Disintegration
6 Acampamento do Alce Dourado
Notas iniciais
Ufa essa foi por pouco! Quase que não consigo entrar na escola por causa que o maldito pneu do ônibus furou e eu tive que correr seis quadras inteiras pra chegar nessa porcaria de colégio a tempo.
Ao menos não levei nenhuma advertência por entrar um pouco atrasado na aula de álgebra.
— Então você passa o Y para cá dividindo, depois é só tirar a raiz de Z e...— A explicação do professor foi interrompida por batidas suaves na porta de madeira da sala, chamando a atenção de todos, pela pequena janela que ficava ao centro da porta conseguimos ver o diretor Victor pedindo permissão para entrar que logo lhe foi concedida.
— Bom dia alunos, eu apenas queria informa que haverá uma viagem com todo o ensino médio para passarmos um final de semana no Acampamento do Alce Dourado, alguns de vocês já devem conhecer esse acampamento já que nossa escola tem uma parceria de longa data com ele. E como vocês já sabem para mais informações podem entrar no site da escola ou pegar um panfleto na saída da escola.
Esse acampamento idiota de novo? A única coisa que fazemos nesse acampamento é andar no meio dos matos como se fosse uma coisa incrível ser estuprado por insetos, tomar banho em um lago aonde o pessoal do terceiro ano ficam se esfregando sem os monitores perceberem, assistir filmes mais antigos que os próprios atores que fizeram o tal filme, cantar e assar marshmallow’s em uma fogueira toda a noite até a hora de dormi, que só pra constar é de 8 horas da noite.
Obvio que eu não iria nessa viajem idiota, trocar todo esse concreto por mato e terra, fora que Eles vão estar lá, e eu só serviria de distração pro tédio deles. Isso nunca. Ainda bem que essa viajem é opcional.
Victor chegou um pouco mais perto de mim e sussurrou:
— Não se preocupe, seu pai já confirmou e autorizou a sua ida pra viajem, nos vemos lá Thomy.
Ele deu um curto "Tchau’’ e boa aula para a turma e se retirou me deixando lá com a boca aberta processando o que acabei de ouvir... então isso que dizer que eu... eu vou... por todos os santinhos que eu nem sei o nome, se isso for um pesadelo me acordem!
A aula continuou ao som de alguns múrmuros empolgados dos alunos mas nada que atrapalhasse a explicação do professor.
Meu deus, por que essas coisas sempre acontecem comigo? Pelo menos ele poderia me pergunta se eu queria ir pra esse viagem idiota, mas não. Eu que não vou pra essa viagem. Já sei, no dia é só eu fingir que estou doente, sim, isso deve funciona.
Depois do anuncio dado pelo diretor as aulas continuaram sem mais interrupções até o intervalo.
Logo quando o sinal tocou saí correndo em direção ao jardim do nosso prédio para o meu novo “esconderijo’’. Um canto mais isolado do jardim escondido por algumas árvores e arbustos, aonde o pessoal punk de outras turmas iam ficar fazendo coisas de pessoas punk.
Eu passei os últimos quatro dias apenas pensando no que aconteceu naquela viajem de família, foi tudo tão... gay. Eu acho que gay define aquele final de semana gay.
Arg e ainda tem essa viajem idiota, sem a menor dúvidas de sombras eu não vou pra essa babaquise. Quem precisa fazer trilhas e assar marshmallow? Hunf.
Não demorou para que o sinal toca-se anunciando o final do intervalo. Me desencostei do tronco em que estava apoiado e fui em passos preguiçosos em direção ao meu prédio. Preferi pegar as escadas do que ao elevador, não estava com presa mesmo de chegar na sala.
As aulas passaram normalmente e infelizmente todas elas chegaram ao fim ou seja, brincar de Pega-Espanca com Willian e os seus “amiguinhos”, mas dessa vez eu seria mais inteligente, iria para o banheiro e esperava uns 15 minutos, então eles desistiriam de me achar e eu iria feliz e inteiro pra casa.
O sinal tocou e eu saí em disparada para o banheiro sem olhar pra trás, logo quando entrei tinha alguns meninos conversando ali dentro mas nem dei importância, me tranquei na última cabine, abaixei a tampa da privada e sentei em cima dela recolhendo as minhas pernas e as abraçando junto ao meu corpo.
Aquilo estava um forno! eu olhava de um em um minuto a hora no meu Nokia tijolinho e o tempo parecia de zoação com a minha cara ele parecia se arrastar. Mas finalmente deu cerca de 15 minutos e eu saí daquele cubículo infernal. E adivinhem quem havia acabado de entrar naquele exato momento no banheiro? Se pensou na Xuxa está errado, mas se for em Brendon junto com Patrick e outro garoto que deve ser novato pois eu nunca o havia visto está extremamente certo.
— Ora ora, olhem só quem temos aqui — Eu gelei só de ouvir a voz provocadora do loiro, sem duvidas eu tava muito fudido se eles me pegassem, fudido pra valer!
Tentei correr de volta pra cabine mas antes que eu consegui-se trancar a porta uma mão a empurrou com tudo me lançando para o canto da parede, e antes que eu me recuperasse do tombo senti meus cabelos serem agarrados e levei uma joelhada no pé da barriga que me fez curva, fazendo com que meus óculos caíssem, e logo levei uma cotovelada no meio das costas que me fez ir de encontro ao chão frio.
— E você ainda tenta se esconder da gente — Brendon riu alto e era evidente o escárnio em sua voz. — Você é mesmo um filho duma puta não é? Parece que você ainda não aprendeu que o seu lugar é aos nossos pés. Seu verme.
Levei alguns chutes no estomago enquanto estava no chão, mas cessaram. Tentei focar o loiro com a visão embasada pela falta das lentes. Consegui ver o seu borrão se aproximando de mim mas acabou se curvando por cima de mim e eu ouvi o plástico da tampa do “troninho” ser levantada e naquele momento já me veio uma ideia nada legal na minha cabeça.
Senti meus cabelos serem puxados novamente, mas dessa com mais força, e fui virado bruscamente em direção à privada. Coloquei ambos os braços no arco de mármore tentando ir contra a forte pressão que era colocada sobre a minha cabeça em direção a água.
Mas meus braços fracos não aguentaram por muito tempo e logo tive o rosto afundado na poça de água que se formava no final do interior do móvel, e que por uma dádiva estava limpa.
Uma agonia começou a açoitar o meu corpo quando tentei puxar algum oxigênio mas tudo que recebi foi água nos pulmões, comecei a lembrar do dia em que quase morri afogado na praia e um desespero começou a tomar conta de mim, tentei a todo custo me soltar das mãos do loiro mas ele só fazia ainda mais força e afundava ainda mais a minha cabeça na água.
Finalmente ele puxou a minha cabeça me deixando respirar por alguns momentos para depois afundar novamente a minha cabeça ali. Eu tentava gritar mas isso só fazia a água entrar cada vez mais rápido pela minha garganta, comecei a chorar mesmo ali de baixo d’água.
Ele repetiu o processo mais algumas vezes, para o meu desespero, então me puxou para fora do box, me fazendo ficar em pé pelos cabelos.
Já não segurava mais as lagrimas muito menos o medo e desespero que eu sentia.
— Ta vendo? É isso o que acontece quando você se esquece aonde é o seu lugar, seu merda. — Não que eu nunca tivesse reparado nos seus xingamentos e ofensas contra mim mas aquilo estava parecendo forçado, mas eu mudei completamente de ideia quando ele desferiu um tapa no meu rosto forte o suficiente para fazer-me virar o rosto, então puxou meus cabelos novamente para que eu olha-se para ele novamente.
Mesmo sem os óculos e as lágrimas embaçando ainda mais a minha visão eu consegui focar os seus olhos verdes-mar, eles tinha um brilho que eu nunca tinha visto neles antes... aquilo parecia pena... mas não podia ser, era insano! Já estou ate imaginando coisas.
— Vocês dois saiam. — Ordenou desviando o olhar do meu rosto manchado por lagrimas.
— Mas... — Tentou argumentar Patrick mas foi cortado friamente pelo loiro.
— Eu disse para sair. Não demoro aqui.
Eu ainda chorava, mas o choro já estava diminuindo. Meu corpo tremia levemente e eu não gostava de ficar sozinho com ele no banheiro. Não mesmo!
Ele me virou em direção ao espelho do banheiro e colou o seu peitoral nas minhas costas. Senti meu corpo começar a tremer ainda mais quando senti a sua respiração no meu pé da orelha. Ele começou a me encarar pelo espelho que refletia o seu semblante calmo e o meu apavorado.
Ele ficou me encarando pro alguns minutos, e por fim deu um pequeno sorriso sem mostrar os dentes e quebrou o silencio:
— Não precisa ficar com tanto medo, é só por aparências lembra?
— Por que... por que você faz essas coisas comigo? Eu não fiz nada contra você então por que...
Ele moveu a cabeça que estava ao lado esquerdo da minha e a colocou no lado direito ficando ainda mais próximo do meu ouvido. Aquele contato me deu arrepios.
— Infelizmente amanhã eu tenho certos assuntos para resolver, então, nos vemos na viajem. — Ele disse me ignorando e descontraído como se a pouco tempo não tivesse me afogando na porra da privada.
Senti meu corpo todo estremecer quando ele apalpou os meus “fundinhos” e sussurrou ainda mais perto do meu ouvido:
— E eu tenho uma... surpresa para você, não vá faltar.
E então saiu do banheiro como se nada tivesse acontecido. Agora é que eu não vou mesmo pra essa puta viajem. Absolutamente não vou!!!!!
Depois que ele saiu sentei em uma outra cabine enquanto tentava recuperar a respiração e tentava parar de tremer, peguei meu óculos que ainda estava na outra cabine e sai do banheiro com todos olhando pra minha cara pelos corredores do colégio.
Eu não ia nesse viajem nem morto!
~3~
— Mas mãe eu não estou me sentindo bem!
— Tome um remédio com xarope que passa em dois tempos. Agora pare de papo e vá pegar as suas cosias o ônibus já esta virando a esquina.
— Mas mã...
— Sem mas, o seu pai pagou a viajem e eu não quero aquele imbecil me enchendo o saco, então pode ir pegando as suas coisas, você vai nessa viajem nem que seja desmaiado, entendeu? Espero que sim, agora vá pegar as suas coisas.
Bufei e fui pegar as minhas malas. Desde o acontecimento do banheiro eu praticamente beijei o pé da minha mãe para eu poder faltar essa viajem, mas ela sempre usava a mesma desculpa “Seu pai vai vim falar merda pra mim depois, você vai!”, bem eu acho que meu pai realmente iria tirar justificativas com a minha mãe mas era só ela falar que eu estava doente e pronto, na verdade eu acho que ela quer se livrar de mim nesse final de semana, pois todos os meus irmãos vão dormi fora nesse final de semana.
Peguei as minhas duas mochilas e me dirigi a porta da casa aonde um dos ônibus escolares estava estacionado me esperando. Olhei para trás para ver minha mãe abanando a mão como se dissesse “Vai logo, quero ficar pelada em casa”.
Corri os olhos pelas varias janelas da lateral do ônibus até que encontrei o maldito dono dos olhos verde com um sorriso satisfeito no rosto. Engoli em seco e andei em direção ao ônibus.
Sentei logo na frente, bem longe daquele pervertido depravado. Coloquei meus fones de ouvido e o ônibus segui viajem para o Acampamento do Alce Dourado.
Chegamos lá perto do meio-dia e cada um foi encaminhado para o seu chalé.
Os chalés ficavam em formação de U com ao total doze dormitórios, seis dos meninos e seis das meninas. Acabei ficando com alguns meninos do 1° ano que pareciam não se darem muito bem, pois era cada um em seu canto. E por mim isso está ótimo, pois não preciso ficar aturando conversas na hora de dormi.
As nossas ordens eram de trocar de roupas pois iríamos fazer uma pequena trilha para “conhecer” a área e depois almoçaríamos no refeitório do acampamento.
Depois de muita ladeira e picadas de insetos, terminamos a maldita trilha. E por incrível que apreça eu era o único que caiu naquela maldita trila, e sim, minha bunda ainda está doendo por causa do tombo!
Fomos comer no refeitório e eu nunca vi tanto mato junto, falei mato? Quis falar verdura. Pois bem enchi meu prato com as coisas mais gordurosas que encontrei por lá, e comi afastado dos demais alunos que se juntaram em seus grupos de amigos.
Mas em todo o almoço o Willian ficou me secando e aquilo estava me deixando muito, MUITO desconfortável. Eu tentava sempre deixar a maior distancia entre nós mas parecia que em toda a esquina que eu virava lá estava ele me secando.
Depois do almoço tivemos aulas de barco a remo, em que eu só aguentei mexer os remos por cinco minutos e pedi pra sair. Depois disso tivemos o tempo livre pra fazermos o que quisemos. Alguns meninos foram jogar futebol, algumas meninas foram jogar vôlei ou se reuniram com amigos e ficaram pelos cantos do acampamento conversando e descansando. E eu fiquei deitado embaixo de um tronco, aonde eu ficara confortável e camuflado caso alguém quiser perturbar a minha sagrada paz.
Mas sem querer acabei escutando algo que me deixou meio apreensivo, meio não, muito apreensivo. Patrick Wolfe, conhecido como braço direito de Brendon William, falando com outro garoto do terceiro ano que eles tinham umas bebidas e umas “paradas” doidas para hoje a noite na hora da fogueira.
Logo depois que eles saíram de perto donde eu estava, acabei sussurrando para mim mesmo:
— Eu sem duvidas vou ficar bem longe dessa fogueira essa noite.
Andei mais um pouco, para uma parte mais isolada que dava uma vista para o lago, onde vários alunos brincavam, nadavam e se pegavam na água. Meu olhar acabou cruzando com os verdes-mar de um certo alguém, e por um insignificante instante senti meu peito aperta e uma voz no meu subconsciente gritar: CORRE!
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