Disintegration
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Notas iniciais
Não conseguia parar de me revirar na cama, não importava a posição, nunca estava confortável. Meus olhos quase não piscavam, se eles se fechassem por milésimos eu pensava na sensação dos meus lábios em contanto com o do William, apesar que deixar eles abertos não estava ajudando em nada. Conseguia lembrar de tudo nitidamente, dá sensação dos lábios se tocando suavemente, da respiração quente dele batendo contra o meu rosto, céus! Conseguia até lembrar do cheiro do hálito dele! E o mais bizarro, o mais absurdo de tudo, ainda sentia a culpa de não ter tomado a iniciativa daquela vez.
Era algo horripilante apenas de se pensar. Tudo bem que foi apenas coisa do momento, apenas uma recaída. Não nego que gosto de garotos e que Brendon é uma ponte de mau caminho. Mas ainda assim, não podia sentir esses tipos de coisas por ele, de jeito nenhum!
Não demorou que toda a minha revolta passasse e eu voltasse a pensar no beijo. Meu estomago parecia gelar sempre que eu fechava os olhos como se para sentir melhor a sensação. Não demorou e me vi excitado. Era algo estranho eu ficar assim apenas por lembrar de um beijo. Eu nunca fui muito de me masturbar, e quando o fazia normalmente sempre havia algo que realmente me provocava, mas um beijo? Qual é!
Respirei fundo, conseguia sentir meu rosto arder de vergonha, mesmo tendo apenas eu naquele quarto, era constrangedor fazer isso pensando nele... Desci minhas mãos até o cós do pijama e libertei meu membro que pingava pré-sêmen. Comecei com uns movimentos lentos, tímidos. Parecia que só de eu pensar nele era como se aqueles olhos verdes estivessem ali do meu lado me encarando.
Fechei os olhos e dei mais uma respirada profunda e aumentei um poucos os meus movimentos, mas não muito, queria de certa forma aproveitar aquilo... Passou alguns minutos e comecei a sentir o gozo vindo, meus dedos dos pés se encolheram, o ar faltou nos pulmões com a intensidade daquilo. Logo os jatos perolados jorraram em minha barriga melando um pouco da camisa que eu vestia.
E isso foi como se ligasse um botão. Um flash exagerado daquela noite passou pela minha cabeça, tudo veio de uma vez, o medo, a dor, o cheiro de bebida dele, a sensação da terra entre meus dedos. Da minha garganta senti o jantar voltar, sequer conseguir me descobrir dos lençóis correndo com eles presos aos meus pés para a janela. Vomitei tudo o que havia comido no jantar, segundos depois sentir uma sensação horrível se apoderar de mim. Nojento, imundo. Era isso o que eu pensava, mas não de Brendon, e sim de mim mesmo. Como eu era tão lixo a ponto de me masturbar pensando nele? Então todo a magia daquele beijo se transformou em pura repulsa.
O toque dele agora me parecia ríspido, como uma lixa esfregada na pele, seus lábios pareciam borracha, frios e indiferentes, seus olhos pareciam como os de anos atrás, quando ele me batia e me humilhava para a escola, apenas buscando um pouco de diversão às custas do garoto calado e ingênuo. Antes que percebesse meu rosto já estava ensopado de lágrimas e minhas mãos tremiam, o ar parecia ficar mais pesado e grosso, me fazendo ter mais esforço para respirar. Senti outra ânsia de vomito, mas dessa vez nada saiu.
Comecei a esfregar freneticamente minha barriga limpando o esperma até que minha pele adquirisse um tom avermelhado. Fui rápido ao banheiro colocando o lençol ali para lavar, eu com certeza não conseguiria dormir com ele. Depois de voltar pro quarto me deitei em posição fetal e esperei pacientemente para que aquela sensação passasse, mas não passou, me fazendo chorar e refletir por toda a madrugada, até que inconscientemente peguei no sono, um sono sem sonhos.
Algumas horas depois acordei antes da hora certa, sentia meus olhos arderem como se alguém tivesse espremido limões neles, meu corpo estava todo mole e minhas pálpebras insistiam em pesar. Me forcei a levantar e comecei a me arrumar para a escola. A sensação da noite passada ainda abitava meus sentimentos, agora mais fraca, mas não o suficiente para me fazer esquecer o quanto me senti um lixo por ter feito aquilo.
Não consegui prestar atenção alguma as aulas, eu tentava, mas sempre acabava desenhando algo no caderno ou viajando para universos alternativo. Logo o sinal para o intervalo tocou e me vi no meu cantinho.
Eu não entendia o que eu sentia, por um lado queria ver Brendon desesperadamente pra poder conversar com ele como se nada tivesse acontecido ou esmurra-lo por de alguma forma bem indireta ele ter me feito sentir aquelas coisas, e ao mesmo tempo queria que ele sumisse da ace da terra, fosse teletransportado para outra época que eu sequer existisse.
Mas momentos depois Brendon e André chegaram discutindo alguma coisa sobre esporte ou música, não estava prestando muita atenção para ser sincero. Logo eles se acomodaram e continuaram a conversa, as vezes me perguntavam alguma coisa e eu apenas afirmava com a cabeça mesmo sem saber o havia sido perguntado. Os olhares meio longos e profundos de Brendon não foram despercebidos, constantemente ele fixava os olhos em mim por segundos e depois voltava a atenção para André tentando disfarçar com um sorriso.
Eu também não estava ajudando, concordo, meus olhos ficavam vidrados em Brendon. A forma sutil de como as narinas dele se mexiam quando ele respirava, a forma com as sobrancelhas cor de areia se juntavam quando ele não entendia ou fazia alguma careta, como covinhas se formavam sempre que ele ria. Tudo aquilo me irritava e enojava, ao mesmo tempo que me fascinava e me dava vontade de abraça-lo.
Eram sensações estranhas, psicodélicas. Era como se eu visse o preto e o branco, soubesse qual é qual, mas ao mesmo tempo nenhum deles é branco nem preto e sim cinza, e o cinza passa a se transformar em azul. Então deu para entender mais ou menos o que se passa na minha cabeça, não é?
Em meio a conversa dos meus únicos “amigos” uma voz feminina se foi ouvida chamando por André. Era Alicia.Com o rosto coberto por uma maquiagem leve e a testa enrugada de desgosto, batia repetidas vezes o pé no chão enquanto esperava André ir de encontro até ela. Nem preciso dizer que ela não gostou nada quando ele a chamou pra ficar ali entre nós, ela sequer tentou disfarçar, deu uma desculpa de que tinha que retocar a maquiagem e queria ficar um pouco com ele antes das aulas voltarem. Para mim aquela desculpa foi uma das piores, mas parece que André caiu nessa, se despediu da gente e quase correu de encontro a morena.
E enfim ficou apenas eu e Brendon ali sentados, um clima de tensão era tão pesado que parecia que podíamos sentir ele encostando na pele. O loiro até tentou puxar algum assunto aleatório, mas que rapidamente morreu. Era visível que ele estava querendo falar sobre o que ocorreu, porém se sentia intimidado. Mas logo ele coçou a nuca, encarou uma pedra no chão e começou a falar:
–Então... Tom, sobre aquilo que aconteceu no meu quarto, eu meio que queria pedir desculpas, eu sei que eu passei do ponto, e espero não ter estragado nada entre a gente, sério, realmente eu não queria, mas eu também queria, só que não devia, entende? – Ele gesticulava freneticamente com as mãos, nunca passava mais de dois segundos me encarando. Pareceu se incomodar com o meu silêncio continuo, mas eu não sabia o que falar, então preferi apenas ouvir.—Achei que hoje você teria algum ataque, ou sei lá, que ficaria gritando ou me batendo... e não calado como está agora. Se for pra ficar me dando gelo assim eu preferiria a primeira opção.
Engoli em seco. Ele queria saber o que eu achava, claro que ele iria querer saber isso, o mais engraçado é que eu acho que eu queria isso mais que ele. Foi nesse momento que repensei tudo, desde as surras e humilhações constantes na escola, o estupro, a redenção, a amizade, o beijo, a sensação da noite anterior... Sinceramente se eu colocasse tudo isso divido em uma balança imaginaria não saberia qual pesaria mais. Claro que o que ele fez comigo foi horrível, bárbaro! Mas de certa forma isso foi passado, e tudo o que resta do passado são as memorias e a vontade de concerta o que estava errado. Eu havia dado uma segunda chance pra ele por que senti pena dele, e talvez um pouco por medo de tudo voltar a ser como era, mas ele era outra pessoa, uma pessoa legal, carinhosa até certo ponto, ou além desse ponto, era um cara legal e que estava se esforçando para se dar bem comigo.
O problema é se ele se der bem até demais. Ainda sentia no meu interior um ressequi-o do sentimento da madrugada, tão sólido como minha própria carne. E isso me fez questionar se seria sempre assim, se todo o esforço dele me fizesse sentir algum afeto por ele e do nada tudo explodisse e deixasse um rastro de ressentimento e repulsa.
Ouvi um barulho de tosse forçada e então encarei ele, não havia me dado conta que eu havia passado tempo demais embriagado em devaneios e o deixei esperando. Então um furacão se formou em meio a minha mente e eu comecei a falar várias coisas sem mesmo saber o que eu estava falando.
–Não precisa se desculpar, eu também queria. Não! Eu não quis dizer que também queria o beijo, é só que eu... talvez um pouquinho, mas não queria! Foi bom, fiquei arrepiado, e ainda mais eu fiz aquilo pensando em você só que depois fiquei muito mau, e por isso não quero mais que você faça aquilo entendeu? Não quero! Só quando for bom daquele jeito, não, espera! Para ser daquele jeito precisa acontecer antes, então não faça de novo, sério!
Fiquei ofegante pela falta de pausas na fala, e só depois fui reparar no que havia falado e meu rosto ficou subitamente vermelho, um choque se passou pela minha espinha, eu não devia ter falado metade das coisas que eu falei, eu realmente não deveria ter falado! Encarei o rosto boquiaberto do loiro enquanto o mesmo me encarava. Os lábios estavam entreabertos, os olhos vidrados nos meus e as bochechas levemente coradas. Então ele sorriu de lado, e tenho certeza que ele se segurou para não dar um sorriso completo que mostrasse todos os dentes.
– D..do que diabos você está rindo? – perguntei emburrado, mais por causa da minha mancada do que pelo riso dele.
– Quando você falou “fiz aquela coisa pensando em você”, o que exatamente você fez Thommy?– ele me encarou de forma intensa com um rosto um tanto... sedutor.
Senti meu rosto esquentar ainda mais, minhas mãos começaram a suar e meus olhos começaram a fazer uma busca instantânea pela imensidão de nada que estava a minha volta. Merda, merda, merda! O que eu ia dizer agora? O que? Engoli em seco e voltei a encarar aqueles olhos verdes que me penetravam de forma intensa e dominadora. Espere, dominadora?
–Nã... não mud... mude de assunto seu i...idiota! – Maldito seja esse gaguejo que sempre me entrega.—Apenas não faça mais aquilo...
– Mas você falou que também gostou, não foi? E que também queria! Porque todo esse drama então? Eu sei que eu não tinha o direito de fazer aquilo, mas poxa, foi algo incondicional, Tom! E acho que você também sentiu o mesmo, afinal, você até bateu uma pensando no beijo. – Ele começou a frase sério, mas no final ele fez uma cara que seria hilária se não fosse constrangedora.
– Eu nunca disse isso! E cale a boca seu imbecil, você não sabe de nada! – berrei. Não sabia da onde tinha vindo aquela raiva repentina, ela simplesmente entrou e se acomodou nos meus sentimentos. – Não foi porque foi você quem me beijou – sussurrei – e sim do que senti depois, foi algo nojento, como se uma tubulação de esgoto tivesse sido derramada dentro de mim. Só se pensar naquele beijo como algo bom foi como se eu finalmente tivesse desintegrado a última parte humana que me restou desde que você a roubou de mim. – Não havia percebido até então que os meus olhos se embaçaram com as lagrimas e minha voz se transformou em algo abafado e choroso e meus dedos apertavam forte a calça ao ponto dos nós dos meus dedos ficarem vermelhos, mas mesmo sem olhar eu conseguia sentir que ele tinha prestado atenção em tudo o que eu havia falado.
Um silêncio se instalou no ambiente e aquele ar de tensão tomou conta do local novamente, sendo quase palpável dessa vez. Ele não falou nada, mas após alguns minutos ouvi pisadas esmagarem a grama e desmanchando o solo saindo da onde Brendon estava. Senti duas mãos me puxarem com força pela camisa e achei que ele iria me bater, foi um pensamento que veio rápido e da mesma forma foi embora. Senti os braços fortes dele me embrulhando apertado, como se ele quisesse nos fundir com aquele ato.
Gelei por segundos, fui pego de surpresa. Havia falado coisas duras para ele, de certa forma, esperava pedidos de desculpa, uma surra, uma discursão, talvez até mesmo choro, tudo menos um abraço apertado.
Era incomodo e ao mesmo tempo acolhedor, era quentinho e aconchegante. Me encachei ali como se eu fossemos parte de um quebra cabeças, meu rosto se afundou em seu ombro enquanto eu chorava mais, era perturbador aquele sentimento de indecisão. Não sabia o que eu estava sentindo, não sabia que rumo seguir, estava andando em uma corda bamba, ora pendia para um lado e hora para o outro, sempre com o risco de cair em um lado e sem chance de retroceder,
– Nunca pedi para que não sentisse nojo de mim, Thommy. Se quer saber, as vezes ainda choro a noite lembrando do mau que eu te fiz, eu mesmo tenho nojo de mim. Por isso não quero que você pare de sentir repulsa de mim. Apenas quero que esteja disposto a estar do meu lado para que assim eu possa te mostrar que não sou aquela besta sádica que você temia, queria que talvez, quem sabe, um dia você possa me olhar e não lembrar daquele demônio que infernizava a sua vida. Então tudo bem se você quiser me bater, ou me xingar, eu mereço isso, eu mereço o seu ódio e o seu desprezo. Sequer sou digno desse abraço, mas saiba Tom, mesmo eu sabendo do nojo que você sente do meu toque e ainda assim tentar aceita-los, isso me faz muito feliz, talvez seja a única coisa que me faça levantar da cama todos os dias. – Ele falava em sussurros entrecortados por pequenos soluços, e então senti algo molhar a lateral do meu pescoço.
Me afastei um pouco do peito dele e o encarei, as orbes verde-mar agora pareciam mais vivas com as lagrimas às banhando, algo realmente lindo de se ver, mas ao mesmo tempo triste. Nunca pensei que ele ainda guardasse ressentimentos de si próprio, não naquele nível, com certeza não era nada saudável, mas considerando tudo o que ele me falou aquilo era no mínimo estar melhor.
Me afastei mais um pouco e ele colocou uma das mãos no meu ombro, a qual eu olhei com os cantos dos olhos vendo finas linhas horizontais fazendo leves relevos na parte do antebraço. O que me doeu, talvez ele estivesse falando sério quando falou que eu não rejeita-lo era o único motivo de faze-lo levantar da cama.
Enxuguei mais algumas lacrimas e então o olhei fizo, dessa vez com um olhar mais solido, mais determinado.
– Eu prometo ser seu amigo com apenas uma condição. –Falei sério, sem fraqueza ou hesitação.
– O qu... Que condição? –perguntou com os olhos curiosos sobre mim.
– Que jamais, em hipótese alguma, você se chame de monstro outra vez, ou se rebaixe dessa forma. Jamais ache que você não merece viver por erros do passado. Se você realmente fosse um monstro, jamais estaria chorando na minha frente, e nem se sentiria tão mal por minha causa. Pode não parecer, mas isso é muito para mim, Brendon. Não pense que estou suportando tudo isso numa boa porque não estou, estou confuso, estou destruído. Então pare de perder tempo choramingando porque eu preciso de você para não te odiar, eu preciso, ok?
Ele apenas acenou, mais lacrimas caiam dos seus olhos e ele entrelaçou seus dedos aos meus, não era algo romântico, eu conseguia sentir aquilo, era como se fosse uma espécie de promessa silenciosa. Uma forma de mostrar que ele estaria lá para preencher as lacunas que ele mesmo abriu na minha sanidade.
–Vamos logo, já deve ter tocado e eu não quero chegar atrasado na aula de geografia. – falei enquanto enxugava minhas lagrimas e me forçava a parar de soluçar. Ele apenas balançou a cabeça em afirmação enquanto enxugava suas próprias lacrimas.
Soltamos as nossas mãos quando vimos a primeira pessoa se aproximando.
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