Respondi. – Depois que ela foi morar com a professora Ártemis, ela nunca mais olhou na minha cara. Alguns meses depois, ela parecia um pouco doida, andando como se tivesse drogada. E nunca mais veio á escola.
Thalia deu uma leve risada sarcástica e em seguida rolou os olhos.
– Por que eu confiaria em você?
Passei a mão pelos cabelos, os deixando arrepiados, e sorri. Tinha plena consciência que meus olhos azuis piscina estavam brilhando.
– Por que... Sei lá, eu sou muito bonito?
– Só que não. – Disse franzindo a sobrancelha, enquanto tamborilava os dedos baixinho na mesa, no ritmo de alguma música.
– Tá bom, tá bom. Por que eu sou extremamente confiável?
Ela me estudou por um minuto. Afastou delicadamente uma mecha do cabelo negro, o quê fazia sua sobrancelha se franzir de uma maneira provocativa.
– Eu sou Thalia. – Disse arrumando discretamente seu fone de ouvido enquanto olhava disfarçadamente para a tela do celular. – Só Thalia.
Fiquei de frente para a lousa e sussurrei, de modo que só ela me ouvisse:
– Meu nome é Luke. Luke Castellan.
Ela consultou rapidamente seu relógio de pulso.
– Até mais tarde, Luke.
O sinal bateu segundos depois. Ela saiu, em direção á quadra. Deduzi que era hora da educação física.
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