Dissociação

1 One-shot: Dissociação


As duas amigas pararam em frente à porta do casarão, que ficava distante de tudo; do barulho, do caos e dos problemas da cidade. As casas naquela região rural ficavam distantes até mesmo umas das outras, e Camilla comentou esse fato, enquanto percorriam a trajetória de carro. Enfim, Lorenna bateu na porta e esperou ansiosa. Já Camilla, parecia um pouco incomodada. Foram recebidas por um rapaz alto, de cabelos dourados e lisos, quase até a boca e olhos azuis.

— Ah, oi, Lorenna! Que bom que você achou o local! Eu sei que é difícil chegar aqui pela primeira vez, ainda mais à noite.

— Obrigada por me convidar, Arthur. — respondeu sorrindo, meio sem graça. A ansiedade havia se transformado em timidez. — Ah, essa é minha amiga, Camilla. Camilla, Arthur.

— Prazer em conhecê-la, Camilla, acho que já te vi no campus. — disse o rapaz, estendendo a mão. Ela só o saldou e sorriu. — Bom, vamos entrando!

Caminharam até a sala, onde se encontrava outro homem, não tão bonito quanto o anfitrião.

— Bernardo, essas são Lorenna e a amiga dela, Camilla! A Camilla é linda, não?

— Sim, tem razão. — disse o homem, levantando-se do sofá. — Prazer em conhecê-las, meninas.

— As apresentações estão feitas. Já é tarde e vocês devem estar cansadas da longa viagem, então vou levá-las até o quarto. Espero que não se importem, mas só sobrou um quarto vazio, com uma cama de casal.

— Não tem problema, — disse Lorenna — mas não vou dormir, ainda. Eu dormi na segunda metade do caminho, enquanto Camilla dirigia, então estou descansada. Você deve estar cansada, Cá, pode ir sem mim, eu vou daqui a pouco.

— Sim... Eu não agüento mais ficar de pé, e minhas costas doem de tanto ficar no volante! — Camilla sabia das intenções da amiga com Arthur, apesar de não ficar muito à vontade com isso.

— Bom, eu vou mostrar o quarto a sua amiga, então, e volto aqui, aí nós podemos conversar até te dar sono. Vou te contar sobre o lago que tem aqui perto, onde podemos ir todos juntos amanhã! — disse Arthur, sorrindo.

— Eu já vou dormir, também — disse o outro rapaz, percebendo que iria sobrar — quero acordar disposto, amanhã!

Quase duas horas depois, Lorenna entrou no quarto e encontrou Camilla dormindo, com os cabelos ainda molhados. Também pensou em tomar banho. Enquanto tirava a roupa, percebeu que Camilla se contorcia na cama, murmurando e gemendo baixinho.

— Cá...? Acorda, Cá — disse, balançando ela pelo ombro, gentilmente.

— Huh? O que foi...? — respondeu Camilla, esfregando os olhos.

— Parecia que você estava tendo um pesadelo!

— Ah, eu tava sonhando com você, de novo.

— Você sempre diz isso, só pra me deixar sem graça!

— Porque é verdade... Mas não se preocupe, eu nunca sou eu no meu sonho. — pausou, olhando pro rosto envergonhado de Lorenna — na verdade, nem mulher eu sou; é bem estranho, mas é bom. Quer saber o que acontece?!

— N-Não... Obrigada! Eu vou tomar banho. — respondeu Lorenna, e entrou no banheiro.

A porta do banheiro não fechava direito, ficando entreaberta o suficiente para que Camilla pudesse observar a amiga tomando banho. Ficou com vontade de pedir parar se juntar a ela, mas seu cabelo molhado entregava que ela já havia tomado banho. Então ela só observou metade do corpo nu da amiga por 20 minutos. Lorenna saiu do banho enrolada na toalha, seu corpo molhado; gotas de água caiam de seus cabelos, deslizando pelo pescoço e se perdendo entre o par de seios que a toalha encobria. Camilla observava tudo da cama. Caminhou até o pequeno closet e pegou a calcinha, vestindo-a por baixo da toalha, depois tirou a toalha e vestiu a camisola amarela. Elas eram colegas de quarto na faculdade, por isso Lorenna não tinha pudor algum em relação a isso. Se ao menos ela soubesse o quanto isso tudo excitava a Camilla...

Deitou na cama, ao lado da amiga e conversaram sobre o dia de amanhã, e sobre o beijo de hoje, entre ela e Arthur, até Lorenna adormecer virada pra ela. Camilla não conseguia mais se controlar, sentia seu corpo esquentando. Levou sua mão embaixo da calcinha e começou a se tocar lentamente, seus olhos fixos no rosto dela. Mordia a própria camiseta pra silenciar os gemidos conforme a intensidade aumentava. Já ofegante e próxima do êxtase, foi interrompida pelo som da campainha. Olhou no relógio: 03h25min. Ficou confusa e curiosa. Ela sabia que tinha dois homens e duas mulheres por um motivo óbvio. Mas, uma terceira pessoa?

Levantou-se, vestiu a calça e deixou o quarto, caminhando lentamente pelo corredor, em direção a escada que descia para sala. Arthur dormia no sofá. Ela o viu levantar para atender a visita, parecia tão surpreso quanto ela. Ele caminhou até a porta de metal, ainda sonolento, as chaves já estavam na fechadura; abriu o vidro da porta para ver quem era a figura embaçada .

— Pois nã...? AARGH!

Camilla viu Arthur andando para trás em passos desajeitados. Podia ver a ponta da faca na nuca dele. O visitante misterioso meteu as mãos na chave e abriu a porta pelo lado de dentro. Andou até o homem moribundo caído no chão e removeu a faca de seu pescoço, só para em seguida cortar sua garganta. Ela assistia tudo em pânico, levou a mão à boca para não gritar enquanto o homem limpava a faca na própria roupa. O visitante, então, pisou no primeiro degrau da escada. Ela tirou os chinelos, segurando-os com as mãos; correu silenciosamente de volta para o quarto e fechou a porta. Depois, percebeu que entrara no quarto errado, que ficava ao lado de onde Lorenna dormia. Não havia mais tempo. Ela podia ouvir os passos firmes do homem se aproximando. Ouviu a porta abrindo. Não a do quarto onde se encontrava. Em seguida, ouviu gritos abafados. Queria invadir o quarto, mas se encontrava paralisada; estava em choque ou simplesmente temia mais pela própria vida do que pela vida da pessoa que amava.

Levou 5 minutos para que conseguisse se mexer. Abriu a porta cuidadosamente para não fazer barulho e andou encostando-se na parede até a entrada do quarto ao lado. Lorenna estava com uma mordaça na boca, as mãos presas por um pano na cabeceira da cama; o homem em cima dela, traçando linhas de sangue em seu rosto com a faca. Ela chorava e olhava pra Camilla, implorando com os olhos para que ela fizesse isso parar. Camilla fez sinal para que ela ficasse quieta e se afastou do quarto lentamente, desceu as escadas, foi até a sala e pegou o telefone. Não lembrava o numero da polícia. Mesmo que lembrasse, de nada adiantaria. Percebeu que o telefone estava mudo, o fio cortado. Correu para a cozinha e pegou a maior faca à vista. Subiu as escadas tremendo, deu alguns passos em direção ao quarto de Lorenna, mas mudou de idéia. Correu para o lado oposto, dessa vez, não se preocupando em fazer barulho. Entrou no quarto no final do corredor e bateu a porta.

Bernardo acordou confuso com o barulho, mas não sabia de onde veio. Pensou ter sido um trovão, mal sabia que não estava chovendo. Quis ir ao banheiro. Levantou-se e assim que tocou a maçaneta, teve a porta investida brutalmente contra si. Caiu tonto no chão. O homem lançou-se em cima dele e virou-o de bruços, levantou sua cabeça, segurando-o pelos cabelos e cerrou seu pescoço. Bernardo visava fixamente o closet, com um olhar incrédulo, até que seus olhos ficaram sem vida. A cabeça foi erguida a mais de um metro do chão; o corpo, não. O sádico jogou a cabeça na cama e encarou o closet por um tempo, depois, virou-se de costas, tendo como alvo o quarto de Lorenna novamente.

Quando deu o primeiro passo, Camilla saltou de dentro do closet, apunhalando-o as costas. Ele caiu e emitiu um grunhido, o primeiro som, desde que chegou aquela casa. Camilla pegou o abajur e golpeou a cabeça dele várias vezes enquanto ele tentava se levantar, até que ele não tentou mais. Ela removeu a faca e correu para o quarto de Lorenna. Assim que chegou à porta, Lorenna ficou histérica; quando se aproximou da cama, ela começou a se debater, tentando gritar, mas o som era silenciado pela mordaça em sua boca.

— Não se preocupe, tá tudo bem agora, — disse Camilla, enquanto cortava os panos que prendiam as mãos de Lorenna à cama. — eu não vou deixar mais ninguém ficar entre a gente... — então, tirou a mordaça.

— Por que...? — Lorenna tinha o mesmo olhar de Bernardo.

— Acabou... Tá tudo bem agora — Camilla a abraçou com uma mão, a faca na outra.

— Por que...? — Lorenna mordeu os lábios com tanta força, que eles começaram a sangrar. Tomou a faca da mão de Camilla e a empurrou. Pulou encima dela e começou a esfaqueá-la freneticamente — Por quê? Por quê?! Por quê?! — Saiu de cima do corpo já sem vida e encolheu-se na cama em choque.

“Eu nunca sou eu no meu sonho. Na verdade, nem mulher eu sou.”

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